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O saudável exercício de sair de si mesmo

Tenho visto cada vez mais circular na literatura popular, acadêmica e espiritualista a ideia da importância de se ter uma atividade imbuída de propósito. A experiência do propósito já é amplamente reconhecida como uma força que combate a ansiedade, os estados depressivos e o vazio existencial.

Faz sentido pensar que uma vida voltada apenas para si está fadada a cair num vazio, pois inevitavelmente chegará o momento em que a pessoa ensimesmada constatará a irrealidade do próprio ego. Se assentamos nossa base existencial no engodo de nossas frustrações e quereres fugazes, mais cedo ou mais tarde teremos de reconhecer que havia na vida muito mais do que nossas preocupações e percepções egoístas. A desconexão que construímos ao nos relacionarmos com os outros enquanto egos separados e demandantes é receita certa para o sofrimento.

De minha parte, tenho feito um exercício de observar meus próprios estados mentais e emocionais antes, durante e logo após os momentos em que trabalho como terapeuta. Oferecer terapia é um trabalho que envolve mergulhar no universo psíquico das pessoas que vêm até mim e procurar, junto com elas, as luzes, saídas e alívios adequados às dores e contextos que cada uma vive.

Por ora, não são muitos os pacientes que encampo ao mesmo tempo para um trabalho mais profundo e prolongado. Já que o contexto pede e possibilita, prefiro trabalhar com poucas situações e assim conseguir me dedicar com maior qualidade a elas. Na prática, concentro as poucas vagas que ofereço num determinado dia da semana. Como cada atendimento envolve trabalho antes, durante e depois da sessão, acabo preenchendo ao menos dois dias da semana com essa atividade. São dois dias em que claramente percebo o quão menos ensimesmada consigo ficar.

Essa história de que ao ajudar os outros estamos em primeiro lugar ajudando a nós mesmos é muito real em minha experiência. Eu sinto isso todas as vezes em que atendo, escrevo, ou me entrego a uma atividade de forma espontânea e inteira, por exemplo sendo mãe para a minha pequena de quatro anos.

Estar inteiro em uma situação que nos transcende é uma boa oportunidade que a consciência tem de reorganizar os cacos mentais e emocionais que sobram todas as vezes em que passamos períodos prolongados pensando sobre nós mesmos sem realizar nada pelos outros, encastelados em nossas próprias certezas, memórias, planos e devaneios. A ação construtiva em benefício alheio tem um grande poder de organizar e curar a alma de quem a realiza.

Nos momentos em que eu tinha essa convicção apenas como afirmação teórica, chegava a duvidar de que fosse realmente assim. Agora, constatando na prática o salutar efeito de sair de mim mesma com mais regularidade, sei por experiência que pensar menos em mim e realizar algo por outros é uma experiência que equilibra a própria alma. Alguma mágica acontece que nos faz sair da experiência melhorados, mais contentes, otimistas e apaziguados. E a esse contentamento se segue a responsabilidade de retornar a nós mesmos com a clara consciência de que a vida é muito maior do que os dramas que nosso ego tanto valorizava quando se imaginava sozinho.

Perceber que para além de um ego somos consciências cuja experiência se conecta com a do próximo, e que com o próximo podemos aprender muito sobre nós mesmos, tem sido o maior benefício de sair um pouco mais frequentemente de mim. Quanto mais saídas desse tipo realizo, mais incapaz meu ego fica de sustentar sua ilusão predileta, a de que tudo que lhe acontece ou deixa de acontecer tem suma importância na cadência do universo.

Bom seria se fôssemos capazes de manter essa saudável percepção ao longo de toda nossa vida. Se pudéssemos afirmar, de coração leve, que em nossa passagem por aqui aprendemos a realizar mais e a exigir menos.

Enquanto isso, seguimos tentando aprender a sutil mas essencial diferença entre estar centrado e estar ensimesmado.

Ser feliz é simples

Ser feliz é simples. Nós é que muitas vezes resistimos a essa simplicidade. Gostamos de nos acreditar complexos e indecifráveis, de nos sentir únicos e especiais. E, embora isto seja verdadeiro no que tange aos caminhos pessoais de manifestação, somos também, em nossa essência, irmanados por uma unicidade simples.

O um é simples. A luz, origem de tudo, também. A conexão integral com o espírito se dá primordialmente pelas atividades mais simples. Os bens que preenchem e alegram a alma são singelos e imateriais.

