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Último blog post

Era Janeiro de 2013, em Londres, Inglaterra. Há quatro anos, olhando através da janela para um lindo jardim nevado, não pude mais conter dentro de mim a chuva de palavras que me inundava. Eu queria falar de tantas coisas, de tantos assuntos. Estava grávida, de corpo e de alma. Tinha recém chegado naquele país frio, com o qual sentia ter laços antigos. Havia tanta coisa para processar, tantas emoções para sentir, tantos aprendizados a passar…

Assim veio a decisão de começar um blog. Não tinha sido a primeira vez que começava um, mas todos os outros haviam perdido o sentido após alguns posts. De início, o samsabel.com era apenas um meio de verter as ideias em um período de intenso sentir. Eu imaginava então que seria um blog muito mais de repasses do que de autoria. Mas um misto de inspiração com necessidade de compartilhar fez com que acabasse sendo o contrário. E assim foram quatro anos escrevendo, em duas línguas, mensagens que foram visualizadas cerca de 40 mil vezes por pessoas em mais de cem países diferentes.

Hoje, retornada ao Brasil e me reorganizando por aqui, sinto que é hora de recomeçar, em muitos sentidos. Com a presença virtual não é diferente. Esse blog como era teve sua razão de ser, mas já há alguns meses venho sentindo que cumpriu o seu papel. E por isso me despeço dele com o mesmo carinho que senti pelo pequeno robin-de-peito-vermelho que pousou na janela, naquela manhã gelada de Janeiro, como que para me dizer:

– “Sim! Vá em frente. O que você está sentindo e pensando é algo que vale a pena ser compartilhado”.

Obrigada a todos que me acompanharam até aqui! Nos reencontraremos em breve.

Um grande abraço,
Samantha.

Robin Europeu

Ser feliz é simples

Ser feliz é simples. Nós é que muitas vezes resistimos a essa simplicidade. Gostamos de nos acreditar complexos e indecifráveis, de nos sentir únicos e especiais. E, embora isto seja verdadeiro no que tange aos caminhos pessoais de manifestação, somos também, em nossa essência, irmanados por uma unicidade simples.

O um é simples. A luz, origem de tudo, também. A conexão integral com o espírito se dá primordialmente pelas atividades mais simples. Os bens que preenchem e alegram a alma são singelos e imateriais.

A liberdade serena. O trabalho inspirado. A amizade. A paz. A compreensão. O amor. A consciência. Nossa passagem na Terra serve para aprendermos a caminhar com a chama destes valores sempre animando o nosso viver. Quando afastamo-nos deles, sofremos e fazemos sofrer. Adoecemos, e adormecemos…

Os caminhos da evolução do espírito estão abertos, e os seus mapas apontam para a simplicidade. Que não nos faltem lucidez e tenacidade para trilhá-los. E que a leveza de tudo que é bom, justo e simples nos ajude hoje a plantar as sementes de um belo amanhã.

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Impermanência da matéria, Eternidade do espírito

Semana em pleno andamento, preocupações pé no chão a todo vapor. Trabalhar, ganhar o pão que se come, cuidar de onde mora, do corpo, das crianças, dos pais, dos bichinhos. Arrastar o corpo pra lá, arrastar o corpo pra cá, resolver coisas. Acompanhar as notícias, se engajar com questões políticas e sociais contemporâneas, se preocupar, se emocionar, lembrar e sonhar… tudo dentro do escopo dessa nossa existência limitada, não é mesmo?

Girar junto com essa roda é inevitável e faz parte do caminhar na Terra. Mas é bom, muito bom, fazê-la parar mentalmente com alguma frequência e colocar as coisas na sua devida perspectiva.

Olhar para as estrelas é um exercício clássico nesse sentido. Mas tem um outro que também me fascina: pensar na longa história geológica da Terra e em como civilizações tão complexas e fervilhantes quanto a nossa atual transformaram-se, do ponto de vista físico, em simples camadas geológicas sobrepostas uma à outra, por ordem de antiguidade material.

Rock_Strata

Sim, tudo o que se vê com os olhos físicos, tudo que tocamos com as mãos físicas, os cheiros que sentimos, todos os corpos que conhecemos, todas essas coisas às quais damos tanta importância no dia a dia: um dia tudo isso perece e desaparece, transformando-se radicalmente ao ser reabsorvido pelos elementos da Mãe Terra.

As camadas geocronológicas da Terra revelam a história Dela, que é também a história dos nossos corpos e objetos físicos, e mostram como todos eles retornam, um dia, ao seio da Mãe.

