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Mudança: um mergulho em praticidades

Desde que retornamos a Londres estávamos alugando um quarto na casa de uma amiga, e agora nos mudamos para um flat não mobiliado. Assim como em outras fases em que me mudei, a semana que passou foi um período em que as praticidades ganharam o centro das atenções. Quando você se muda para um lugar apenas com roupas, sem possuir nem uma colher de cafezinho, os requisitos para tocar uma vida normal deixam de ser banais e saltam aos olhos: o valor de uma cadeira, de uma mesa, de uma cama de verdade. Facas, panelas, pratos e xícaras. Todos objetos desenhados ao longo do tempo pela inteligência humana para tornar nossa vida fácil como ela é hoje. Sofá… sofá é um luxo, gente! Agradeçam a existência do seu.

Não sou das pessoas mais práticas que conheço. Por isso, a última semana tem sido um banho de mundo real para mim, envolvida que fiquei 24 horas por dia com a necessidade de limpar e rechear uma casa para torná-la modernamente habitável. A primeira fase, que durou uns 3 dias, foi a faxina. Muitas casas aqui têm carpet – assim como as casas brasileiras na década de 80 – e existe uma série de procedimentos para lavar e limpar bem o carpet usado por inquilinos anteriores. Desde aprender qual o produto e a máquina certos, tudo é uma aventura. Limpar banheiras – outra peça comum nas residências inglesas – também tem suas particularidades, assim como remover “limescale”, que é uma crosta que se acumula nas peças de metal devido à química da água reciclada que circula por aqui.

Quanto à mobília e utensílios, ainda faltam vários itens, grandes e pequenos, mas aos poucos o novo lar está tomando a forma que queremos. O início é um exercício de criatividade: um saco de lixo forte é um substituto barato para uma mala; uma caixa de papelão quebra o galho como mesa; um lençol dá uma excelente cortina provisória. Cada nova aquisição é uma pequena alegria, especialmente para o corpo. As costas reclamam feio por ter de dormir no colchão inflável e usar o computador no chão enquanto não chegam a cama e a escrivaninha. Também não é moleza carregar os itens comprados – alguns bem pesados – sem carro. Os cinco minutos que separam nosso flat do ponto de ônibus mais próximo parecem uma eternidade quando se está carregando coisas pesadas!

Apesar disso, essa imersão nas coisas “pé no chão” me fez muito bem. Representou uma folga daqueles estados de espírito reflexivos, cheios de planejamentos e quebra-cabeças mentais que provocam o seu tipo específico de cansaço. O cansaço das coisas práticas é bem físico e, assim como um bom exercício na academia, relaxa a mente. Muitas mulheres da minha geração torceriam o nariz pra essa constatação, mas afirmo sem medo de errar que faxina e arrumação também têm o seu valor. Para homens e mulheres igualmente.

mudança

Navegando pela psicologia e pela espiritualidade

Tendo terminado de escrever, há pouco tempo, uma dissertação sobre a dimensão espiritual da existência humana – um tema de importância central para mim – segundo a concepção da psicoterapia existencial, pensei em dividir aqui alguns detalhes do caminho que me conduziu ao curso que estou fazendo, na Inglaterra, sobre essa abordagem. A dissertação em si posso até vir a compartilhar no futuro, mas prefiro esperar o feedback dos professores para descobrir até que ponto meu entendimento do assunto foi acurado, ou então influenciado por aquilo em que quero acreditar: que essa abordagem não só valida a espiritualidade como também abre espaço para a livre expressão dos entendimentos espirituais que nós terapeutas e nossos clientes possamos ter.

O tema me é caro em função das amarras ideológicas – basicamente, uma concepção materialista de homem, que exclui e até menospreza a questão espiritual – que permearam meus anos de formação no Brasil, e que me levaram por caminhos profissionais causadores de grande desequilíbrio psicofísico.

A espiritualidade esteve presente na minha vida desde o nascimento até os primeiros anos de faculdade, a partir dos quais se seguiu um período de grande ceticismo e materialismo. Claro que além de ter sido uma forte influência externa, a adesão a uma visão materialista-cética do ser humano foi uma concessão, um erro de minha própria parte.

Considero estes anos de formação materialista um “período opaco”. Nele houve muito aprendizado e desenvolvimento intelectual; adquiri títulos e méritos acadêmicos, que tiveram seu papel social de abertura de portas profissionais, mas acabei me tornando uma pessoa pior e mais fraca em muitos sentidos. Julgamento arrogante dos caminhos alheios e períodos recorrentes de grande estresse e ansiedade com repercussões físicas sérias foram se acumulando em meu ser. O desconforto existencial cresceu sutilmente, até passar a ser meu modo de funcionamento padrão.