A liberdade serena. O trabalho inspirado. A amizade. A paz. A compreensão. O amor. A consciência. Nossa passagem na Terra serve para aprendermos a caminhar com a chama destes valores sempre animando o nosso viver. Quando afastamo-nos deles, sofremos e fazemos sofrer. Adoecemos, e adormecemos…

Os caminhos da evolução do espírito estão abertos, e os seus mapas apontam para a simplicidade. Que não nos faltem lucidez e tenacidade para trilhá-los. E que a leveza de tudo que é bom, justo e simples nos ajude hoje a plantar as sementes de um belo amanhã.

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Impermanência da matéria, Eternidade do espírito

Semana em pleno andamento, preocupações pé no chão a todo vapor. Trabalhar, ganhar o pão que se come, cuidar de onde mora, do corpo, das crianças, dos pais, dos bichinhos. Arrastar o corpo pra lá, arrastar o corpo pra cá, resolver coisas. Acompanhar as notícias, se engajar com questões políticas e sociais contemporâneas, se preocupar, se emocionar, lembrar e sonhar… tudo dentro do escopo dessa nossa existência limitada, não é mesmo?

Girar junto com essa roda é inevitável e faz parte do caminhar na Terra. Mas é bom, muito bom, fazê-la parar mentalmente com alguma frequência e colocar as coisas na sua devida perspectiva.

Olhar para as estrelas é um exercício clássico nesse sentido. Mas tem um outro que também me fascina: pensar na longa história geológica da Terra e em como civilizações tão complexas e fervilhantes quanto a nossa atual transformaram-se, do ponto de vista físico, em simples camadas geológicas sobrepostas uma à outra, por ordem de antiguidade material.

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Sim, tudo o que se vê com os olhos físicos, tudo que tocamos com as mãos físicas, os cheiros que sentimos, todos os corpos que conhecemos, todas essas coisas às quais damos tanta importância no dia a dia: um dia tudo isso perece e desaparece, transformando-se radicalmente ao ser reabsorvido pelos elementos da Mãe Terra.

As camadas geocronológicas da Terra revelam a história Dela, que é também a história dos nossos corpos e objetos físicos, e mostram como todos eles retornam, um dia, ao seio da Mãe.

O que fica é apenas o que se sente, o que se pensa, o que se É. O que sobrevive, o que deixa marcas eternas, é tudo aquilo que é do Espírito. Ele, que eternamente se recasa com a Natureza, para formar novos corpos e novas civilizações, no anseio de aperfeiçoar cada vez mais a sua manifestação. E nós somos parte dessa história, desta saga espiritual de auto superação.

Que saibamos, então, exercitar a suspensão dos véus opacos da matéria, fazendo nossas escolhas, agindo e caminhando sempre conscientes da eternidade de nosso espírito.

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Gratidão aos ensinamentos diamantinos do Buddha.

Liberdade e compromisso

Tradução adaptada do original em Inglês

Escutei uma conversa outro dia no café de uma universidade que me deixou um pouco mais esperançosa quanto à humanidade. Alguns jovens estudantes estavam sentados em círculo, em sofás e cadeiras confortáveis, degustando seus lattes e capuccinos, quando um deles se virou para o outro e perguntou quais eram as suas ideias a respeito de ‘ser livre’ e de se ‘fazer o que quiser’. Mais especificamente, o objeto de discussão era a liberdade de não comparecer às aulas que os estudantes não achassem particularmente interessantes.

A resposta que se seguiu me surpreendeu em função da sua maturidade e perspicácia, algo que eu não teria automaticamente esperado de um jovem rapaz de vinte e poucos anos. Mas então fui lembrada de que existem por aí pessoas excepcionais, com uma atitude mais madura do que a média para a sua idade perante a vida. Eis o que ele respondeu:

“Penso que como estudante você é livre para fazer o que quiser, mas que com os seus atos vêm as consequências.” Ele prosseguiu, enquanto todos escutavam atentamente: “E você precisa estar preparado para aceitar as mesmas, como por exemplo, reprovar na matéria. Desde que você esteja disposto a aceitar as consequências, você é livre para fazer o que quiser. Com a liberdade vem a responsabilidade”.

À sua fala seguiram-se sobriedade e reflexão silenciosa no grupo. Havia claramente sabedoria e verdade naquela afirmação.

