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Despertar para a própria pequenez

Muito tenho visto, pela internet, mensagens procurando definir o que seja o “despertar da consciência”. As concepções da expressão são tão diversas que senti vontade de escrever um pouco sobre o tema.

Tem me chamado a atenção, particularmente, o fato de que na maioria destas mensagens há um tom condenscendente, que fala de um lugar superior (o do “desperto”) a uma platéia de dormentes alienados, procurando mostrar aos supostos “não despertos” o caminho para um “melhor enxergar” de coisas. A expressão é usada indiscriminadamente em contextos políticos, acadêmicos, filosóficos, religiosos, místicos e espirituais, sempre apropriada e moldada de forma a dar suporte ao ideário daquele que se professa desperto, claro.

Nada de errado em ter os próprios pontos de vista e gostar de compartilhá-los para estabelecer diálogos construtivos. É um ímpeto natural e importante quando se procura questionar as coisas e exercitar o próprio discernimento. Acho muito curioso, porém, quando em qualquer destes contextos alguém realmente se acredite vidente da verdade última, e se sinta confortável nesta posição a ponto de querer doutrinar, muitas vezes de forma combativa, odiosa e irônica, outras pessoas.

Talvez haja um profeta arrogante latente em todo ser humano. Cabe a cada um saber controlá-lo, pois enquanto alguns se regozijam em seu deleitoso devaneio de superioridade, o Universo segue existindo com toda a sua vastidão e mistério. Talvez possam um dia despertar é para a sua própria pequenez, e caminhar pela pequena bola azul com uma melhor consciência do seu não saber e uma maior vontade de irmandade.

Por fim, reproduzo aqui uma das definições com que mais concordei de “despertar da consciência”, já que aponta justamente para o despertar como abertura do coração e domínio do ego. O texto foi recebido pelo mailing dos amigos do portal consciencial.org.

12 Sintomas de um possível despertar

J. Krishnamurti

1. Uma tendência crescente de deixar as coisas acontecerem ao invés de
tentar controlá-las;
2. Ataques frequentes de alegria, sorrisos sem explicação e explosões de
risos a qualquer momento;
3. Sensações de estar intimamente conectado aos outros e à natureza;
4. Episódios frequentes de apreciação e admiração com coisas simples;
5. Uma tendência de pensar e agir espontaneamente, no lugar do medo baseado
na experiência passada;
6. Uma nítida habilidade de curtir cada momento;
7. Uma perda da habilidade de se preocupar;
8. Uma perda do desejo por conflito;
9. Uma perda de interesse por tomar as coisas como pessoais;
10. Uma perda de apetite em julgar o outro;
11. Uma perda de interesse em julgar a si mesmo;
12. Uma inclinação em dar sem esperar nada em troca.

despertar cósmico

O sofrimento em perspectiva

Qualquer problema que conheci na vida – minha e dos outros – parece irrelevante perto do que descreve Viktor Frankl, um sobrevivente do holocausto, a respeito dos campos de concentração.

Acho difícil ler esse tipo de narrativa e avanço com cautela, porque a cada linha o coração aperta mais e a garganta vai ficando com um nó. A sensação de angústia fica comigo por algumas horas e depois preciso ativamente procurar me desvencilhar dela. O autor é muito sincero nas suas descrições e consegue-se visualizar bem não só o que os prisioneiros passaram fisicamente, como também psicologicamente. A história do Holocausto é conhecida de todos, e envergonha-nos de pertencer a uma raça que foi capaz de canalizar tamanho mal na Terra.

O suplício daqueles seres humanos aprisionados, torturados, humilhados, injustiçados, simbolicamente e factualmente exterminados, fazem a crucificação de Jesus não parecer tão ruim assim. E o que dizer então dos nossos “problemas”? Depois de uma leitura dessas é inevitável pensar em como perdemos tempo e energia com bobagens. Em como, sonambulizados, menosprezamos as coisas mais essenciais das nossas vidas. Em como precisamos acordar e sentir mais, com gratidão, o nosso aqui-agora. Brigar e reclamar menos. Erradicar as tristezas levianas. Perdoar, reconciliar, limpar as pendências emocionais. E uma vez limpo o coração, lutar para manter viva a nossa alegria, assim como fomentar a alegria nos outros. Não nos deixar desencorajar disso por bobagem.

