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O saudável exercício de sair de si mesmo

Tenho visto cada vez mais circular na literatura popular, acadêmica e espiritualista a ideia da importância de se ter uma atividade imbuída de propósito. A experiência do propósito já é amplamente reconhecida como uma força que combate a ansiedade, os estados depressivos e o vazio existencial.

Faz sentido pensar que uma vida voltada apenas para si está fadada a cair num vazio, pois inevitavelmente chegará o momento em que a pessoa ensimesmada constatará a irrealidade do próprio ego. Se assentamos nossa base existencial no engodo de nossas frustrações e quereres fugazes, mais cedo ou mais tarde teremos de reconhecer que havia na vida muito mais do que nossas preocupações e percepções egoístas. A desconexão que construímos ao nos relacionarmos com os outros enquanto egos separados e demandantes é receita certa para o sofrimento.

De minha parte, tenho feito um exercício de observar meus próprios estados mentais e emocionais antes, durante e logo após os momentos em que trabalho como terapeuta. Oferecer terapia é um trabalho que envolve mergulhar no universo psíquico das pessoas que vêm até mim e procurar, junto com elas, as luzes, saídas e alívios adequados às dores e contextos que cada uma vive.

Por ora, não são muitos os pacientes que encampo ao mesmo tempo para um trabalho mais profundo e prolongado. Já que o contexto pede e possibilita, prefiro trabalhar com poucas situações e assim conseguir me dedicar com maior qualidade a elas. Na prática, concentro as poucas vagas que ofereço num determinado dia da semana. Como cada atendimento envolve trabalho antes, durante e depois da sessão, acabo preenchendo ao menos dois dias da semana com essa atividade. São dois dias em que claramente percebo o quão menos ensimesmada consigo ficar.

Essa história de que ao ajudar os outros estamos em primeiro lugar ajudando a nós mesmos é muito real em minha experiência. Eu sinto isso todas as vezes em que atendo, escrevo, ou me entrego a uma atividade de forma espontânea e inteira, por exemplo sendo mãe para a minha pequena de quatro anos.

Estar inteiro em uma situação que nos transcende é uma boa oportunidade que a consciência tem de reorganizar os cacos mentais e emocionais que sobram todas as vezes em que passamos períodos prolongados pensando sobre nós mesmos sem realizar nada pelos outros, encastelados em nossas próprias certezas, memórias, planos e devaneios. A ação construtiva em benefício alheio tem um grande poder de organizar e curar a alma de quem a realiza.

Nos momentos em que eu tinha essa convicção apenas como afirmação teórica, chegava a duvidar de que fosse realmente assim. Agora, constatando na prática o salutar efeito de sair de mim mesma com mais regularidade, sei por experiência que pensar menos em mim e realizar algo por outros é uma experiência que equilibra a própria alma. Alguma mágica acontece que nos faz sair da experiência melhorados, mais contentes, otimistas e apaziguados. E a esse contentamento se segue a responsabilidade de retornar a nós mesmos com a clara consciência de que a vida é muito maior do que os dramas que nosso ego tanto valorizava quando se imaginava sozinho.

Perceber que para além de um ego somos consciências cuja experiência se conecta com a do próximo, e que com o próximo podemos aprender muito sobre nós mesmos, tem sido o maior benefício de sair um pouco mais frequentemente de mim. Quanto mais saídas desse tipo realizo, mais incapaz meu ego fica de sustentar sua ilusão predileta, a de que tudo que lhe acontece ou deixa de acontecer tem suma importância na cadência do universo.

Bom seria se fôssemos capazes de manter essa saudável percepção ao longo de toda nossa vida. Se pudéssemos afirmar, de coração leve, que em nossa passagem por aqui aprendemos a realizar mais e a exigir menos.

Enquanto isso, seguimos tentando aprender a sutil mas essencial diferença entre estar centrado e estar ensimesmado.

Equilibrando as polaridades

Sombra e luz, animal e divino, raso e profundo, falso e veraz. Todo traço de caráter humano pode pender para o seu pólo negativo ou positivo. O bem e o mal habitam em nós, e cabe a cada um vigiar o próprio caminhar para saber se está melhorando e evoluindo como pessoa ou se está, ao contrário, rebaixando a sua condição e prejudicando os outros.

