Palavras são toques na alma

Algumas passagens da infância marcam a nossa memória sem que saibamos exatamente o por quê.

Entre as minhas está um momento vivido em torno dos dez anos de idade, época em que estudava com gosto a bíblia e os ensinamentos cristãos, que permearam minha formação de base num colégio franciscano do interior de Santa Catarina.

Eu estava sentada no banco da igreja católica ouvindo, como de praxe semanal, a explicação do padre sobre o evangelho lido naquele dia, que incluía o seguinte trecho dos provérbios (12:18):

“Há alguns que falam como que espada penetrante, mas a língua dos sábios é saúde.”

Ainda posso me ver sentada no banco comprido de mogno, com a roupinha comportada e o cabelo domado por uma tiara, bem atenta àquelas palavras que se gravavam na alma como um insight mágico. ‘Sim’, pensei, ‘isso é tão verdadeiro! Como seria bom se todos tivessem consciência disso…’

Tantos anos mais tarde, afastada da igreja desde os catorze ou quinze, a metáfora da língua como espada ou como saúde permanece gravada profundamente no meu coração. É, sem dúvida, uma das verdades espirituais que mais amo – o que, claro, não quer dizer que nunca tenha vacilado quanto à sua consecução.

A luz deste provérbio está sempre no background da minha consciência, e por isso uma das coisas que mais me entristecem é cometer – ou ver cometida – a violência através das palavras ou das intenções.

Sim, as intenções, os sentimentos que animam o dizer, são o que de fato valem, pois o fel do destempero de alguém transparece muito claramente mesmo quando profere as mais belas e corretas palavras.

O mais cristalino discernimento será maculado se não for comunicado desde as águas serenas do coração. A palavra nunca cura quando é movida por intenção ácida ou ferina.

A palavra-saúde é aquela que nasce de intenção tão doce quanto a da mãe que se dirige à criança amada. É qualidade de natureza feminina, mas que precisa ser ativamente desenvolvida por todos, homens e mulheres, na alquimia pessoal de se tornar alguém melhor.

Palavras são toques na alma. É sempre bom lembrar que almas são partículas de Deus extremamente sensíveis às durezas e às delicadezas de trato, e que os efeitos de nossas intenções e palavras são de nossa inteira responsabilidade.

Nesses tempos de comunicação tão banalizada e inconsequente, penso no quão valoroso seria se sacralizássemos um pouco mais as intenções e os conteúdos que propagamos no mundo.

Certamente viveríamos em um ambiente mental menos ruidoso, menos conflitivo e menos doloroso, ao passo em que poderíamos continuar afinando, de forma mais harmoniosa, nossas aparentes diferenças.

Pink rose reflection

Inteligência e Sabedoria

Muito se fala hoje sobre a diferença entre inteligência e sabedoria. Enquanto a primeira é uma faculdade fria e árida do intelecto, a segunda é uma percepção mais ampla, rica e profunda da realidade, aquecida pelo amor e sustentada por uma concepção espiritual da vida.

A sabedoria é uma faculdade do espírito; é superior à inteligência e pode dela fazer uso. Já a inteligência é dotada da neutralidade de qualquer instrumento: pode ser colocada a serviço de propósitos deletérios, inócuos, ou afins à sabedoria.

Muito além de compreender a diferença entre ambas, experimentá-la na carne foi um aprendizado chave na minha atual vida.

Cresci estimulada a ter uma auto imagem de ser alguém inteligente. Os fundamentos emocionais sólidos e os incentivos generosos da família, professores e amigos me levaram a desenvolver uma auto estima saudável nesse ponto, ajudando-me a ser uma criança curiosa, interessada em ler, estudar e analisar com profundidade os acontecimentos ao meu redor.

Até certo ponto na vida o desenvolvimento da inteligência conviveu pacificamente com o coração generoso e alegre que é natural de toda criança. Aos poucos porém, ao longo do processo de solidificação do ego adulto, fui erroneamente me identificando com valores do mundo. O resultado foi que a alegria perdeu espaço para uma ansiedade pesarosa, e a generosidade real foi sendo suplantada por desejos que, embora pudessem ser altruístas na estética, eram no fundo de natureza individualista.

Uma ilusão central era a de que seria possível, através do desenvolvimento e direcionamento da inteligência por si mesma, desempenhar um papel relevante nas transformações sociais positivas. Havia um desejo de fazer uma diferença positiva no mundo, mas ele era rebaixado pela expectativa implícita de fazê-lo transitando no território do reconhecimento humano.

O consistente bom desempenho escolar, a facilidade para passar em concursos e o acúmulo de títulos humanos todos alimentavam em mim a ilusão de estar trilhando um caminho real de progresso pessoal. O problema foi que ao longo desse caminho eu fui deixando de lado, por covardia perante a pressão do meio e por ignorar as consequências dessa atitude, as práticas e estudos espirituais que desde criança haviam sido parte integrante e natural da minha vida.

Ao cabo de alguns anos de conquistas acadêmicas e profissionais a vida quis me mostrar, contrastando um auge externo na carreira com o ponto mais baixo no equilíbrio pessoal, o quanto eu havia errado em recobrir o espírito com a areia da quinquilharia emocional e mental acumulada em quase trinta anos de existência.