A leitura me fez lembrar de como precisamos lidar com nossos problemas de forma bem mais serena e madura do que estamos fazendo.

Tudo bem que é fácil pensar assim nos momentos em que tudo está relativamente em ordem na vida. Quando estamos sofrendo algum tipo de dor emocional ou física aguda, aquilo toma para nós uma dimensão subjetiva importante, e fica bem mais difícil manter a tranquilidade. E sabendo que a subjetividade é um fator importante, não cabe exigir agressivamente dos outros esse tipo de auto-controle. Terapeutas, por exemplo, precisam manter sempre acesa a capacidade de empatia, para depois, com habilidade, ajudar a colocar as coisas em perspectiva.

Pensando em si mesmo, porém, uma vez colocada em perspectiva a real dimensão do que nos aflige, perto de todas as dádivas de que desfrutamos apenas por viver em tempos de fartura e paz, me parece que temos o dever moral de vigiar melhor nossa própria forma de lidar com os problemas. Temos a obrigação íntima de manter uma rédea firme nas nossas reações às dificuldades do caminho. E se além de nos auto controlar formos um pouquinho mais fortes, somos capazes até de transformar essa compreensão em formas de ajudar os outros, apenas pela nossa atitude melhorada, ou de formas um pouco mais elaboradas e intencionais. Foi o que fez Frankl, que unindo seu background de psiquiatra com a sua experiência de prisioneiro de campo de concentração, criou uma abordagem psicoterapêutica para ajudar as pessoas a encontrarem sentido na vida, mesmo nos mais sofridos tipos de vida.

Não precisamos chegar a tanto, claro. Crescer e tentar ser alguém melhor já é uma grande responsabilidade, e está ao nosso alcance todos os dias. Então, que possamos nunca nos esquecer de empregar esforços na direção dessa simples verdade.

earth_tear

Lixo bem vigiado

A lixeira do nosso prédio vive sendo cenário de barraco. É uma lixeira externa que fica próxima da passagem de pedestres para uma estação de metrô, então sempre tem muita gente passando por ali. Os moradores vivem se queixando que os passantes usam o espaço pra se desfazer de todo tipo de tralha, desorganizando a coleta do condomínio e emporcalhando a área – até como mictório os bêbados noturnos já usaram!

Passeando hoje com minha bebê no colo na frente do prédio, pra pegar um solzinho gostoso de outono, passa por nós um grupo de ciclistas. Todos vestidos com coletes amarelo fluorescente, havia adultos, idosos e crianças. Nas pontas da frente e de trás do grupo, dois policiais cuidavam da segurança do passeio. Eles também pedalavam e vestiam coletes amarelos quase idênticos – a diferença sendo a estampa nas costas “Metropolitan Police”. O grupo parou ao lado da lixeira pra esperar os atrasados, tomar uma aguinha e se reorganizar. Eu e a bebê ali perto, curtindo o jardim do prédio e aquela cena legal, de um passeio comunitário numa linda manhã de sol.

De repente sai do nosso bloco um cara magro, meia idade, carregando uma sacolinha de lixo. Vai em direção à lixeira, e joga a sacola por cima do portão, saindo apressado em direção ao metrô. Um dos policiais, que não tinha visto de onde o homem tinha saído, desconfiou do movimento do sujeito e o abordou com educação: “Excuse me Sir, what have you just thrown in there?” (Com licença senhor, o que o senhor acabou de jogar ali?). O senhor aparentemente não entendia inglês e não percebeu que se tratava de um policial, visto que a roupa era quase igual a de todos os ciclistas. Ignorou a pergunta, fez algum gesto dispensando o diálogo e seguiu em frente.

A policial da outra ponta ficou possessa com a atitude do homem e veio atrás dele gritando HEY! STOP! POLICE! What have you just thrown in there? – e pegou o homem pelo braço pra ir vasculhar a sacolinha. O homem, perplexo, mostrou o seu lixo pros policiais, que aliviaram a tensão do rosto e dispensaram o homem pedindo desculpas.

Uma vizinha do prédio, que dia desses me viu jogando lixo apressada à noite e implicou comigo, achando que eu era uma passante, saía nessa hora pra pegar o carro e veio me perguntar o que tava rolando. Expliquei o mal entendido do policial e aproveitei para resolver a tensão do outro dia com ela, comentando bem humorada sobre como essa lixeira tá dando o que falar.

