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Liberdade e compromisso

Tradução adaptada do original em Inglês

Escutei uma conversa outro dia no café de uma universidade que me deixou um pouco mais esperançosa quanto à humanidade. Alguns jovens estudantes estavam sentados em círculo, em sofás e cadeiras confortáveis, degustando seus lattes e capuccinos, quando um deles se virou para o outro e perguntou quais eram as suas ideias a respeito de ‘ser livre’ e de se ‘fazer o que quiser’. Mais especificamente, o objeto de discussão era a liberdade de não comparecer às aulas que os estudantes não achassem particularmente interessantes.

A resposta que se seguiu me surpreendeu em função da sua maturidade e perspicácia, algo que eu não teria automaticamente esperado de um jovem rapaz de vinte e poucos anos. Mas então fui lembrada de que existem por aí pessoas excepcionais, com uma atitude mais madura do que a média para a sua idade perante a vida. Eis o que ele respondeu:

“Penso que como estudante você é livre para fazer o que quiser, mas que com os seus atos vêm as consequências.” Ele prosseguiu, enquanto todos escutavam atentamente: “E você precisa estar preparado para aceitar as mesmas, como por exemplo, reprovar na matéria. Desde que você esteja disposto a aceitar as consequências, você é livre para fazer o que quiser. Com a liberdade vem a responsabilidade”.

À sua fala seguiram-se sobriedade e reflexão silenciosa no grupo. Havia claramente sabedoria e verdade naquela afirmação.

Com frequência pensamos que liberdade é fazer o que quer que vem à mente, seguir nossos impulsos e saciar nossas vontades. O problema é que nunca parecemos tão bem dispostos para aceitar a responsabilidade pelas consequências trazidas por essa suposta liberdade. Como somos parte de um mecanismo maior, nossas ações sempre irão desencadear reações – este, aliás, é precisamente o sentido do conceito espiritual de carma.

Na realidade, somos muito inclinados a dar livre vazão às nossas causas descuidadas, ao mesmo tempo em que tendemos a esquecer e recusar a responsabilidade pelas reações desencadeadas.

As observações daquele jovem garoto imediatamente trouxeram à tona esses pensamentos sobre carma, e me fizeram lembrar de um dos livros mais iluminadores que já li sobre o tema da liberdade, de um pensador espiritual que admiro profundamente, Omraam Mikhaël Aïvanhov.

Sua ideia central é a de que não existe algo como liberdade absoluta para a humanidade – ela é reservada ao Criador apenas. Quando alguém está livre de certas circunstâncias, está comprometido com outras. A verdadeira questão, assim, é escolher sabiamente de quais amarras libertar-se e a quais prender-se. Aqui está como ele lindamente coloca isto:

Você deve se libertar, é verdade, mas para limitar a si mesmo. Você deve se libertar internamente de todos os seus instintos e tendências baixas para se amarrar a algo mais elevado, para trabalhar para a coletividade. Este, para mim, é o verdadeiro significado da vida e da liberdade. A felicidade e a alegria consistem em libertar a si mesmo, não em se eximir de suas obrigações, mas em libertar a si mesmo internamente de todas as próprias fraquezas para comprometer-se ainda mais integralmente a ajudar outros. Sim, se você quer ser internamente livre, você deve começar por limitar a si mesmo e sacrificar certas coisas para comprometer-se mais plenamente.” (Aïvanhov, in: Freedom, the Spirit Triumphant)

Libertar-nos de nossas fraquezas e vontades egoístas para nos comprometermos mais plenamente com o auto crescimento e a melhora coletiva: eis uma perspectiva surpreendentemente verdadeira e generosa acerca do que a liberdade realmente é.

Celtic cross of commitment

Image: Celtic Cross of Commitment, by Wild Goose Studio

Palavras são toques na alma

Algumas passagens da infância marcam a nossa memória sem que saibamos exatamente o por quê.

Entre as minhas está um momento vivido em torno dos dez anos de idade, época em que estudava com gosto a bíblia e os ensinamentos cristãos, que permearam minha formação de base num colégio franciscano do interior de Santa Catarina.

Eu estava sentada no banco da igreja católica ouvindo, como de praxe semanal, a explicação do padre sobre o evangelho lido naquele dia, que incluía o seguinte trecho dos provérbios (12:18):

“Há alguns que falam como que espada penetrante, mas a língua dos sábios é saúde.”

Ainda posso me ver sentada no banco comprido de mogno, com a roupinha comportada e o cabelo domado por uma tiara, bem atenta àquelas palavras que se gravavam na alma como um insight mágico. ‘Sim’, pensei, ‘isso é tão verdadeiro! Como seria bom se todos tivessem consciência disso…’

Tantos anos mais tarde, afastada da igreja desde os catorze ou quinze, a metáfora da língua como espada ou como saúde permanece gravada profundamente no meu coração. É, sem dúvida, uma das verdades espirituais que mais amo – o que, claro, não quer dizer que nunca tenha vacilado quanto à sua consecução.

A luz deste provérbio está sempre no background da minha consciência, e por isso uma das coisas que mais me entristecem é cometer – ou ver cometida – a violência através das palavras ou das intenções.

Sim, as intenções, os sentimentos que animam o dizer, são o que de fato valem, pois o fel do destempero de alguém transparece muito claramente mesmo quando profere as mais belas e corretas palavras.

O mais cristalino discernimento será maculado se não for comunicado desde as águas serenas do coração. A palavra nunca cura quando é movida por intenção ácida ou ferina.

A palavra-saúde é aquela que nasce de intenção tão doce quanto a da mãe que se dirige à criança amada. É qualidade de natureza feminina, mas que precisa ser ativamente desenvolvida por todos, homens e mulheres, na alquimia pessoal de se tornar alguém melhor.

