Reforma, revolução e rebelião

Li há pouco tempo um trecho de um livro do Osho* que me ajudou a clarear o que penso a respeito de reformas, revoluções e verdadeiras transformações.

Reformas e revoluções são mudanças como que estéticas: atuam nas camadas mais externas da consciência e por isso produzem mudanças que não são totalmente sustentáveis. Se enquadram como reformas e revoluções praticamente todos os esforços de engenharia social e consciencial impostos às pessoas externamente (leis, moral vigente, cartilhas institucionais, regimes de governo) e também os esforços empregados pelas próprias pessoas para domar aspectos indesejáveis de suas personalidades.

A idéia chave é a presença da força: seja ela vinda de fora ou por iniciativa da própria pessoa, qualquer mudança que dependa da coerção (auto ou hetero imposta) presume a coexistência de forças inimigas guerreando eternamente por seu espaço. Estas mudanças são frágeis e não podem existir sustentavelmente. O inimigo, temporariamente derrotado e capturado – seja ele um valor reprimido ou uma prática banida – sempre esperará que surja um ponto de fragilidade no sistema vigente através do qual tentará arruinar os esforços positivos de transformação. A força reprimida irá ocupar, no devido tempo e dada a devida oportunidade, o lugar da força opressora.

Esta idéia me ajudou a entender melhor meu desconforto com propostas revolucionárias como a do comunismo. Estudante de ciências humanas, convivi bem de perto por alguns anos com pessoas irredutivelmente partidárias de revoluções comunistas. Muitas delas meus amigos e amigas. Algumas poucas chegavam a alimentar sonhos de revolução armada, uma posição tão extrema e descabida nos dias de hoje que mesmo nos meios esquerdistas já existe um pudor em assumi-la abertamente.

Mas mesmo aqueles que não falassem em métodos fisicamente violentos me pareciam bastante violentos na forma de conceber a sociedade e as relações com o suposto inimigo – no caso, tudo e todos que representassem o capitalismo. A sociedade sonhada pelos revolucionários esquerdistas é insuflada por profundo ódio e exclusão deste inimigo, ódio esse que se revela nos discursos inflamados e nos sonhos de uma sociedade “livre” de certas figuras sociais e estilos de vida personificados em instituições e seres concretos. São sonhos e discursos muitas vezes similares aos de uma limpeza étnica.

Como bem coloca Osho, uma revolução comunista só pode se sustentar como ditadura. Deixadas às próprias consciências, as pessoas a quem o não-consumo e a não-individualidade tenham sido impostos rapidamente retornariam ao modo capitalista, individualista e competitivo de funcionar. Isto porque a mudança para os valores coletivistas e cooperativistas – a parte bonita do comunismo, que lê bem no papel – não se deu a partir de uma mudança íntima nas pessoas; foi apenas uma vontade alheia de engenharia social assegurada pela sombra da violência.

Reformas e revoluções têm o seu valor e até deixam algum legado positivo. Ninguém poderia negar que boa parte do planeta evoluiu, por exemplo, nas atitudes com relação às minorias, na maior consciência ecológica-ambiental e na substituição de ditaduras e teocracias por arranjos democráticos e pelo livre pensamento. Quem vive nos dias de hoje pode respirar aliviado por não ter vivido em épocas anteriores do planeta em que o grau de respeito e proteção à vida era, em geral, muito mais baixo.

Mas a presença da violência torna o preço que as revoluções cobram alto demais, e as mudanças que constróem podem ser rapidamente desfeitas pelos ciclos da história. Todas essas transformações positivas se deram à base da força, muitas vezes através de guerras, ódio e sangue derramado. E vivemos ainda sem garantias de que não haverá um retorno das mentalidades obtusas, das violências simbólicas e físicas contra minorias, das ditaduras e da destruição do planeta. Todos estes problemas parecem ser inimigos vivos que dormem, temporariamente domados, à espera de uma oportunidade de recobrar suas forças e reclamar o seu lugar.

Para Osho, as verdadeiras e duradouras transformações se dão não pelas reformas e revoluções, mas sim através da rebelião. Rebelião seria um estado de percepção profunda que reconhece a própria natureza humana e a presença das forças positivas e negativas em si e nos outros – bem e mal, vida e morte, luz e sombra. Há o reconhecimento, a compreensão radical e o perdão incondicional de todas as falhas, as próprias e as alheias, ao invés do combate violento contra elas. Não existem inimigos. O veneno-ódio é transformado em remédio-amor, e desta compreensão radical nascem grande força, profunda paz e contentamento.

A rebelião é como uma iluminação da consciência que começa por dentro; é um processo íntimo, fruto do auto conhecimento, que pode ser mediado, mas que só se completa por vontade pessoal. Somente a rebelião consciencial leva à verdadeira transformação da pessoa, que não precisa mais ser teleguiada por diretrizes outras que não aquela da própria luz interior.

Rebelar-se é exponenciar nosso poder de compreensão de todas as situações para que, com convicção inabalável, favoreçamos as transformações positivas que desejamos ver no mundo sem hipocrisia, através do próprio exemplo. Por mais difícil que seja colocar esta premissa em prática em sua integral extensão, ela vale como uma lembrança do quão mais raras, valiosas, duradouras e contagiantes são aquelas transformações operadas dentro de nós mesmos.

*A Flauta nos Lábios de Deus: o significado oculto dos evangelhos – capítulo 08.

oferecendo flores

Primeiro post

Resolvi criar este blog para compartilhar pensamentos fugidios sobre temas variados, quando eles não se encaixam bem nos formatos de outros sites nos quais tenho me feito presente online. A idéia inicial é ficar dentro dos temas que me são mais familiares e que ocupam boa parte de minha atenção, mas nada impede também que compartilhe uma bobagem qualquer ou uma história pessoal.

Gosto de escrever, mas não tanto de me expor. Nesse momento da vida, no entanto, tenho pensado em como já me beneficiei de acessar ideias escritas aqui e acolá, muitas vezes através de sites totalmente despretensiosos, como quero que este também seja. A livre circulação de idéias enriquece o pensamento, e a internet possibilita trocas muitas vezes frutíferas – outras, é verdade, desgastantes – sobre os assuntos mais inesperados.

Os posts serão na maioria em Português, minha língua materna, mas alguns podem ser em inglês, e nesse caso deixo a tarefa da tradução com o leitor. Vou procurar organizar os temas através das tags e, com o tempo, dependendo da evolução ou involução da coisa, é possível que o blog seja desmembrado em áreas de interesse diferentes. Também pode, claro, vir a ser abandonado e apagado, pois não é incomum que chegue um momento em que nos cansamos de versões velhas de nós mesmos.

Enquanto ele estiver vivo e fizer sentido, será alimentado sem pressa e sem compromisso com pequenos textos escritos por mim ou por outras pessoas, neste último caso com a autoria devidamente mencionada. Considero aquilo que escrevo não como meu, mas como algo que passa através de mim após ter sido compartilhado comigo de alguma forma, em algum momento. No fundo, são diálogos silenciosos, que talvez possam ser de utilidade ou interesse para algum outro ser humano perdido aí pela Terra.

Até breve!