Inteligência e Sabedoria

Muito se fala hoje sobre a diferença entre inteligência e sabedoria. Enquanto a primeira é uma faculdade fria e árida do intelecto, a segunda é uma percepção mais ampla, rica e profunda da realidade, aquecida pelo amor e sustentada por uma concepção espiritual da vida.

A sabedoria é uma faculdade do espírito; é superior à inteligência e pode dela fazer uso. Já a inteligência é dotada da neutralidade de qualquer instrumento: pode ser colocada a serviço de propósitos deletérios, inócuos, ou afins à sabedoria.

Muito além de compreender a diferença entre ambas, experimentá-la na carne foi um aprendizado chave na minha atual vida.

Cresci estimulada a ter uma auto imagem de ser alguém inteligente. Os fundamentos emocionais sólidos e os incentivos generosos da família, professores e amigos me levaram a desenvolver uma auto estima saudável nesse ponto, ajudando-me a ser uma criança curiosa, interessada em ler, estudar e analisar com profundidade os acontecimentos ao meu redor.

Até certo ponto na vida o desenvolvimento da inteligência conviveu pacificamente com o coração generoso e alegre que é natural de toda criança. Aos poucos porém, ao longo do processo de solidificação do ego adulto, fui erroneamente me identificando com valores do mundo. O resultado foi que a alegria perdeu espaço para uma ansiedade pesarosa, e a generosidade real foi sendo suplantada por desejos que, embora pudessem ser altruístas na estética, eram no fundo de natureza individualista.

Uma ilusão central era a de que seria possível, através do desenvolvimento e direcionamento da inteligência por si mesma, desempenhar um papel relevante nas transformações sociais positivas. Havia um desejo de fazer uma diferença positiva no mundo, mas ele era rebaixado pela expectativa implícita de fazê-lo transitando no território do reconhecimento humano.

O consistente bom desempenho escolar, a facilidade para passar em concursos e o acúmulo de títulos humanos todos alimentavam em mim a ilusão de estar trilhando um caminho real de progresso pessoal. O problema foi que ao longo desse caminho eu fui deixando de lado, por covardia perante a pressão do meio e por ignorar as consequências dessa atitude, as práticas e estudos espirituais que desde criança haviam sido parte integrante e natural da minha vida.

Ao cabo de alguns anos de conquistas acadêmicas e profissionais a vida quis me mostrar, contrastando um auge externo na carreira com o ponto mais baixo no equilíbrio pessoal, o quanto eu havia errado em recobrir o espírito com a areia da quinquilharia emocional e mental acumulada em quase trinta anos de existência.

Ao serrar minha ligação com o mundo espiritual eu adentrava a perigosa zona da ilusão materialista sem o amparo da sustentação mais vital de todas, a espiritualidade. A inteligência árida passou a coexistir com um coração pesado e um corpo desvitalizado. Eu me sentia frágil, vazia e sem esperança de recuperar a alegria de viver.

Tempos difíceis foram esses de escuridão auto infligida. Tempos de educação da alma, porém. Por sorte ou algum crédito cármico que desconheço, foi justamente nesse período que pude reencontrar, através de situações, experiências, sensações, ideias, sentimentos e pessoas, a realidade espiritual ainda ardendo em brasa dentro do meu coração.

A força deste amparo reergueu de forma admirável minha vitalidade, alegria e clareza de propósito. Foi como um segundo nascimento.

As verdades espirituais se inscrevem no campo da sabedoria e é somente ela, aliada ao amor, que pode dar uma verdadeira sustentação perante as questões mais importantes da existência. A inteligência tem um valor menor e relativo. Ela não garante segurança emocional, robustez existencial, qualidade moral, atitude correta e muito menos um sentido para a vida.

Perceber a diferença entre inteligência e sabedoria foi a chave que recuperou minha conexão com as coisas do espírito, que voltaram a guiar meus passos desde então.

Hoje sinto que os desdobramentos desse insight foram muito além do que eu poderia imaginar. Sinto-me mais forte para encarar as dificuldades a que todos estamos sujeitos e seguir melhorando. Estou também mais consciente em relação ao quanto ainda tenho a aprender e praticar. Busco integrar a inteligência a um conjunto maior de valores, e não mais aos julgamentos do ego.

Acima de tudo sou muito mais feliz, por saber e sentir que a estrada da evolução, embora às vezes sinuosa, nos conduz sempre a realidades cada vez mais admiráveis.

We are flowers circling round the sun.
We are flowers circling round the sun.

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“Certa vez, havia um intelectual brilhante que contratou um homem para levá-lo ao mar no seu barco a remo.

Ele perguntou ao barqueiro: ‘Meu bom homem, você sabe alguma coisa de astronomia?’ ‘Não.’, respondeu o barqueiro. ‘Que pena,’ disse intelectual; ‘Você está perdendo tanto; um quarto da sua vida está desperdiçado. Mas, talvez você saiba alguma coisa de física?’’Nem um pouco, Sua Excelência!’ disse o barqueiro. ‘Oh, meu pobre homem, dois quartos da sua vida estão perdidos!’ lamentou o erudito; ‘Mas talvez você saiba bastante de química?’ ‘O que é isso?’ disse o barqueiro; ‘Nunca ouvi falar!’ ‘Que ignorância,’ lamentou o estudioso; ‘Três quartos da sua vida desperdiçados!’

O pequeno barco foi mais e mais mar adentro e, dentro em pouco, uma tempestade violenta estourou e as ondas ameaçavam engolfá-los.

‘Sua Excelência,’ gritou o barqueiro; ‘Você sabe nadar?’ ‘Não, não sei.’ respondeu o intelectual. ‘Bem, Senhor,’ exclamou o barqueiro; ‘São quatro quartos da sua vida desperdiçados!’

Vocês veem? Há alguns tipos de conhecimento que não são muito úteis. Não são nada mais do que decorações. Ah, com certeza, podem ser usados para ganhar dinheiro, mas se uma tempestade vier vocês logo verão se conseguem ajudá-los a nadar! A vida é um oceano, como vocês muito bem sabem, e nesse oceano existem alguns tipos de conhecimento que são muito mais úteis que outros: o conhecimento que pode ajudar um homem a viver.

Que direção dar à sua vida; qual alto ideal escolher; como transformar os pensamentos e sentimentos que nos perturbam; como interpretar os eventos acontecendo ao nosso redor; como verificar nossas relações com o macrocosmo; como comer, dormir, lavar-se e respirar… como amar: estas são as coisas que precisamos conhecer.”

~ Omraam Mïkhael Aïvanhov in: The Second Birth, Love, Wisdom, Truth
Postado originalmente e traduzido de Journey with Omraam

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