Educar a percepção

Dia desses encontrei foto minha do período da adolescência, uma época da vida que memorizei como conturbado, cheio de desilusões amorosas, inseguranças, sentimentos de solidão e de incompreensão. A verdade era que eu não via a hora de ficar adulta, imaginando que mais velha, independente e formada, aquele turbilhão de sentimentos obscuros acabaria e eu encontraria alguma paz.

Essas especulações se revelaram em algum grau verdadeiras, pois me sinto muito mais confortável na minha pele hoje do que me sentia aos 15 anos de idade. Mesmo assim, olhar para meu semblante naquela foto não deixou de surpreender. Nela eu parecia – e estava – jovial, alegre e relaxada. Um estado de espírito que não tinha ficado registrado nos meus arquivos conscientes a respeito da adolescência. E junto com a surpresa da foto vieram lembranças de outros momentos e aspectos felizes daquela época, os quais minha memória vinha preferindo deixar escondidos em alguma região inacessível.

Isto me fez pensar em como nossa memória é criteriosamente seletiva. Ela encadeia acontecimentos e sensações de modo a compor o enredo em que preferimos acreditar. A realidade sempre pode ser vista de vários ângulos, mas quase sempre escolhemos uma história específica que queremos contar para nós mesmos, e ficamos apegados a ela. A realidade dos fatos existe – há vidas com mais desafios, outras com menos – mas ela é bastante filtrada e depurada para caber em nossa interpretação.

Muito mais do que uma coleção de fatos objetivos, nossa memória é carregada de emoções e subjetividade. Quando a história que ela nos conta não é particularmente feliz ou provoca sofrimento, pode ser bastante frutífero perguntar-se sobre como vimos interpretando nossa própria realidade. Algo simples como a surpresa de uma foto inesperada, um reencontro com alguém do passado ou um depoimento de um amigo antigo pode provocar isto. Auto análise, meditação e terapia pessoal também.

O mesmo princíprio envolvido neste ‘desconfiar da própria memória’ ajuda a lançar luz sobre nossa vida atual e nossas esperanças para o futuro. Estamos valorizando de forma justa as alegrias que nos são concedidas pelo momento presente? Elas vão desde as coisas mais básicas, como estar vivo e ter boa saúde, até os prazeres mais refinados como ler, pensar, emocionar-se, ser amado e amar. E da mesma forma, estamos mantendo acesa a chama da esperança de dádivas tão ou mais belas, ou outras ainda, que nem podemos imaginar, a serem trazidas pelo dia de amanhã?

Apaziguar nossa relação com os tempos da vida – sejam eles passados, presentes ou futuros – requer que eduquemos nossa percepção da realidade. Envolve focar e ser gratos por aquilo que temos, compreendendo com mais serenidade aquilo que nos falta, por que nos falta, e o que podemos aprender com isto. Até mesmo às faltas temos razões para agradecer: são elas que nos mantêm em constante movimento.

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