Palavras são toques na alma. É sempre bom lembrar que almas são partículas de Deus extremamente sensíveis às durezas e às delicadezas de trato, e que os efeitos de nossas intenções e palavras são de nossa inteira responsabilidade.

Nesses tempos de comunicação tão banalizada e inconsequente, penso no quão valoroso seria se sacralizássemos um pouco mais as intenções e os conteúdos que propagamos no mundo.

Certamente viveríamos em um ambiente mental menos ruidoso, menos conflitivo e menos doloroso, ao passo em que poderíamos continuar afinando, de forma mais harmoniosa, nossas aparentes diferenças.

Pink rose reflection

Um caso de amor com as coisas da Índia

Era para ser um simples post sobre as minhas recentes incursões em terapia Ayurveda. Mas percebo agora que o poderoso efeito que esse tratamento tem tido sobre mim é apenas um elo de uma cadeia que, nessa vida, se iniciou há alguns anos, mais acentuadamente nos últimos três.

Já escrevi por várias vezes sobre o quanto aprecio morar em um bairro hindu de Londres. Poderia dizer em essência que aqui me sinto cotidianamente estimulada pelos símbolos, cheiros, práticas, estética e outras manifestações culturais inscritas nessa tradição. Elas me remetem quase à revelia de minha vontade ao intangível perfume espiritual da Índia, dispensando-me de experimentar os aspectos mais crus que uma viagem física à Índia milenar, material, moderna e humana traria.

Não que a essência espiritual resida de fato em alguma localização geográfica. A espiritualidade mora e vive nos corações que a carregam pelo mundo afora, e aqui no bairro calha de haver muitos: alguns com o empurrão do condicionamento cultural, outros independentemente dele.

Não foi intencional a escolha dessa região para morar. Uma sincronicidade acabou mudando o plano original de nos assentarmos num bairro do sul da cidade, que conhecíamos melhor. E de 2013 pra cá muitos foram os insights e aprendizados sobre essa cultura pela qual hoje me declaro apaixonada.

O interesse começou antes, com sensações e descobertas pontuais. Lembro-me de uma ocasião em particular, numa época em que as coisas da Índia não faziam ainda parte do meu universo mais ativo de interesses. Vi, no lampejo do olhar de uma pessoa, alguma coisa que claramente transcendia em muito a dimensão mais grossa da materialidade. Impressionada, um pensamento me invadiu: “esse é o olhar de um iogue”.

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Dissipado tal pensamento, voltei à mente analítica normal e perguntei a mim mesma: mas você que não sabe nada de Hinduísmo, o que acha que sabe a respeito de iogues? Não puxei muito o fio da meada na época, mas a transcendentalidade do tal olhar ficou profundamente gravada na minha alma, como uma pergunta que, apesar de oculta, continua a ansiar por resposta.

Segui estudando ocasionalmente elementos da espiritualidade hindu, que apareciam em meio a outros temas com os quais me identificava mais. Mas tudo ainda parecia muito hermético e difícil de entender. A complexidade do assunto parecia maior do que a minha capacidade de compreendê-lo.

O problema era que vinha tentando entender com a mente. O que quebrou a barreira e me conquistou definitivamente para o universo do Hinduísmo foi a experiência de me sentir acolhida, amparada, guiada e amada por pessoas e seres ressoantes a essa vibração.

Das cuidadoras da escolinha que minha filha começou a frequentar em pleno festival do Navratri (em homenagem à Mãe Divina), quase todas Indianas e muito queridas, passando pelos comerciantes e prestadores de serviço do bairro, sempre muito solícitos, pelo dono super gente boa do apartamento que alugamos e vizinhos simpáticos, até mestres espirituais que admiro, os ventos espirituais da Índia me envolveram de forma irresistível e irreversível.

Meu interesse e envolvimento tem aumentado ainda mais recentemente, desde que comecei a experimentar sessões semanais de massagem terapêutica Ayurvédica. Vinha, em Dezembro passado, sentindo uma fadiga extraordinária, à época sem explicação física plausível, o que me levou a considerar esse tratamento como uma alternativa para melhorar o meu estado.

Cheguei sem saber o que esperar, totalmente desprovida de informação. Sabia apenas que se tratava de medicina tradicional Indiana. Na conversa para o diagnóstico e prescrição já gostei do que escutei; o Ayurveda é um sistema milenar que baseia sua prática na ideia dos elementos da natureza e do seu equilíbrio na composição energética do corpo. A massagem é feita com o estímulo de pontos energéticos vitais usando óleos herbais adequados ao desequilíbrio em questão. Terminada a consulta com a médica, segui os passos da senhora que seria a minha massagista em direção à sua sala de massagens.

A experiência é difícil de descrever. Talvez por eu ser uma pessoa bastante mental, a massagem daquela senhora, que começa com uma espécie de aquecimento no ponto do chakra frontal, parecia ir quebrando e derretendo várias camadas endurecidas e esquecidas no meu corpo e memória.

A sala, toda em madeira avermelhada escura, tem uma pequena vela e algumas luzes douradas no teto, que dão a iluminação mínima necessária para ela trabalhar. A música, sempre hindu, é deixada em volume moderadamente alto, o que parece fortalecer o seu poder curativo. Já no meu primeiro dia lá dentro tocou uma coletânea de mantras poderosos entoados por um coro de crianças. O cheiro é fortíssimo, uma mistura de incenso com temperos – nem todos apreciam; eu adoro. O óleo é muito quente, quase chega a queimar. O processo é finalizado com uma massagem com um saquinho de ervas embebidas em óleo, lembrando uma pajelança. Nas últimas duas sessões, percebi que minha querida massagista começou fazer uma espécie de oração também. Em outro idioma – provavelmente Gujarat ou Sânscrito – e muito discretamente. Fiquei sem jeito de perguntar, mas sim, ela está incluindo agora uma espécie de vocalização curativa. Meu caso deve ser brabo… risos.