Ao serrar minha ligação com o mundo espiritual eu adentrava a perigosa zona da ilusão materialista sem o amparo da sustentação mais vital de todas, a espiritualidade. A inteligência árida passou a coexistir com um coração pesado e um corpo desvitalizado. Eu me sentia frágil, vazia e sem esperança de recuperar a alegria de viver.

Tempos difíceis foram esses de escuridão auto infligida. Tempos de educação da alma, porém. Por sorte ou algum crédito cármico que desconheço, foi justamente nesse período que pude reencontrar, através de situações, experiências, sensações, ideias, sentimentos e pessoas, a realidade espiritual ainda ardendo em brasa dentro do meu coração.

A força deste amparo reergueu de forma admirável minha vitalidade, alegria e clareza de propósito. Foi como um segundo nascimento.

As verdades espirituais se inscrevem no campo da sabedoria e é somente ela, aliada ao amor, que pode dar uma verdadeira sustentação perante as questões mais importantes da existência. A inteligência tem um valor menor e relativo. Ela não garante segurança emocional, robustez existencial, qualidade moral, atitude correta e muito menos um sentido para a vida.

Perceber a diferença entre inteligência e sabedoria foi a chave que recuperou minha conexão com as coisas do espírito, que voltaram a guiar meus passos desde então.

Hoje sinto que os desdobramentos desse insight foram muito além do que eu poderia imaginar. Sinto-me mais forte para encarar as dificuldades a que todos estamos sujeitos e seguir melhorando. Estou também mais consciente em relação ao quanto ainda tenho a aprender e praticar. Busco integrar a inteligência a um conjunto maior de valores, e não mais aos julgamentos do ego.

Acima de tudo sou muito mais feliz, por saber e sentir que a estrada da evolução, embora às vezes sinuosa, nos conduz sempre a realidades cada vez mais admiráveis.

We are flowers circling round the sun.
We are flowers circling round the sun.

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“Certa vez, havia um intelectual brilhante que contratou um homem para levá-lo ao mar no seu barco a remo.

Ele perguntou ao barqueiro: ‘Meu bom homem, você sabe alguma coisa de astronomia?’ ‘Não.’, respondeu o barqueiro. ‘Que pena,’ disse intelectual; ‘Você está perdendo tanto; um quarto da sua vida está desperdiçado. Mas, talvez você saiba alguma coisa de física?’’Nem um pouco, Sua Excelência!’ disse o barqueiro. ‘Oh, meu pobre homem, dois quartos da sua vida estão perdidos!’ lamentou o erudito; ‘Mas talvez você saiba bastante de química?’ ‘O que é isso?’ disse o barqueiro; ‘Nunca ouvi falar!’ ‘Que ignorância,’ lamentou o estudioso; ‘Três quartos da sua vida desperdiçados!’

O pequeno barco foi mais e mais mar adentro e, dentro em pouco, uma tempestade violenta estourou e as ondas ameaçavam engolfá-los.

‘Sua Excelência,’ gritou o barqueiro; ‘Você sabe nadar?’ ‘Não, não sei.’ respondeu o intelectual. ‘Bem, Senhor,’ exclamou o barqueiro; ‘São quatro quartos da sua vida desperdiçados!’

Vocês veem? Há alguns tipos de conhecimento que não são muito úteis. Não são nada mais do que decorações. Ah, com certeza, podem ser usados para ganhar dinheiro, mas se uma tempestade vier vocês logo verão se conseguem ajudá-los a nadar! A vida é um oceano, como vocês muito bem sabem, e nesse oceano existem alguns tipos de conhecimento que são muito mais úteis que outros: o conhecimento que pode ajudar um homem a viver.

Que direção dar à sua vida; qual alto ideal escolher; como transformar os pensamentos e sentimentos que nos perturbam; como interpretar os eventos acontecendo ao nosso redor; como verificar nossas relações com o macrocosmo; como comer, dormir, lavar-se e respirar… como amar: estas são as coisas que precisamos conhecer.”

~ Omraam Mïkhael Aïvanhov in: The Second Birth, Love, Wisdom, Truth
Postado originalmente e traduzido de Journey with Omraam

As primeiras Magnólias

É verdade que a primeira árvore florida avistei cedo neste inverno Londrino, ali nos últimos dia de Dezembro. Fiquei surpresa com a precocidade daquela cerejeira; depois pensei que vinha sendo mesmo um inverno ameno.

Para as plantas, as estações não se marcam no calendário; acontecem no sentir. E para elas, apesar dos dias frios de céu cinzento persistente, já vivemos os primórdios da primavera.

Sim, estações do ano são parte do aspecto fenomênico da realidade, e todos os anos se repetem sem grandes novidades. Em tese não haveria nada a se comemorar ou lamentar com a sua passagem. Mas desde o ponto de vista de quem experimenta a vida fenomênica na carne, as renovações sazonais provocam mudanças sensíveis e coletivas no humor e no ritmo da vida.

A primavera traz consigo por excelência a esperança da vida que recomeça.

É a estação favorita de muitos. Pessoalmente não consigo decidir, pois vejo belezas e prazeres próprios em cada época do ano. Talvez a que mais me enfada é o verão, mas nos últimos anos a coisa tem mudado de figura. Viver em terras oceânicas temperadas faz com que se aprenda a apreciar de forma especial a presença fulgurante do sol.