Nunca vi um lixo tão bem vigiado.

lixeiras

Uma campanha pela saúde mental

O Reino Unido tem visto nos últimos anos uma forte campanha de sensibilização pública quanto à questão da saúde mental, mais especificamente, um combate ao estigma da loucura. A mensagem básica é que pessoas com problemas psiquiátricos são pessoas como eu e você, apenas vulnerabilizadas por alguma circunstância; que a doença mental pode acontecer a qualquer pessoa e que o preconceito tem efeitos muito nocivos sobre quem já está sofrendo.

A campanha é um esforço conjunto de ONGs da área de saúde mental, e atua em áreas como monitoramento da representação da loucura na mídia, campanhas educativas, entrevistas com pessoas que sofrem de doenças mentais e lobby parlamentar para a causa.

Trabalhei nos anos de 2008 e 2009 para uma destas ONGs e participei do nascimento da campanha, que começou pequenininha, e que hoje tomou proporções importantes. 5 anos depois, percebo a diferença prática que tem feito. Recentemente a rede gigante de supermercados Asda foi forçada pela opinião pública a retirar de venda uma fantasia de “paciente mental” que estava à venda para os festejos de Helloween.

A empresa recebeu vários tweets e cartas manifestando o quanto a associação do sofrimento mental com uma figura de horror era lastimável, e pedindo um retratamento público. A questão foi parar na BBC e a empresa não demorou a se pronunciar, pedindo profundas desculpas pelo lapso, anunciando que retirou imediatamente a fantasia de circulação e que doará uma quantia significativa para uma das principais ONGs que integram a campanha.

É o tipo de resposta institucional que se espera de uma corporação que queira se manter respeitável perante um público exigente. E é o tipo de atitude pública que pode ser desenvolvida com campanhas educativas persistentes e bem executadas.

campanha saúde mental

De volta ao essencial

Tendo me tornado mãe há pouco tempo, fui levada a lembrar com mais frequência e mais intensidade do período da primeira infância. Começando pelo desejo de comparar semelhanças e diferenças físicas de minha bebê com as minhas próprias, e de antecipar como a sua aparência pode vir a se desenvolver com o tempo, pedi à família que escaneasse e enviasse várias fotos de eu pequena, desde bebê até uns 10 anos de idade.

Olhando essas fotos fui me lembrando de cada vez mais detalhes da época, e essas lembranças culminaram noite passada num sonho bastante vívido. Nele, personagens da época retratada – várias até então esquecidas – reapareceram, numa grande festa, mas uma festa da qual eu fugi por não me sentir nada à vontade.

O cerne deste sonho foi o sentimento estranho do contraste entre a vida no círculo familiar com a vida no círculo social, este último encarnado principalmente pelas interações no colégio onde estudava, o colégio mais tradicional de uma cidade interiorana brasileira na década de 1980. Cidade que como tantas outras se orgulha (?) de sua ascendência alemã, mantendo até hoje uma estranha obsessão com esse seu mito de origem.

Nas fotos de festas familiares, em que também participavam os amigos mais próximos, aqueles de nossa escolha, as crianças exibiam sorrisos francos e uma excitação ímpar, felizes em dividir a simples alegria de estarem juntas em uma ocasião especial – um aniversário, comunhão, páscoa, etc. Havia uma atmosfera de diversão e amizade genuína. Passado o momento de tirar foto, não raro se desfaziam penteados, se largavam sapatos e se afrouxavam laços e roupas para brincar e brincar até o dia acabar, sem maiores preocupações – e por isso com freqüencia alguém saía com um galo na cabeça ou um arranhão no joelho, mas sempre com um sorriso no rosto. Nesses espaços, as pessoas estavam à vontade para serem apenas quem eram.