Com frequência pensamos que liberdade é fazer o que quer que vem à mente, seguir nossos impulsos e saciar nossas vontades. O problema é que nunca parecemos tão bem dispostos para aceitar a responsabilidade pelas consequências trazidas por essa suposta liberdade. Como somos parte de um mecanismo maior, nossas ações sempre irão desencadear reações – este, aliás, é precisamente o sentido do conceito espiritual de carma.

Na realidade, somos muito inclinados a dar livre vazão às nossas causas descuidadas, ao mesmo tempo em que tendemos a esquecer e recusar a responsabilidade pelas reações desencadeadas.

As observações daquele jovem garoto imediatamente trouxeram à tona esses pensamentos sobre carma, e me fizeram lembrar de um dos livros mais iluminadores que já li sobre o tema da liberdade, de um pensador espiritual que admiro profundamente, Omraam Mikhaël Aïvanhov.

Sua ideia central é a de que não existe algo como liberdade absoluta para a humanidade – ela é reservada ao Criador apenas. Quando alguém está livre de certas circunstâncias, está comprometido com outras. A verdadeira questão, assim, é escolher sabiamente de quais amarras libertar-se e a quais prender-se. Aqui está como ele lindamente coloca isto:

Você deve se libertar, é verdade, mas para limitar a si mesmo. Você deve se libertar internamente de todos os seus instintos e tendências baixas para se amarrar a algo mais elevado, para trabalhar para a coletividade. Este, para mim, é o verdadeiro significado da vida e da liberdade. A felicidade e a alegria consistem em libertar a si mesmo, não em se eximir de suas obrigações, mas em libertar a si mesmo internamente de todas as próprias fraquezas para comprometer-se ainda mais integralmente a ajudar outros. Sim, se você quer ser internamente livre, você deve começar por limitar a si mesmo e sacrificar certas coisas para comprometer-se mais plenamente.” (Aïvanhov, in: Freedom, the Spirit Triumphant)

Libertar-nos de nossas fraquezas e vontades egoístas para nos comprometermos mais plenamente com o auto crescimento e a melhora coletiva: eis uma perspectiva surpreendentemente verdadeira e generosa acerca do que a liberdade realmente é.

Celtic cross of commitment

Image: Celtic Cross of Commitment, by Wild Goose Studio

Palavras são toques na alma

Algumas passagens da infância marcam a nossa memória sem que saibamos exatamente o por quê.

Entre as minhas está um momento vivido em torno dos dez anos de idade, época em que estudava com gosto a bíblia e os ensinamentos cristãos, que permearam minha formação de base num colégio franciscano do interior de Santa Catarina.

Eu estava sentada no banco da igreja católica ouvindo, como de praxe semanal, a explicação do padre sobre o evangelho lido naquele dia, que incluía o seguinte trecho dos provérbios (12:18):

“Há alguns que falam como que espada penetrante, mas a língua dos sábios é saúde.”

Ainda posso me ver sentada no banco comprido de mogno, com a roupinha comportada e o cabelo domado por uma tiara, bem atenta àquelas palavras que se gravavam na alma como um insight mágico. ‘Sim’, pensei, ‘isso é tão verdadeiro! Como seria bom se todos tivessem consciência disso…’

Tantos anos mais tarde, afastada da igreja desde os catorze ou quinze, a metáfora da língua como espada ou como saúde permanece gravada profundamente no meu coração. É, sem dúvida, uma das verdades espirituais que mais amo – o que, claro, não quer dizer que nunca tenha vacilado quanto à sua consecução.

A luz deste provérbio está sempre no background da minha consciência, e por isso uma das coisas que mais me entristecem é cometer – ou ver cometida – a violência através das palavras ou das intenções.

Sim, as intenções, os sentimentos que animam o dizer, são o que de fato valem, pois o fel do destempero de alguém transparece muito claramente mesmo quando profere as mais belas e corretas palavras.

O mais cristalino discernimento será maculado se não for comunicado desde as águas serenas do coração. A palavra nunca cura quando é movida por intenção ácida ou ferina.

A palavra-saúde é aquela que nasce de intenção tão doce quanto a da mãe que se dirige à criança amada. É qualidade de natureza feminina, mas que precisa ser ativamente desenvolvida por todos, homens e mulheres, na alquimia pessoal de se tornar alguém melhor.

