O trânsito e os Trânsitos

Aqui em casa eu sou a principal responsável pela rotina escolar da nossa filha. Essa rotina envolve muitas horas semanais de trânsito, porque a filhota está naquela idade em que os interesses e necessidades são muitos, gerando compromissos em diferentes pontos da cidade ao longo da semana. Nós moramos numa área tranquila e geralmente é uma direção suave, sem grandes estresses, embora eu acabe testemunhando, por tempo de exposição, vários pequenos e às vezes mais sérios acidentes.

O trânsito é sempre algo que exige muita atenção. Eu me considero experiente e, apesar de não ter medo (pelo contrário, dirigir é um prazer), sou muito cautelosa: dirijo na maior parte das vezes devagar e todos os dias lembro que preciso estar atenta porque sempre posso ser surpreendida.

Hoje de manhã antes de sair de casa tudo parecia bem tranquilo. Eu acordei me sentindo bem, com aquele alívio padrão que as sextas-feiras trazem pela proximidade com o fim de semana e o descanso justo. Li coisas bonitas na internet, brinquei um pouco com uma Kalimba que ganhei de presente e cujo som me encanta, e o clima geral era leve e calmo, bem venusiano, como as sextas costumam ser.

Depois de deixar a filha na escola e resolver uma pendência no correio, fui em direção ao mercado fazer uma compra pequena. No caminho, fui surpreendida num cruzamento por um motorista totalmente inconsequente. Numa área residencial e normalmente muito calma da cidade, em que a velocidade máxima permitida é de 20km por hora, um senhor idoso que parecia transtornado cruzou o carro na minha frente em alta velocidade, num ponto em que a preferencial era minha. Foi um susto gigante, que me deixou tremendo por umas duas horas depois.

Exemplo de uma Zona de Coexistência, onde a velocidade máxima permitida é muito reduzida devido à presença de moradores e crianças circulando perto das vias

Por coincidência, o tal senhor estava a caminho do mesmo supermercado que eu. Ele não me percebeu, mas eu sabia que iríamos nos encontrar ali, fora do carro. Eu não aguentei: ainda trêmula, fui falar com ele e, num misto de indignação e pena daquele homem, perguntei se ele sabia que tinha de ter parado naquele cruzamento, que estava numa velocidade muito acima do permitido pra área e que quase causou um acidente sério. Ele disse que sabia, mas que estava distraído pelos pensamentos e não se atentou ao que fazia. Pediu desculpas. Eu pedi a ele que tivesse mais atenção e que daqui por diante tivesse mais cuidado, por si e pelos outros.

Ao mesmo tempo, na minha “estranha alegria de astróloga”, marquei mentalmente a hora e minuto em que o quase-acidente acontecera. Ao chegar em casa abri meu software e constatei que Júpiter (planeta magnificador) e Urano (planeta envolvido em revoluções e sustos) transitam nesse momento por Touro (signo ligado a assuntos dos nossos bens materiais, incluindo nosso corpo, nosso carro) na minha casa 3 (que tematiza entre outras coisas escola, rotinas, vizinhança, viagens curtas do dia a dia). O ponto médio entre Júpiter e Urano está formando, por alguns dias esse mês incluindo hoje, uma quadratura exata (ângulo de 90 graus, aspecto de tensão que materializa realidades) com meu Marte natal (planeta ligado, entre outras coisas, à agressividade, e potencialmente envolvido em acidentes).

Um dos trânsitos do momento exato do meu quase-acidente

É material que dá o que pensar.

Minha relação com os trânsitos astrológicos

A astrologia é uma espécie de hack de clarividência. Ela dá muito poder de visão – e de previsão – a quem aprende a sua linguagem. E eu tenho sentimentos mistos quanto a isso.

O computador, com a sua capacidade de organizar uma massa gigantesca de informação, tem potencializado cada vez mais esse poder. A gente consegue saber, ao nível dos segundos do relógio, quando certas configurações planetárias exatas acontecem, e observar os seus efeitos na matéria, seja no contexto do nosso mapa natal individual, ou no contexto coletivo do planeta.

Trânsitos astrológicos marcam a influência dos astros na vida na Terra ao longo do tempo

Quando analisamos trânsitos astrológicos, que são as influências do movimento dos astros sobre a vida na terra ao longo do tempo, penso que é preciso muito cuidado para não imaginar coisas e começar a co-criar a realidade imaginada. Se eu por exemplo sou uma pessoa ansiosa e antecipo que a chegada de um trânsito complicado vai trazer desdobramentos terríveis, posso inconscientemente começar a desenhar aquela exata situação de que tenho medo. Isso se chama profecia auto-realizadora e é um fenômeno real.

A verdade é que os trânsitos podem influenciar de formas tão particulares cada pessoa ou grupo que é bem difícil saber exatamente de que forma ele irá se materializar na vida de alguém. Além de serem muitas as variáveis, sempre existe o livre-arbítrio das nossas escolhas, que vão conduzindo as bifurcações da vida de formas nunca totalmente previsíveis.

É por isso que fui ensinada a evitar as correspondências lineares entre astros e consequências. Aprendi a enxergar os trânsitos como macro influências energéticas que podem se desdobrar de diferentes maneiras dependendo de uma série de fatores, incluindo a forma como lidamos com elas.

Dito isso, é verdade que às vezes as correspondências são tão exatas e matematicamente improváveis que ficamos mesmo boquiabertos. Não costumo pirar a cabeça com trânsitos futuros porque gosto de viver leve e aberta, mas tenho gostado muito de analisar o que estava acontecendo no céu quando um determinado evento significativo e menos ordinário aconteceu na minha vida.

Foi um colega astrólogo que cunhou a expressão que usei antes, a “estranha alegria do astrólogo”. Ele costuma citar que mesmo quando coisas difíceis lhe acontecem, parte dele fica feliz ao perceber, depois de analisar os mapas envolvidos, que aquilo estava de alguma forma astrologicamente sinalizado.

Victor Frankl, que não era astrólogo mas sim um sábio terapeuta, detectou e descreveu esse fenômeno psicológico tão bonito, de uma força emocional extraordinária que surge no ser humano quando ele consegue enxergar, mesmo no pior dos sofrimentos, um sentido maior.

E é isso que a Astrologia é capaz de nos dar, quando mostra que certas sincronicidades estavam literalmente escritas nas estrelas.

Um abraço cósmico,

Samantha