Dois poemas

Seguem duas belas mensagens filosóficas, poéticas e espiritualistas sobre a paradoxal condição humana. Ambas foram extraídas do livro De Alma para Alma, de autoria do filósofo e educador brasileiro Huberto Rohden.

Entre dois mundos

(Huberto Rohden)

Estendera o Eterno, de um a outro extremo, a sua potência creadora – desde os puros espíritos até a matéria bruta.
Desde a mais alta vida intelectual – até à mais profunda negação do intelecto.
Entretanto, não atingira ainda o Eterno o extremo limite de sua divina audácia…
Restava-lhe ainda o mais temerário e paradoxal de todos os atos – a união do espírito e da matéria.
Seria possível fundir em um único ser a luz dos puros espíritos – e a noite da matéria inerte?…
Reduzir a uma síntese essas duas antíteses?
“E disse o Senhor: Façamos o homem – e fez Deus, da substância da terra, um corpo e inspirou-lhe na face o espírito vivente”…
E ergueu-se, no meio da natureza virgem, esse paradoxo ambulante, esse enigma anônimo, essa indefinível esfinge, semi-animal e semi-anjo – o homem…
Quando os espíritos celestes viram o homem, exultaram sobre a sua grandeza e choraram sobre a sua miséria…
Cristalizaram-se, na alma humana, essas centelhas de júbilo e essas lágrimas de dor – e formaram um mar imenso de doce amargura e inextinguível nostalgia…
Principiou, então, neste mundo visível, a luta entre a luz e as trevas – entre o bem e o mal…
A história da humanidade…
Têm os puros espíritos sua pátria – lá em cima…
Tem a matéria bruta sua sede – cá embaixo…
Mas onde está a pátria do espírito-matéria?…
Na terra? – protesta o espírito!
No céu? – protesta a matéria!
Entre o céu e a terra? – mas lá se erguem os braços duma cruz!
É por isso mesmo que o mais humano e mais divino dos homens expirou entre o céu e a terra – na sua pátria cruciforme…
“Não havia lugar para ele” – em outra parte…
E é por isso mesmo que os melhores dentre os homens são sempre crucificados…
Não os compreende a terra – nem os acolheu ainda o céu…
E assim, entre o céu e a terra, vive o homem esta vida dilacerada de angústias e paradoxos.
Sem pátria certa…
Em perene exílio…
Oscilando entre a matéria e o espírito…
Lutando…
Sofrendo…
Amando…
Até que a matéria volte à matéria…
E o espírito ao Espírito…
Sintetizando dois mundos…
Em Deus…

Heróis – de papelão

(Huberto Rohden)

Anteontem…
Sentia-me eu possuído dum grande idealismo.
Indômita coragem enchia-me o coração.
Estava disposto a sofrer por ti, Senhor, afrontas e ludíbrios em praça pública.
Invejava os mártires do Coliseu, dilacerados pelos leões da Mesopotâmia e pelas panteras da Numídia.
Suspirava pela sorte dos heróis que, entre hinos e sorrisos, subiam às fogueiras ou se estendiam nas rodas de suplício.
Quem me dera sair pelo mundo afora a pregar o Evangelho a povos bárbaros!
Tão grande era o idealismo e a sede de sofrimento que me ardia na alma, que insípidas e vergonhosas me pareciam essas vinte e quatro horas da vida cotidiana.
Assim foi anteontem…

Ontem…
Quando acordei, chamei a empregada para me trazer o café e o jornal.
E ela mos trouxe, mas não me disse “bom dia” – e encheu-se de ira o coração…
E por que não deu o jornal o meu nome entre os benfeitores do Abrigo Cristo Redentor? Não sabe que contribuí com dez milhões de cruzeiros?
E por que me apelida essa revista ilustrada de “senhor”, quando eu sou “doutor”?
O cigarro que mandei comprar era de qualidade inferior – e transbordou-me a bílis, enchendo-me de fel as vias do sangue.
Ao sair de casa, verifiquei que faltava um botão da camisa – e taxei de relaxada a companheira da minha vida.
Ao tomar o ônibus, encontrei-o superlotado – e mandei ao inferno a empresa com todos os seus funcionários.
Assim foi ontem…

Hoje…
Fui intimado a comparecer às barras do tribunal…
Sobre a cátedra de juiz estava sentada a Consciência, calma, serena, austera.
E eu, no banco dos réus, humilde, sincero, confuso…
E, abrindo os lábios, disse a Consciência, inexorável:
“Tu, que sonhas com os feitos heroicos – sucumbes a uma ninharia?
Tu, que queres lutar com leões e panteras – capitulas em face de uma mosca?
Tu, disposto a derramar o sangue por amor do Cristo – ignoras o á-bê-cê da caridade?…”
Eu, de olhos baixos e coração pequenino, ouvia, calado…
“Não exijo de ti” – prosseguiu a Consciência – “que tomes entre dois dedos o Corcovado e o jogues às águas da Guanabara – mas exijo que seja senhor dos teus nervos, e não te reduza a escravo dos teus escravos.
Exijo de ti o menor e o maior de todos os sacrifícios: que suportes, sereno, calmo, amável, as vinte e quatro horas de cada dia…”

anjo caído

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