Mudança: um mergulho em praticidades

Desde que retornamos a Londres estávamos alugando um quarto na casa de uma amiga, e agora nos mudamos para um flat não mobiliado. Assim como em outras fases em que me mudei, a semana que passou foi um período em que as praticidades ganharam o centro das atenções. Quando você se muda para um lugar apenas com roupas, sem possuir nem uma colher de cafezinho, os requisitos para tocar uma vida normal deixam de ser banais e saltam aos olhos: o valor de uma cadeira, de uma mesa, de uma cama de verdade. Facas, panelas, pratos e xícaras. Todos objetos desenhados ao longo do tempo pela inteligência humana para tornar nossa vida fácil como ela é hoje. Sofá… sofá é um luxo, gente! Agradeçam a existência do seu.

Não sou das pessoas mais práticas que conheço. Por isso, a última semana tem sido um banho de mundo real para mim, envolvida que fiquei 24 horas por dia com a necessidade de limpar e rechear uma casa para torná-la modernamente habitável. A primeira fase, que durou uns 3 dias, foi a faxina. Muitas casas aqui têm carpet – assim como as casas brasileiras na década de 80 – e existe uma série de procedimentos para lavar e limpar bem o carpet usado por inquilinos anteriores. Desde aprender qual o produto e a máquina certos, tudo é uma aventura. Limpar banheiras – outra peça comum nas residências inglesas – também tem suas particularidades, assim como remover “limescale”, que é uma crosta que se acumula nas peças de metal devido à química da água reciclada que circula por aqui.

Quanto à mobília e utensílios, ainda faltam vários itens, grandes e pequenos, mas aos poucos o novo lar está tomando a forma que queremos. O início é um exercício de criatividade: um saco de lixo forte é um substituto barato para uma mala; uma caixa de papelão quebra o galho como mesa; um lençol dá uma excelente cortina provisória. Cada nova aquisição é uma pequena alegria, especialmente para o corpo. As costas reclamam feio por ter de dormir no colchão inflável e usar o computador no chão enquanto não chegam a cama e a escrivaninha. Também não é moleza carregar os itens comprados – alguns bem pesados – sem carro. Os cinco minutos que separam nosso flat do ponto de ônibus mais próximo parecem uma eternidade quando se está carregando coisas pesadas!

Apesar disso, essa imersão nas coisas “pé no chão” me fez muito bem. Representou uma folga daqueles estados de espírito reflexivos, cheios de planejamentos e quebra-cabeças mentais que provocam o seu tipo específico de cansaço. O cansaço das coisas práticas é bem físico e, assim como um bom exercício na academia, relaxa a mente. Muitas mulheres da minha geração torceriam o nariz pra essa constatação, mas afirmo sem medo de errar que faxina e arrumação também têm o seu valor. Para homens e mulheres igualmente.

mudança

Conversando com culturas

Uma definição simples de cultura é o compartilhamento de referências sociais e psicológicas entre um grupo de pessoas. Grupos culturais podem ser delimitados pelo viés da geografia, da biologia, da religião, da história e muitos outros ângulos. Além disso, podemos também pensar que cada ser humano é feito de relações únicas que estabelece com o corpo, com o ambiente, com os outros, consigo mesmo e com a espiritualidade. Nesse sentido, uma só pessoa já pode ser vista como um universo cultural diferente – que o digam os casados!

Todos nós estamos expostos a encontros interculturais cotidianamente. Eles se dão não só através da mídia e das artes, mas sobretudo nas interações corriqueiras com pessoas vindas de diversos lugares e criadas sob a influência de diversos costumes. Esta é a regra, e cada vez mais o será, neste nosso mundo que se globaliza rapidamente. Mas o fato de estarmos expostos aos encontros interculturais não significa que estejamos abertos para absorver lições e tirar crescimentos pessoal dos mesmos. O mais frequente, aliás, é passearmos pela vida analisando tudo e todos a partir de pontos de vista que, com nossa permissão indolente, cristalizaram-se em nós. Sofremos – e fazemos sofrer – com a diferença, e ansiamos pelo conforto do igual.