Além dos dias mais longos, as pequenas flores salpicando aqui e ali e o crescendo dos pássaros nos parques já dão o tom primaveril nos ares da cidade. As cores, os sons e a luz desta linda estação operam um verdadeiro milagre, reanimando e rejuvenescendo os corações abatidos pela aridez do inverno.

É cedo no calendário dos homens, mas a natureza avisa e os corações observadores sabem: por aqui, as bênçãos antecipadas da primavera já dão o ar de sua graça.

As primeiras flores de Magnólia
As primeiras flores de Magnólia

Um caso de amor com as coisas da Índia

Era para ser um simples post sobre as minhas recentes incursões em terapia Ayurveda. Mas percebo agora que o poderoso efeito que esse tratamento tem tido sobre mim é apenas um elo de uma cadeia que, nessa vida, se iniciou há alguns anos, mais acentuadamente nos últimos três.

Já escrevi por várias vezes sobre o quanto aprecio morar em um bairro hindu de Londres. Poderia dizer em essência que aqui me sinto cotidianamente estimulada pelos símbolos, cheiros, práticas, estética e outras manifestações culturais inscritas nessa tradição. Elas me remetem quase à revelia de minha vontade ao intangível perfume espiritual da Índia, dispensando-me de experimentar os aspectos mais crus que uma viagem física à Índia milenar, material, moderna e humana traria.

Não que a essência espiritual resida de fato em alguma localização geográfica. A espiritualidade mora e vive nos corações que a carregam pelo mundo afora, e aqui no bairro calha de haver muitos: alguns com o empurrão do condicionamento cultural, outros independentemente dele.

Não foi intencional a escolha dessa região para morar. Uma sincronicidade acabou mudando o plano original de nos assentarmos num bairro do sul da cidade, que conhecíamos melhor. E de 2013 pra cá muitos foram os insights e aprendizados sobre essa cultura pela qual hoje me declaro apaixonada.

O interesse começou antes, com sensações e descobertas pontuais. Lembro-me de uma ocasião em particular, numa época em que as coisas da Índia não faziam ainda parte do meu universo mais ativo de interesses. Vi, no lampejo do olhar de uma pessoa, alguma coisa que claramente transcendia em muito a dimensão mais grossa da materialidade. Impressionada, um pensamento me invadiu: “esse é o olhar de um iogue”.

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Dissipado tal pensamento, voltei à mente analítica normal e perguntei a mim mesma: mas você que não sabe nada de Hinduísmo, o que acha que sabe a respeito de iogues? Não puxei muito o fio da meada na época, mas a transcendentalidade do tal olhar ficou profundamente gravada na minha alma, como uma pergunta que, apesar de oculta, continua a ansiar por resposta.

Segui estudando ocasionalmente elementos da espiritualidade hindu, que apareciam em meio a outros temas com os quais me identificava mais. Mas tudo ainda parecia muito hermético e difícil de entender. A complexidade do assunto parecia maior do que a minha capacidade de compreendê-lo.

O problema era que vinha tentando entender com a mente. O que quebrou a barreira e me conquistou definitivamente para o universo do Hinduísmo foi a experiência de me sentir acolhida, amparada, guiada e amada por pessoas e seres ressoantes a essa vibração.

Das cuidadoras da escolinha que minha filha começou a frequentar em pleno festival do Navratri (em homenagem à Mãe Divina), quase todas Indianas e muito queridas, passando pelos comerciantes e prestadores de serviço do bairro, sempre muito solícitos, pelo dono super gente boa do apartamento que alugamos e vizinhos simpáticos, até mestres espirituais que admiro, os ventos espirituais da Índia me envolveram de forma irresistível e irreversível.

Meu interesse e envolvimento tem aumentado ainda mais recentemente, desde que comecei a experimentar sessões semanais de massagem terapêutica Ayurvédica. Vinha, em Dezembro passado, sentindo uma fadiga extraordinária, à época sem explicação física plausível, o que me levou a considerar esse tratamento como uma alternativa para melhorar o meu estado.

Cheguei sem saber o que esperar, totalmente desprovida de informação. Sabia apenas que se tratava de medicina tradicional Indiana. Na conversa para o diagnóstico e prescrição já gostei do que escutei; o Ayurveda é um sistema milenar que baseia sua prática na ideia dos elementos da natureza e do seu equilíbrio na composição energética do corpo. A massagem é feita com o estímulo de pontos energéticos vitais usando óleos herbais adequados ao desequilíbrio em questão. Terminada a consulta com a médica, segui os passos da senhora que seria a minha massagista em direção à sua sala de massagens.

A experiência é difícil de descrever. Talvez por eu ser uma pessoa bastante mental, a massagem daquela senhora, que começa com uma espécie de aquecimento no ponto do chakra frontal, parecia ir quebrando e derretendo várias camadas endurecidas e esquecidas no meu corpo e memória.