Palavras são toques na alma. É sempre bom lembrar que almas são partículas de Deus extremamente sensíveis às durezas e às delicadezas de trato, e que os efeitos de nossas intenções e palavras são de nossa inteira responsabilidade.

Nesses tempos de comunicação tão banalizada e inconsequente, penso no quão valoroso seria se sacralizássemos um pouco mais as intenções e os conteúdos que propagamos no mundo.

Certamente viveríamos em um ambiente mental menos ruidoso, menos conflitivo e menos doloroso, ao passo em que poderíamos continuar afinando, de forma mais harmoniosa, nossas aparentes diferenças.

Pink rose reflection

Inteligência e Sabedoria

Muito se fala hoje sobre a diferença entre inteligência e sabedoria. Enquanto a primeira é uma faculdade fria e árida do intelecto, a segunda é uma percepção mais ampla, rica e profunda da realidade, aquecida pelo amor e sustentada por uma concepção espiritual da vida.

A sabedoria é uma faculdade do espírito; é superior à inteligência e pode dela fazer uso. Já a inteligência é dotada da neutralidade de qualquer instrumento: pode ser colocada a serviço de propósitos deletérios, inócuos, ou afins à sabedoria.

Muito além de compreender a diferença entre ambas, experimentá-la na carne foi um aprendizado chave na minha atual vida.

Cresci estimulada a ter uma auto imagem de ser alguém inteligente. Os fundamentos emocionais sólidos e os incentivos generosos da família, professores e amigos me levaram a desenvolver uma auto estima saudável nesse ponto, ajudando-me a ser uma criança curiosa, interessada em ler, estudar e analisar com profundidade os acontecimentos ao meu redor.

Até certo ponto na vida o desenvolvimento da inteligência conviveu pacificamente com o coração generoso e alegre que é natural de toda criança. Aos poucos porém, ao longo do processo de solidificação do ego adulto, fui erroneamente me identificando com valores do mundo. O resultado foi que a alegria perdeu espaço para uma ansiedade pesarosa, e a generosidade real foi sendo suplantada por desejos que, embora pudessem ser altruístas na estética, eram no fundo de natureza individualista.

Uma ilusão central era a de que seria possível, através do desenvolvimento e direcionamento da inteligência por si mesma, desempenhar um papel relevante nas transformações sociais positivas. Havia um desejo de fazer uma diferença positiva no mundo, mas ele era rebaixado pela expectativa implícita de fazê-lo transitando no território do reconhecimento humano.

O consistente bom desempenho escolar, a facilidade para passar em concursos e o acúmulo de títulos humanos todos alimentavam em mim a ilusão de estar trilhando um caminho real de progresso pessoal. O problema foi que ao longo desse caminho eu fui deixando de lado, por covardia perante a pressão do meio e por ignorar as consequências dessa atitude, as práticas e estudos espirituais que desde criança haviam sido parte integrante e natural da minha vida.

Ao cabo de alguns anos de conquistas acadêmicas e profissionais a vida quis me mostrar, contrastando um auge externo na carreira com o ponto mais baixo no equilíbrio pessoal, o quanto eu havia errado em recobrir o espírito com a areia da quinquilharia emocional e mental acumulada em quase trinta anos de existência.

Ao serrar minha ligação com o mundo espiritual eu adentrava a perigosa zona da ilusão materialista sem o amparo da sustentação mais vital de todas, a espiritualidade. A inteligência árida passou a coexistir com um coração pesado e um corpo desvitalizado. Eu me sentia frágil, vazia e sem esperança de recuperar a alegria de viver.

Tempos difíceis foram esses de escuridão auto infligida. Tempos de educação da alma, porém. Por sorte ou algum crédito cármico que desconheço, foi justamente nesse período que pude reencontrar, através de situações, experiências, sensações, ideias, sentimentos e pessoas, a realidade espiritual ainda ardendo em brasa dentro do meu coração.

A força deste amparo reergueu de forma admirável minha vitalidade, alegria e clareza de propósito. Foi como um segundo nascimento.

As verdades espirituais se inscrevem no campo da sabedoria e é somente ela, aliada ao amor, que pode dar uma verdadeira sustentação perante as questões mais importantes da existência. A inteligência tem um valor menor e relativo. Ela não garante segurança emocional, robustez existencial, qualidade moral, atitude correta e muito menos um sentido para a vida.

Perceber a diferença entre inteligência e sabedoria foi a chave que recuperou minha conexão com as coisas do espírito, que voltaram a guiar meus passos desde então.

