O sofrimento em perspectiva

Qualquer problema que conheci na vida – minha e dos outros – parece irrelevante perto do que descreve Viktor Frankl, um sobrevivente do holocausto, a respeito dos campos de concentração.

Acho difícil ler esse tipo de narrativa e avanço com cautela, porque a cada linha o coração aperta mais e a garganta vai ficando com um nó. A sensação de angústia fica comigo por algumas horas e depois preciso ativamente procurar me desvencilhar dela. O autor é muito sincero nas suas descrições e consegue-se visualizar bem não só o que os prisioneiros passaram fisicamente, como também psicologicamente. A história do Holocausto é conhecida de todos, e envergonha-nos de pertencer a uma raça que foi capaz de canalizar tamanho mal na Terra.

O suplício daqueles seres humanos aprisionados, torturados, humilhados, injustiçados, simbolicamente e factualmente exterminados, fazem a crucificação de Jesus não parecer tão ruim assim. E o que dizer então dos nossos “problemas”? Depois de uma leitura dessas é inevitável pensar em como perdemos tempo e energia com bobagens. Em como, sonambulizados, menosprezamos as coisas mais essenciais das nossas vidas. Em como precisamos acordar e sentir mais, com gratidão, o nosso aqui-agora. Brigar e reclamar menos. Erradicar as tristezas levianas. Perdoar, reconciliar, limpar as pendências emocionais. E uma vez limpo o coração, lutar para manter viva a nossa alegria, assim como fomentar a alegria nos outros. Não nos deixar desencorajar disso por bobagem.

A leitura me fez lembrar de como precisamos lidar com nossos problemas de forma bem mais serena e madura do que estamos fazendo.

Tudo bem que é fácil pensar assim nos momentos em que tudo está relativamente em ordem na vida. Quando estamos sofrendo algum tipo de dor emocional ou física aguda, aquilo toma para nós uma dimensão subjetiva importante, e fica bem mais difícil manter a tranquilidade. E sabendo que a subjetividade é um fator importante, não cabe exigir agressivamente dos outros esse tipo de auto-controle. Terapeutas, por exemplo, precisam manter sempre acesa a capacidade de empatia, para depois, com habilidade, ajudar a colocar as coisas em perspectiva.

Pensando em si mesmo, porém, uma vez colocada em perspectiva a real dimensão do que nos aflige, perto de todas as dádivas de que desfrutamos apenas por viver em tempos de fartura e paz, me parece que temos o dever moral de vigiar melhor nossa própria forma de lidar com os problemas. Temos a obrigação íntima de manter uma rédea firme nas nossas reações às dificuldades do caminho. E se além de nos auto controlar formos um pouquinho mais fortes, somos capazes até de transformar essa compreensão em formas de ajudar os outros, apenas pela nossa atitude melhorada, ou de formas um pouco mais elaboradas e intencionais. Foi o que fez Frankl, que unindo seu background de psiquiatra com a sua experiência de prisioneiro de campo de concentração, criou uma abordagem psicoterapêutica para ajudar as pessoas a encontrarem sentido na vida, mesmo nos mais sofridos tipos de vida.

Não precisamos chegar a tanto, claro. Crescer e tentar ser alguém melhor já é uma grande responsabilidade, e está ao nosso alcance todos os dias. Então, que possamos nunca nos esquecer de empregar esforços na direção dessa simples verdade.

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