A sala, toda em madeira avermelhada escura, tem uma pequena vela e algumas luzes douradas no teto, que dão a iluminação mínima necessária para ela trabalhar. A música, sempre hindu, é deixada em volume moderadamente alto, o que parece fortalecer o seu poder curativo. Já no meu primeiro dia lá dentro tocou uma coletânea de mantras poderosos entoados por um coro de crianças. O cheiro é fortíssimo, uma mistura de incenso com temperos – nem todos apreciam; eu adoro. O óleo é muito quente, quase chega a queimar. O processo é finalizado com uma massagem com um saquinho de ervas embebidas em óleo, lembrando uma pajelança. Nas últimas duas sessões, percebi que minha querida massagista começou fazer uma espécie de oração também. Em outro idioma – provavelmente Gujarat ou Sânscrito – e muito discretamente. Fiquei sem jeito de perguntar, mas sim, ela está incluindo agora uma espécie de vocalização curativa. Meu caso deve ser brabo… risos.

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Já me sinto quase totalmente recuperada do cansaço – o que também atribuo a ter iniciado uma suplementação alimentar com ferro e vitaminas. Mas o maior ganho mesmo tem sido a chance de deixar que o calor do óleo derreta os vestígios de bloqueios do corpo, emoções e mente. De me deixar transportar, pela pungência daquele cheiro, para percepções novas e memórias que eu desconhecia, e que estão mexendo muito com meu coração. De viajar nas vibrações daquelas músicas e de agradecer, infinita e profundamente, por estar tendo acesso a tantas coisas boas assim.

Se bem me conheço, esse caso de amor com as coisas da Índia não me transformará em uma pessoa fantasiosa nem fanática com nada. Há outras atmosferas espirituais pelas quais nutro um amor mais sedimentado – como a Celta, por exemplo – então é mais uma que vem para somar, não predominar. No mais, saio da massagem e já vou voltando à realidade comum, vivendo a vida normal, como todo mundo e sem tentar convencer ninguém de nada. Mas dentro do meu coração eu sinto aquelas pequenas vertigens que antecedem as revoluções íntimas. Ele passou a dançar em êxtase com as energias dessa atmosfera, assim como dançam os corações retratados no lindo filme abaixo (a partir do minuto 12:30):

Não sei dizer no que esse caso de amor vai dar, só sei que ele me deixa profundamente feliz. E por isso vou apreciando-o como posso, com a alegria inocente da criança, que pouco sabe e nada espera, mas tudo sente.

Love unites us, Truth sets us free

[Originally written and published in Portuguese]

Love and Truth: so many insights are contained in these simple words! To me, they summarise the essential learning of how to be human in the best sense. Because the best sense of being human is the faculty of Loving with Truth; of uniting whilst honouring freedom; being together without imprisoning.

So much can be said in this respect and so much has already been, in ways much better than I could hope to. But I can sincerely say that I understand, am provoked by and touched by this paradoxical combination: Love and Truth.

Yes, because part of me knows, in practice, what it is like to Love without Truth: hurtful attachment. And part of me knows what Truth without Love can be like: arrogant pride.

Love without Truth suffocates; Truth without Love destroys.

The combination of Love with Truth, however… is a veritable explosion of Good. A centrifugal and centripetal whirlwind at the same time. It elevates everything it touches. It generates strength and energy. It turns the world around. It makes everything grow and become better.

As an apprentice of being human in the best sense, I manage to access some Love with Truth in my most inspired moments. They never last long enough to satisfy the infinite thirst for progress. But gladly so: the path of evolution never reaches its end, and we are forever able to enjoy new landscapes along the way.

Now I understand: my essential search is for learning how to live both the Love that unites and the Truth that sets us free, in a synchronous and increasingly perennial way.

The road may be long, but the destination is fabulous. Infused with hope, the path becomes even more beautiful. And the best mantra to keep us company in this marvelous journey of self betterment is this: Love and Truth.

So be it.

True Love

Pessoas bálsamo e pessoas veneno

Poderia-se imaginar do título desse post que ele trata de dois tipos diferentes de pessoa. Mas o que eu gostaria de escrever hoje é sobre a nossa capacidade de ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Exercitando a mais pura honestidade, reconheceremos essa limitação central da nossa condição humana presente. É uma contradição que todos carregamos; o ser inferior e o ser superior em nós mesmos, a sombra e a luz, especialmente considerando-se uma mesma vida, em que melhoramos tão devagar e tão pouco.

Somos capazes de viver momentos maravilhosos, de coração transbordante e compaixão universal irrestrita, acessando neles talvez uma pequena fração da abundância de luz que habita permanentemente os corações dos grandes mestres do Amor.

Nunca demora muito, porém, para que à chuva de luz se sucedam os períodos desérticos, que são conseqüência das várias pequenas frestas que abrimos cotidianamente para os pensamentos e emoções sombrios. A carga psíquica negativa cuja entrada permitimos e que displicentemente alimentamos aumenta progressivamente até engolfar todo o nosso ser. Uma horda de seres interessados em ver nosso coração cativo dos maus pensamentos e dos maus sentimentos não demora a se aliar a essa empreitada do eu inferior para sabotar aquilo que temos de luminoso.