Hoje sinto que os desdobramentos desse insight foram muito além do que eu poderia imaginar. Sinto-me mais forte para encarar as dificuldades a que todos estamos sujeitos e seguir melhorando. Estou também mais consciente em relação ao quanto ainda tenho a aprender e praticar. Busco integrar a inteligência a um conjunto maior de valores, e não mais aos julgamentos do ego.

Acima de tudo sou muito mais feliz, por saber e sentir que a estrada da evolução, embora às vezes sinuosa, nos conduz sempre a realidades cada vez mais admiráveis.

We are flowers circling round the sun.
We are flowers circling round the sun.

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“Certa vez, havia um intelectual brilhante que contratou um homem para levá-lo ao mar no seu barco a remo.

Ele perguntou ao barqueiro: ‘Meu bom homem, você sabe alguma coisa de astronomia?’ ‘Não.’, respondeu o barqueiro. ‘Que pena,’ disse intelectual; ‘Você está perdendo tanto; um quarto da sua vida está desperdiçado. Mas, talvez você saiba alguma coisa de física?’’Nem um pouco, Sua Excelência!’ disse o barqueiro. ‘Oh, meu pobre homem, dois quartos da sua vida estão perdidos!’ lamentou o erudito; ‘Mas talvez você saiba bastante de química?’ ‘O que é isso?’ disse o barqueiro; ‘Nunca ouvi falar!’ ‘Que ignorância,’ lamentou o estudioso; ‘Três quartos da sua vida desperdiçados!’

O pequeno barco foi mais e mais mar adentro e, dentro em pouco, uma tempestade violenta estourou e as ondas ameaçavam engolfá-los.

‘Sua Excelência,’ gritou o barqueiro; ‘Você sabe nadar?’ ‘Não, não sei.’ respondeu o intelectual. ‘Bem, Senhor,’ exclamou o barqueiro; ‘São quatro quartos da sua vida desperdiçados!’

Vocês veem? Há alguns tipos de conhecimento que não são muito úteis. Não são nada mais do que decorações. Ah, com certeza, podem ser usados para ganhar dinheiro, mas se uma tempestade vier vocês logo verão se conseguem ajudá-los a nadar! A vida é um oceano, como vocês muito bem sabem, e nesse oceano existem alguns tipos de conhecimento que são muito mais úteis que outros: o conhecimento que pode ajudar um homem a viver.

Que direção dar à sua vida; qual alto ideal escolher; como transformar os pensamentos e sentimentos que nos perturbam; como interpretar os eventos acontecendo ao nosso redor; como verificar nossas relações com o macrocosmo; como comer, dormir, lavar-se e respirar… como amar: estas são as coisas que precisamos conhecer.”

~ Omraam Mïkhael Aïvanhov in: The Second Birth, Love, Wisdom, Truth
Postado originalmente e traduzido de Journey with Omraam

As primeiras Magnólias

É verdade que a primeira árvore florida avistei cedo neste inverno Londrino, ali nos últimos dia de Dezembro. Fiquei surpresa com a precocidade daquela cerejeira; depois pensei que vinha sendo mesmo um inverno ameno.

Para as plantas, as estações não se marcam no calendário; acontecem no sentir. E para elas, apesar dos dias frios de céu cinzento persistente, já vivemos os primórdios da primavera.

Sim, estações do ano são parte do aspecto fenomênico da realidade, e todos os anos se repetem sem grandes novidades. Em tese não haveria nada a se comemorar ou lamentar com a sua passagem. Mas desde o ponto de vista de quem experimenta a vida fenomênica na carne, as renovações sazonais provocam mudanças sensíveis e coletivas no humor e no ritmo da vida.

A primavera traz consigo por excelência a esperança da vida que recomeça.

É a estação favorita de muitos. Pessoalmente não consigo decidir, pois vejo belezas e prazeres próprios em cada época do ano. Talvez a que mais me enfada é o verão, mas nos últimos anos a coisa tem mudado de figura. Viver em terras oceânicas temperadas faz com que se aprenda a apreciar de forma especial a presença fulgurante do sol.

Além dos dias mais longos, as pequenas flores salpicando aqui e ali e o crescendo dos pássaros nos parques já dão o tom primaveril nos ares da cidade. As cores, os sons e a luz desta linda estação operam um verdadeiro milagre, reanimando e rejuvenescendo os corações abatidos pela aridez do inverno.