O contexto da imigração é um dos cenários possíveis – mas nem de longe o único – para exercitar a abertura aos encontros interculturais. Nele, ficar fechado nas próprias referências leva ao isolamento e à tristeza da solidão, pois não há muitos “iguais” ao seu redor para oferecer o refúgio da familiaridade. Quando se mora em outro país – e quanto mais culturalmente distante, mais radical talvez seja a proposição – a diferença lhe é “esfregada na cara”, mesmo quando você não estava afim ou apto a percebê-la por esforço próprio. E é preciso de alguma forma lidar com ela para poder tocar a vida. O exemplo mais básico disso é o da comunicação numa segunda língua, quando uma conversa boba – ou pior, importante – qualquer precisa continuar, apesar de você não ter entendido alguma palavra-chave, ou não ter sido entendida. Nessas horas é preciso esquecer o orgulho, improvisar e seguir em frente.

Os chacoalhões da imigração atingem em cheio nossa inércia consciencial e as identidades que construímos, que passam a ser vistas com um olhar bem mais perspectivo. Foi na Inglaterra que aprendi, por exemplo, que não sou branca, quando um policial inglês riu da minha cara ao me escutar me auto-descrevendo desta forma. Em boa medida, continuar sendo a mesma pessoa não é uma escolha, ao menos não uma sustentável no longo prazo.

A mesma lógica pode ser transposta para o encontro com a diferença em geral. Imaginemos uma uma escala que vai do extremo de “continuar tendo aquela velha opinião” ao extremo de “dissolver-se na coletividade de diferenças”. A globalização e a evolução têm nos empurrado, em qualquer contexto – não sem resistência e nem sem problemas – para a segunda alternativa.

Como nenhum extremo parece saudável, o ponto de equilíbrio precisa ser encontrado em valores essenciais que funcionem como uma base a partir da qual a exploração da diferença só acrescentará riqueza e crescimento pessoal e coletivo. Gosto de pensar que caminhamos rumo a um estado de espírito em que a diferença é acolhida e entendida como uma superficialidade sob a qual estão escondidas as verdadeiras essências humanas. Os encontros interculturais – ou, simplesmente, humanos – seriam tanto mais pacíficos e enriquecedores quanto mais conseguíssemos enxergar a unidade sob nossa aparente diversidade.

unidade na diversidade

Navegando pela psicologia e pela espiritualidade

Tendo terminado de escrever, há pouco tempo, uma dissertação sobre a dimensão espiritual da existência humana – um tema de importância central para mim – segundo a concepção da psicoterapia existencial, pensei em dividir aqui alguns detalhes do caminho que me conduziu ao curso que estou fazendo, na Inglaterra, sobre essa abordagem. A dissertação em si posso até vir a compartilhar no futuro, mas prefiro esperar o feedback dos professores para descobrir até que ponto meu entendimento do assunto foi acurado, ou então influenciado por aquilo em que quero acreditar: que essa abordagem não só valida a espiritualidade como também abre espaço para a livre expressão dos entendimentos espirituais que nós terapeutas e nossos clientes possamos ter.

O tema me é caro em função das amarras ideológicas – basicamente, uma concepção materialista de homem, que exclui e até menospreza a questão espiritual – que permearam meus anos de formação no Brasil, e que me levaram por caminhos profissionais causadores de grande desequilíbrio psicofísico.

A espiritualidade esteve presente na minha vida desde o nascimento até os primeiros anos de faculdade, a partir dos quais se seguiu um período de grande ceticismo e materialismo. Claro que além de ter sido uma forte influência externa, a adesão a uma visão materialista-cética do ser humano foi uma concessão, um erro de minha própria parte.

Considero estes anos de formação materialista um “período opaco”. Nele houve muito aprendizado e desenvolvimento intelectual; adquiri títulos e méritos acadêmicos, que tiveram seu papel social de abertura de portas profissionais, mas acabei me tornando uma pessoa pior e mais fraca em muitos sentidos. Julgamento arrogante dos caminhos alheios e períodos recorrentes de grande estresse e ansiedade com repercussões físicas sérias foram se acumulando em meu ser. O desconforto existencial cresceu sutilmente, até passar a ser meu modo de funcionamento padrão.