Esse processo aconteceu ao longo de mais ou menos dez anos, até chegar um momento em que uma espiral de eventos negativos ao meu redor me levaram quase ao fundo. Ao “período opaco” seguiram-se cerca de dois anos de “golpes da vida” aos quais, em função de ter aberto mão de valores e saberes tão importantes para mim, eu não soube como responder. Afastada da espiritualidade, eu tinha perdido completamente meu centro de força interior. O resultado foi bastante confusão, tristeza e desequilíbrio físico-emocional.

A página turbulenta só começou a ser virada quando, por conta de encontros e reencontros importantes comigo mesma e de alguns acontecimentos, a espiritualidade voltou a fazer parte de minha atenção cotidiana. Não aderi a nenhum grupo ou ideologia específica, mas fui reestabelecendo minha conexão com o divino através de leituras, músicas, pessoas, lugares e experiências luminosas. Bastante auto-observação e reflexão – e um esforço descomunal para parar de me sentir vítima da vida e voltar a ser uma pessoa mais leve – junto com estes encontros felizes acabaram por naturalmente me reconectar à fonte espiritual. Não foi fácil nem automático, mas aos poucos fui voltando a me sentir uma pessoa forte. Aprendi a ser auto confiante sem subjugar os outros e recuperei a coragem seguir em frente sendo eu mesma. A paz e a tranquilidade voltaram a ser meu estado homeostático – obviamente perturbável vez ou outra, mas nada que hoje eu não consiga driblar sem perder meu próprio centro.

Coincidentemente – ou não – a estas mudanças internas positivas começou a se seguir uma chuva de presentes e boas surpresas da vida. Melhor dito, antes os presentes estavam ali – eles sempre estão – mas eu é que estava muito ensimesmada e cega para percebê-los. E aqui retorno ao ponto que me levou originalmente a escrever esse post: um destes presentes foi descobrir um pequeno ninho de treinamento profissional sério e reconhecido em psicoterapia na Inglaterra (onde eu havia decido voltar a morar sem saber o que poderia fazer profissionalmente) no qual a espiritualidade é, se não estimulada, ao menos muito bem aceita.

Quem lê isso pode estar pensando: mas existem tantos locais sérios de treinamento para terapias espiritualistas por aí, porque teria sido tão surpreendente e especial encontrar este ninho? É uma questão de encaixe pessoal. Em primeiro lugar, não existem tantos assim aqui na Inglaterra. Em segundo, tenho uma preocupação em equilibrar o conteúdo do treinamento com o seu poder de entrada social no mercado de trabalho. Em terceiro, e o mais importante ponto, eu não gostaria de abraçar, no atual momento, um caminho espiritualista que descartasse as técnicas e saberes da psicoterapia tradicional. Isto porque além de ter sido meu principal treinamento, não considero que tenho nenhum tipo de habilidade espiritual especial que me permita abandonar as técnicas “humanas”.

Acredito que minha força profissional reside nos métodos mais tradicionais de presença, escuta e conversa, com base nas tramas da realidade física, e por isso as coisas que aprendo na psicoterapia tradicional são de grande valor para mim. Mas hoje, com o filtro do entendimento espiritual da condição humana ligado de forma perene, quero seguir um caminho que seja uma boa síntese dos meus valores espiritualistas com aquilo que me sinto capaz de realizar. Os desdobramentos desse caminho-síntese ainda são uma incógnita, só que isso não me aflige mais. As incertezas da vida, que antes me provocavam grande medo, agora são vistas por mim com uma espécie de curiosidade feliz.

Sabedora de quais valores me fortalecem e me guiam e realista quanto aos meus potenciais, parece que encontrei um bom lugar para me desenvolver profissionalmente. Vamos ver se o feedback da dissertação e o progresso ao longo do treinamento confirmarão isso, ou se me instigarão a rever os planos e reajustar mais uma vez as velas.

chegando no cais

A árvore

Num certo fim de verão, uma frondosa árvore deixou cair no chão um de seus saborosos frutos maduros. No fruto havia sementes que, imperceptíveis ao observador externo, pulsavam de vida no seu interior. O chão absorveu com gosto a doçura daquela fruta, e acolheu no seu seio aquecido as pequenas e frágeis sementes, protegendo-as das estações frias que vinham pela frente.

Perguntando-se sobre o paradeiro do seu fruto caído, a árvore viu chegar o outono, e ainda que um pouco temerosa, seguiu a orientação da natureza, deixando-se despir de todas as suas folhas. Mal sabia ela que aquelas suas folhas perdidas adubariam o terreno que abrigava sua filhote, servindo de alimento orgânico para o seu crescimento.