É cedo no calendário dos homens, mas a natureza avisa e os corações observadores sabem: por aqui, as bênçãos antecipadas da primavera já dão o ar de sua graça.

As primeiras flores de Magnólia
As primeiras flores de Magnólia

Love unites us, Truth sets us free

[Originally written and published in Portuguese]

Love and Truth: so many insights are contained in these simple words! To me, they summarise the essential learning of how to be human in the best sense. Because the best sense of being human is the faculty of Loving with Truth; of uniting whilst honouring freedom; being together without imprisoning.

So much can be said in this respect and so much has already been, in ways much better than I could hope to. But I can sincerely say that I understand, am provoked by and touched by this paradoxical combination: Love and Truth.

Yes, because part of me knows, in practice, what it is like to Love without Truth: hurtful attachment. And part of me knows what Truth without Love can be like: arrogant pride.

Love without Truth suffocates; Truth without Love destroys.

The combination of Love with Truth, however… is a veritable explosion of Good. A centrifugal and centripetal whirlwind at the same time. It elevates everything it touches. It generates strength and energy. It turns the world around. It makes everything grow and become better.

As an apprentice of being human in the best sense, I manage to access some Love with Truth in my most inspired moments. They never last long enough to satisfy the infinite thirst for progress. But gladly so: the path of evolution never reaches its end, and we are forever able to enjoy new landscapes along the way.

Now I understand: my essential search is for learning how to live both the Love that unites and the Truth that sets us free, in a synchronous and increasingly perennial way.

The road may be long, but the destination is fabulous. Infused with hope, the path becomes even more beautiful. And the best mantra to keep us company in this marvelous journey of self betterment is this: Love and Truth.

So be it.

True Love

Pessoas bálsamo e pessoas veneno

Poderia-se imaginar do título desse post que ele trata de dois tipos diferentes de pessoa. Mas o que eu gostaria de escrever hoje é sobre a nossa capacidade de ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Exercitando a mais pura honestidade, reconheceremos essa limitação central da nossa condição humana presente. É uma contradição que todos carregamos; o ser inferior e o ser superior em nós mesmos, a sombra e a luz, especialmente considerando-se uma mesma vida, em que melhoramos tão devagar e tão pouco.

Somos capazes de viver momentos maravilhosos, de coração transbordante e compaixão universal irrestrita, acessando neles talvez uma pequena fração da abundância de luz que habita permanentemente os corações dos grandes mestres do Amor.

Nunca demora muito, porém, para que à chuva de luz se sucedam os períodos desérticos, que são conseqüência das várias pequenas frestas que abrimos cotidianamente para os pensamentos e emoções sombrios. A carga psíquica negativa cuja entrada permitimos e que displicentemente alimentamos aumenta progressivamente até engolfar todo o nosso ser. Uma horda de seres interessados em ver nosso coração cativo dos maus pensamentos e dos maus sentimentos não demora a se aliar a essa empreitada do eu inferior para sabotar aquilo que temos de luminoso.

Somos ainda principiantes na arte da equanimidade. Ainda que no longo prazo e a despeito de nossos deméritos a lei evolutiva nos conduza sempre a melhores paragens, em nossa escala de tempo pessoal poderíamos poupar muito sofrimento próprio e alheio se fôssemos mais versados em reconhecer as artimanhas de nossa própria sombra. Ela sempre se alimenta daquilo a que assentimos por ignorância espiritual, ego ou vaidade.

Ah, como gostamos de nos acreditar melhores, mais justos, mais percebedores da realidade do que os outros, especialmente aqueles que pensam diferente de nós. Somos todos pequenos messias de nossas verdades, sempre dispostos a decepar as “ilusões alheias”, mas cegos ao tamanho desproporcional de nossos egos julgadores.

Ah, como ansiamos ser grandes em nossos pequenos microuniversos… E como ficamos ridículos quando acreditamos ter atingido o ápice da iluminação acerca de algum assunto. É sempre a partir desse momento que nos aguardam as lições mais dolorosas, aquelas que nos colocarão de volta em nosso merecido lugar evolutivo.

É por sorte que somos acompanhados por amigos visíveis e invisíveis que velam por nosso real progresso. É pelas mãos deles e delas que somos impedidos, de inúmeras formas, de levar a cabo nossas investidas de auto sabotagem.

