Navegando pela psicologia e pela espiritualidade

Tendo terminado de escrever, há pouco tempo, uma dissertação sobre a dimensão espiritual da existência humana – um tema de importância central para mim – segundo a concepção da psicoterapia existencial, pensei em dividir aqui alguns detalhes do caminho que me conduziu ao curso que estou fazendo, na Inglaterra, sobre essa abordagem. A dissertação em si posso até vir a compartilhar no futuro, mas prefiro esperar o feedback dos professores para descobrir até que ponto meu entendimento do assunto foi acurado, ou então influenciado por aquilo em que quero acreditar: que essa abordagem não só valida a espiritualidade como também abre espaço para a livre expressão dos entendimentos espirituais que nós terapeutas e nossos clientes possamos ter.

O tema me é caro em função das amarras ideológicas – basicamente, uma concepção materialista de homem, que exclui e até menospreza a questão espiritual – que permearam meus anos de formação no Brasil, e que me levaram por caminhos profissionais causadores de grande desequilíbrio psicofísico.

A espiritualidade esteve presente na minha vida desde o nascimento até os primeiros anos de faculdade, a partir dos quais se seguiu um período de grande ceticismo e materialismo. Claro que além de ter sido uma forte influência externa, a adesão a uma visão materialista-cética do ser humano foi uma concessão, um erro de minha própria parte.

Considero estes anos de formação materialista um “período opaco”. Nele houve muito aprendizado e desenvolvimento intelectual; adquiri títulos e méritos acadêmicos, que tiveram seu papel social de abertura de portas profissionais, mas acabei me tornando uma pessoa pior e mais fraca em muitos sentidos. Julgamento arrogante dos caminhos alheios e períodos recorrentes de grande estresse e ansiedade com repercussões físicas sérias foram se acumulando em meu ser. O desconforto existencial cresceu sutilmente, até passar a ser meu modo de funcionamento padrão.

Esse processo aconteceu ao longo de mais ou menos dez anos, até chegar um momento em que uma espiral de eventos negativos ao meu redor me levaram quase ao fundo. Ao “período opaco” seguiram-se cerca de dois anos de “golpes da vida” aos quais, em função de ter aberto mão de valores e saberes tão importantes para mim, eu não soube como responder. Afastada da espiritualidade, eu tinha perdido completamente meu centro de força interior. O resultado foi bastante confusão, tristeza e desequilíbrio físico-emocional.

A página turbulenta só começou a ser virada quando, por conta de encontros e reencontros importantes comigo mesma e de alguns acontecimentos, a espiritualidade voltou a fazer parte de minha atenção cotidiana. Não aderi a nenhum grupo ou ideologia específica, mas fui reestabelecendo minha conexão com o divino através de leituras, músicas, pessoas, lugares e experiências luminosas. Bastante auto-observação e reflexão – e um esforço descomunal para parar de me sentir vítima da vida e voltar a ser uma pessoa mais leve – junto com estes encontros felizes acabaram por naturalmente me reconectar à fonte espiritual. Não foi fácil nem automático, mas aos poucos fui voltando a me sentir uma pessoa forte. Aprendi a ser auto confiante sem subjugar os outros e recuperei a coragem seguir em frente sendo eu mesma. A paz e a tranquilidade voltaram a ser meu estado homeostático – obviamente perturbável vez ou outra, mas nada que hoje eu não consiga driblar sem perder meu próprio centro.

Coincidentemente – ou não – a estas mudanças internas positivas começou a se seguir uma chuva de presentes e boas surpresas da vida. Melhor dito, antes os presentes estavam ali – eles sempre estão – mas eu é que estava muito ensimesmada e cega para percebê-los. E aqui retorno ao ponto que me levou originalmente a escrever esse post: um destes presentes foi descobrir um pequeno ninho de treinamento profissional sério e reconhecido em psicoterapia na Inglaterra (onde eu havia decido voltar a morar sem saber o que poderia fazer profissionalmente) no qual a espiritualidade é, se não estimulada, ao menos muito bem aceita.

Quem lê isso pode estar pensando: mas existem tantos locais sérios de treinamento para terapias espiritualistas por aí, porque teria sido tão surpreendente e especial encontrar este ninho? É uma questão de encaixe pessoal. Em primeiro lugar, não existem tantos assim aqui na Inglaterra. Em segundo, tenho uma preocupação em equilibrar o conteúdo do treinamento com o seu poder de entrada social no mercado de trabalho. Em terceiro, e o mais importante ponto, eu não gostaria de abraçar, no atual momento, um caminho espiritualista que descartasse as técnicas e saberes da psicoterapia tradicional. Isto porque além de ter sido meu principal treinamento, não considero que tenho nenhum tipo de habilidade espiritual especial que me permita abandonar as técnicas “humanas”.

Acredito que minha força profissional reside nos métodos mais tradicionais de presença, escuta e conversa, com base nas tramas da realidade física, e por isso as coisas que aprendo na psicoterapia tradicional são de grande valor para mim. Mas hoje, com o filtro do entendimento espiritual da condição humana ligado de forma perene, quero seguir um caminho que seja uma boa síntese dos meus valores espiritualistas com aquilo que me sinto capaz de realizar. Os desdobramentos desse caminho-síntese ainda são uma incógnita, só que isso não me aflige mais. As incertezas da vida, que antes me provocavam grande medo, agora são vistas por mim com uma espécie de curiosidade feliz.

Sabedora de quais valores me fortalecem e me guiam e realista quanto aos meus potenciais, parece que encontrei um bom lugar para me desenvolver profissionalmente. Vamos ver se o feedback da dissertação e o progresso ao longo do treinamento confirmarão isso, ou se me instigarão a rever os planos e reajustar mais uma vez as velas.

chegando no cais

3 ideias sobre “Navegando pela psicologia e pela espiritualidade”

  1. tão desejado ponto de equilibrio,mas é um exercício árduo e denso,manter a prancha sobre a onda ou a gangorra na vertical,somente a existência humana regula os opostos!beijos

  2. Concordo Silvana, e por mais que seja difícil, é importante que cada um busque o seu ponto de equilíbrio certo. Obrigada pelo comentário, beijos.

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