Esse processo aconteceu ao longo de mais ou menos dez anos, até chegar um momento em que uma espiral de eventos negativos ao meu redor me levaram quase ao fundo. Ao “período opaco” seguiram-se cerca de dois anos de “golpes da vida” aos quais, em função de ter aberto mão de valores e saberes tão importantes para mim, eu não soube como responder. Afastada da espiritualidade, eu tinha perdido completamente meu centro de força interior. O resultado foi bastante confusão, tristeza e desequilíbrio físico-emocional.

A página turbulenta só começou a ser virada quando, por conta de encontros e reencontros importantes comigo mesma e de alguns acontecimentos, a espiritualidade voltou a fazer parte de minha atenção cotidiana. Não aderi a nenhum grupo ou ideologia específica, mas fui reestabelecendo minha conexão com o divino através de leituras, músicas, pessoas, lugares e experiências luminosas. Bastante auto-observação e reflexão – e um esforço descomunal para parar de me sentir vítima da vida e voltar a ser uma pessoa mais leve – junto com estes encontros felizes acabaram por naturalmente me reconectar à fonte espiritual. Não foi fácil nem automático, mas aos poucos fui voltando a me sentir uma pessoa forte. Aprendi a ser auto confiante sem subjugar os outros e recuperei a coragem seguir em frente sendo eu mesma. A paz e a tranquilidade voltaram a ser meu estado homeostático – obviamente perturbável vez ou outra, mas nada que hoje eu não consiga driblar sem perder meu próprio centro.

Coincidentemente – ou não – a estas mudanças internas positivas começou a se seguir uma chuva de presentes e boas surpresas da vida. Melhor dito, antes os presentes estavam ali – eles sempre estão – mas eu é que estava muito ensimesmada e cega para percebê-los. E aqui retorno ao ponto que me levou originalmente a escrever esse post: um destes presentes foi descobrir um pequeno ninho de treinamento profissional sério e reconhecido em psicoterapia na Inglaterra (onde eu havia decido voltar a morar sem saber o que poderia fazer profissionalmente) no qual a espiritualidade é, se não estimulada, ao menos muito bem aceita.

Quem lê isso pode estar pensando: mas existem tantos locais sérios de treinamento para terapias espiritualistas por aí, porque teria sido tão surpreendente e especial encontrar este ninho? É uma questão de encaixe pessoal. Em primeiro lugar, não existem tantos assim aqui na Inglaterra. Em segundo, tenho uma preocupação em equilibrar o conteúdo do treinamento com o seu poder de entrada social no mercado de trabalho. Em terceiro, e o mais importante ponto, eu não gostaria de abraçar, no atual momento, um caminho espiritualista que descartasse as técnicas e saberes da psicoterapia tradicional. Isto porque além de ter sido meu principal treinamento, não considero que tenho nenhum tipo de habilidade espiritual especial que me permita abandonar as técnicas “humanas”.

Acredito que minha força profissional reside nos métodos mais tradicionais de presença, escuta e conversa, com base nas tramas da realidade física, e por isso as coisas que aprendo na psicoterapia tradicional são de grande valor para mim. Mas hoje, com o filtro do entendimento espiritual da condição humana ligado de forma perene, quero seguir um caminho que seja uma boa síntese dos meus valores espiritualistas com aquilo que me sinto capaz de realizar. Os desdobramentos desse caminho-síntese ainda são uma incógnita, só que isso não me aflige mais. As incertezas da vida, que antes me provocavam grande medo, agora são vistas por mim com uma espécie de curiosidade feliz.

Sabedora de quais valores me fortalecem e me guiam e realista quanto aos meus potenciais, parece que encontrei um bom lugar para me desenvolver profissionalmente. Vamos ver se o feedback da dissertação e o progresso ao longo do treinamento confirmarão isso, ou se me instigarão a rever os planos e reajustar mais uma vez as velas.

chegando no cais

A árvore

Num certo fim de verão, uma frondosa árvore deixou cair no chão um de seus saborosos frutos maduros. No fruto havia sementes que, imperceptíveis ao observador externo, pulsavam de vida no seu interior. O chão absorveu com gosto a doçura daquela fruta, e acolheu no seu seio aquecido as pequenas e frágeis sementes, protegendo-as das estações frias que vinham pela frente.

