Como melhorar a manifestação do Amor

A questão dos princípios masculino e feminino é uma das temáticas espirituais que considero mais fascinantes para estudo, meditação e auto aperfeiçoamento. A abordagem espiritual do tema traz inúmeros desdobramentos e pontos para reflexão, entre eles, o tema central do Amor enquanto força divina de Vida.

O Mestre Omraam Mikhaël Aïvanhov tratou deste tema em profundidade, notadamente nos volumes 14 e 15 das Obras Completas (ainda não disponíveis em Português). Uma versão mais condensada das ideias contidas nestes escritos pode ser lida no igualmente brilhante “O Masculino e o Feminino, Princípios da Criação“.

O trecho reproduzido a seguir, gentilmente enviado via newsletter pela Publicações Maitreya, inspira a todos aqueles que se preocupam em melhorar a sua manifestação no mundo, incluindo aí a arte de melhor Amar.

Como melhorar a manifestação do Amor

Extrato de “O Masculino e o Feminino, Princípios da Criação“, de Omraam Mikhaël Aïvanhov

“Com o decorrer das eras, o conceito de amor evoluiu. Os primitivos comportavam-se neste domínio com uma violência, uma brutalidade e uma sensualidade indescritíveis. Eram oceanos desenfreados, vulcões em erupção. Com o tempo, com o despertar da consciência e da sensibilidade, novos elementos se juntaram: a ternura, a subtileza, a delicadeza… No entanto, ainda hoje, na maioria dos casos, o amor continua a ser uma manifestação primitiva.

O amor passional, instintivo, que se praticou durante milênios, gravou-se tão profundamente no homem que ele agora não sabe como refiná-lo, como torná-lo mais nobre, e, por enquanto, amar continua a parecer-se com uma carnificina: as pessoas atiram-se umas sobre as outras, brutalmente, sem preparação, sem estética, sem poesia. Têm fome e então comem, regalam-se e ficam saciadas por um tempo; depois, voltam a ter fome e novamente se atiram à comida.

Muitas, mesmo as que pertencem a uma sociedade que se diz culta, praticam o amor como selvagens: sem qualquer poesia, qualquer beleza, qualquer harmonia, nada… Elas devoram-se! E, mesmo que se esforcem por oferecer ao seu parceiro um comportamento mais requintado, isso ainda não é o verdadeiro amor, são apenas uns adornozinhos.

O amor é um impulso magnífico, mas misturam- se nele imensos elementos passionais que impedem o aparecimento da sua verdadeira natureza…

Observai os animais quando nascem: um cãozinho, um vitelinho, um cabritinho… Eles não estão muito asseados e a mãe limpa-os. E também se dá um banho às crianças recém-nascidas. Pois bem, com o amor deve-se fazer a mesma coisa.

O amor é um filho divino, porque em toda e qualquer forma de amor existe Deus, mas é preciso limpar o amor, purificá-lo, educá-lo, reforçá-lo, libertá-lo, para se descobrir a Divindade. Mesmo o amor mais egoísta, mais inferior, mais sensual, contém uma quinta-essência divina, mas coberta com demasiados elementos heteróclitos, porque, no seu trajeto, ele teve de atravessar certos lugares que não estavam nada limpos: chaminés, caminhos lamacentos…

Mesmo as melhores coisas que vêm do Céu têm de atravessar as camadas que nós acumulamos; pensamentos e desejos inferiores, e toda a espécie de elucubrações mentirosas. Por isso, por agora elas estão envolvidas em sujidade; são pedras preciosas que precisam de ser limpas. Enquanto o homem não pensar em purificar-se, todos os impulsos, ímpetos e forças vindos do Céu serão deformados.

O amor é a vida divina que desce às regiões inferiores para as invadir, as regar, as vivificar. É a mesma energia que a energia solar, a mesma luz, o mesmo calor, a mesma vida, mas, ao vir até nós como um rio, carrega-se com as impurezas das regiões que é obrigada a atravessar. Ela brotou, pura e cristalina, do cume das altas montanhas, mas tornou-se irreconhecível por causa da sua descida às camadas inferiores, entre os humanos, que consideram o amor unicamente como um meio de ter prazer ou de perpetuar a espécie.

Então, põe-se a questão: posto que se trata de uma energia divina, a mais poderosa e a mais essencial, como torná-la de novo tão pura como era no começo, na sua origem?…

Primeiro, deve-se saber que o amor tem milhares de graus, ou degraus, do mais grosseiro ao mais subtil, e que é possível subir esses degraus. Pelo pensamento desperto, pela atenção concentrada, por um controlo inteligente, pode fazer-se um trabalho sobre si próprio para que esta energia se torne de novo tão límpida como a luz do sol e aja beneficamente por toda a parte onde passar, em vez de demolir e de destruir.

