Quando a compreensão vira omissão

Existe uma diferença entre ser compreensivo e ser omisso, e às vezes é bem difícil achar o ponto de equilíbrio entre estas duas posturas. Na última aula de psicoterapia discutimos uma situação real em que uma colega, que participava como cliente no exercício prático de terapia, dizia estar prestes a fazer uma escolha de vida que eu, conhecendo um pouco da sua história, percebia como sendo péssima para ela. Era, aos meus olhos, uma espécie de fuga ilusória que iria desembocar, lá na frente, no mesmíssimo problema do qual ela tentava fugir. Seria ainda pior, pois a escolha tinha implicações éticas duvidosas e ela voltaria ao problema original com o “bônus” do sentimento de culpa por ter prejudicado alguém.

Um outro colega estava atuando no exercício como terapeuta desta pessoa, e eu era uma das observadoras da sessão. O colega-terapeuta conduziu a sessão, ao meu ver, de modo completamente omisso, fazendo apenas perguntas abertas e deixando a pessoa divagar por conta própria até chegar bem perto de concluir que aquela sua ideia era ótima para o seu projeto de vida. Eu, de observadora, me contorcia na cadeira, com uma baita vontade de interferir. Ao final, nos meus comentários, coloquei que discordava da forma com que a sessão fora conduzida, e que achava que o terapeuta deveria ter apontado claramente o problema que seria a pessoa tomar aquela decisão. O grupo se posicionou contra mim dizendo que não é papel do terapeuta dar a sua opinião sobre o que o cliente deseja fazer. Argumentaram que como amigos também falariam o que eu queria falar, mas não como terapeutas.

Juro que não entendo isso. As pessoas devem sim ser deixadas livres para escolher, mas se algum cliente ou amigo – não importa – me revela algo que na minha avaliação vai ser prejudicial para ele(a), que não esper de mim uma sanção para a sua atitude. Existe a hora de silenciar e a hora de dizer claramente o que se pensa. Mesmo a atitude compreensiva, que é peça-chave de uma boa terapia, tem um limite, pois às vezes quem cala pode estar simplesmente endossando um grande erro.

caminhos

3 ideias sobre “Quando a compreensão vira omissão”

  1. Também já vi isso acontecer, (no caso de amigos, não de terapia) alguém falar apenas o que outra pessoa quer ouvir, mesmo que isso acarrete no que pode não vir a ser a melhor escolha pra ela. Se bem que, nesse caso, será que às vezes não somos nós tentando impor a nossa visão? Quero dizer, às vezes o que julgamos ser melhor para o outro, não é necessariamente a mesma opinião da pessoa ao lado.

    Mas no seu relato isso era terapia, e não amizade, aí tem também o lado dos seus colegas terem dito que, como amigos, teriam falado o mesmo que você, mas não como terapeutas. Isso é estranho mesmo, meio negligente até, porque no fim a função do terapeuta é a de conduzir o cliente ao melhor caminho, né?

    Bom texto, Sam 🙂

  2. Imagino … terapeutas, de uma forma geral, acham o máximo fazer cara de paisagem … Acredito que quando estamos diante de questões cruciais, capazes de causar algum mal ao nosso amigo/paciente, não devemos nos calar e sermos coadjuvantes do infortúnio alheio. Na minha experiência em terapia, em muitos momentos, senti falta de uma participação mais ativa por parte da minha terapeuta. Não queria que ela resolvesse os meus problemas, não queria que ela passasse a mão na minha cabeça. Só gostaria que, pelo menos, ela tivesse me perguntado mais “por quê”. Gostaria de ter sentido a terapeuta mais envolvida com aquilo que eu estava expondo. Entendo que um profissional bem treinado não causa dano ao seu paciente quando lhe mostra as consequências dos seus atos/decisões. Afinal, não é esse o objetivo?

  3. Obrigada pelos comments!
    O estilo mais ausente ou mais afirmativo do terapeuta varia bastante de abordagem para abordagem. Dentro da psicoterapia existencial, que é a que eu estou estudando, não há uma regra muito rígida quanto a isso, vai muito do estilo pessoal. Tem terapeutas que em situações cruciais são mais diretivos, enquanto outros deixam correr mais solto. Na minha opinião, dependendo do problema e do cliente pode cair melhor uma atitude ou outra, mas nesse caso específico era claro que a pessoa precisava de uma cortada na fantasia.
    Eu imagino que como o grupo tem muitas pessoas que estão começando agora a treinar nessa área, elas estão levando muito ao pé da letra o princípio de “suspender os próprios valores” na hora de escutar alguém. É como quando se aprende a dirigir: você tem que pensar tanto no que está fazendo que o carro acaba não fluindo tão bem. Com o tempo, quanto mais bem aprendidos os princípios, menos rígido você precisa ser com eles; consegue usá-los de forma mais criativa e flexível.
    É importante escutar sem julgar, mas na medida em que elementos do enredo do paciente vão sendo compreendidos, algumas avaliações podem e devem ser feitas, sempre de forma dialogada e não-dogmática. No fundo acabam sendo julgamentos, mas embasados no material oferecido, e devolvidos à consciência do cliente, que continua tendo o poder e a liberdade de ver ou não sentido naquilo que está sendo dito.

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