No ambiente do colégio, ao contrário, comecei a aprender que crianças de famílias abastadas – de preferência loiras e com sobrenome alemão – gozavam de um status diferenciado perante alguns funcionários e professores. Lembro, por exemplo, de como uma professora me tratou quando fiquei doentinha no colégio – com dureza e indisposição – e de como alguns dias depois a mesma professora morreu-se de preocupações com um coleguinha mais branco, mais rico e mais alemão do que eu. Lembro das dinâmicas de segregação sutil que, primeiro demonstradas pelos adultos que cuidavam daquelas crianças, passavam aos poucos a fazer parte da psique das crianças elas próprias. Assim se formavam as panelinhas de acordo com o status social: as “amizades” não eram naturais, e sim forjadas pelas externalidades valorizadas pelos adultos daquela cidade – sobrenome, endereço, carro, cor de pele, profissão e conta bancária. E amizades assim, de sorriso calculado, são muito menos felizes.

No sonho, eu era anfitriã de uma grande festa, muito mais pirotécnica e espetacular do que aquelas simples festinhas de aniversário das fotos de família. Na festa do sonho só apareciam conhecidos do colégio, personagens até então esquecidos, escavados da memória. Eles compareciam para marcar presença e tratar dos seus interesses, mal notando a existência da aniversariante. A festa era um palco de exibição de status, em que aquelas crianças, já corrompidas pelo fetiche da imagem aprendido com os adultos, travavam diálogos arrogantes sobre conquistas materiais, medindo-se umas às outras por critérios externos e parecendo tirar algum prazer disso.

Entristecida com o rumo que a festa tomara e incapaz de me divertir naquele ambiente, resolvi tomar meu próprio rumo, saindo daquele “inferninho” pela porta da frente. Minha ausência na minha própria festa nem foi notada.

À medida que caminhava, era como se o dia clareasse. O ambiente ficava mais claro, mais florido, e aos poucos iam chegando aqueles amigos mais simples, os de sorriso franco, de cabelos desgrenhados e joelhos arranhados.

Eu seguia, feliz, para longe do mundo de aparências e para mais perto do mundo das essências.

As Donas Marias

Depois de ler este artigo sobre as implicações da lei das domésticas para as famílias, para o Estado e para o equilíbrio trabalho-vida privada no Brasil, lembrei de Dona Maria (nome fictíceo), uma senhora que conheci quando funcionária de uma prefeitura num interior pobre do Brasil.

Dona Maria vinha sendo acompanhada pelo serviço social da prefeitura e pela justiça por apresentar dificuldades em criar seus filhos, que estavam se envolvendo em problemas de violência e apresentando necessidades de cuidados de saúde não atendidos, caracterizando, aos olhos do sistema, negligência e abandono parental. Quando a conheci, Dona Maria estava prestes a poder perder a guarda das crianças, e meu papel era ouvi-la para avaliar as razões da “sua” negligência. Não demorou para perceber que suas “falhas” como mãe resultavam em grande parte de uma longa história de tentativas frustradas de inserir seus filhos na rede de saúde e educação da cidade.

Encaminhamentos não realizados, falhas grosseiras no atendimento, falta recorrente de vagas em creches e escolas, expectativa de aceitação contente de trabalhos em condição semi-escrava são exemplos de coisas que acontecem às pessoas mais pobres no Brasil. O quadro costuma ainda ser coroado por comentários e tratamentos desmoralizantes, que culpam as Donas Marias por todas as ausências, abusos e imperícias do sistema. No seu lugar, qualquer um começaria a ter muita dificuldade em criar os seus filhos.

Alguns bons profissionais entendiam a posição objetiva e subjetiva de Dona Maria, e trabalhavam para que pequenas vitórias fossem conseguidas nesse quadro desolador, articulando parcerias que pudessem ajudá-la a reverter a situação em que sua família se encontrava. Mas o discurso de muitos que conheciam “o caso” – e que tinham aguma influência sobre ele – era perverso: culpabilizavam Dona Maria por todas as falhas que no fundo eram do sistema educacional, de saúde, trabalhista e judiciário.

Dona Maria e sua “família problemática” eram o ponto onde estouravam todas as precariedades institucionais que o cidadão brasileiro – especialmente o das classes pobres – é forçado a driblar com suas forças individuais.

O caso de Dona Maria era “antigo” e considerado “sem solução” pelos que a conheciam, pois estava sob o escrutínio do sistema há muito tempo, bem antes de eu começar a atendê-la. E acredito que sua família tenha continuado a ser, por muito tempo depois de mim, atravessada por essas autoridades, que ditavam exigências sobre sua vida familiar oferecendo quase nada em troca.