Perguntando-se sobre o paradeiro do seu fruto caído, a árvore viu chegar o outono, e ainda que um pouco temerosa, seguiu a orientação da natureza, deixando-se despir de todas as suas folhas. Mal sabia ela que aquelas suas folhas perdidas adubariam o terreno que abrigava sua filhote, servindo de alimento orgânico para o seu crescimento.

Veio o inverno, e a árvore, completamente desnuda, viu acumular em seus galhos ressecados grossas camadas de neve branca, que a deixavam linda, mas cuja temperatura nem sempre era fácil de suportar. Atenta aos chamados da natureza, porém, a árvore ali permaneceu, serena, procurando relevar o frio e apreciar a beleza das alvas paisagens ao seu redor.

Os primeiros ventos cálidos da primavera sopraram, e para a surpresa da árvore, ao seu lado, no chão, despontava um pedacinho de verde brilhante, que se parecia com ela mesma, rejuvenescida. Era a sua filhote, o ex-fruto maduro que a generosidade da natureza agora transformara em um novo ser. Que alegria!

Transbordando de gratidão, percebeu que botões verdes recomeçaram a brotar também nela mesma, tornando-a novamente colorida e produtiva. Sabia que havia ganhado naquela pequena companheira um grande presente, pois dividiria com ela, de perto, todas as belezas e desafios das futuras estações, tantas quantas a natureza permitisse que apreciassem juntas.

Sentindo-se abençoada, a árvore relfetiu que para merecer tal presente, a única coisa que lhe tinha sido pedida foi que se despojasse de tudo que imaginava seu – frutos, folhas – e que os entregasse aos ritmos da natureza. Fora-lhe pedido que confiasse no poder maior que girava os ciclos da vida, e que escapava à sua limitada compreensão individual.

A árvore compreendeu que somente com sua plena entrega puderam ser abertos os caminhos para a maravilha daquelas novas alegrias, daqueles novos encontros e daquela nova vida.

Árvore frutífera

Do pensamento-seita ao pensamento livre

Uma pergunta que tenho me feito bastante ao longo da vida adulta: o que há com grupos, teorias e seus adeptos que os faz invariavelmente adquirir aspectos de seita e fundamentalismo?

Não me excluo da proposição: eu mesma já fui defensora ferrenha de certas verdades e princípios filosóficos, como se toda a realidade devesse neles se encaixar. Defendi combativamente pontos de vista que hoje deixaram de ter importância ou sentido para mim. E é curioso que enquanto estamos fundamentalistas a respeito de algo, não é assim que nos percebemos: parece apenas uma questão de afirmar “o que é certo”.

Vivi bastante essa oscilação entre verdades cristalizadas na época da faculdade. Estudei psicologia há mais de dez anos em uma cidade do interior do Brasil, onde cada grupo teórico se apresentava como um clube particular buscando angarear sócios. Para acessar e permanecer no clube era necessário seguir à risca certas regras morais, linguísticas e comportamentais, tácitas e explícitas. Desde o início dos estudos a guerrilha entre as diferentes verdades me angustiava, pois via em muitas delas idéias que faziam sentido e que apontavam para uma base comum.

Lembro que no primeiro ano de faculdade ainda, já percebendo a pressão que os grupos exerciam sobre os estudantes para que escolhessem uma identidade teórica mais fechada, eu dizia aos colegas: “acho que vou ter que inventar minha própria teoria”. Fui acusada de heresia e pretensão, mas meu intento não era subestimar a complexidade de tudo que já existe – eu apenas buscava uma psicologia mais aberta e universalista, que acomodasse as boas idéias e bases comuns que todos os grupos possuíam.

Por outro lado, o ecletismo irresponsável – a junção de pedaços e técnicas sem o devido aprofundamento do seu significado, levando em conta apenas o critério do ego, ou “aquilo que me serve” – era uma postura que também não tinha apelo. Perdida entre o fundamentalismo e o ecletismo superficial, terminei a faculdade escrevendo sobre a necessidade de que as formações em psicologia estimulassem estudos de base mais filosófica e menos sectária, deixando de tratar teorias como fetiches e buscando uma base mais universalista para suas discussões.