Há, pois, algumas regras a conhecer, mas, para as aplicar, não tereis de esperar até ter a vossa amada nos braços durante o amor. Elas devem ser aprendidas nas atividades quotidianas, muito antes de se desencadearem os processos do amor.

Tomemos um exemplo. Todos os dias vós deveis comer. Mas, quando estais à mesa, não engolis tudo o que tendes no prato; fazeis escolhas. Sejam mariscos, peixes, queijos, legumes ou frutos, há sempre alguma coisa grosseira ou indigesta que se deve lavar ou deitar fora. O homem, que é mais evoluído do que os animais, faz escolhas na comida; os animais não fazem. Mas, quando se trata de sentimentos e de pensamentos, ele já não faz qualquer seleção, engole tudo.

Por quê? Por que é que os seres que se amam, quando querem abraçar-se e beijar-se, nunca pensam em eliminar primeiro as impurezas daquilo que vão “comer”? Muitas vezes, nos seus sentimentos, nos seus beijos, eles deixaram infiltrar-se germes de doenças e de morte que a sua inconsciência não lhes permitiu ver e eliminar.

Sim, a morte infiltra-se no amor inferior, o amor estúpido em que não há consciência, nem controlo, nem luz. E é este amor que, por todo o lado, é tão cantado, louvado, glorificado! Ninguém conhece um outro amor e, se falardes dele, as pessoas olharão para vós pensando que estais loucos.

Tudo começa pela nutrição. Antes de ir para a mesa, lava-se as mãos e, antigamente, até se dizia uma oração para convidar o Senhor a partilhar a refeição. Talvez ainda haja camponeses que continuam a fazê-lo, mas as pessoas cultas acabaram com essas tradições. É a isto que a inteligência e a cultura conduzem os humanos!…

Lavar as mãos e convidar o Senhor para a mesa eram práticas que continham um sentido profundo, e os Iniciados que as introduziram queriam dizer aos seus discípulos: «Do mesmo modo, antes de amar um ser, antes de o tomar nos braços, convidai os anjos a participar nesse banquete; mas, primeiro, lavai as mãos, isto é, purificai-vos, tende a vontade de não sujar esse ser, de não lhe passar as vossas doenças, o vosso desalento, a vossa tristeza.»

Mas, em geral, como é que as coisas se passam? O rapaz está infeliz, “nas lonas”, e, para se reconfortar, tem necessidade de abraçar e beijar a sua namorada. Então, o que é que ele lhe dá? Ele tira-lhe tudo – as forças, a alegria, as inspirações – e em troca só lhe dá sujidades! Em tais circunstâncias, ele não devia abraçá-la, mas sim pensar: «Hoje estou pobre, miserável, sujo. Então, vou preparar-me, lavar-me e, quando estiver verdadeiramente em bom estado, irei levar-lhe a minha riqueza.»

Nunca se pensa assim, mas no futuro, quando houver compreensão, ficar-se-á envergonhado e enojado ao ver a fealdade com que se amou os outros. Vós direis: «Mas toda a gente faz assim; quando se está triste, tem-se necessidade de ser consolado.» Não é porque toda a gente é inconsciente e egoísta que vós também deveis sê-lo!

No futuro, todos aprenderão a amar como o sol, como os anjos, como os grandes Mestres, que, no seu amor, jamais tiram; pelo contrário, eles dão sempre.

Há dias em que vos sentis pobres; nesses dias, mantende-vos afastados da vossa amada, senão a lei virá perguntar-vos por que é que a roubastes. As pessoas são extraordinárias: quando se sentem bem, distribuem as suas riquezas a quem quer que seja, mas, quando estão infelizes, desesperadas, vêm espoliar aqueles que amam. Comportam-se como ladrões; sim, autênticos ladrões.

Portanto, quer para o amor, quer para a nutrição, a primeira regra é não comer o alimento que está diante de vós sem ter feito previamente uma seleção. Por isso, é preciso saber a diferença entre um sentimento e outro: um sentimento egoísta e um sentimento desinteressado, um sentimento que limita e um sentimento que liberta, um sentimento que perturba e um sentimento que harmoniza…

Mas, para se poder classificar os sentimentos, é preciso estar vigilante, pois, se fordes tocados por um impulso cego e a vossa atenção estiver adormecida, não estareis presentes na fronteira para ver se se trata de inimigos que estão a infiltrar-se para minar o vosso reino. A vigilância, a atenção e o controlo são necessários para não vos deixardes levar.

Ora, no seu amor, as pessoas só pensam em deixar-se levar. Suprimir o pensamento, a consciência, ficar inebriado… Para elas, é isto o grande amor. Parece que, se não se estiver inebriado, se tem menos sensações! Mas o que sabem elas disso? Já tentaram estar vigilantes, fazer uma seleção e ligar-se às correntes superiores para ver que alegria experimentarão e que descobertas farão?… Se nunca experimentaram, como podem pronunciar-se?”

Krishna and Radha
Krishna and Radha

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