Um presente de Shiva

Lendo hoje um texto bonito sobre Shiva, a deidade hindu das transformações, me dei conta de algo que o coração vinha sentindo, mas que a mente ainda não conseguia conceber direito.

Coisa de ano e meio atrás, vinha pedindo em minhas preces ajuda para conseguir uma transformação interna, por não estar gostando de alguns padrões mentais e emocionais negativos aos quais me sentia presa. Pedia por uma tranformação que ignorasse tudo o que o ego pudesse achar melhor e que trouxesse o melhor para o meu crescimento pessoal e o daqueles que me acompanham nessa vida.

Lembro de um dia particular de outono em que, caminhando em direção a uma estação de trem, eu prestava atenção nas folhas secas caídas no chão, escutando o crocitar dos corvos e respirando o ar gelado de fim de tarde. Quando cheguei na estação, na qual nunca tinha estado, notei que havia mais trilhos que o de costume, trilhos largos, que passavam longe das plataformas. Por eles viajavam os trens de alta velocidade, que só parariam muito longe dali.

Com o pensamento distante, mergulhada naquele desejo de transformar a mim mesma, me sobressaltei quando, sem aviso sonoro prévio, passou um desses trens de alta velocidade, tremendo o ar de forma repentina, rápida e intensa. Um calafrio percorreu a minha espinha e, na mesma hora, me lembrei de Shiva. Imaginei que a sua atuação na vida de uma pessoa deveria assemelhar-se à passagem daquele tipo de trem.

Não demorou muito para que depois desse dia eu me descobrisse grávida.

A gravidez e o que se segue a ela não é um evento que começa e termina assim tão rápido, mas é, sem dúvida, muito intenso. Especialmente do ponto de vista psicológico.

Quando amigos recentemente me perguntaram como eu me sentia como mãe, a coisa mais imediata e honesta que veio à cabeça foi dizer que me sinto mais velha. É como se eu tivesse envelhecido uns dez anos em poucos meses. Mas não de forma negativa. Sim, o corpo deforma, as rugas multiplicam e os cabelos embranquecem mais um tanto. Mas as energias, essas mudam para melhor! Não sei como explicar isso. Apenas sinto que apesar de o sono, o ritmo e a casa estarem dez vezes mais bagunçados do que antes, meu ser ficou mais harmonizado, tranquilo e produtivo. Os pés sentem mais o chão, mas sem perder de vista os sonhos e projetos, que já existiam antes da chegada da pequena, e que agora se moldam de forma a incluí-la.

Desde que me tornei mãe, alguma coisa morreu dentro da minha antiga eu. Não de imediato, mas como um processo gradual, ao longo dos meses de gravidez, dos primeiros cuidados com a bebê, do tempo de acompanhar o seu desenvolvimento e de testemunhar a força da vida se desdobrando de forma impressionante.

Difícil definir bem que morte tem sido essa. Tem a ver com tornar-se menos importante para si mesma. Sentir-se saindo do centro do palco da própria vida para passar a ser coadjuvante de um plano maior. E, para a surpresa do antigo ego, o mais engraçado: gostar dessa sensação de preterimento de si.

Sinto a maternidade como um ganho de experiência, de alegria, de amor e serenidade. Um sopro de Shiva em minha vida, e uma transformação para melhor. Um presente e tanto, enfim.

shiva

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