Veio o inverno, e a árvore, completamente desnuda, viu acumular em seus galhos ressecados grossas camadas de neve branca, que a deixavam linda, mas cuja temperatura nem sempre era fácil de suportar. Atenta aos chamados da natureza, porém, a árvore ali permaneceu, serena, procurando relevar o frio e apreciar a beleza das alvas paisagens ao seu redor.

Os primeiros ventos cálidos da primavera sopraram, e para a surpresa da árvore, ao seu lado, no chão, despontava um pedacinho de verde brilhante, que se parecia com ela mesma, rejuvenescida. Era a sua filhote, o ex-fruto maduro que a generosidade da natureza agora transformara em um novo ser. Que alegria!

Transbordando de gratidão, percebeu que botões verdes recomeçaram a brotar também nela mesma, tornando-a novamente colorida e produtiva. Sabia que havia ganhado naquela pequena companheira um grande presente, pois dividiria com ela, de perto, todas as belezas e desafios das futuras estações, tantas quantas a natureza permitisse que apreciassem juntas.

Sentindo-se abençoada, a árvore relfetiu que para merecer tal presente, a única coisa que lhe tinha sido pedida foi que se despojasse de tudo que imaginava seu – frutos, folhas – e que os entregasse aos ritmos da natureza. Fora-lhe pedido que confiasse no poder maior que girava os ciclos da vida, e que escapava à sua limitada compreensão individual.

A árvore compreendeu que somente com sua plena entrega puderam ser abertos os caminhos para a maravilha daquelas novas alegrias, daqueles novos encontros e daquela nova vida.

Árvore frutífera

Educar a percepção

Dia desses encontrei foto minha do período da adolescência, uma época da vida que memorizei como conturbado, cheio de desilusões amorosas, inseguranças, sentimentos de solidão e de incompreensão. A verdade era que eu não via a hora de ficar adulta, imaginando que mais velha, independente e formada, aquele turbilhão de sentimentos obscuros acabaria e eu encontraria alguma paz.

Essas especulações se revelaram em algum grau verdadeiras, pois me sinto muito mais confortável na minha pele hoje do que me sentia aos 15 anos de idade. Mesmo assim, olhar para meu semblante naquela foto não deixou de surpreender. Nela eu parecia – e estava – jovial, alegre e relaxada. Um estado de espírito que não tinha ficado registrado nos meus arquivos conscientes a respeito da adolescência. E junto com a surpresa da foto vieram lembranças de outros momentos e aspectos felizes daquela época, os quais minha memória vinha preferindo deixar escondidos em alguma região inacessível.

Isto me fez pensar em como nossa memória é criteriosamente seletiva. Ela encadeia acontecimentos e sensações de modo a compor o enredo em que preferimos acreditar. A realidade sempre pode ser vista de vários ângulos, mas quase sempre escolhemos uma história específica que queremos contar para nós mesmos, e ficamos apegados a ela. A realidade dos fatos existe – há vidas com mais desafios, outras com menos – mas ela é bastante filtrada e depurada para caber em nossa interpretação.

Muito mais do que uma coleção de fatos objetivos, nossa memória é carregada de emoções e subjetividade. Quando a história que ela nos conta não é particularmente feliz ou provoca sofrimento, pode ser bastante frutífero perguntar-se sobre como vimos interpretando nossa própria realidade. Algo simples como a surpresa de uma foto inesperada, um reencontro com alguém do passado ou um depoimento de um amigo antigo pode provocar isto. Auto análise, meditação e terapia pessoal também.

O mesmo princíprio envolvido neste ‘desconfiar da própria memória’ ajuda a lançar luz sobre nossa vida atual e nossas esperanças para o futuro. Estamos valorizando de forma justa as alegrias que nos são concedidas pelo momento presente? Elas vão desde as coisas mais básicas, como estar vivo e ter boa saúde, até os prazeres mais refinados como ler, pensar, emocionar-se, ser amado e amar. E da mesma forma, estamos mantendo acesa a chama da esperança de dádivas tão ou mais belas, ou outras ainda, que nem podemos imaginar, a serem trazidas pelo dia de amanhã?

Apaziguar nossa relação com os tempos da vida – sejam eles passados, presentes ou futuros – requer que eduquemos nossa percepção da realidade. Envolve focar e ser gratos por aquilo que temos, compreendendo com mais serenidade aquilo que nos falta, por que nos falta, e o que podemos aprender com isto. Até mesmo às faltas temos razões para agradecer: são elas que nos mantêm em constante movimento.

percepção