Somos ainda principiantes na arte da equanimidade. Ainda que no longo prazo e a despeito de nossos deméritos a lei evolutiva nos conduza sempre a melhores paragens, em nossa escala de tempo pessoal poderíamos poupar muito sofrimento próprio e alheio se fôssemos mais versados em reconhecer as artimanhas de nossa própria sombra. Ela sempre se alimenta daquilo a que assentimos por ignorância espiritual, ego ou vaidade.

Ah, como gostamos de nos acreditar melhores, mais justos, mais percebedores da realidade do que os outros, especialmente aqueles que pensam diferente de nós. Somos todos pequenos messias de nossas verdades, sempre dispostos a decepar as “ilusões alheias”, mas cegos ao tamanho desproporcional de nossos egos julgadores.

Ah, como ansiamos ser grandes em nossos pequenos microuniversos… E como ficamos ridículos quando acreditamos ter atingido o ápice da iluminação acerca de algum assunto. É sempre a partir desse momento que nos aguardam as lições mais dolorosas, aquelas que nos colocarão de volta em nosso merecido lugar evolutivo.

É por sorte que somos acompanhados por amigos visíveis e invisíveis que velam por nosso real progresso. É pelas mãos deles e delas que somos impedidos, de inúmeras formas, de levar a cabo nossas investidas de auto sabotagem.

Muitas vezes, exaustos dessa batalha interna entre nossa luz e nossa sombra e prestes a cair na tentação de ligar o piloto automático da vida medíocre, percebemos que são colocadas em nosso caminho pessoas, situações e ideias luminosas para nos impulsionar um pouco mais adiante. Assim, às grandes angústias seguem-se grandes alegrias. Aos momentos de profunda ignorância seguem-se os lampejos salvadores de lucidez.

A lucidez espiritual traz paz e contentamento, mas é muito difícil tê-la sempre presente. São esses nossos amigos que nos abrem os olhos do discernimento e a generosidade do coração. Deixados aos próprios recursos não venceríamos nossa sombra; causaríamos muitos danos a nós mesmos, e, por ação ou repercussão deletérias, aos outros também.

Felizes aqueles que sentem fazer cada vez menos sentido ventilar o próprio lado pessoa-veneno. Tudo que comunicamos com pesar, revolta, ressentimento e amargor emana correntes tóxicas, que invariavelmente voltarão a nós em algum ponto do caminho.

Não importa apenas o conteúdo do que comunicamos, mas também, e talvez até mais, a energia que vai com esse conteúdo. Quem de fato está vigilante quanto às cargas emocionais que projeta, secreta ou abertamente no mundo?

Não importa o quão justificável lhe pareça o alvo: o destino final de suas emanações sempre será você mesmo.

E assim como é certo que nosso veneno destruirá pouco a pouco o nosso próprio coração, também o bálsamo que eventualmente espalharmos com nossa presença e nossas ações, veladas ou declaradas, retornará a nós, na forma de ajuda real nas nossas horas mais difíceis.

Então, para sermos cada vez mais bálsamo e menos veneno, cabe gravar indelevelmente no coração algumas palavras:

Lucidez para conhecer as artimanhas do ego inferior e fechar inteligentemente as frestas por onde ele se alimenta e ganha força.

Amor e compreensão para recusar qualquer convite ao conflito.

Gratidão a tudo e a todos que reforçam o que há de luminoso em nós; e também a tudo e a todos que desafiam nossos bons propósitos.

Determinação para prosseguir na trilha do autoconhecimento e do domínio de si mesmo.

Harmonia e equilíbrio em todos os nossos passos.

Maat, a personificação da Verdade, do Equilíbrio e da Justiça na cosmogonia do Antigo Egito.
Maat, a personificação da Verdade, do Equilíbrio e da Justiça na cosmogonia do Antigo Egito.

Em alguns dias de rara magnanimidade, eu senti as correntes do Bem Maior atravessando o meu pequeno ser, e fiquei assombrada com a Força que a tudo regenera. Em outros dias também didaticamente inesquecíveis, eu acessei as correntes da Sombra coletiva e quase sucumbi em meio ao caos imagético, mental e emocional que me enxovalhava por dentro.

A alternância dos bons e maus estados se dá, no cotidiano, em um grau menos dramático do que nestes dias raros de intenso sentir. Mas a lição da experiência tem sido essa: somos capazes do melhor e do pior, e todos os dias nos é dada a escolha de qual tendência iremos alimentar. Quem entende isso de verdade não tolera mais em si mesmo a propensão para ser crítico do mundo, pois sabe que ao erguer um tribunal combativo estará na verdade apenas condenando a si mesmo.

Quando um tijolo vale mais que uma boa vibração

Um acalorado debate tem acontecido entre os residentes da localidade onde moro, uma das regiões mais habitadas por Indianos e hindus no Reino Unido.

Há cerca de um ano, uma sociedade de iogues adquiriu perto daqui um prédio onde antigamente funcionava uma igreja cristã, que então se encontrava desativada. Desde a compra eles estabeleceram as suas atividades ali, e o local começou a funcionar como um templo e centro cultural de linha Vaishnava, como é o caso de vários outros na redondeza.

Como na época da aquisição o prédio ainda estava com a arquitetura da igreja (que, diga-se de passagem, é de gosto duvidoso, com tijolos escuros e uma torre retangular estranha), os iogues naturalmente desejam convertê-lo e adaptá-lo à sua tradição, dando a ele características ornamentais de um templo hindu tradicional.

