Entre o céu e a terra

Com o tempo livre mais escasso, tenho priorizado as atividades de que mais gosto e tentado encaixá-las ao redor da agenda da bebê. Essa organização forçada pela compressão do tempo livre é um fenômeno bem conhecido de quem trabalha fora ou é muito ocupado, e não raro resulta num ritmo de realização geral mais acelerado.

No topo da lista das atividades preferidas que estão ao meu alcance no contexto de hoje estão as leituras. Sempre com bem mais livros para ler do que efetivamente lidos, essa lista a toda hora se renova, cresce e nunca será vencida. Os homens e mulheres de hoje têm à disposição uma fonte inesgotável de alimento para a alma!

Essa infinitude costumava me assustar e desencorajar, mas agora, ocupando o papel principal de mãe e com uma auto-expectativa de realização intelectual mais baixa, tenho conseguido consumir mais livros. Meus assuntos favoritos – espiritualidade, filosofia/psicologia, e eventualmente poesia – garantem um bom contraste com o trocar de fraldas e a interação física que uma bebezinha de quatro meses requer.

O problema de algumas dessas leituras é que elas às vezes são um gatilho para um modo muito aéreo e alheio à concretude do mundo ao meu redor.

Essa semana mesmo, por exemplo, depois de ler à tarde alguns capítulos da biografia de um líder espiritual hindu que frequentemente entrava em estado de samadhi, saí à noite até o shopping centre mais próximo de casa, onde fica a academia que voltei a frequentar. O contraste entre a tarde quieta – quase meditativa – e aquelas luzes do comércio natalino, o furor dos consumidores, e até mesmo o empenho das pessoas em disciplinar o corpo físico na academia foi bem intenso. Me senti “desencaixada”, como se estivesse andando dentro de um sonho brumoso (pra completar o clima, a noite estava brumosa!), irreal e arrastado, pois meus pensamentos continuavam com o livro, que eu teria preferido continuar lendo ao invés de “sair pro mundo”.

Essa sensação, à qual estão propensos os mais sonhadores (embora possamos nos perguntar o que é sonho e o que é realidade), além de estranha é perigosa, porque, uma vez no mundo, você precisa prestar atenção no que está fazendo, onde está pisando, cuidar dos seus pertences, etc. Nos últimos meses, por exemplo, já perdi misteriosamente três objetos de valor enquanto andava na rua, tive a carteira furtada duas vezes e outros pequenos incidentes que poderiam facilmente ter evoluído pra coisa mais séria.

Tenho me esforçado em aprender a identificar esses estados mentais excessivamente aéreos e a exercer controle sobre eles. Naquela noite, enquanto caminhava na esteira, fui fazendo um esforço mental de me conectar com o aqui e agora, colocando umas músicas que chamam mais à terra, prestando atenção ao corpo e disciplinando os pensamentos para esquecer o livro e focar no contexto ao meu redor. É como uma meditação ao contrário: um movimento de ir descendo a consciência, degrau por degrau, de um plano mais etéreo ao plano mais denso.

Para alguns de nós é tentador permanecer no mundo dos pensamentos, que tem mais leveza, beleza e liberdade. Mas é fundamental conseguir equilibrar os dois pólos. Afinal, todas as experiências – as sutis e as densas, as grandiosas e as medíocres – são parte integrante da nossa jornada de crescimento pessoal.

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