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Já me sinto quase totalmente recuperada do cansaço – o que também atribuo a ter iniciado uma suplementação alimentar com ferro e vitaminas. Mas o maior ganho mesmo tem sido a chance de deixar que o calor do óleo derreta os vestígios de bloqueios do corpo, emoções e mente. De me deixar transportar, pela pungência daquele cheiro, para percepções novas e memórias que eu desconhecia, e que estão mexendo muito com meu coração. De viajar nas vibrações daquelas músicas e de agradecer, infinita e profundamente, por estar tendo acesso a tantas coisas boas assim.

Se bem me conheço, esse caso de amor com as coisas da Índia não me transformará em uma pessoa fantasiosa nem fanática com nada. Há outras atmosferas espirituais pelas quais nutro um amor mais sedimentado – como a Celta, por exemplo – então é mais uma que vem para somar, não predominar. No mais, saio da massagem e já vou voltando à realidade comum, vivendo a vida normal, como todo mundo e sem tentar convencer ninguém de nada. Mas dentro do meu coração eu sinto aquelas pequenas vertigens que antecedem as revoluções íntimas. Ele passou a dançar em êxtase com as energias dessa atmosfera, assim como dançam os corações retratados no lindo filme abaixo (a partir do minuto 12:30):

Não sei dizer no que esse caso de amor vai dar, só sei que ele me deixa profundamente feliz. E por isso vou apreciando-o como posso, com a alegria inocente da criança, que pouco sabe e nada espera, mas tudo sente.

Pessoas bálsamo e pessoas veneno

Poderia-se imaginar do título desse post que ele trata de dois tipos diferentes de pessoa. Mas o que eu gostaria de escrever hoje é sobre a nossa capacidade de ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Exercitando a mais pura honestidade, reconheceremos essa limitação central da nossa condição humana presente. É uma contradição que todos carregamos; o ser inferior e o ser superior em nós mesmos, a sombra e a luz, especialmente considerando-se uma mesma vida, em que melhoramos tão devagar e tão pouco.

Somos capazes de viver momentos maravilhosos, de coração transbordante e compaixão universal irrestrita, acessando neles talvez uma pequena fração da abundância de luz que habita permanentemente os corações dos grandes mestres do Amor.

Nunca demora muito, porém, para que à chuva de luz se sucedam os períodos desérticos, que são conseqüência das várias pequenas frestas que abrimos cotidianamente para os pensamentos e emoções sombrios. A carga psíquica negativa cuja entrada permitimos e que displicentemente alimentamos aumenta progressivamente até engolfar todo o nosso ser. Uma horda de seres interessados em ver nosso coração cativo dos maus pensamentos e dos maus sentimentos não demora a se aliar a essa empreitada do eu inferior para sabotar aquilo que temos de luminoso.

Somos ainda principiantes na arte da equanimidade. Ainda que no longo prazo e a despeito de nossos deméritos a lei evolutiva nos conduza sempre a melhores paragens, em nossa escala de tempo pessoal poderíamos poupar muito sofrimento próprio e alheio se fôssemos mais versados em reconhecer as artimanhas de nossa própria sombra. Ela sempre se alimenta daquilo a que assentimos por ignorância espiritual, ego ou vaidade.

Ah, como gostamos de nos acreditar melhores, mais justos, mais percebedores da realidade do que os outros, especialmente aqueles que pensam diferente de nós. Somos todos pequenos messias de nossas verdades, sempre dispostos a decepar as “ilusões alheias”, mas cegos ao tamanho desproporcional de nossos egos julgadores.

Ah, como ansiamos ser grandes em nossos pequenos microuniversos… E como ficamos ridículos quando acreditamos ter atingido o ápice da iluminação acerca de algum assunto. É sempre a partir desse momento que nos aguardam as lições mais dolorosas, aquelas que nos colocarão de volta em nosso merecido lugar evolutivo.

É por sorte que somos acompanhados por amigos visíveis e invisíveis que velam por nosso real progresso. É pelas mãos deles e delas que somos impedidos, de inúmeras formas, de levar a cabo nossas investidas de auto sabotagem.

Muitas vezes, exaustos dessa batalha interna entre nossa luz e nossa sombra e prestes a cair na tentação de ligar o piloto automático da vida medíocre, percebemos que são colocadas em nosso caminho pessoas, situações e ideias luminosas para nos impulsionar um pouco mais adiante. Assim, às grandes angústias seguem-se grandes alegrias. Aos momentos de profunda ignorância seguem-se os lampejos salvadores de lucidez.

A lucidez espiritual traz paz e contentamento, mas é muito difícil tê-la sempre presente. São esses nossos amigos que nos abrem os olhos do discernimento e a generosidade do coração. Deixados aos próprios recursos não venceríamos nossa sombra; causaríamos muitos danos a nós mesmos, e, por ação ou repercussão deletérias, aos outros também.

Felizes aqueles que sentem fazer cada vez menos sentido ventilar o próprio lado pessoa-veneno. Tudo que comunicamos com pesar, revolta, ressentimento e amargor emana correntes tóxicas, que invariavelmente voltarão a nós em algum ponto do caminho.

Não importa apenas o conteúdo do que comunicamos, mas também, e talvez até mais, a energia que vai com esse conteúdo. Quem de fato está vigilante quanto às cargas emocionais que projeta, secreta ou abertamente no mundo?

Não importa o quão justificável lhe pareça o alvo: o destino final de suas emanações sempre será você mesmo.

E assim como é certo que nosso veneno destruirá pouco a pouco o nosso próprio coração, também o bálsamo que eventualmente espalharmos com nossa presença e nossas ações, veladas ou declaradas, retornará a nós, na forma de ajuda real nas nossas horas mais difíceis.