Não cheguei a conhecer o desfecho do seu caso porque a impotência, a frustração e a vulnerabilidade de trabalhar desde dentro de tal sistema fizeram com que eu logo optasse por mudar de trabalho. Acredito que é possível – e alguns bons trabalhadores públicos heroicamente o fazem – estar dentro do sistema para minimamente reverter essas tendências. Mas são necessárias altas doses de resistência, coragem e fé – doses que naquele momento da vida eu não tinha condições de oferecer.

Sempre terei admiração por estes, mas tenho ainda mais pelas Donas Marias. Torço para que leis e debates sociais como este das domésticas comecem a empurrar os brasileiros a rever as profundas reformas a serem exigidas. Primeiramente de si mesmos, nas suas relações cotidianas com a questão de classe, pois é nos pequenos gestos e atitudes que se revela a necessidade de marcar o pobre como alguém diferente e inferior. E em última instância dos governantes e instituições locais e nacionais, encarando-os como nosso reflexo e nossa representação, de quem esperamos grande esforço, caráter e consistência na amenização do abismo social brasileiro.

família pobre brasileira

Os barbeiros Afegãos

Nesse domingo de Páscoa saímos para uma caminhada pelo nosso novo bairro, de maioria imigrante – predominando indianos Gujaratis. Os negócios não-cristãos estavam todos abertos, incluindo um barbeiro em que o Leo decidiu entrar pra cortar o cabelo.

A placa na porta sinalizava com clareza que era um lugar para cortar cabelos de homens. No ambiente, bem masculino e aparentemente muçulmano, me sentei quieta num cantinho pra esperar. Pensei que a presença de uma mulher no ambiente podia ser meio estranha para aqueles 4 funcionários jovens, que em nenhum momento me dirigiram um olhar ou palavra. Estava quente ali dentro, mas mantive meu chapéu cobrindo o cabelo, não tirei casaco nem luva, só pra garantir. Observei discretamente a rotina do lugar.

Dois dos funcionários atendiam clientes enquanto conversavam entre si numa língua desconhecida. Perguntado pelo Leo, um deles respondeu que eram todos do Afeganistão. Por entre uma cortina de plástico dava pra ver o terceiro, usando, numa parte interna do salão, uma pia para esfregar seus pés, mãos, rosto e dentes. Não parecia estar sujo, mas esfregava essas partes vigorosamente, como se estivesse se lavando após caminhar na lama. Ficou fazendo isso por uns dez minutos.

Enquanto isso, em outro canto, o quarto rapaz estendia um pequeno tapete com motivos árabes e uma mesquita dourada bordados. O tapete foi estendido na diagonal, de frente para uma parede, ao lado de uma das cadeiras de corte. Tirou os sapatos, vestiu um casaco, cobriu a cabeça com o capuz e começou uma sequência de ficar de pé, se ajoelhar, tocar o tapete com a testa e beijar o tapete. Alternava essas posições enquanto murmurava preces, e assim fez durante os mesmos dez minutos em que o colega se lavava no outro ambiente.

O rapaz da pia atravessou a cortina desfiada vestindo pantufas e se dirigiu ao local do tapete, que acabara de ser enrolado pelo colega que terminara sua rodada de preces. O tapete passou de mãos, assim como o casaco. Estendendo o tapete no exato mesmo lugar e ângulo, e cobrindo a cabeça com o capuz do casaco emprestado, o sujeito recém-banhado iniciou a mesma sequência de posições e preces, enquanto o outro se retirou para um canto e ficou sentado, pensativo.

A essa altura o corte de cabelo do Leo tinha acabado e não deu pra continuar observando. Fico fascinada com essas experiências estranhas, em que nos perdemos nos códigos culturais que nos são desconhecidos. É sempre uma boa lembrança de que apesar de costumarmos medir tudo pelo nosso ponto de vista, o mundo é estonteantemente mais diverso do que conseguimos supor.

prece muçulmana

Conversando com culturas

Uma definição simples de cultura é o compartilhamento de referências sociais e psicológicas entre um grupo de pessoas. Grupos culturais podem ser delimitados pelo viés da geografia, da biologia, da religião, da história e muitos outros ângulos. Além disso, podemos também pensar que cada ser humano é feito de relações únicas que estabelece com o corpo, com o ambiente, com os outros, consigo mesmo e com a espiritualidade. Nesse sentido, uma só pessoa já pode ser vista como um universo cultural diferente – que o digam os casados!