O que fica é apenas o que se sente, o que se pensa, o que se É. O que sobrevive, o que deixa marcas eternas, é tudo aquilo que é do Espírito. Ele, que eternamente se recasa com a Natureza, para formar novos corpos e novas civilizações, no anseio de aperfeiçoar cada vez mais a sua manifestação. E nós somos parte dessa história, desta saga espiritual de auto superação.

Que saibamos, então, exercitar a suspensão dos véus opacos da matéria, fazendo nossas escolhas, agindo e caminhando sempre conscientes da eternidade de nosso espírito.

sand-mandala

Gratidão aos ensinamentos diamantinos do Buddha.

Uma prece ao Todo que está em Tudo

(Versão da oração “Pai-Nosso” inspirada nos ensinamentos de Omraam Mikhaël Aïvanhov)

Ó Criador do Cosmos, Todo que está em tudo,

Que nossas mentes sejam iluminadas para bendizer o Teu nome.

Que Teu Amor se ancore para sempre em nossos corações.

Que nossas pequenas vontades curvem-se perante os desígnios do Céu. Que sejamos veículos do Teu reino de harmonia!

Nutre-nos hoje e sempre com o alimento para o corpo e para a alma. Banha nosso espírito com o elixir da Vida eterna.

Liberta-nos de nossa ignorância na medida em que soubermos libertar quem nos feriu.

Ajuda-nos a crescer com cada prova no caminho.

Guia-nos e fortalece-nos eternamente nos auspícios da Luz.

Amém.

The Christ

O ponto no centro do círculo

Aqui e agora, de olhos fechados, sente o teu centro, a consciência que realmente és.

Percebe: todos os eventos e pessoas em tua vida são como sonhos. Uns mais distantes, outros mais próximos; a alguns te afeiçoas mais, a outros, menos. Mas todos são parte de um grande sonho: o sonho de Deus.

Tu, o Ser real, és partícula dessa criação. Vês o sol, fonte de luz? És centelha deste mesmo sol. És idêntico a ele.

Tu, consciência, és o ponto central ao redor do qual giram os elementos periféricos de tua existência.

Fica nesse ponto o tanto quanto possível. Sê esse ponto. Pensa, sente e age desde ele.

Aprecia e agradece a experiência que te traz a periferia da existência, mas não te identifiques com ela.

Sonha com alegria e ama, mas lembra sempre: és o Ser que, para além de todo sonho, está acordado.

Tu és o ponto brilhante no centro do círculo do teu viver.

Krishna star

Equilibrando as polaridades

Sombra e luz, animal e divino, raso e profundo, falso e veraz. Todo traço de caráter humano pode pender para o seu pólo negativo ou positivo. O bem e o mal habitam em nós, e cabe a cada um vigiar o próprio caminhar para saber se está melhorando e evoluindo como pessoa ou se está, ao contrário, rebaixando a sua condição e prejudicando os outros.

É importante compreender isto porque uma das armadilhas mais comuns em que se pode cair é orgulhar-se de algo que constitui um defeito, como se ele fosse grande vantagem evolutiva. Facilmente afeiçoamo-nos a um traço negativo de nosso caráter e recusamo-nos a reconhecê-lo como derrogatório, por puro apego a uma determinada auto imagem que já não corresponde ao que a vida e o futuro nos conclamam a ser.

Além disso, possuímos uma tendência natural a sermos indulgentes com os próprios defeitos e intransigentes com os dos outros. Tudo o que somos ou fazemos de errado perante os tribunais da consciência é, para nós, prontamente justificável, enquanto que o menor deslize do outro é logo tido como carta-branca para trucidá-lo.

Permanecer inerte nos estados negativos aos quais se está apegado pode prorrogar desnecessariamente a evolução pessoal. Sempre chegará o momento em que o equilíbrio da polaridade deverá ser acertado. Isso pode acontecer através da livre decisão de mudar – que é indolor ou envolve a dor do ego apenas -, ou através de aflições aparentemente externas, mas que no fundo foram co-criadas pela consciência individual e pelo processo evolutivo ao qual ela está inexoravelmente submetida.

O estado ideal de equilíbrio pessoal é aquele em que nossos traços negativos não são exatamente aniquilados, o que é impossível na atual condição humana, mas sim forçados a se manifestar na sua polaridade positiva. A esse processo chamamos alquimia espiritual.