Então, para sermos cada vez mais bálsamo e menos veneno, cabe gravar indelevelmente no coração algumas palavras:

Lucidez para conhecer as artimanhas do ego inferior e fechar inteligentemente as frestas por onde ele se alimenta e ganha força.

Amor e compreensão para recusar qualquer convite ao conflito.

Gratidão a tudo e a todos que reforçam o que há de luminoso em nós; e também a tudo e a todos que desafiam nossos bons propósitos.

Determinação para prosseguir na trilha do autoconhecimento e do domínio de si mesmo.

Harmonia e equilíbrio em todos os nossos passos.

Maat, a personificação da Verdade, do Equilíbrio e da Justiça na cosmogonia do Antigo Egito.
Maat, a personificação da Verdade, do Equilíbrio e da Justiça na cosmogonia do Antigo Egito.

Em alguns dias de rara magnanimidade, eu senti as correntes do Bem Maior atravessando o meu pequeno ser, e fiquei assombrada com a Força que a tudo regenera. Em outros dias também didaticamente inesquecíveis, eu acessei as correntes da Sombra coletiva e quase sucumbi em meio ao caos imagético, mental e emocional que me enxovalhava por dentro.

A alternância dos bons e maus estados se dá, no cotidiano, em um grau menos dramático do que nestes dias raros de intenso sentir. Mas a lição da experiência tem sido essa: somos capazes do melhor e do pior, e todos os dias nos é dada a escolha de qual tendência iremos alimentar. Quem entende isso de verdade não tolera mais em si mesmo a propensão para ser crítico do mundo, pois sabe que ao erguer um tribunal combativo estará na verdade apenas condenando a si mesmo.

Quando um tijolo vale mais que uma boa vibração

Um acalorado debate tem acontecido entre os residentes da localidade onde moro, uma das regiões mais habitadas por Indianos e hindus no Reino Unido.

Há cerca de um ano, uma sociedade de iogues adquiriu perto daqui um prédio onde antigamente funcionava uma igreja cristã, que então se encontrava desativada. Desde a compra eles estabeleceram as suas atividades ali, e o local começou a funcionar como um templo e centro cultural de linha Vaishnava, como é o caso de vários outros na redondeza.

Como na época da aquisição o prédio ainda estava com a arquitetura da igreja (que, diga-se de passagem, é de gosto duvidoso, com tijolos escuros e uma torre retangular estranha), os iogues naturalmente desejam convertê-lo e adaptá-lo à sua tradição, dando a ele características ornamentais de um templo hindu tradicional.

O fato de estarmos em uma área em que referências visuais hindus são numerosas, inclusive com a presença de templos semelhantes ao que eles desejam estabelecer, levaria a crer que não encontrariam problemas em demarcar fisicamente ali o seu templo. Mas por enquanto o máximo que conseguiram fazer foi colocar a bandeirinha do seu movimento em cima da torre, que ainda ostenta uma enorme cruz branca.

Na Inglaterra em geral os governos locais são muito ciosos da aparência das construções, que acabam sendo todas muito parecidas, em nome da preocupação em se manter uma certa harmonia arquitetural através das épocas. A preservação tem um lado bom – a marca cultural se mantém e a cacofonia estética é relativamente controlada – mas também acaba tornando o visual de diferentes localidades muito parecido. Acredito que muitos que rodaram por aqui já tiveram a impressão, mesmo tendo percorrido uma boa distância, de estar ainda na mesma cidade ou no mesmo bairro, tamanha a semelhança visual entre os diferentes locais. Nos grandes centros, em função da presença de muitas culturas, uma cota maior de diversidade consegue ser acomodada, mas no geral existe no país uma harmonia visual que chega a ser enfadonha.

Os setores de planejamento dos councils (órgão governamental que se assemelha a uma subprefeitura) são por conta disso muito atuantes, e cada vez que o proprietário de um imóvel deseja fazer reformas no mesmo precisa passar por um burocrático e severo processo de avaliação. Nas reformas mais significativas parte dessa avaliação envolve uma consulta aos residentes locais, que são instados a se manifestarem contra ou a favor da proposta.

O caso do templo hindu está rendendo tanta polêmica que fez com que os residentes locais reativassem uma associação de moradores há anos parada. A associação, que em tese seria um fórum para tratar de assuntos gerais, transformou-se numa espécie de movimento para impedir a qualquer custo a consolidação do templo hindu. Cartas anti-templo começaram a circular, pedindo que inundássemos o site do council com manifestações contrárias à reforma, chamando reunião presencial para tratar do assunto e expondo séries de argumentos desfavoráveis aos iogues.

No início, por estar ocupada com outras coisas, não prestei muita atenção à discussão, mas como as cartas e emails aumentaram em frequencia e agressividade fui pesquisar o teor das manifestações contrárias, que eram quase a totalidade das quase duzentas registradas no council. Afinal, o que poderia haver de tão inadequado com a instalação de mais um mandir na região? Se minha inclinação natural já seria a de apoiar os iogues só por ser uma apreciadora da espiritualidade hindu, depois de ler os motivos alegados fiquei ainda mais afeita à causa deles.

As pessoas não querem o templo aqui por dois motivos principais: ressentimento por não terem podido reformar as próprias casas em ocasiões anteriores e medo de que a falta de estacionamento cause tumulto no trânsito, especialmente em dias de evento. A esse último ponto a sociedade iogue já respondeu, em carta bastante amigável, assegurando que haviam feito o mesmo arranjo de estacionamento atualmente vigente para um centro maçônico que funciona numa rua vizinha.

Essa carta, que inclui uma oferta à comunidade de usar gratuitamente o espaço deles para eventos locais; faz um convite às pessoas para irem conhecer as atividades e manifesta um desejo de se harmonizar com os vizinhos, termina com o honesto dizer: “nosso princípio-guia é a harmonia e fraternidade universal e gostaríamos de construir uma relação de longo prazo com todos vocês, buscando uma oportunidade de melhor servi-los”.

