Não há nada do que se envergonhar

Há muito tempo não ligo para futebol e esportes em geral. As copas, no entanto, sempre costumei acompanhar, por causa do “allure” internacional do evento. Nessa, por excelência, estava bem indiferente: por uma desconexão já natural com esse universo, mas também por fazer questão de me isolar um pouco de todo o contexto político carregado que acompanha o evento. Mesmo assim, a dimensão do massacre sofrido pelo Brasil apertou o meu coração, especialmente quando vi imagens de crianças chorando.

Fiquei imaginando como seria difícil ver minha filha, que ainda tem um aninho apenas, passando por uma frustração assim, e chorando copiosamente. Mas aí lembrei que o melhor que posso transmitir a ela, nos momentos em que ela vier a precisar lidar com as vicissitudes da vida (desse tipo e de tipos mais sérios), é o meu próprio estado interno. E me tranquilizei com esse pensamento, pois naquela ocasião eu estava em paz, assistindo à comoção coletiva sem grandes sobressaltos, com exceção, como disse, de ver as crianças (mas só as crianças!) chorando. Porque para elas ainda é difícil entender e colocar as coisas em perspectiva, ainda mais quando os adultos ao redor tateiam, tão perdidos quanto elas, no mesmo emaranhado emocional.

A respeito das lágrimas infantis, a Folha divulgou um artigo interessante elencando lições positivas que as crianças podem tirar da tristeza. O artigo é igualmente válido para os adultos que choraram, ou que deixaram o seu clima psíquico nublar em função do acontecido.

Com a “derrota histórica” vieram a lição e o alerta, para eu mesma, de que é importante transmitir às crianças a real dimensão das coisas. O futebol é uma diversão válida, mas é só futebol. Precisamos lembrar disso nas vitórias e nas derrotas, pois se ontem nos sentimos “humilhados”, talvez em alguma ocasião anterior fomos nós que “humilhamos”, conscientemente ou inadvertidamente alguém.

Os extremos emocionais são tão inebriantes quanto álcool – provocando inclusive ressaca -, e a valorização excessiva das coisas terrenas ilusórias sempre nos deixam menos lúcidos, roubam nossa energia e contribuem para a já dominante insanidade coletiva do planeta. Nada contra o uso do esporte ou qualquer outra distração como algo de caráter lúdico, mas como droga, que leva à euforia e à depressão, ao ódio e à paixão, sobram ressalvas.

Não há nada do que se envergonhar diante da derrota futebolística, portanto. Ou melhor, se há, é apenas do fato de darmos tanta importância a acontecimentos periféricos, e de nos deixarmos emaranhar por emoções extremas, que nos roubam a lucidez e serenidade: nas vitórias, nas derrotas, no futebol, na política e nas pequenas batalhas, as externas e as íntimas, no nosso dia-a-dia.

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Imagem: Folha de São Paulo

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