Do pensamento-seita ao pensamento livre

Uma pergunta que tenho me feito bastante ao longo da vida adulta: o que há com grupos, teorias e seus adeptos que os faz invariavelmente adquirir aspectos de seita e fundamentalismo?

Não me excluo da proposição: eu mesma já fui defensora ferrenha de certas verdades e princípios filosóficos, como se toda a realidade devesse neles se encaixar. Defendi combativamente pontos de vista que hoje deixaram de ter importância ou sentido para mim. E é curioso que enquanto estamos fundamentalistas a respeito de algo, não é assim que nos percebemos: parece apenas uma questão de afirmar “o que é certo”.

Vivi bastante essa oscilação entre verdades cristalizadas na época da faculdade. Estudei psicologia há mais de dez anos em uma cidade do interior do Brasil, onde cada grupo teórico se apresentava como um clube particular buscando angarear sócios. Para acessar e permanecer no clube era necessário seguir à risca certas regras morais, linguísticas e comportamentais, tácitas e explícitas. Desde o início dos estudos a guerrilha entre as diferentes verdades me angustiava, pois via em muitas delas idéias que faziam sentido e que apontavam para uma base comum.

Lembro que no primeiro ano de faculdade ainda, já percebendo a pressão que os grupos exerciam sobre os estudantes para que escolhessem uma identidade teórica mais fechada, eu dizia aos colegas: “acho que vou ter que inventar minha própria teoria”. Fui acusada de heresia e pretensão, mas meu intento não era subestimar a complexidade de tudo que já existe – eu apenas buscava uma psicologia mais aberta e universalista, que acomodasse as boas idéias e bases comuns que todos os grupos possuíam.

Por outro lado, o ecletismo irresponsável – a junção de pedaços e técnicas sem o devido aprofundamento do seu significado, levando em conta apenas o critério do ego, ou “aquilo que me serve” – era uma postura que também não tinha apelo. Perdida entre o fundamentalismo e o ecletismo superficial, terminei a faculdade escrevendo sobre a necessidade de que as formações em psicologia estimulassem estudos de base mais filosófica e menos sectária, deixando de tratar teorias como fetiches e buscando uma base mais universalista para suas discussões.

Dali em diante minha investida na psicologia tomou um rumo bastante acadêmico-teórico por alguns bons anos, até o ponto em que comecei a sentir a aridez do que seja qualquer teoria sem uma boa prática – mas isto é uma posição pessoal e seria tema para outra conversa. O que importa é que olhando hoje para a época da faculdade, percebo que além do contexto de época e lugar, também esta pouca experiência contribuía para a “gravidade” da ansiedade que eu sentia frente à pressão para fechar pacote com um grupo definido, e assim ter direito à identidade de psicóloga.

Uma vez que se começa a ser psicólogo para um outro ser humano, fica evidente que quanto mais fechado o conceito com que se trabalha, mais pobre e menos efetiva – quando não danosa – é a intervenção. Por mais que os sectarismos tentem englobar e explicar a totalidade da vida, ela é sempre muito mais dinâmica e poderosa do que as verdades cristalizadas em um livro qualquer.

Voltando à pergunta inicial, há um ingrediente ainda mais poderoso do que a mentalidade obtusa e a inexperiência que parece estimular o sectarismo: a insegurança de se trilhar um caminho mais criativo, que acaba sendo também mais solitário. Em muitos aspectos, é mais fácil pertencer a uma ordem e ser cegamente guiado por seus preceitos. A fórmula já está pronta, são oferecidas autoridades morais em quem se espelhar e existem dispositivos institucionais para proteger os adeptos de condenação moral no caso de equívocos.

Ser espelho, seguir regras e trilhar por searas conhecidas é importante para a formação básica do caráter pessoal e profissional. Mas, para os espíritos mais inquietos, sempre chega o tempo em que as verdades prontas passam mais a amarrar do que a viabilizar o seu ser e as suas energias. Neste momento é preciso decidir entre permanecer na segurança do “mais do mesmo” ou quebrar com os padrões conhecidos, adotando uma postura discernente e, inevitavelmente, dissidente. Desnecessário dizer que a segunda opção requer uma dose extra de coragem e de confiança em si mesmo, pois sobrarão críticos para este tipo de escolha, e faltarão garantias de que ela seja sustentável.

Os trabalhos mais bonitos e inspiradores que conheço, porém, fizeram justamente o movimento de quebrar com alguma tradição e trilhar um caminho mais solo e autêntico. Este tipo de postura não é dada a pregar fórmulas, e por isso não costuma fazer escola. Mesmo assim, sua criatividade transborda e irradia: realizando-se no que faz e sem nada precisar impor, estimula os outros a buscarem eles também formas mais livres e criativas de viver, pensar e trabalhar.

criatividade

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