Como me tornei (quase) vegana

(e coisas que eu gostaria de dizer a quem quisesse escutar)

Dezembro de 2017. Tarde de sábado na casa da minha mãe, todos antecipando com alegria um jantar clássico no cardápio da família: o cachorro quente da Dona Erica. Uma comidinha que me permitia comer uma ou duas vezes por ano, porque sei do quão mal à saúde fazem os embutidos – ainda que os de aves, que eram meus preferidos. Então para mim era ‘o dia do cachorro quente’!

Telefono para o meu marido, convidando-o para se juntar a nós. Ao longo dos tantos anos em que estamos juntos, ele sempre partilhou da alegria daquele tipo de jantar. Mas ao ouvir meu convite, recusou, e me fez um pedido: “não come salsicha. Por favor. Depois eu te conto por quê”.

Ele havia passado parte da tarde assistindo a um documentário, disponível na Netflix, chamado ‘What The Health?‘ (Que Raios de Saúde?). E assim como eu, que assisti depois para entender os motivos do alerta dele, ficou impressionado com os fortes argumentos sociais e médicos a favor de uma dieta que não contivesse nada de origem animal (plant-based diet; ou vegetarianismo estrito).

O argumento da saúde – arrematado por outros documentários na mesma linha, como o ‘Forks over Knives‘ e o ‘Hope – What You Eat Matters’ – foi forte o suficiente para decidirmos nos informar mais e tentar mudar nossa alimentação de forma radical. Até então comíamos carne eventualmente; frango, ovos, queijo e leite diariamente. Depois do primeiro documentário, já partimos para cortar tudo isso, substituindo por alternativas vegetais que contivessem os mesmo tipos de macronutrientes. Descobrimos que alguns micronutrientes precisam ser suplementados, mas hoje em dia tudo está muito bem documentado, o que facilita a vida para quem não tem preguiça de se informar. Percebemos logo que ser vegetariano estrito (ou ter uma dieta vegana) dá um pouco de trabalho no começo, mas não é nada de outro mundo.

O corpo demora algumas semanas para se adaptar. No início sentimos um pouco de fraqueza e ‘nuvem mental’, provavelmente porque ainda não sabíamos escolher todos os nutrientes necessários para o corpo nessa nova dieta. O lado da força de vontade também precisou funcionar forte num primeiro momento. É que antes, como já éramos um pouco antipáticos à carne, consumíamos derivados de leite em excesso. Coisas como queijo e manteiga não deixaram de ser gostosas, então abrir mão delas foi um sacrifício voluntário.

Comer em restaurantes se torna bem mais difícil, e eventos sociais em geral requerem alguns ajustes e preparação prévia. Tudo contornável, mas numa sociedade em que comer carne é motivo de celebração, a sensação melancólica de desencaixe cultural pode bater com força em alguns momentos.

O aspecto mais difícil para mim talvez tenha sido esse, o cultural. Infelizmente em muitos lugares do Brasil, incluindo a região onde moramos, muitas pessoas sequer sabem o que é veganismo. Entre as que sabem, predominam estereótipos e muitas expressam surpresa e desconfiança em relação a essa forma de se alimentar.

Muitas pessoas, muitas mesmo – eu sei porque eu já me senti assim perante veganos que conheci antes – secretamente sentem uma antipatia e até uma defensividade quando sabem que somos veganos, porque acham que estão sendo julgadas e inferiorizadas por não partilharem da mesma filosofia.

É verdade que a atitude agressiva de alguns veganos justifica isso, mas como em toda tribo, existem as diferentes correntes, e o erro de alguns não deveria tirar o mérito da causa por ela mesma. Felizmente existem os veganos que lutam por um mundo mais ético para os animais mas que ao mesmo tempo respeitam o espaço e o tempo das outras pessoas. Aliás, um exemplo bem legal dessa vertente do veganismo mais pacífico é o trabalho do Fábio Chaves, do portal Vista-se, que estou sempre acompanhando.