O fato de estarmos em uma área em que referências visuais hindus são numerosas, inclusive com a presença de templos semelhantes ao que eles desejam estabelecer, levaria a crer que não encontrariam problemas em demarcar fisicamente ali o seu templo. Mas por enquanto o máximo que conseguiram fazer foi colocar a bandeirinha do seu movimento em cima da torre, que ainda ostenta uma enorme cruz branca.

Na Inglaterra em geral os governos locais são muito ciosos da aparência das construções, que acabam sendo todas muito parecidas, em nome da preocupação em se manter uma certa harmonia arquitetural através das épocas. A preservação tem um lado bom – a marca cultural se mantém e a cacofonia estética é relativamente controlada – mas também acaba tornando o visual de diferentes localidades muito parecido. Acredito que muitos que rodaram por aqui já tiveram a impressão, mesmo tendo percorrido uma boa distância, de estar ainda na mesma cidade ou no mesmo bairro, tamanha a semelhança visual entre os diferentes locais. Nos grandes centros, em função da presença de muitas culturas, uma cota maior de diversidade consegue ser acomodada, mas no geral existe no país uma harmonia visual que chega a ser enfadonha.

Os setores de planejamento dos councils (órgão governamental que se assemelha a uma subprefeitura) são por conta disso muito atuantes, e cada vez que o proprietário de um imóvel deseja fazer reformas no mesmo precisa passar por um burocrático e severo processo de avaliação. Nas reformas mais significativas parte dessa avaliação envolve uma consulta aos residentes locais, que são instados a se manifestarem contra ou a favor da proposta.

O caso do templo hindu está rendendo tanta polêmica que fez com que os residentes locais reativassem uma associação de moradores há anos parada. A associação, que em tese seria um fórum para tratar de assuntos gerais, transformou-se numa espécie de movimento para impedir a qualquer custo a consolidação do templo hindu. Cartas anti-templo começaram a circular, pedindo que inundássemos o site do council com manifestações contrárias à reforma, chamando reunião presencial para tratar do assunto e expondo séries de argumentos desfavoráveis aos iogues.

No início, por estar ocupada com outras coisas, não prestei muita atenção à discussão, mas como as cartas e emails aumentaram em frequencia e agressividade fui pesquisar o teor das manifestações contrárias, que eram quase a totalidade das quase duzentas registradas no council. Afinal, o que poderia haver de tão inadequado com a instalação de mais um mandir na região? Se minha inclinação natural já seria a de apoiar os iogues só por ser uma apreciadora da espiritualidade hindu, depois de ler os motivos alegados fiquei ainda mais afeita à causa deles.

As pessoas não querem o templo aqui por dois motivos principais: ressentimento por não terem podido reformar as próprias casas em ocasiões anteriores e medo de que a falta de estacionamento cause tumulto no trânsito, especialmente em dias de evento. A esse último ponto a sociedade iogue já respondeu, em carta bastante amigável, assegurando que haviam feito o mesmo arranjo de estacionamento atualmente vigente para um centro maçônico que funciona numa rua vizinha.

Essa carta, que inclui uma oferta à comunidade de usar gratuitamente o espaço deles para eventos locais; faz um convite às pessoas para irem conhecer as atividades e manifesta um desejo de se harmonizar com os vizinhos, termina com o honesto dizer: “nosso princípio-guia é a harmonia e fraternidade universal e gostaríamos de construir uma relação de longo prazo com todos vocês, buscando uma oportunidade de melhor servi-los”.

A essas cordiais palavras, porém, seguiu-se prontamente mais um email da associação de moradores assegurando estar fazendo todo o possível para impedir a instalação do templo. Fica difícil entender esse antagonismo todo.

Tudo bem que, do ponto de vista espiritual, onde houver atividades de luz pouco importará a cor do tijolo. Os iogues parecem saber melhor disso, pois vêm mantendo suas atividades normalmente, mesmo em meio a toda a resistência.

Os vizinhos, por sua vez, parecem mais preocupados em conservar os tijolos existentes do que interessados em aproveitar a presença de uma nova brisa espiritual nas próprias cercanias.

Eu gostaria de tê-los como vizinhos.
Eu gostaria de tê-los como vizinhos.

A spiritual perspective on little Aylan’s death

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I can’t recall having been so moved by a picture and a piece of news before. The image of little Aylan’s body washed up on Turkish shores stirred up a plethora of hard-to-describe feelings which immediately took the smile away from my face. I wasn’t alone in my grief: virtually anyone who came across that image felt that as a species we must be doing something very wrong.

Then, while reading about the story on Thursday evening, I looked at a couple of pictures of Aylan still alive as the smiley, happy child described by his father. I couldn’t help but thinking that maybe somehow his spirit knew what he would come to symbolise in his short but significant incarnation.

Maybe he was a happy spirit en route to accomplishing a noble task; a mission of collective consciousness raising. Following years of sluggish governmental response towards the contemporary migrant and refugee crisis, little Aylan’s death may well have been the darkest point before the dawn of a new perspective on the issue.

His short life and his tragic death raised our awareness of global inequality and acted as a stark reminder of our sheer lack of brotherhood. After him and his story, the world is calling for change.