A essas cordiais palavras, porém, seguiu-se prontamente mais um email da associação de moradores assegurando estar fazendo todo o possível para impedir a instalação do templo. Fica difícil entender esse antagonismo todo.

Tudo bem que, do ponto de vista espiritual, onde houver atividades de luz pouco importará a cor do tijolo. Os iogues parecem saber melhor disso, pois vêm mantendo suas atividades normalmente, mesmo em meio a toda a resistência.

Os vizinhos, por sua vez, parecem mais preocupados em conservar os tijolos existentes do que interessados em aproveitar a presença de uma nova brisa espiritual nas próprias cercanias.

Eu gostaria de tê-los como vizinhos.
Eu gostaria de tê-los como vizinhos.

A spiritual perspective on little Aylan’s death

Ler em Português

I can’t recall having been so moved by a picture and a piece of news before. The image of little Aylan’s body washed up on Turkish shores stirred up a plethora of hard-to-describe feelings which immediately took the smile away from my face. I wasn’t alone in my grief: virtually anyone who came across that image felt that as a species we must be doing something very wrong.

Then, while reading about the story on Thursday evening, I looked at a couple of pictures of Aylan still alive as the smiley, happy child described by his father. I couldn’t help but thinking that maybe somehow his spirit knew what he would come to symbolise in his short but significant incarnation.

Maybe he was a happy spirit en route to accomplishing a noble task; a mission of collective consciousness raising. Following years of sluggish governmental response towards the contemporary migrant and refugee crisis, little Aylan’s death may well have been the darkest point before the dawn of a new perspective on the issue.

His short life and his tragic death raised our awareness of global inequality and acted as a stark reminder of our sheer lack of brotherhood. After him and his story, the world is calling for change.

Some of us are lucky enough to have understood that as immortal spirits we are only going through a human journey, and that life does not end with physical death.

Also, the recognition of greater cosmic laws governing our human existence helps us to endure the inevitable pain of physical mortality in a world where all fellow sentient beings are inexorably bound to experience some kind of suffering.

Spirituality, however, does not mean cold inaction or indifference. True spirituality is a living Love, a powerful silent act of compassionately embracing humanity and all of its predicaments.

Spiritual contemplation and meditation on greater truths strengthen us by bringing deep peace to our hearts and minds while at the same time compelling us to incarnate in our own lives the very values of brotherhood and compassion. We are urged to be helpful to earth and to mankind, but at the same time we understand that we can better do so from an unshakable place of equanimity.

It is only by holding a spiritual perspective on such apparent brutalities that we may find meaning in our human journey, with all its trials and pain, evil and inequality. Life on this Earth can sometimes look like a package of suffering to which we have subscribed and of which we are, to a greater or lesser degree, part and parcel.

It is only by raising our consciousness to the spiritual heights that we will be able to, along with all the great spiritual masters, free our hearts from the grips of our human pain, and work steadfastly for a better world with the serene and active comprehension that stems from the spiritual Light.

Syrian angel - image from Twitter/BBC
Syrian angel – image from Twitter/BBC

Uma perspectiva espiritual sobre a morte do pequeno Aylan

Não me recordo de ocasião em que tenha sido tão mobilizada por uma foto em um artigo de jornal. A imagem do corpo do pequeno Aylan afogado na costa da Turquia instigou uma enxurrada de sentimentos difíceis de descrever e que imediatamente roubaram o sorriso do meu rosto. Eu não estava sozinha em minha dor: praticamente todo ser humano que se deparou com aquela imagem sentiu que, enquanto espécie, devemos estar fazendo algo muito errado.

Então, enquanto lia sobre a história na quinta-feira à noite, me deparei com duas fotos de Aylan ainda vivo, como a criança sorridente e feliz descrita pelo seu pai. Não pude deixar de pensar que talvez, de alguma forma, o seu espírito sabia o que viria a simbolizar em sua curta mas significativa encarnação.

Talvez ele fosse um espírito feliz a caminho de completar uma nobre tarefa; uma missão de elevação da consciência coletiva. Seguindo-se a anos de respostas governamentais arrastadas para a crise contemporânea de migrantes e refugiados, a morte do pequeno Aylan pode muito bem ter sido o ponto mais escuro antes do alvorecer de uma nova perspectiva sobre a questão.

A sua curta vida e trágica morte aumentaram nossa consciência a respeito da desigualdade global, e atuam como um austero apontamento da nossa pura falta de irmandade. Depois dele e de sua história, o mundo está clamando por mudança.

Alguns de nós são afortunados o bastante para ter compreendido que enquanto espíritos imortais estamos apenas atravessando uma jornada humana, e que a vida não termina com a morte física.

Também o reconhecimento de leis cósmicas maiores governando a nossa existência humana nos ajuda a tolerar a inevitável dor da mortalidade física, em um mundo onde todos os seres sencientes estão inexoravelmente destinados a experimentar algum tipo e grau de sofrimento.

Espiritualidade, porém, não significa inação ou indiferença. A verdadeira espiritualidade é Amor vivo; é um ato poderoso e silente de abraçar compassivamente a humanidade com todas as suas dificuldades.

A contemplação espiritual e a meditação em verdades maiores nos fortalecem, trazendo profunda paz aos nossos corações e mentes ao mesmo tempo em que nos impulsionam a encarnar em nossas próprias vidas os exatos valores da fraternidade e da compaixão. Somos instados a sermos úteis para a terra e para a humanidade, mas ao mesmo tempo compreendemos que podemos melhor fazê-lo desde um lugar imperturbável de equanimidade.

É apenas de uma perspectiva espiritual sobre tais aparentes brutalidades que podemos encontrar sentido para nossa jornada humana, para todas as provas e dores, para o mal e a desigualdade. Para todo esse pacote de sofrimentos que parecemos ter subscrito e do qual somos, em maior ou menor grau, parte integrante.