Ela só pode ser conseguida a partir do poder de vontade de cada um. Havendo a determinação íntima de melhorar a qualidade dos nossos pensamentos, sentimentos e ações, temos à disposição um sem número de técnicas e ferramentas para nos ajudar na empreitada. Devemos perceber com quais abordagens sentimos maior ressonância e investir nelas como instrumentos úteis na jornada de auto conhecimento.

Um dos sistemas que tem rendido bons resultados em minha jornada pessoal é o dos Florais de Bach. Tenho estudado-os e usado-os de forma mais atenta há cerca de três anos, e venho testemunhando consistentemente seus sutis mas notáveis efeitos equilibradores.

Utilizando os florais tenho percebido o quanto podemos estar inadvertidamente apegados a certos traços negativos da personalidade e relutando em querer transmutá-los, mesmo quando claramente causam sofrimento indevido a nós ou aos outros. Esse apego pode ser causado por orgulho (distorção auto defensiva), medo de deixar de ser quem somos (medo das boas transformações) ou algum outro tipo de ponto cego consciencial.

Detectar a poeira acumulada nos esconderijos da alma é uma tarefa bastante difícil, e por isso os instrumentos de auto ajuda que sentimos repercutir bem em nós devem ser usados com determinação, entrega e seriedade. É a nossa própria evolução que está em jogo. Nosso ego imporá toda sorte de resistências, mas por fim, atravessar a ponte em direção a versões melhores de nós mesmos é necessário.

O Dr. Bach, médico Inglês que descobriu as essências florais na década de 1930, escreveu que há dois tipos básicos de erro humano causadores de desequilíbrio, sofrimento e doenças do corpo e da alma. O primeiro é agir em discordância dos ditames de nosso eu superior – nosso lado luminoso, signatário da paz e do amor divinos. O segundo é cometer crimes contra a Unidade de todas as coisas.

Os dois tipos de erro são parâmetros úteis para avaliarmos se um determinado traço de caráter nosso se encontra na polaridade negativa – ocasião em que gera desequilíbrio pessoal ou dano a outro – ou se está se manifestando na sua polaridade positiva, quando harmoniza tanto o nosso próprio ser quanto o nosso entorno.

O processo de melhorar a si envolve necessariamente uma “operação pente fino” no caráter e nas emoções. Nela, volta e meia iremos nos deparar com pontos nevrálgicos do eu inferior, e nesse momento a presença de uma ajuda qualificada e de uma vontade corajosa podem fazer toda a diferença na sustentabilidade das transformações positivas. Tocar um ponto nevrálgico do eu inferior é como tentar domar um touro à unha, e muitos serão os convites internos e externos a deixar de lado tal esforço.

A equilibração pessoal deve ser um esforço contínuo, pois a vida é dinâmica. Superada uma fraqueza, outra surgirá à frente por força das novas circunstâncias, ou porque o traço negativo então superado era apenas uma camada recobrindo outra mais profunda.

O caminho evolutivo é longo, mas sua infinitude não deve desanimar ninguém, pois a cada passo dado à frente a vida se torna um pouco mais harmônica, leve e gostosa de se viver.

butterfly_flower

Nascer para o novo é morrer para o velho.

Liberdade e compromisso

Tradução adaptada do original em Inglês

Escutei uma conversa outro dia no café de uma universidade que me deixou um pouco mais esperançosa quanto à humanidade. Alguns jovens estudantes estavam sentados em círculo, em sofás e cadeiras confortáveis, degustando seus lattes e capuccinos, quando um deles se virou para o outro e perguntou quais eram as suas ideias a respeito de ‘ser livre’ e de se ‘fazer o que quiser’. Mais especificamente, o objeto de discussão era a liberdade de não comparecer às aulas que os estudantes não achassem particularmente interessantes.

A resposta que se seguiu me surpreendeu em função da sua maturidade e perspicácia, algo que eu não teria automaticamente esperado de um jovem rapaz de vinte e poucos anos. Mas então fui lembrada de que existem por aí pessoas excepcionais, com uma atitude mais madura do que a média para a sua idade perante a vida. Eis o que ele respondeu:

“Penso que como estudante você é livre para fazer o que quiser, mas que com os seus atos vêm as consequências.” Ele prosseguiu, enquanto todos escutavam atentamente: “E você precisa estar preparado para aceitar as mesmas, como por exemplo, reprovar na matéria. Desde que você esteja disposto a aceitar as consequências, você é livre para fazer o que quiser. Com a liberdade vem a responsabilidade”.

À sua fala seguiram-se sobriedade e reflexão silenciosa no grupo. Havia claramente sabedoria e verdade naquela afirmação.