Todos nós estamos expostos a encontros interculturais cotidianamente. Eles se dão não só através da mídia e das artes, mas sobretudo nas interações corriqueiras com pessoas vindas de diversos lugares e criadas sob a influência de diversos costumes. Esta é a regra, e cada vez mais o será, neste nosso mundo que se globaliza rapidamente. Mas o fato de estarmos expostos aos encontros interculturais não significa que estejamos abertos para absorver lições e tirar crescimentos pessoal dos mesmos. O mais frequente, aliás, é passearmos pela vida analisando tudo e todos a partir de pontos de vista que, com nossa permissão indolente, cristalizaram-se em nós. Sofremos – e fazemos sofrer – com a diferença, e ansiamos pelo conforto do igual.

O contexto da imigração é um dos cenários possíveis – mas nem de longe o único – para exercitar a abertura aos encontros interculturais. Nele, ficar fechado nas próprias referências leva ao isolamento e à tristeza da solidão, pois não há muitos “iguais” ao seu redor para oferecer o refúgio da familiaridade. Quando se mora em outro país – e quanto mais culturalmente distante, mais radical talvez seja a proposição – a diferença lhe é “esfregada na cara”, mesmo quando você não estava afim ou apto a percebê-la por esforço próprio. E é preciso de alguma forma lidar com ela para poder tocar a vida. O exemplo mais básico disso é o da comunicação numa segunda língua, quando uma conversa boba – ou pior, importante – qualquer precisa continuar, apesar de você não ter entendido alguma palavra-chave, ou não ter sido entendida. Nessas horas é preciso esquecer o orgulho, improvisar e seguir em frente.

Os chacoalhões da imigração atingem em cheio nossa inércia consciencial e as identidades que construímos, que passam a ser vistas com um olhar bem mais perspectivo. Foi na Inglaterra que aprendi, por exemplo, que não sou branca, quando um policial inglês riu da minha cara ao me escutar me auto-descrevendo desta forma. Em boa medida, continuar sendo a mesma pessoa não é uma escolha, ao menos não uma sustentável no longo prazo.

A mesma lógica pode ser transposta para o encontro com a diferença em geral. Imaginemos uma uma escala que vai do extremo de “continuar tendo aquela velha opinião” ao extremo de “dissolver-se na coletividade de diferenças”. A globalização e a evolução têm nos empurrado, em qualquer contexto – não sem resistência e nem sem problemas – para a segunda alternativa.

Como nenhum extremo parece saudável, o ponto de equilíbrio precisa ser encontrado em valores essenciais que funcionem como uma base a partir da qual a exploração da diferença só acrescentará riqueza e crescimento pessoal e coletivo. Gosto de pensar que caminhamos rumo a um estado de espírito em que a diferença é acolhida e entendida como uma superficialidade sob a qual estão escondidas as verdadeiras essências humanas. Os encontros interculturais – ou, simplesmente, humanos – seriam tanto mais pacíficos e enriquecedores quanto mais conseguíssemos enxergar a unidade sob nossa aparente diversidade.

unidade na diversidade

Reforma, revolução e rebelião

Li há pouco tempo um trecho de um livro do Osho* que me ajudou a clarear o que penso a respeito de reformas, revoluções e verdadeiras transformações.

Reformas e revoluções são mudanças como que estéticas: atuam nas camadas mais externas da consciência e por isso produzem mudanças que não são totalmente sustentáveis. Se enquadram como reformas e revoluções praticamente todos os esforços de engenharia social e consciencial impostos às pessoas externamente (leis, moral vigente, cartilhas institucionais, regimes de governo) e também os esforços empregados pelas próprias pessoas para domar aspectos indesejáveis de suas personalidades.

A idéia chave é a presença da força: seja ela vinda de fora ou por iniciativa da própria pessoa, qualquer mudança que dependa da coerção (auto ou hetero imposta) presume a coexistência de forças inimigas guerreando eternamente por seu espaço. Estas mudanças são frágeis e não podem existir sustentavelmente. O inimigo, temporariamente derrotado e capturado – seja ele um valor reprimido ou uma prática banida – sempre esperará que surja um ponto de fragilidade no sistema vigente através do qual tentará arruinar os esforços positivos de transformação. A força reprimida irá ocupar, no devido tempo e dada a devida oportunidade, o lugar da força opressora.