É apenas elevando nossa consciência às alturas espirituais que seremos capazes de, na esteira de todos os grandes mestres espirituais, libertar nossos corações das garras de nossa dor humana e trabalhar firmemente por um mundo melhor, com a compreensão ativa e serena que deriva da Luz espiritual.

Meu Brasil brasileiro…

Esse não é um post patriótico. Não tenho orgulho nem vergonha de ter nascido brasileira, assim como não tenho orgulho nem vergonha de morar no Reino Unido. Nação para mim é um conceito periférico; acredito que a verdadeira riqueza da experiência humana deve ser construída olhando-se para o que existe de melhor em diferentes lugares do globo – e além dele!

Feito o disclaimer, gostaria de listar aqui algumas observações colecionadas nas últimas férias, passadas no período de Natal e ano novo no litoral norte de Santa Catarina. Foram três semanas maravilhosas de descanso, convívio familiar e renovação de energias, pelas quais sou muito grata. Mas foi também uma ocasião para notar, com os olhos semi-forasteiros que todo imigrante se acostuma a ter, alguns problemas bem brasileiros que, ao meu ver, comprometem bastante a qualidade da experiência de morar no Brasil hoje em dia.

Mas quero começar falando de amenidades. Dezembro na zona tropical é muito quente, mas no estado de Santa Catarina, que já fica abaixo do Trópico de Capricórnio, não é tão quente assim. Teve noites que deu até pra usar um casaquinho – e fui chamada de friorenta todas as vezes em que fiz isso.

Dezembro por lá também é um mês em que falta muita coisa. Falta água, energia elétrica, sinal de celular e internet. Falta liberdade de ir e vir: o trânsito é impraticável, para carros e coletivos igualmente. Percorrer cinquenta quilômetros pode facilmente levar algumas horas. Alguns planos de encontrar amigos em cidades próximas tiveram de ser cancelados por causa disso.

Santa Catarina é um dos estados mais ricos do país, mas mesmo assim, os contrastes da paisagem urbana são chocantes. Via de regra, tudo que é público é mal feito e mal conservado, isso quando existente. Calçadas, por exemplo, em certas cidades são artigo raro; no seu lugar, pedregulhos e poças de lama. Já os espaços privados variam desde o casebre mais enjambrado e o terreno abandonado cheio de mato e lixo até as construções mais elegantes, algumas até espalhafatosas. Essas últimas são monitoradas pelos mais sofisticados esquemas de segurança, revelando o medo da violência em cada canto das ruas. O resultado é um clima tenso e uma paisagem desarmônica, feito um tecido todo remendado. Só são belas e bem cuidadas as partes que pertencem a alguém em particular, ou então aquelas ainda intocadas pelo homem.

Nesse espírito de cada um cuidar do que é seu e ninguém cuidar do que é de todos, a sensação que dá é de que apesar da imagem de povo solidário, há um traço menos caricato mas muito real na sociedade brasileira, o do “cada um por si”. Ele frequentemente dá ao cidadão que circula nas ruas e que usa os serviços, sejam eles públicos ou não, a sensação de vulnerabilidade, de não poder realmente contar com a solidariedade ou o profissionalismo alheios. Muitos fazem apenas o mínimo necessário para que as coisas funcionem aos trancos e barrancos. Poucos procuram desempenhar seu papel social ou profissional com um esmero extra. A expectativa geral quanto ao desempenho de tudo e de todos é muito baixa; há muita tolerância com o que não funciona.

Por causa da mentalidade do cada um por si, o brasileiro acostumou-se a achar natural flexionar algumas regras, inclusive morais, para tirar vantagem própria em algumas situações. Desde a sonegação do imposto até o falso testemunho, tudo parece se justificar pela lógica de que é necessário ser esperto para não ser passado para trás, ou para se obter o que se quer. Uma conduta nada cívica e bastante individualista e competitiva, que em nada contribui para a melhora dos problemas públicos dos quais falei mais acima. Aliás, parece ser exatamente essa conduta que emperra qualquer real progresso coletivo.

Desnecessário falar que há exceções, mas infelizmente ainda são exatamente isso: exceções. Destoam do padrão geral que se observa no país. E não sei ao certo qual é a fórmula para resolver esses problemas, embora deposite minha esperança no tempo, na auto-educação de cada cidadão e na educação das crianças.

Eu evito tecer críticas ao Brasil e aos brasileiros. Sou uma filha da terra e apesar de não residir aí no momento, é a casa de toda a minha família e da maioria dos meus amigos.

O Brasil é maravilhoso por sua exuberância natural e todos os frutos que essa riqueza lhe dá: paisagens naturais, comidas tropicais, energia do sol, e até muito da alegria das pessoas, que deriva de tanta abundância de energia imanente. Mas claro, até a riqueza natural pode estar com os dias contados se não nascer na coletividade uma preocupação para além do individual e do imediato.

É um país solar, expansivo, em que a vida pulsa para fora das casas (às vezes isso significa ter de ouvir a música ruim do vizinho até as três da manhã) e em que as pessoas sorriem, apesar de tudo. É um celeiro espiritual mundial, com um sincretismo pacífico (um tanto arranhado pela cisão das igrejas cristãs) que poderia servir de espelho para outros lugares do mundo.

Eu mesma sempre fui de modo geral muito feliz morando aí. Mas frequentemente me pego a pensar em como o Brasil poderia ser um lugar tão melhor se cada cidadão ousasse ser mais honesto, mais solidário e mais empenhado em respeitar o funcionamento coletivo da sociedade.

Eu não sou perfeita nesse sentido e certamente tenho meu quinhão de erros na bagagem, mas me preocupo cada vez mais em me vigiar e em acertar os passos dados nessa existência. Acredito que isso é quase o máximo que dá pra fazer – e já é muito, tão mais difícil do que esbravejar contra os erros alheios. Extrapolando um pouco, dá ainda para compartilhar esse tipo de impressão que divido aqui com vocês.