Muitas vezes, exaustos dessa batalha interna entre nossa luz e nossa sombra e prestes a cair na tentação de ligar o piloto automático da vida medíocre, percebemos que são colocadas em nosso caminho pessoas, situações e ideias luminosas para nos impulsionar um pouco mais adiante. Assim, às grandes angústias seguem-se grandes alegrias. Aos momentos de profunda ignorância seguem-se os lampejos salvadores de lucidez.

A lucidez espiritual traz paz e contentamento, mas é muito difícil tê-la sempre presente. São esses nossos amigos que nos abrem os olhos do discernimento e a generosidade do coração. Deixados aos próprios recursos não venceríamos nossa sombra; causaríamos muitos danos a nós mesmos, e, por ação ou repercussão deletérias, aos outros também.

Felizes aqueles que sentem fazer cada vez menos sentido ventilar o próprio lado pessoa-veneno. Tudo que comunicamos com pesar, revolta, ressentimento e amargor emana correntes tóxicas, que invariavelmente voltarão a nós em algum ponto do caminho.

Não importa apenas o conteúdo do que comunicamos, mas também, e talvez até mais, a energia que vai com esse conteúdo. Quem de fato está vigilante quanto às cargas emocionais que projeta, secreta ou abertamente no mundo?

Não importa o quão justificável lhe pareça o alvo: o destino final de suas emanações sempre será você mesmo.

E assim como é certo que nosso veneno destruirá pouco a pouco o nosso próprio coração, também o bálsamo que eventualmente espalharmos com nossa presença e nossas ações, veladas ou declaradas, retornará a nós, na forma de ajuda real nas nossas horas mais difíceis.

Então, para sermos cada vez mais bálsamo e menos veneno, cabe gravar indelevelmente no coração algumas palavras:

Lucidez para conhecer as artimanhas do ego inferior e fechar inteligentemente as frestas por onde ele se alimenta e ganha força.

Amor e compreensão para recusar qualquer convite ao conflito.

Gratidão a tudo e a todos que reforçam o que há de luminoso em nós; e também a tudo e a todos que desafiam nossos bons propósitos.

Determinação para prosseguir na trilha do autoconhecimento e do domínio de si mesmo.

Harmonia e equilíbrio em todos os nossos passos.

Maat, a personificação da Verdade, do Equilíbrio e da Justiça na cosmogonia do Antigo Egito.
Maat, a personificação da Verdade, do Equilíbrio e da Justiça na cosmogonia do Antigo Egito.

Em alguns dias de rara magnanimidade, eu senti as correntes do Bem Maior atravessando o meu pequeno ser, e fiquei assombrada com a Força que a tudo regenera. Em outros dias também didaticamente inesquecíveis, eu acessei as correntes da Sombra coletiva e quase sucumbi em meio ao caos imagético, mental e emocional que me enxovalhava por dentro.

A alternância dos bons e maus estados se dá, no cotidiano, em um grau menos dramático do que nestes dias raros de intenso sentir. Mas a lição da experiência tem sido essa: somos capazes do melhor e do pior, e todos os dias nos é dada a escolha de qual tendência iremos alimentar. Quem entende isso de verdade não tolera mais em si mesmo a propensão para ser crítico do mundo, pois sabe que ao erguer um tribunal combativo estará na verdade apenas condenando a si mesmo.

A spiritual perspective on little Aylan’s death

Ler em Português

I can’t recall having been so moved by a picture and a piece of news before. The image of little Aylan’s body washed up on Turkish shores stirred up a plethora of hard-to-describe feelings which immediately took the smile away from my face. I wasn’t alone in my grief: virtually anyone who came across that image felt that as a species we must be doing something very wrong.

Then, while reading about the story on Thursday evening, I looked at a couple of pictures of Aylan still alive as the smiley, happy child described by his father. I couldn’t help but thinking that maybe somehow his spirit knew what he would come to symbolise in his short but significant incarnation.

Maybe he was a happy spirit en route to accomplishing a noble task; a mission of collective consciousness raising. Following years of sluggish governmental response towards the contemporary migrant and refugee crisis, little Aylan’s death may well have been the darkest point before the dawn of a new perspective on the issue.

His short life and his tragic death raised our awareness of global inequality and acted as a stark reminder of our sheer lack of brotherhood. After him and his story, the world is calling for change.

Some of us are lucky enough to have understood that as immortal spirits we are only going through a human journey, and that life does not end with physical death.

