Na trilha do autoconhecimento

Quando a gente se muda para longe é comum que a casa dos pais, na cidade de origem, se transforme num depósito provisório daquelas coisas que “são minhas, quero guardar, mas quando eu tiver espaço eu levo”. De vez em quando bate uma saudade desses objetos (no meu caso fotos, CDs e livros). Esse é o caso do meu álbum de formatura, que já conta onze anos de idade.

Esses dias pedi para a minha irmã escanear e me mandar uma das fotos desse álbum. Essa foto por muito tempo me foi tida como uma das que eu mais gostava, e eu queria agora, alguns anos mais tarde, dar mais uma olhadinha nela.

Que surpresa foi rever essa foto. Em outro post eu comentei sobre o efeito de reversão do registro que uma foto antiga ressucitada pode provocar. Naquele caso, uma foto da adolescência me fez perceber que naquela época havia mais momentos felizes do que eu atualmente lembrava. No caso dessa foto de formatura, aconteceu justamente o contrário.

A foto, do exato momento do juramento da profissão, simbolizava uma realização por anos ansiada, um momento de vitória, de conquista, de orgulho, de iniciação. Eu estava entrando para um seleto clube ao qual eu sempre quis pertencer, o de psicólogos avalizados. De fato, logo após receber o diploma fui abraçada calorosamente por um professor que me saudou literalmente assim: “seja muito bem vinda ao clube”. Eu estava recebendo a sanção social e dos pares para ocupar um lugar de referência quanto aos assuntos do autoconhecimento. Eu estava no topo do meu mundo particular.

Mas, estranho, eu costumava gostar bem mais dessa foto. Na verdade, eu era apaixonada por ela. E agora, ela me evocava um sentimento diferente. Nela, eu agora via uma espécie de vazio no meu olhar. E inevitavelmente veio a pergunta: o que mudou?

Mudou a minha compreensão do que seja realmente possível na esfera do conhecer-se e, ainda mais complicado, ajudar alguém a se conhecer melhor também. Não é um caso – como eu ingenuamente pensava à época – de acumular conhecimento na sua própria cabeça para depois destrinchar o funcionamento de outras, e assim descobrir alguma luz que guiasse a todos pelos melhores caminhos. O autoconhecimento é um processo ainda muito misterioso, o mais de todos, como muito bem colocado num texto legal de Paul Brunton que recebi esses dias de um amigo. Não é de uma pretensão enorme atribuir a si mesmo o direito comercial e exclusivo de dizer verdades, ainda que relativas ou contextualizadas sob a sua limitada percepção, sobre as coisas da alma humana?

Ao mesmo tempo, autoconhecimento continua parecendo ser a chave para uma vida mais feliz. Há um valor em persegui-lo, mas o problema é o sentimento de “clube dos autorizados”. Nossos sonhos de maestria são patéticos nessa área, onde – hoje percebo – os mais sábios são aqueles que com o passar do tempo mais estupefatos ficam com a própria pequenez diante da vastidão do que desconhecemos.

A foto do olhar orgulhoso, vazio de amor real e cheio de ego, felizmente amarelece com o passar do tempo e esvaece com a experiência de vida. De todo esse universo “formatural” há, no entanto, um objeto que ainda guardo com carinho: o anel, presenteado por minha mãe. O círculo de ouro, cinzelado com um animal de visão noturna, um símbolo grego para a alma, e uma pedra lapis lazuli cravada no topo, representa, ainda, o espírito das coisas que mais me enternecem, movimentam e vitalizam nessa jornada terrestre. A diferença é que agora percebo um pouco mais claramente a insignificância dos meus passos, claudicantes sob uma luz maior, que é a verdadeira força motriz de todas as coisas.

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