Não quero trazer ao leitor brasileiro nenhum tipo de pesar ou sentimento de auto-depreciação, pois além de isso não ser produtivo, não há pessoa ou sociedade no mundo que não tenha a sua parcela de coisas a melhorar. Espiritualmente, aliás, os seres humanos do mundo todo vibram mais ou menos na mesma média, na mesma densidade energética, emocional e consciencial. É só que do ponto de vista social e humano, há uma clara diferença entre países mais e menos avançados nesse ou naquele aspecto. E são essas coisas a que podemos individual e coletivamente estar atentos.

São áreas em que podemos melhorar. É nelas que me pego a pensar cada vez que saio do meu limbo de imigrante latina num país anglo-saxão e volto para o pedaço de terra que um dia já pude chamar, com um olhar um pouco mais indulgente, de casa.

Itapema

As eleições, e a vida que segue

No aspecto psicológico, o término das eleições presidenciais brasileiras foi um grande alívio coletivo, porque neutralizou um pouco (não completamente) a atmosfera pesada que vinha se sustentando e crescendo nos últimos meses no país, feito nuvem escura, carregada das piores manifestações do ser humano: ódio, sarcasmo, arrogância, pedantismo, maniqueísmo, divisão, infâmia e vileza.

O alívio do término se deu tanto para votantes de Dilma quanto de Aécio. A tensão, o desgaste e o cansaço existiam em ambos os lados. O país desenvolveu uma divisão mais polarizada no campo político, ainda que continuasse havendo, sob a égide das duas candidaturas, uma diversidade tal de interesses que impedia os eleitores mais ponderados de endossá-las sem ressalvas ou preocupações.

Eu apoiei a candidatura do PSDB, por vários motivos, incluindo constatações que acumulei nos meus trajetos na academia e no serviço público, questões técnicas e econômicas, mas principalmente a percepção de que era a candidatura mais alinhada com um fortalecimento saudável das instituições, com a preservação da democracia, com a alternância do poder e com uma blindagem necessária contra ideologias divisivas fomentadas pelo atual governo (ricos x pobres, negros x brancos, mulheres x homens).
Sendo assim, fui uma das milhões de pessoas que lamentou aquele anúncio da apuração já adiantada, dando a vantagem para candidata do PT. Foi a derrota daquilo que eu e tantos outros acreditavam ser prioritário, nesse momento, para o país.

Uma semi-derrota, aliás, levando-se em conta a estreita margem de vitória e a imagem positiva com que a oposição saiu da campanha. O partido da situação, ao contrário, teve sua hegemonia e credibilidade seriamente abaladas entre setores significativos da sociedade. A candidata eleita teve, inclusive, de ajustar drasticamente o discurso logo após a eleição para assegurar alguma governabilidade e acalmar os ânimos de um Brasil ideologicamente e socioeconomicamente dividido. Somos um país afeito ao amálgama das diferenças e aos sincretismos pacíficos, mas ao longo de muitos anos temos sido martelados por um insidioso discurso de “nós contra eles”, cerne da retórica petista e de outras esquerdas, herdeiras da anacrônica tradição revolucionária sangrenta de Marx que nada de bom gerou na história do planeta.

Depois de uma ou duas horas digerindo a notícia, então, o sono trouxe o muito bem vindo renovar de perspectiva do dia seguinte. Acordei aqui no hemisfério norte já presenteada por uma manhã ensolarada de outono, que fez tudo parecer estar certo, mesmo quando minha limitada percepção insiste em enxergar as linhas tortas. Continuava achando que os eleitores de Dilma haviam feito uma má escolha para o país como um todo, mas tratei de ir cuidar da vida cotidiana. E comecei a pensar no balanço emocional que fica depois de respirar por tantos meses uma atmosfera coletiva assim densa, como eu vinha dizendo no primeiro parágrafo.

Antes da eleição, acompanhei as notícias e opiniões políticas através de jornais, blogs e twitter, procurando ler apenas análises profissionais, opiniões fundamentadas e discussões civilizadas. Nas duas semanas anteriores ao segundo turno acompanhei o assunto com mais intensidade; mais do que gostaria e até do que deveria, se tivesse quisto preservar minha saúde. Uma velha conhecida dor de estômago, companheira dos tempos em que eu me ocupava de política e ideologia de forma intensa, veio me revisitar por conta dessa porta que abri, acusando claramente o uso enviesado da intelectualidade e a co-vibração de energias de qualidade duvidosa. É muito difícil entrar num mar de lama e não acabar se sujando um pouco também.

A troca personalizada de ideias reservei para aqueles com quem converso fora das redes sociais, pois estas potencializam muitos mal-entendidos, geram desgaste desnecessário e, francamente, não mudam a opinião de quem já bem se informou. Uma reportagem da Revista Época descreveu muito bem a divisão virulenta por que acabamos de passar no Brasil e o papel do imediatismo da internet no agravamento do fenômeno.

O que fico feliz de ter conseguido fazer desta vez foi ter mantido sob rédeas curtas os impulsos de natureza inferior que me atravessavam nos dias de maior indignação. Certamente, quase ninguém que tenha se envolvido com a polarizada discussão pode dizer que não vibrou energias esquisitas nesse período. Pior para nós; saímos todos meio maculados; uns mais e outros menos. Ao menos alguns de nós se recusaram a dar vazão pública a essas baixas vibrações, e pelo menos não engrossaram o caldo das animosidades que poluiu a atmosfera brasileira por esses dias.

Espero sinceramente que, independente de quais sejam nossos governantes, possamos aprender a governar melhor a nós mesmos, inclusive durante essas sedutoras situações de comoções estranhas de massa. E também que tenhamos sabedoria para reestabelecer de forma construtiva o diálogo interrompido, com maturidade para entender e respeitar as diferenças, procurando com boa vontade as melhores saídas para os problemas do país.