Dali em diante minha investida na psicologia tomou um rumo bastante acadêmico-teórico por alguns bons anos, até o ponto em que comecei a sentir a aridez do que seja qualquer teoria sem uma boa prática – mas isto é uma posição pessoal e seria tema para outra conversa. O que importa é que olhando hoje para a época da faculdade, percebo que além do contexto de época e lugar, também esta pouca experiência contribuía para a “gravidade” da ansiedade que eu sentia frente à pressão para fechar pacote com um grupo definido, e assim ter direito à identidade de psicóloga.

Uma vez que se começa a ser psicólogo para um outro ser humano, fica evidente que quanto mais fechado o conceito com que se trabalha, mais pobre e menos efetiva – quando não danosa – é a intervenção. Por mais que os sectarismos tentem englobar e explicar a totalidade da vida, ela é sempre muito mais dinâmica e poderosa do que as verdades cristalizadas em um livro qualquer.

Voltando à pergunta inicial, há um ingrediente ainda mais poderoso do que a mentalidade obtusa e a inexperiência que parece estimular o sectarismo: a insegurança de se trilhar um caminho mais criativo, que acaba sendo também mais solitário. Em muitos aspectos, é mais fácil pertencer a uma ordem e ser cegamente guiado por seus preceitos. A fórmula já está pronta, são oferecidas autoridades morais em quem se espelhar e existem dispositivos institucionais para proteger os adeptos de condenação moral no caso de equívocos.

Ser espelho, seguir regras e trilhar por searas conhecidas é importante para a formação básica do caráter pessoal e profissional. Mas, para os espíritos mais inquietos, sempre chega o tempo em que as verdades prontas passam mais a amarrar do que a viabilizar o seu ser e as suas energias. Neste momento é preciso decidir entre permanecer na segurança do “mais do mesmo” ou quebrar com os padrões conhecidos, adotando uma postura discernente e, inevitavelmente, dissidente. Desnecessário dizer que a segunda opção requer uma dose extra de coragem e de confiança em si mesmo, pois sobrarão críticos para este tipo de escolha, e faltarão garantias de que ela seja sustentável.

Os trabalhos mais bonitos e inspiradores que conheço, porém, fizeram justamente o movimento de quebrar com alguma tradição e trilhar um caminho mais solo e autêntico. Este tipo de postura não é dada a pregar fórmulas, e por isso não costuma fazer escola. Mesmo assim, sua criatividade transborda e irradia: realizando-se no que faz e sem nada precisar impor, estimula os outros a buscarem eles também formas mais livres e criativas de viver, pensar e trabalhar.

criatividade

Educar a percepção

Dia desses encontrei foto minha do período da adolescência, uma época da vida que memorizei como conturbado, cheio de desilusões amorosas, inseguranças, sentimentos de solidão e de incompreensão. A verdade era que eu não via a hora de ficar adulta, imaginando que mais velha, independente e formada, aquele turbilhão de sentimentos obscuros acabaria e eu encontraria alguma paz.

Essas especulações se revelaram em algum grau verdadeiras, pois me sinto muito mais confortável na minha pele hoje do que me sentia aos 15 anos de idade. Mesmo assim, olhar para meu semblante naquela foto não deixou de surpreender. Nela eu parecia – e estava – jovial, alegre e relaxada. Um estado de espírito que não tinha ficado registrado nos meus arquivos conscientes a respeito da adolescência. E junto com a surpresa da foto vieram lembranças de outros momentos e aspectos felizes daquela época, os quais minha memória vinha preferindo deixar escondidos em alguma região inacessível.

Isto me fez pensar em como nossa memória é criteriosamente seletiva. Ela encadeia acontecimentos e sensações de modo a compor o enredo em que preferimos acreditar. A realidade sempre pode ser vista de vários ângulos, mas quase sempre escolhemos uma história específica que queremos contar para nós mesmos, e ficamos apegados a ela. A realidade dos fatos existe – há vidas com mais desafios, outras com menos – mas ela é bastante filtrada e depurada para caber em nossa interpretação.

Muito mais do que uma coleção de fatos objetivos, nossa memória é carregada de emoções e subjetividade. Quando a história que ela nos conta não é particularmente feliz ou provoca sofrimento, pode ser bastante frutífero perguntar-se sobre como vimos interpretando nossa própria realidade. Algo simples como a surpresa de uma foto inesperada, um reencontro com alguém do passado ou um depoimento de um amigo antigo pode provocar isto. Auto análise, meditação e terapia pessoal também.