Also, the recognition of greater cosmic laws governing our human existence helps us to endure the inevitable pain of physical mortality in a world where all fellow sentient beings are inexorably bound to experience some kind of suffering.

Spirituality, however, does not mean cold inaction or indifference. True spirituality is a living Love, a powerful silent act of compassionately embracing humanity and all of its predicaments.

Spiritual contemplation and meditation on greater truths strengthen us by bringing deep peace to our hearts and minds while at the same time compelling us to incarnate in our own lives the very values of brotherhood and compassion. We are urged to be helpful to earth and to mankind, but at the same time we understand that we can better do so from an unshakable place of equanimity.

It is only by holding a spiritual perspective on such apparent brutalities that we may find meaning in our human journey, with all its trials and pain, evil and inequality. Life on this Earth can sometimes look like a package of suffering to which we have subscribed and of which we are, to a greater or lesser degree, part and parcel.

It is only by raising our consciousness to the spiritual heights that we will be able to, along with all the great spiritual masters, free our hearts from the grips of our human pain, and work steadfastly for a better world with the serene and active comprehension that stems from the spiritual Light.

Syrian angel - image from Twitter/BBC
Syrian angel – image from Twitter/BBC

Uma perspectiva espiritual sobre a morte do pequeno Aylan

Não me recordo de ocasião em que tenha sido tão mobilizada por uma foto em um artigo de jornal. A imagem do corpo do pequeno Aylan afogado na costa da Turquia instigou uma enxurrada de sentimentos difíceis de descrever e que imediatamente roubaram o sorriso do meu rosto. Eu não estava sozinha em minha dor: praticamente todo ser humano que se deparou com aquela imagem sentiu que, enquanto espécie, devemos estar fazendo algo muito errado.

Então, enquanto lia sobre a história na quinta-feira à noite, me deparei com duas fotos de Aylan ainda vivo, como a criança sorridente e feliz descrita pelo seu pai. Não pude deixar de pensar que talvez, de alguma forma, o seu espírito sabia o que viria a simbolizar em sua curta mas significativa encarnação.

Talvez ele fosse um espírito feliz a caminho de completar uma nobre tarefa; uma missão de elevação da consciência coletiva. Seguindo-se a anos de respostas governamentais arrastadas para a crise contemporânea de migrantes e refugiados, a morte do pequeno Aylan pode muito bem ter sido o ponto mais escuro antes do alvorecer de uma nova perspectiva sobre a questão.

A sua curta vida e trágica morte aumentaram nossa consciência a respeito da desigualdade global, e atuam como um austero apontamento da nossa pura falta de irmandade. Depois dele e de sua história, o mundo está clamando por mudança.

Alguns de nós são afortunados o bastante para ter compreendido que enquanto espíritos imortais estamos apenas atravessando uma jornada humana, e que a vida não termina com a morte física.

Também o reconhecimento de leis cósmicas maiores governando a nossa existência humana nos ajuda a tolerar a inevitável dor da mortalidade física, em um mundo onde todos os seres sencientes estão inexoravelmente destinados a experimentar algum tipo e grau de sofrimento.

Espiritualidade, porém, não significa inação ou indiferença. A verdadeira espiritualidade é Amor vivo; é um ato poderoso e silente de abraçar compassivamente a humanidade com todas as suas dificuldades.

A contemplação espiritual e a meditação em verdades maiores nos fortalecem, trazendo profunda paz aos nossos corações e mentes ao mesmo tempo em que nos impulsionam a encarnar em nossas próprias vidas os exatos valores da fraternidade e da compaixão. Somos instados a sermos úteis para a terra e para a humanidade, mas ao mesmo tempo compreendemos que podemos melhor fazê-lo desde um lugar imperturbável de equanimidade.

É apenas de uma perspectiva espiritual sobre tais aparentes brutalidades que podemos encontrar sentido para nossa jornada humana, para todas as provas e dores, para o mal e a desigualdade. Para todo esse pacote de sofrimentos que parecemos ter subscrito e do qual somos, em maior ou menor grau, parte integrante.

É apenas elevando nossa consciência às alturas espirituais que seremos capazes de, na esteira de todos os grandes mestres espirituais, libertar nossos corações das garras de nossa dor humana e trabalhar firmemente por um mundo melhor, com a compreensão ativa e serena que deriva da Luz espiritual.