Com frequência pensamos que liberdade é fazer o que quer que vem à mente, seguir nossos impulsos e saciar nossas vontades. O problema é que nunca parecemos tão bem dispostos para aceitar a responsabilidade pelas consequências trazidas por essa suposta liberdade. Como somos parte de um mecanismo maior, nossas ações sempre irão desencadear reações – este, aliás, é precisamente o sentido do conceito espiritual de carma.

Na realidade, somos muito inclinados a dar livre vazão às nossas causas descuidadas, ao mesmo tempo em que tendemos a esquecer e recusar a responsabilidade pelas reações desencadeadas.

As observações daquele jovem garoto imediatamente trouxeram à tona esses pensamentos sobre carma, e me fizeram lembrar de um dos livros mais iluminadores que já li sobre o tema da liberdade, de um pensador espiritual que admiro profundamente, Omraam Mikhaël Aïvanhov.

Sua ideia central é a de que não existe algo como liberdade absoluta para a humanidade – ela é reservada ao Criador apenas. Quando alguém está livre de certas circunstâncias, está comprometido com outras. A verdadeira questão, assim, é escolher sabiamente de quais amarras libertar-se e a quais prender-se. Aqui está como ele lindamente coloca isto:

Você deve se libertar, é verdade, mas para limitar a si mesmo. Você deve se libertar internamente de todos os seus instintos e tendências baixas para se amarrar a algo mais elevado, para trabalhar para a coletividade. Este, para mim, é o verdadeiro significado da vida e da liberdade. A felicidade e a alegria consistem em libertar a si mesmo, não em se eximir de suas obrigações, mas em libertar a si mesmo internamente de todas as próprias fraquezas para comprometer-se ainda mais integralmente a ajudar outros. Sim, se você quer ser internamente livre, você deve começar por limitar a si mesmo e sacrificar certas coisas para comprometer-se mais plenamente.” (Aïvanhov, in: Freedom, the Spirit Triumphant)

Libertar-nos de nossas fraquezas e vontades egoístas para nos comprometermos mais plenamente com o auto crescimento e a melhora coletiva: eis uma perspectiva surpreendentemente verdadeira e generosa acerca do que a liberdade realmente é.

Celtic cross of commitment

Image: Celtic Cross of Commitment, by Wild Goose Studio

Palavras são toques na alma

Algumas passagens da infância marcam a nossa memória sem que saibamos exatamente o por quê.

Entre as minhas está um momento vivido em torno dos dez anos de idade, época em que estudava com gosto a bíblia e os ensinamentos cristãos, que permearam minha formação de base num colégio franciscano do interior de Santa Catarina.

Eu estava sentada no banco da igreja católica ouvindo, como de praxe semanal, a explicação do padre sobre o evangelho lido naquele dia, que incluía o seguinte trecho dos provérbios (12:18):

“Há alguns que falam como que espada penetrante, mas a língua dos sábios é saúde.”

Ainda posso me ver sentada no banco comprido de mogno, com a roupinha comportada e o cabelo domado por uma tiara, bem atenta àquelas palavras que se gravavam na alma como um insight mágico. ‘Sim’, pensei, ‘isso é tão verdadeiro! Como seria bom se todos tivessem consciência disso…’

Tantos anos mais tarde, afastada da igreja desde os catorze ou quinze, a metáfora da língua como espada ou como saúde permanece gravada profundamente no meu coração. É, sem dúvida, uma das verdades espirituais que mais amo – o que, claro, não quer dizer que nunca tenha vacilado quanto à sua consecução.

A luz deste provérbio está sempre no background da minha consciência, e por isso uma das coisas que mais me entristecem é cometer – ou ver cometida – a violência através das palavras ou das intenções.

Sim, as intenções, os sentimentos que animam o dizer, são o que de fato valem, pois o fel do destempero de alguém transparece muito claramente mesmo quando profere as mais belas e corretas palavras.

O mais cristalino discernimento será maculado se não for comunicado desde as águas serenas do coração. A palavra nunca cura quando é movida por intenção ácida ou ferina.

A palavra-saúde é aquela que nasce de intenção tão doce quanto a da mãe que se dirige à criança amada. É qualidade de natureza feminina, mas que precisa ser ativamente desenvolvida por todos, homens e mulheres, na alquimia pessoal de se tornar alguém melhor.

Palavras são toques na alma. É sempre bom lembrar que almas são partículas de Deus extremamente sensíveis às durezas e às delicadezas de trato, e que os efeitos de nossas intenções e palavras são de nossa inteira responsabilidade.