Some of us are lucky enough to have understood that as immortal spirits we are only going through a human journey, and that life does not end with physical death.

Also, the recognition of greater cosmic laws governing our human existence helps us to endure the inevitable pain of physical mortality in a world where all fellow sentient beings are inexorably bound to experience some kind of suffering.

Spirituality, however, does not mean cold inaction or indifference. True spirituality is a living Love, a powerful silent act of compassionately embracing humanity and all of its predicaments.

Spiritual contemplation and meditation on greater truths strengthen us by bringing deep peace to our hearts and minds while at the same time compelling us to incarnate in our own lives the very values of brotherhood and compassion. We are urged to be helpful to earth and to mankind, but at the same time we understand that we can better do so from an unshakable place of equanimity.

It is only by holding a spiritual perspective on such apparent brutalities that we may find meaning in our human journey, with all its trials and pain, evil and inequality. Life on this Earth can sometimes look like a package of suffering to which we have subscribed and of which we are, to a greater or lesser degree, part and parcel.

It is only by raising our consciousness to the spiritual heights that we will be able to, along with all the great spiritual masters, free our hearts from the grips of our human pain, and work steadfastly for a better world with the serene and active comprehension that stems from the spiritual Light.

Syrian angel - image from Twitter/BBC
Syrian angel – image from Twitter/BBC

Uma perspectiva espiritual sobre a morte do pequeno Aylan

Não me recordo de ocasião em que tenha sido tão mobilizada por uma foto em um artigo de jornal. A imagem do corpo do pequeno Aylan afogado na costa da Turquia instigou uma enxurrada de sentimentos difíceis de descrever e que imediatamente roubaram o sorriso do meu rosto. Eu não estava sozinha em minha dor: praticamente todo ser humano que se deparou com aquela imagem sentiu que, enquanto espécie, devemos estar fazendo algo muito errado.

Então, enquanto lia sobre a história na quinta-feira à noite, me deparei com duas fotos de Aylan ainda vivo, como a criança sorridente e feliz descrita pelo seu pai. Não pude deixar de pensar que talvez, de alguma forma, o seu espírito sabia o que viria a simbolizar em sua curta mas significativa encarnação.

Talvez ele fosse um espírito feliz a caminho de completar uma nobre tarefa; uma missão de elevação da consciência coletiva. Seguindo-se a anos de respostas governamentais arrastadas para a crise contemporânea de migrantes e refugiados, a morte do pequeno Aylan pode muito bem ter sido o ponto mais escuro antes do alvorecer de uma nova perspectiva sobre a questão.

A sua curta vida e trágica morte aumentaram nossa consciência a respeito da desigualdade global, e atuam como um austero apontamento da nossa pura falta de irmandade. Depois dele e de sua história, o mundo está clamando por mudança.

Alguns de nós são afortunados o bastante para ter compreendido que enquanto espíritos imortais estamos apenas atravessando uma jornada humana, e que a vida não termina com a morte física.

Também o reconhecimento de leis cósmicas maiores governando a nossa existência humana nos ajuda a tolerar a inevitável dor da mortalidade física, em um mundo onde todos os seres sencientes estão inexoravelmente destinados a experimentar algum tipo e grau de sofrimento.

Espiritualidade, porém, não significa inação ou indiferença. A verdadeira espiritualidade é Amor vivo; é um ato poderoso e silente de abraçar compassivamente a humanidade com todas as suas dificuldades.

A contemplação espiritual e a meditação em verdades maiores nos fortalecem, trazendo profunda paz aos nossos corações e mentes ao mesmo tempo em que nos impulsionam a encarnar em nossas próprias vidas os exatos valores da fraternidade e da compaixão. Somos instados a sermos úteis para a terra e para a humanidade, mas ao mesmo tempo compreendemos que podemos melhor fazê-lo desde um lugar imperturbável de equanimidade.

É apenas de uma perspectiva espiritual sobre tais aparentes brutalidades que podemos encontrar sentido para nossa jornada humana, para todas as provas e dores, para o mal e a desigualdade. Para todo esse pacote de sofrimentos que parecemos ter subscrito e do qual somos, em maior ou menor grau, parte integrante.

É apenas elevando nossa consciência às alturas espirituais que seremos capazes de, na esteira de todos os grandes mestres espirituais, libertar nossos corações das garras de nossa dor humana e trabalhar firmemente por um mundo melhor, com a compreensão ativa e serena que deriva da Luz espiritual.

O fim da noite escura da alma

Éramos tristes e endurecidos, mas não percebíamos nossa dor. Asfixiava-nos a falta de arejamento nas ideias, enquanto nosso coração se enrijecia com o esquecimento de nossa origem espiritual. Vivíamos na terra acreditando conhecer a realidade das coisas, sem perceber que o essencial nos escapava: a força vital e intangível do espírito.

Regozijávamo-nos em nosso poder de fogo intelectual. Esmiuçávamos e resolvíamos qualquer problema mundano que nos fosse colocado, e fazíamos questão de exibir tal potência como um troféu. Sentíamo-nos grandes em nós mesmos, e havia neste sentimento alguma violência. Às vezes de forma sutil, às vezes de forma escancarada, a truculência do ego nos fazia acreditar sermos melhores, mais aptos, mais merecedores de reconhecimento e louvor humano. Surfávamos a crista da onda dos papeis humanos que nos cabiam. Sentíamo-nos donos de nosso próprio destino.