O mesmo princíprio envolvido neste ‘desconfiar da própria memória’ ajuda a lançar luz sobre nossa vida atual e nossas esperanças para o futuro. Estamos valorizando de forma justa as alegrias que nos são concedidas pelo momento presente? Elas vão desde as coisas mais básicas, como estar vivo e ter boa saúde, até os prazeres mais refinados como ler, pensar, emocionar-se, ser amado e amar. E da mesma forma, estamos mantendo acesa a chama da esperança de dádivas tão ou mais belas, ou outras ainda, que nem podemos imaginar, a serem trazidas pelo dia de amanhã?

Apaziguar nossa relação com os tempos da vida – sejam eles passados, presentes ou futuros – requer que eduquemos nossa percepção da realidade. Envolve focar e ser gratos por aquilo que temos, compreendendo com mais serenidade aquilo que nos falta, por que nos falta, e o que podemos aprender com isto. Até mesmo às faltas temos razões para agradecer: são elas que nos mantêm em constante movimento.

percepção

Reforma, revolução e rebelião

Li há pouco tempo um trecho de um livro do Osho* que me ajudou a clarear o que penso a respeito de reformas, revoluções e verdadeiras transformações.

Reformas e revoluções são mudanças como que estéticas: atuam nas camadas mais externas da consciência e por isso produzem mudanças que não são totalmente sustentáveis. Se enquadram como reformas e revoluções praticamente todos os esforços de engenharia social e consciencial impostos às pessoas externamente (leis, moral vigente, cartilhas institucionais, regimes de governo) e também os esforços empregados pelas próprias pessoas para domar aspectos indesejáveis de suas personalidades.

A idéia chave é a presença da força: seja ela vinda de fora ou por iniciativa da própria pessoa, qualquer mudança que dependa da coerção (auto ou hetero imposta) presume a coexistência de forças inimigas guerreando eternamente por seu espaço. Estas mudanças são frágeis e não podem existir sustentavelmente. O inimigo, temporariamente derrotado e capturado – seja ele um valor reprimido ou uma prática banida – sempre esperará que surja um ponto de fragilidade no sistema vigente através do qual tentará arruinar os esforços positivos de transformação. A força reprimida irá ocupar, no devido tempo e dada a devida oportunidade, o lugar da força opressora.

Esta idéia me ajudou a entender melhor meu desconforto com propostas revolucionárias como a do comunismo. Estudante de ciências humanas, convivi bem de perto por alguns anos com pessoas irredutivelmente partidárias de revoluções comunistas. Muitas delas meus amigos e amigas. Algumas poucas chegavam a alimentar sonhos de revolução armada, uma posição tão extrema e descabida nos dias de hoje que mesmo nos meios esquerdistas já existe um pudor em assumi-la abertamente.

Mas mesmo aqueles que não falassem em métodos fisicamente violentos me pareciam bastante violentos na forma de conceber a sociedade e as relações com o suposto inimigo – no caso, tudo e todos que representassem o capitalismo. A sociedade sonhada pelos revolucionários esquerdistas é insuflada por profundo ódio e exclusão deste inimigo, ódio esse que se revela nos discursos inflamados e nos sonhos de uma sociedade “livre” de certas figuras sociais e estilos de vida personificados em instituições e seres concretos. São sonhos e discursos muitas vezes similares aos de uma limpeza étnica.

Como bem coloca Osho, uma revolução comunista só pode se sustentar como ditadura. Deixadas às próprias consciências, as pessoas a quem o não-consumo e a não-individualidade tenham sido impostos rapidamente retornariam ao modo capitalista, individualista e competitivo de funcionar. Isto porque a mudança para os valores coletivistas e cooperativistas – a parte bonita do comunismo, que lê bem no papel – não se deu a partir de uma mudança íntima nas pessoas; foi apenas uma vontade alheia de engenharia social assegurada pela sombra da violência.