Voltando à história da nossa mudança, ela foi motivada num primeiro momento pela saúde, mas algumas semanas depois, nas pesquisas sobre o assunto, nos deparamos com um filme clássico do movimento vegano, chamado Terráqueos (Earthlings). Esse filme aborda o assunto por um outro ângulo: o da (falta de) ética para com os animais do planeta Terra. É um filme forte, e por isso não o recomendo àqueles que ainda não se desapegaram dos alimentos de origem animal e sentem culpa por isso. É preciso estar pronto, desapegado da ideia de consumir animais e seus derivados, caso contrário corre-se o risco de ficar deprimido e oprimido por ainda mais culpa.

Na verdade, não consegui assistir esse filme até o final. Quando chegou nuns 45min, presenciar aquele sofrimento todo ficou insuportável. Mas, em meio às lágrimas, o argumento enfim alvoreceu na minha consciência: os animais não existem nesse planeta para me servir. Eles são seres sencientes que têm igual direito de habitar esse planeta; e assim como nós, querem preservar a própria vida, a prole, e desfrutar de liberdade. E nós, humanos (me incluo), somos para eles como eram os nazistas para a humanidade: algozes etnocêntricos dessensibilizados para o mal profundo e o sofrimento sistemático que causamos aos animais.

Evitar ficar pensando na origem do alimento para não se ver preso em um dilema ético é sempre uma opção – foi a minha por muitos anos. Como tantas outras coisas na vida, só é possível continuar se comportando de certo jeito quando ignoramos as relações e as consequências envolvidas naquela escolha. Mas uma vez que se sabe, não é mais possível continuar errando. Ao menos não sem uma grande dose de culpa.

Nós escolhemos não ignorar mais. Além da saúde, o mal que causamos aos animais e o pouco esforço que as pessoas estão dispostas a fazer para repensar seus gostos e necessidades – principalmente tendo em vista que o ato de comer animais tem implicações éticas porque produzem vítimas – passaram a nos incomodar, gradativamente.

Mas isso não quer dizer que julgamos os outros ou que nos sentimos superiores. Essa é uma acusação comum feita aos veganos, provavelmente porque muitos abordam essa questão de uma maneira agressiva e excludente, que ao meu ver é inadequada. Ficar com ódio dos humanos é uma distorção do propósito ético, afinal o amor é uma força inclusiva. O amor aos animais não pode de forma alguma excluir o amor aos seres humanos também.

Sobre isso, gosto sempre de dizer que não sou perfeitamente vegana – daí o ‘quase’ do título – porque não me desfiz de acessórios de couro que eu tinha antes de realizar a mudança, não fiz uma varredura integral nos produtos não alimentares que continuo consumindo, como cosméticos, produtos de higiene e limpeza, e não tive coragem (por desinformação talvez) de mexer na alimentação da minha filha. Tudo isso está no horizonte dos ajustes que desejo fazer, mas não me sinto superior às pessoas não-veganas. Me sinto muitíssimo próxima a elas, em muitos sentidos. Eu entendo que a compaixão está no coração da maioria, mas a inércia, o medo e a desinformação impedem muitos de se colocarem numa posição mais ética em relação aos animais.

Secretamente, torço sim para que cada vez mais pessoas despertem para a necessidade e possibilidade de nos alimentarmos de forma feliz e saudável sem precisar explorar os animais do planeta.

Eu torço, mas não fico enchendo o saco de ninguém. Tenho a esperança de que o veganismo seja o futuro da humanidade (já foi até o passado em algumas culturas), e a humildade de saber que coletivamente isso ainda vai demorar muito tempo. Eu me interessei há pouco tempo, e embora eu saiba que para mim foi um passo irreversível, entendo o que é estar nessa outra posição. O tempo de cada um precisa ser respeitado.

O meu tempo, graças a Deus – que através do meu marido deu o toque inicial nisso tudo – já começou. E como me sinto cada vez mais viva, saudável e feliz nesse caminho, é o que naturalmente desejo a todos aqueles a quem amo.

‘Go vegan’, e garanto que você também não vai se arrepender.
🌱👍😊

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