O medo do outro apequena a experiência humana

Desde a queda do muro de Berlim, em 1989, a quantidade de muros erguidos em fronteiras ao redor do mundo subiu de 15 para 77, em sua maioria, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Na maior parte dos casos, com a finalidade de conter fluxos imigratórios indesejados pela população local. Vivemos num mundo em que dinheiro e mercadorias circulam com ampla liberdade, mas seres humanos não.

É uma época – já houve outras na história – em que o sentimento anti imigrante se prolifera de vento em popa. Diversos foram os governantes recentemente fortalecidos pelo voto ou mesmo eleitos que encampam essa demanda que está em alta nos tempos atuais.

Que os muros tenham proliferado após um atentado terrorista é um sinal claro de que o sentimento despertado pelo estrangeiro é o de medo. Daí a perfeição do nome desse espírito de época a que assistimos diariamente nas notícias e rodas de conversa: xenofobia.

Desde a designação maniqueísta de um eixo do mal, as populações dos países ocidentais mais prósperos sentem-se ameaçadas em sua estabilidade e privilégios com o influxo deste outro que não se conhece muito bem. Em um mundo profundamente desigual, o sentimento humanitário e a consciência de corresponsabilidade histórica pela miséria dos países de onde partem os imigrantes e refugiados estão, infelizmente, fora de moda.

O medo desperta os piores conceitos nos corações das pessoas. E empobrece a experiência de ser humano, que poderia ser tão mais rica se nos mantivéssemos abertos a compreender aqueles que são diferentes de nós. Ao contrário do que a narrativa do medo quer sugerir, a presença do outro tem muito a somar, a engrandecer nossa bagagem subjetiva, tornando-nos mais maduros, mais maleáveis e menos arrogantes.

É claro que a abertura para o outro requer um certo despojamento de nossas certezas cristalizadas e por isso, desperta talvez um sentimento de vulnerabilidade. Mas fechar-se para aprender com o outro é como deixar de ir até a praia e preferir olhar o mar pela TV por conta do medo de que se for atravessar a rua vai ser atropelado. Ou seja: o medo do encontro com o estrangeiro impede o acesso à riqueza que é a diversidade da experiência humana. Quando escolhemos nos alimentarmos apenas do igual e do familiar, ficamos mais pobres. Se procurarmos viver o encontro com o diferente e aprender com ele, crescemos.

Por isso, nesse tempo em que o sentimento humanitário de irmandade entre povos e grupos mingua a olhos vistos, gostaria de desejar que as pessoas voltassem a dar um voto de confiança no desconhecido. Que erguessem menos muros, físicos e psicológicos, dizendo mais SIM para pessoas diferentes e para novas experiências. Que escolhessem mais se conectar de forma aberta e real com pessoas diversas, ao invés de segregá-las por similaridades forjadas.

Vejo um mundo tão mais rico e pacífico dessa forma…

E não custa lembrar que desde um ponto de vista (bem) mais alto do que o comumente adotado nos embates políticos e filosóficos de todos os tempos, as diferenças baseada em credo, cor, sexo, geografia, espécie ou qualquer outro parâmetro humano, são a mais pura ilusão:

“Na forma de mitos, todas as religiões revelam de alguma forma a origem divina da humanidade. Em algum ponto da história, no entanto, a convicção de que certas raças ou categorias de pessoas eram inferiores encontrou uma forma de adentrar algumas destas religiões, e elas começaram a excluir ou oprimir tais grupos. Jesus foi muito excepcional porque veio para proclamar que qualquer que seja a sua raça, cultura ou status social, todos os seres humanos são essencialmente iguais perante Deus. As diferenças que eles manifestam são apenas superficiais e passageiras: suas qualidades físicas, intelectuais, morais e espirituais, os eventos de suas vidas, tudo o que, de uma forma ou de outra, faz com que alguns pareçam privilegiados e outros não, representa apenas um momento na sua evolução. Seres humanos são irmãos e irmãs por meio da vida que compartilham, por meio da vida divina que flui neles. Esta vida divina torna-os irmãos e irmãs de toda a criação também.”
(Omraam M. Aïvanhov, Meditação Diária de 10/11/2005)

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