Tudo pela primeira vez

Que coisa fantástica é (re)nascer num corpo novinho em folha. Desde a junção das duas células na fecundação até algum ponto indeterminado da vida adulta, todas as experiências se nos passam como uma primeira vez. Os primeiros órgãos formados, a primeira separação, a primeira respiração, o primeiro choro, o primeiro colo, o primeiro remédio, a primeira injeção, a primeira mamada, o primeiro olhar, a primeira saída na rua, a primeira risada, a primeira rolada, a primeira sentada, a primeira queda…

Qual é o ponto da vida em que as coisas deixam de nos parecer primeiras e passam a ser sentidas como uma repetição do mesmo?

Se prestarmos bem atenção, aquilo que parece se repetir, na verdade, está sempre acontecendo pela primeira vez. A cada dia em que acordamos, tudo e todos se desdobram à nossa frente de forma viva e inédita.

O que é velha e viciada é a nossa forma de olhar a vida. A imprevisibilidade do segundo seguinte assombra o nosso pequeno ego controlador, mas – ainda bem – a vida é maior e mais surpreendente do que este nosso olhar estagnado e estagnante.

Não há nada mais refrescante e renovador do que perceber isto, ainda que apenas por um breve momento. É a vertigem da impermanência, que quando profundamente compreendida, coloca no rosto dos sábios um sorriso sereno e permanente.

Como dizia Heráclito, vida é eterno movimento. Como disse Chico Xavier, “isso também passa”. Como se diz no budismo, tudo é impermanência. Sempre que nos apegarmos às nossas certezas e pautarmos nossas ações apenas por elas, estaremos nos transformando naquela moça acuada no canto do salão, triste, se perguntando por que é que não vieram tirar ela para dançar.

Já quando reconhecemos que tudo está aberto e sujeito à renovação, passamos a nos sentir mais acordados, assim como são as crianças. E dançamos, agradecidos, uma bela dança, em par com a vida que nos foi presenteada.

buddha awakening

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