Reformas e revoluções têm o seu valor e até deixam algum legado positivo. Ninguém poderia negar que boa parte do planeta evoluiu, por exemplo, nas atitudes com relação às minorias, na maior consciência ecológica-ambiental e na substituição de ditaduras e teocracias por arranjos democráticos e pelo livre pensamento. Quem vive nos dias de hoje pode respirar aliviado por não ter vivido em épocas anteriores do planeta em que o grau de respeito e proteção à vida era, em geral, muito mais baixo.

Mas a presença da violência torna o preço que as revoluções cobram alto demais, e as mudanças que constróem podem ser rapidamente desfeitas pelos ciclos da história. Todas essas transformações positivas se deram à base da força, muitas vezes através de guerras, ódio e sangue derramado. E vivemos ainda sem garantias de que não haverá um retorno das mentalidades obtusas, das violências simbólicas e físicas contra minorias, das ditaduras e da destruição do planeta. Todos estes problemas parecem ser inimigos vivos que dormem, temporariamente domados, à espera de uma oportunidade de recobrar suas forças e reclamar o seu lugar.

Para Osho, as verdadeiras e duradouras transformações se dão não pelas reformas e revoluções, mas sim através da rebelião. Rebelião seria um estado de percepção profunda que reconhece a própria natureza humana e a presença das forças positivas e negativas em si e nos outros – bem e mal, vida e morte, luz e sombra. Há o reconhecimento, a compreensão radical e o perdão incondicional de todas as falhas, as próprias e as alheias, ao invés do combate violento contra elas. Não existem inimigos. O veneno-ódio é transformado em remédio-amor, e desta compreensão radical nascem grande força, profunda paz e contentamento.

A rebelião é como uma iluminação da consciência que começa por dentro; é um processo íntimo, fruto do auto conhecimento, que pode ser mediado, mas que só se completa por vontade pessoal. Somente a rebelião consciencial leva à verdadeira transformação da pessoa, que não precisa mais ser teleguiada por diretrizes outras que não aquela da própria luz interior.

Rebelar-se é exponenciar nosso poder de compreensão de todas as situações para que, com convicção inabalável, favoreçamos as transformações positivas que desejamos ver no mundo sem hipocrisia, através do próprio exemplo. Por mais difícil que seja colocar esta premissa em prática em sua integral extensão, ela vale como uma lembrança do quão mais raras, valiosas, duradouras e contagiantes são aquelas transformações operadas dentro de nós mesmos.

*A Flauta nos Lábios de Deus: o significado oculto dos evangelhos – capítulo 08.

oferecendo flores

Primeiro post

Resolvi criar este blog para compartilhar pensamentos fugidios sobre temas variados, quando eles não se encaixam bem nos formatos de outros sites nos quais tenho me feito presente online. A idéia inicial é ficar dentro dos temas que me são mais familiares e que ocupam boa parte de minha atenção, mas nada impede também que compartilhe uma bobagem qualquer ou uma história pessoal.

Gosto de escrever, mas não tanto de me expor. Nesse momento da vida, no entanto, tenho pensado em como já me beneficiei de acessar ideias escritas aqui e acolá, muitas vezes através de sites totalmente despretensiosos, como quero que este também seja. A livre circulação de idéias enriquece o pensamento, e a internet possibilita trocas muitas vezes frutíferas – outras, é verdade, desgastantes – sobre os assuntos mais inesperados.

Os posts serão na maioria em Português, minha língua materna, mas alguns podem ser em inglês, e nesse caso deixo a tarefa da tradução com o leitor. Vou procurar organizar os temas através das tags e, com o tempo, dependendo da evolução ou involução da coisa, é possível que o blog seja desmembrado em áreas de interesse diferentes. Também pode, claro, vir a ser abandonado e apagado, pois não é incomum que chegue um momento em que nos cansamos de versões velhas de nós mesmos.

Enquanto ele estiver vivo e fizer sentido, será alimentado sem pressa e sem compromisso com pequenos textos escritos por mim ou por outras pessoas, neste último caso com a autoria devidamente mencionada. Considero aquilo que escrevo não como meu, mas como algo que passa através de mim após ter sido compartilhado comigo de alguma forma, em algum momento. No fundo, são diálogos silenciosos, que talvez possam ser de utilidade ou interesse para algum outro ser humano perdido aí pela Terra.

Até breve!