Water Lilies and Japanese Bridge (Monet, 1897-1899)
Water Lilies and Japanese Bridge (Monet, 1897-1899)

Não há nada do que se envergonhar

Há muito tempo não ligo para futebol e esportes em geral. As copas, no entanto, sempre costumei acompanhar, por causa do “allure” internacional do evento. Nessa, por excelência, estava bem indiferente: por uma desconexão já natural com esse universo, mas também por fazer questão de me isolar um pouco de todo o contexto político carregado que acompanha o evento. Mesmo assim, a dimensão do massacre sofrido pelo Brasil apertou o meu coração, especialmente quando vi imagens de crianças chorando.

Fiquei imaginando como seria difícil ver minha filha, que ainda tem um aninho apenas, passando por uma frustração assim, e chorando copiosamente. Mas aí lembrei que o melhor que posso transmitir a ela, nos momentos em que ela vier a precisar lidar com as vicissitudes da vida (desse tipo e de tipos mais sérios), é o meu próprio estado interno. E me tranquilizei com esse pensamento, pois naquela ocasião eu estava em paz, assistindo à comoção coletiva sem grandes sobressaltos, com exceção, como disse, de ver as crianças (mas só as crianças!) chorando. Porque para elas ainda é difícil entender e colocar as coisas em perspectiva, ainda mais quando os adultos ao redor tateiam, tão perdidos quanto elas, no mesmo emaranhado emocional.

A respeito das lágrimas infantis, a Folha divulgou um artigo interessante elencando lições positivas que as crianças podem tirar da tristeza. O artigo é igualmente válido para os adultos que choraram, ou que deixaram o seu clima psíquico nublar em função do acontecido.

Com a “derrota histórica” vieram a lição e o alerta, para eu mesma, de que é importante transmitir às crianças a real dimensão das coisas. O futebol é uma diversão válida, mas é só futebol. Precisamos lembrar disso nas vitórias e nas derrotas, pois se ontem nos sentimos “humilhados”, talvez em alguma ocasião anterior fomos nós que “humilhamos”, conscientemente ou inadvertidamente alguém.

Os extremos emocionais são tão inebriantes quanto álcool – provocando inclusive ressaca -, e a valorização excessiva das coisas terrenas ilusórias sempre nos deixam menos lúcidos, roubam nossa energia e contribuem para a já dominante insanidade coletiva do planeta. Nada contra o uso do esporte ou qualquer outra distração como algo de caráter lúdico, mas como droga, que leva à euforia e à depressão, ao ódio e à paixão, sobram ressalvas.

Não há nada do que se envergonhar diante da derrota futebolística, portanto. Ou melhor, se há, é apenas do fato de darmos tanta importância a acontecimentos periféricos, e de nos deixarmos emaranhar por emoções extremas, que nos roubam a lucidez e serenidade: nas vitórias, nas derrotas, no futebol, na política e nas pequenas batalhas, as externas e as íntimas, no nosso dia-a-dia.

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Imagem: Folha de São Paulo

Despertar para a própria pequenez

Muito tenho visto, pela internet, mensagens procurando definir o que seja o “despertar da consciência”. As concepções da expressão são tão diversas que senti vontade de escrever um pouco sobre o tema.

Tem me chamado a atenção, particularmente, o fato de que na maioria destas mensagens há um tom condenscendente, que fala de um lugar superior (o do “desperto”) a uma platéia de dormentes alienados, procurando mostrar aos supostos “não despertos” o caminho para um “melhor enxergar” de coisas. A expressão é usada indiscriminadamente em contextos políticos, acadêmicos, filosóficos, religiosos, místicos e espirituais, sempre apropriada e moldada de forma a dar suporte ao ideário daquele que se professa desperto, claro.

Nada de errado em ter os próprios pontos de vista e gostar de compartilhá-los para estabelecer diálogos construtivos. É um ímpeto natural e importante quando se procura questionar as coisas e exercitar o próprio discernimento. Acho muito curioso, porém, quando em qualquer destes contextos alguém realmente se acredite vidente da verdade última, e se sinta confortável nesta posição a ponto de querer doutrinar, muitas vezes de forma combativa, odiosa e irônica, outras pessoas.

Talvez haja um profeta arrogante latente em todo ser humano. Cabe a cada um saber controlá-lo, pois enquanto alguns se regozijam em seu deleitoso devaneio de superioridade, o Universo segue existindo com toda a sua vastidão e mistério. Talvez possam um dia despertar é para a sua própria pequenez, e caminhar pela pequena bola azul com uma melhor consciência do seu não saber e uma maior vontade de irmandade.

Por fim, reproduzo aqui uma das definições com que mais concordei de “despertar da consciência”, já que aponta justamente para o despertar como abertura do coração e domínio do ego. O texto foi recebido pelo mailing dos amigos do portal consciencial.org.

12 Sintomas de um possível despertar

J. Krishnamurti

1. Uma tendência crescente de deixar as coisas acontecerem ao invés de
tentar controlá-las;
2. Ataques frequentes de alegria, sorrisos sem explicação e explosões de
risos a qualquer momento;
3. Sensações de estar intimamente conectado aos outros e à natureza;
4. Episódios frequentes de apreciação e admiração com coisas simples;
5. Uma tendência de pensar e agir espontaneamente, no lugar do medo baseado
na experiência passada;
6. Uma nítida habilidade de curtir cada momento;
7. Uma perda da habilidade de se preocupar;
8. Uma perda do desejo por conflito;
9. Uma perda de interesse por tomar as coisas como pessoais;
10. Uma perda de apetite em julgar o outro;
11. Uma perda de interesse em julgar a si mesmo;
12. Uma inclinação em dar sem esperar nada em troca.

despertar cósmico