Nesses tempos de comunicação tão banalizada e inconsequente, penso no quão valoroso seria se sacralizássemos um pouco mais as intenções e os conteúdos que propagamos no mundo.

Certamente viveríamos em um ambiente mental menos ruidoso, menos conflitivo e menos doloroso, ao passo em que poderíamos continuar afinando, de forma mais harmoniosa, nossas aparentes diferenças.

Pink rose reflection

Inteligência e Sabedoria

Muito se fala hoje sobre a diferença entre inteligência e sabedoria. Enquanto a primeira é uma faculdade fria e árida do intelecto, a segunda é uma percepção mais ampla, rica e profunda da realidade, aquecida pelo amor e sustentada por uma concepção espiritual da vida.

A sabedoria é uma faculdade do espírito; é superior à inteligência e pode dela fazer uso. Já a inteligência é dotada da neutralidade de qualquer instrumento: pode ser colocada a serviço de propósitos deletérios, inócuos, ou afins à sabedoria.

Muito além de compreender a diferença entre ambas, experimentá-la na carne foi um aprendizado chave na minha atual vida.

Cresci estimulada a ter uma auto imagem de ser alguém inteligente. Os fundamentos emocionais sólidos e os incentivos generosos da família, professores e amigos me levaram a desenvolver uma auto estima saudável nesse ponto, ajudando-me a ser uma criança curiosa, interessada em ler, estudar e analisar com profundidade os acontecimentos ao meu redor.

Até certo ponto na vida o desenvolvimento da inteligência conviveu pacificamente com o coração generoso e alegre que é natural de toda criança. Aos poucos porém, ao longo do processo de solidificação do ego adulto, fui erroneamente me identificando com valores do mundo. O resultado foi que a alegria perdeu espaço para uma ansiedade pesarosa, e a generosidade real foi sendo suplantada por desejos que, embora pudessem ser altruístas na estética, eram no fundo de natureza individualista.

Uma ilusão central era a de que seria possível, através do desenvolvimento e direcionamento da inteligência por si mesma, desempenhar um papel relevante nas transformações sociais positivas. Havia um desejo de fazer uma diferença positiva no mundo, mas ele era rebaixado pela expectativa implícita de fazê-lo transitando no território do reconhecimento humano.

O consistente bom desempenho escolar, a facilidade para passar em concursos e o acúmulo de títulos humanos todos alimentavam em mim a ilusão de estar trilhando um caminho real de progresso pessoal. O problema foi que ao longo desse caminho eu fui deixando de lado, por covardia perante a pressão do meio e por ignorar as consequências dessa atitude, as práticas e estudos espirituais que desde criança haviam sido parte integrante e natural da minha vida.

Ao cabo de alguns anos de conquistas acadêmicas e profissionais a vida quis me mostrar, contrastando um auge externo na carreira com o ponto mais baixo no equilíbrio pessoal, o quanto eu havia errado em recobrir o espírito com a areia da quinquilharia emocional e mental acumulada em quase trinta anos de existência.

Ao serrar minha ligação com o mundo espiritual eu adentrava a perigosa zona da ilusão materialista sem o amparo da sustentação mais vital de todas, a espiritualidade. A inteligência árida passou a coexistir com um coração pesado e um corpo desvitalizado. Eu me sentia frágil, vazia e sem esperança de recuperar a alegria de viver.

Tempos difíceis foram esses de escuridão auto infligida. Tempos de educação da alma, porém. Por sorte ou algum crédito cármico que desconheço, foi justamente nesse período que pude reencontrar, através de situações, experiências, sensações, ideias, sentimentos e pessoas, a realidade espiritual ainda ardendo em brasa dentro do meu coração.

A força deste amparo reergueu de forma admirável minha vitalidade, alegria e clareza de propósito. Foi como um segundo nascimento.

As verdades espirituais se inscrevem no campo da sabedoria e é somente ela, aliada ao amor, que pode dar uma verdadeira sustentação perante as questões mais importantes da existência. A inteligência tem um valor menor e relativo. Ela não garante segurança emocional, robustez existencial, qualidade moral, atitude correta e muito menos um sentido para a vida.

Perceber a diferença entre inteligência e sabedoria foi a chave que recuperou minha conexão com as coisas do espírito, que voltaram a guiar meus passos desde então.