Até o dia em que assistimos, feito espectadores impotentes, à ruína do castelo de ilusões sobre o qual assentávamos nossa base existencial. Alguns de nós sucumbiram à dor da morte de alguém amado. Outros de nós foram desacreditados e achacados por aqueles mesmos que antes nos adulavam. Alguns ainda viram relacionamentos vitais morrerem à míngua por pura falta de amor. E outros amargaram pungentemente o remorso de ter feito alguém sofrer.

Durante tal noite escura da alma, com os poros do ego semi-abertos pela ação dolorosa da ignorância, bastou que nos sentássemos sob um céu de crepúsculo profundamente dourado para que acontecesse a derradeira transformação. O Fogo Divino comunicou-se conosco, dizendo-nos de nossa misteriosa condição: pequenos e frágeis enquanto sozinhos, grandiosos enquanto filhos de Deus.

Devolvíamos neste momento mágico, silencioso e solene, tudo o que antes pensávamos ser ao nosso Pai Celestial. E assim relembramos nossa verdadeira origem e nossa verdadeira herança: éramos espíritos imortais irmanados na Luz.

Depositava-se ali, em nossas mãos, gentil e decisivamente, a chave para vencer toda dor do passado e voltar a ter esperança no futuro. A chave era a espiritualidade amorosa e consciente.

Profundamente gratos e de alma inflexionada, sabíamos que esta chave em si mesma era um tesouro de particular qualidade. O Amor e a Consciência são um repositório inesgotável de Força e Luz, que tanto mais cresce quanto mais amplamente for compartilhado.

Pôr do sol em Florianópolis, 27-8-2015 Foto de Úrsula Carreirão
Pôr do sol em Florianópolis, 27-8-2015
Foto de Úrsula Carreirão

A maternidade até aqui

(Um pequeno relato da minha experiência de ser mãe até o presente momento)

Minha filha conta hoje dois anos de idade e desde que o seu projeto de ser entrou em minha vida muita coisa mudou para melhor. Faço questão de frisar isso porque até engravidar eu tinha dúvidas sobre qual seria o saldo da experiência de ser mãe. Sou daquela geração de mulheres que cresceu esperando ter uma profissão, um bom grau de independência e funções socialmente úteis, para além do tradicional papel de “apenas” se dedicar à felicidade individual e familiar-nuclear.

Explico as aspas, que ilustram talvez a essência desse texto: existe coisa que requer mais vigilância do que conseguir se manter feliz e equilibrado consigo mesmo e nas relações íntimas e cotidianas? Não é justamente nelas que as mesquinharias do ego costumam encontrar espaço para se multiplicar? E por este exato motivo, não seriam elas um terreno privilegiado para se poder trabalhar a própria evolução espiritual e, por derivação, coletiva?

Como acredito que sim, fico feliz por ter superado alguns medos infundados e aceitado de coração desempenhar esse papel. Passado algum tempo percebi que ser mãe não me fez perder nada; pelo contrário, me fez ganhar muitas coisas boas e neutralizar outras ruins, como por exemplo a própria ansiedade demasiada por me dedicar a causas externas.

Tendo acontecido na esteira de uma nova percepção de valores, a experiência de ser mãe me caiu como uma luva. Tenho sentido-a como um passo certeiro à frente no aprimoramento de muitas lições que considero importantes: o equilíbrio das coisas, a paciência incondicional (que brota naturalmente perante a fragilidade de um bebê), a revitalização pessoal e flexibilização do próprio ser (que derivam do contato com o mundo lúdico da criança), a percepção profunda do outro, a empatia, a responsabilidade real e intransferível por um outro ser, a sabedoria de se fazer presente ou ausente na medida correta para o desenvolvimento do outro.

A maternidade convergiu perfeitamente com um projeto pessoal – que é, diga-se de passagem, empreitada para várias vidas – de ser cada vez mais, e mais verdadeiramente, alguém que saiba sustentar essas qualidades no trato com todos os seres humanos, quiçá com todos os seres sencientes. Se estes valores farão de mim também uma melhor profissional quando eventualmente voltar a trabalhar, não tenho dúvidas, mas isso passou a ser um detalhe: o rótulo profissional deixou de ser importante como antes era. O trabalho sobre mim mesma e a repercussão dele nas relações visíveis e invisíveis com outras pessoas passou a ser a minha real prioridade. E haja trabalho!

Não quero com isso levantar nenhum tipo de bandeira em prol de se ter filhos. É uma questão muito pessoal, e felizmente vivemos em uma época em que existe plena liberdade para que mulheres e homens escolham o que fazer nesta seara. Há muitos projetos de vida plenos e frutíferos que não precisam envolver a gestação de uma criança física.

O que achei que valia a pena registrar, porém, é que há um sem número de benesses, para além das óbvias, que derivam da experiência de gestar e educar uma criança. E que, em muitos sentidos, têm uma sorte e uma oportunidade tremendas aqueles que decidem abraçar essa aventura.

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