Esta idéia me ajudou a entender melhor meu desconforto com propostas revolucionárias como a do comunismo. Estudante de ciências humanas, convivi bem de perto por alguns anos com pessoas irredutivelmente partidárias de revoluções comunistas. Muitas delas meus amigos e amigas. Algumas poucas chegavam a alimentar sonhos de revolução armada, uma posição tão extrema e descabida nos dias de hoje que mesmo nos meios esquerdistas já existe um pudor em assumi-la abertamente.

Mas mesmo aqueles que não falassem em métodos fisicamente violentos me pareciam bastante violentos na forma de conceber a sociedade e as relações com o suposto inimigo – no caso, tudo e todos que representassem o capitalismo. A sociedade sonhada pelos revolucionários esquerdistas é insuflada por profundo ódio e exclusão deste inimigo, ódio esse que se revela nos discursos inflamados e nos sonhos de uma sociedade “livre” de certas figuras sociais e estilos de vida personificados em instituições e seres concretos. São sonhos e discursos muitas vezes similares aos de uma limpeza étnica.

Como bem coloca Osho, uma revolução comunista só pode se sustentar como ditadura. Deixadas às próprias consciências, as pessoas a quem o não-consumo e a não-individualidade tenham sido impostos rapidamente retornariam ao modo capitalista, individualista e competitivo de funcionar. Isto porque a mudança para os valores coletivistas e cooperativistas – a parte bonita do comunismo, que lê bem no papel – não se deu a partir de uma mudança íntima nas pessoas; foi apenas uma vontade alheia de engenharia social assegurada pela sombra da violência.

Reformas e revoluções têm o seu valor e até deixam algum legado positivo. Ninguém poderia negar que boa parte do planeta evoluiu, por exemplo, nas atitudes com relação às minorias, na maior consciência ecológica-ambiental e na substituição de ditaduras e teocracias por arranjos democráticos e pelo livre pensamento. Quem vive nos dias de hoje pode respirar aliviado por não ter vivido em épocas anteriores do planeta em que o grau de respeito e proteção à vida era, em geral, muito mais baixo.

Mas a presença da violência torna o preço que as revoluções cobram alto demais, e as mudanças que constróem podem ser rapidamente desfeitas pelos ciclos da história. Todas essas transformações positivas se deram à base da força, muitas vezes através de guerras, ódio e sangue derramado. E vivemos ainda sem garantias de que não haverá um retorno das mentalidades obtusas, das violências simbólicas e físicas contra minorias, das ditaduras e da destruição do planeta. Todos estes problemas parecem ser inimigos vivos que dormem, temporariamente domados, à espera de uma oportunidade de recobrar suas forças e reclamar o seu lugar.

Para Osho, as verdadeiras e duradouras transformações se dão não pelas reformas e revoluções, mas sim através da rebelião. Rebelião seria um estado de percepção profunda que reconhece a própria natureza humana e a presença das forças positivas e negativas em si e nos outros – bem e mal, vida e morte, luz e sombra. Há o reconhecimento, a compreensão radical e o perdão incondicional de todas as falhas, as próprias e as alheias, ao invés do combate violento contra elas. Não existem inimigos. O veneno-ódio é transformado em remédio-amor, e desta compreensão radical nascem grande força, profunda paz e contentamento.

A rebelião é como uma iluminação da consciência que começa por dentro; é um processo íntimo, fruto do auto conhecimento, que pode ser mediado, mas que só se completa por vontade pessoal. Somente a rebelião consciencial leva à verdadeira transformação da pessoa, que não precisa mais ser teleguiada por diretrizes outras que não aquela da própria luz interior.

Rebelar-se é exponenciar nosso poder de compreensão de todas as situações para que, com convicção inabalável, favoreçamos as transformações positivas que desejamos ver no mundo sem hipocrisia, através do próprio exemplo. Por mais difícil que seja colocar esta premissa em prática em sua integral extensão, ela vale como uma lembrança do quão mais raras, valiosas, duradouras e contagiantes são aquelas transformações operadas dentro de nós mesmos.

*A Flauta nos Lábios de Deus: o significado oculto dos evangelhos – capítulo 08.

oferecendo flores