Hoje sinto que os desdobramentos desse insight foram muito além do que eu poderia imaginar. Sinto-me mais forte para encarar as dificuldades a que todos estamos sujeitos e seguir melhorando. Estou também mais consciente em relação ao quanto ainda tenho a aprender e praticar. Busco integrar a inteligência a um conjunto maior de valores, e não mais aos julgamentos do ego.

Acima de tudo sou muito mais feliz, por saber e sentir que a estrada da evolução, embora às vezes sinuosa, nos conduz sempre a realidades cada vez mais admiráveis.

We are flowers circling round the sun.
We are flowers circling round the sun.

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“Certa vez, havia um intelectual brilhante que contratou um homem para levá-lo ao mar no seu barco a remo.

Ele perguntou ao barqueiro: ‘Meu bom homem, você sabe alguma coisa de astronomia?’ ‘Não.’, respondeu o barqueiro. ‘Que pena,’ disse intelectual; ‘Você está perdendo tanto; um quarto da sua vida está desperdiçado. Mas, talvez você saiba alguma coisa de física?’’Nem um pouco, Sua Excelência!’ disse o barqueiro. ‘Oh, meu pobre homem, dois quartos da sua vida estão perdidos!’ lamentou o erudito; ‘Mas talvez você saiba bastante de química?’ ‘O que é isso?’ disse o barqueiro; ‘Nunca ouvi falar!’ ‘Que ignorância,’ lamentou o estudioso; ‘Três quartos da sua vida desperdiçados!’

O pequeno barco foi mais e mais mar adentro e, dentro em pouco, uma tempestade violenta estourou e as ondas ameaçavam engolfá-los.

‘Sua Excelência,’ gritou o barqueiro; ‘Você sabe nadar?’ ‘Não, não sei.’ respondeu o intelectual. ‘Bem, Senhor,’ exclamou o barqueiro; ‘São quatro quartos da sua vida desperdiçados!’

Vocês veem? Há alguns tipos de conhecimento que não são muito úteis. Não são nada mais do que decorações. Ah, com certeza, podem ser usados para ganhar dinheiro, mas se uma tempestade vier vocês logo verão se conseguem ajudá-los a nadar! A vida é um oceano, como vocês muito bem sabem, e nesse oceano existem alguns tipos de conhecimento que são muito mais úteis que outros: o conhecimento que pode ajudar um homem a viver.

Que direção dar à sua vida; qual alto ideal escolher; como transformar os pensamentos e sentimentos que nos perturbam; como interpretar os eventos acontecendo ao nosso redor; como verificar nossas relações com o macrocosmo; como comer, dormir, lavar-se e respirar… como amar: estas são as coisas que precisamos conhecer.”

~ Omraam Mïkhael Aïvanhov in: The Second Birth, Love, Wisdom, Truth
Postado originalmente e traduzido de Journey with Omraam

As primeiras Magnólias

É verdade que a primeira árvore florida avistei cedo neste inverno Londrino, ali nos últimos dia de Dezembro. Fiquei surpresa com a precocidade daquela cerejeira; depois pensei que vinha sendo mesmo um inverno ameno.

Para as plantas, as estações não se marcam no calendário; acontecem no sentir. E para elas, apesar dos dias frios de céu cinzento persistente, já vivemos os primórdios da primavera.

Sim, estações do ano são parte do aspecto fenomênico da realidade, e todos os anos se repetem sem grandes novidades. Em tese não haveria nada a se comemorar ou lamentar com a sua passagem. Mas desde o ponto de vista de quem experimenta a vida fenomênica na carne, as renovações sazonais provocam mudanças sensíveis e coletivas no humor e no ritmo da vida.

A primavera traz consigo por excelência a esperança da vida que recomeça.

É a estação favorita de muitos. Pessoalmente não consigo decidir, pois vejo belezas e prazeres próprios em cada época do ano. Talvez a que mais me enfada é o verão, mas nos últimos anos a coisa tem mudado de figura. Viver em terras oceânicas temperadas faz com que se aprenda a apreciar de forma especial a presença fulgurante do sol.

Além dos dias mais longos, as pequenas flores salpicando aqui e ali e o crescendo dos pássaros nos parques já dão o tom primaveril nos ares da cidade. As cores, os sons e a luz desta linda estação operam um verdadeiro milagre, reanimando e rejuvenescendo os corações abatidos pela aridez do inverno.

É cedo no calendário dos homens, mas a natureza avisa e os corações observadores sabem: por aqui, as bênçãos antecipadas da primavera já dão o ar de sua graça.

As primeiras flores de Magnólia
As primeiras flores de Magnólia