Conversando com culturas

Uma definição simples de cultura é o compartilhamento de referências sociais e psicológicas entre um grupo de pessoas. Grupos culturais podem ser delimitados pelo viés da geografia, da biologia, da religião, da história e muitos outros ângulos. Além disso, podemos também pensar que cada ser humano é feito de relações únicas que estabelece com o corpo, com o ambiente, com os outros, consigo mesmo e com a espiritualidade. Nesse sentido, uma só pessoa já pode ser vista como um universo cultural diferente – que o digam os casados!

Todos nós estamos expostos a encontros interculturais cotidianamente. Eles se dão não só através da mídia e das artes, mas sobretudo nas interações corriqueiras com pessoas vindas de diversos lugares e criadas sob a influência de diversos costumes. Esta é a regra, e cada vez mais o será, neste nosso mundo que se globaliza rapidamente. Mas o fato de estarmos expostos aos encontros interculturais não significa que estejamos abertos para absorver lições e tirar crescimentos pessoal dos mesmos. O mais frequente, aliás, é passearmos pela vida analisando tudo e todos a partir de pontos de vista que, com nossa permissão indolente, cristalizaram-se em nós. Sofremos – e fazemos sofrer – com a diferença, e ansiamos pelo conforto do igual.

O contexto da imigração é um dos cenários possíveis – mas nem de longe o único – para exercitar a abertura aos encontros interculturais. Nele, ficar fechado nas próprias referências leva ao isolamento e à tristeza da solidão, pois não há muitos “iguais” ao seu redor para oferecer o refúgio da familiaridade. Quando se mora em outro país – e quanto mais culturalmente distante, mais radical talvez seja a proposição – a diferença lhe é “esfregada na cara”, mesmo quando você não estava afim ou apto a percebê-la por esforço próprio. E é preciso de alguma forma lidar com ela para poder tocar a vida. O exemplo mais básico disso é o da comunicação numa segunda língua, quando uma conversa boba – ou pior, importante – qualquer precisa continuar, apesar de você não ter entendido alguma palavra-chave, ou não ter sido entendida. Nessas horas é preciso esquecer o orgulho, improvisar e seguir em frente.

Os chacoalhões da imigração atingem em cheio nossa inércia consciencial e as identidades que construímos, que passam a ser vistas com um olhar bem mais perspectivo. Foi na Inglaterra que aprendi, por exemplo, que não sou branca, quando um policial inglês riu da minha cara ao me escutar me auto-descrevendo desta forma. Em boa medida, continuar sendo a mesma pessoa não é uma escolha, ao menos não uma sustentável no longo prazo.

A mesma lógica pode ser transposta para o encontro com a diferença em geral. Imaginemos uma uma escala que vai do extremo de “continuar tendo aquela velha opinião” ao extremo de “dissolver-se na coletividade de diferenças”. A globalização e a evolução têm nos empurrado, em qualquer contexto – não sem resistência e nem sem problemas – para a segunda alternativa.

Como nenhum extremo parece saudável, o ponto de equilíbrio precisa ser encontrado em valores essenciais que funcionem como uma base a partir da qual a exploração da diferença só acrescentará riqueza e crescimento pessoal e coletivo. Gosto de pensar que caminhamos rumo a um estado de espírito em que a diferença é acolhida e entendida como uma superficialidade sob a qual estão escondidas as verdadeiras essências humanas. Os encontros interculturais – ou, simplesmente, humanos – seriam tanto mais pacíficos e enriquecedores quanto mais conseguíssemos enxergar a unidade sob nossa aparente diversidade.

unidade na diversidade

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