É importante compreender isto porque uma das armadilhas mais comuns em que se pode cair é orgulhar-se de algo que constitui um defeito, como se ele fosse grande vantagem evolutiva. Facilmente afeiçoamo-nos a um traço negativo de nosso caráter e recusamo-nos a reconhecê-lo como derrogatório, por puro apego a uma determinada auto imagem que já não corresponde ao que a vida e o futuro nos conclamam a ser.

Além disso, possuímos uma tendência natural a sermos indulgentes com os próprios defeitos e intransigentes com os dos outros. Tudo o que somos ou fazemos de errado perante os tribunais da consciência é, para nós, prontamente justificável, enquanto que o menor deslize do outro é logo tido como carta-branca para trucidá-lo.

Permanecer inerte nos estados negativos aos quais se está apegado pode prorrogar desnecessariamente a evolução pessoal. Sempre chegará o momento em que o equilíbrio da polaridade deverá ser acertado. Isso pode acontecer através da livre decisão de mudar – que é indolor ou envolve a dor do ego apenas -, ou através de aflições aparentemente externas, mas que no fundo foram co-criadas pela consciência individual e pelo processo evolutivo ao qual ela está inexoravelmente submetida.

O estado ideal de equilíbrio pessoal é aquele em que nossos traços negativos não são exatamente aniquilados, o que é impossível na atual condição humana, mas sim forçados a se manifestar na sua polaridade positiva. A esse processo chamamos alquimia espiritual.

Ela só pode ser conseguida a partir do poder de vontade de cada um. Havendo a determinação íntima de melhorar a qualidade dos nossos pensamentos, sentimentos e ações, temos à disposição um sem número de técnicas e ferramentas para nos ajudar na empreitada. Devemos perceber com quais abordagens sentimos maior ressonância e investir nelas como instrumentos úteis na jornada de auto conhecimento.

Um dos sistemas que tem rendido bons resultados em minha jornada pessoal é o dos Florais de Bach. Tenho estudado-os e usado-os de forma mais atenta há cerca de três anos, e venho testemunhando consistentemente seus sutis mas notáveis efeitos equilibradores.

Utilizando os florais tenho percebido o quanto podemos estar inadvertidamente apegados a certos traços negativos da personalidade e relutando em querer transmutá-los, mesmo quando claramente causam sofrimento indevido a nós ou aos outros. Esse apego pode ser causado por orgulho (distorção auto defensiva), medo de deixar de ser quem somos (medo das boas transformações) ou algum outro tipo de ponto cego consciencial.

Detectar a poeira acumulada nos esconderijos da alma é uma tarefa bastante difícil, e por isso os instrumentos de auto ajuda que sentimos repercutir bem em nós devem ser usados com determinação, entrega e seriedade. É a nossa própria evolução que está em jogo. Nosso ego imporá toda sorte de resistências, mas por fim, atravessar a ponte em direção a versões melhores de nós mesmos é necessário.

O Dr. Bach, médico Inglês que descobriu as essências florais na década de 1930, escreveu que há dois tipos básicos de erro humano causadores de desequilíbrio, sofrimento e doenças do corpo e da alma. O primeiro é agir em discordância dos ditames de nosso eu superior – nosso lado luminoso, signatário da paz e do amor divinos. O segundo é cometer crimes contra a Unidade de todas as coisas.

Os dois tipos de erro são parâmetros úteis para avaliarmos se um determinado traço de caráter nosso se encontra na polaridade negativa – ocasião em que gera desequilíbrio pessoal ou dano a outro – ou se está se manifestando na sua polaridade positiva, quando harmoniza tanto o nosso próprio ser quanto o nosso entorno.

O processo de melhorar a si envolve necessariamente uma “operação pente fino” no caráter e nas emoções. Nela, volta e meia iremos nos deparar com pontos nevrálgicos do eu inferior, e nesse momento a presença de uma ajuda qualificada e de uma vontade corajosa podem fazer toda a diferença na sustentabilidade das transformações positivas. Tocar um ponto nevrálgico do eu inferior é como tentar domar um touro à unha, e muitos serão os convites internos e externos a deixar de lado tal esforço.

A equilibração pessoal deve ser um esforço contínuo, pois a vida é dinâmica. Superada uma fraqueza, outra surgirá à frente por força das novas circunstâncias, ou porque o traço negativo então superado era apenas uma camada recobrindo outra mais profunda.

O caminho evolutivo é longo, mas sua infinitude não deve desanimar ninguém, pois a cada passo dado à frente a vida se torna um pouco mais harmônica, leve e gostosa de se viver.

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Nascer para o novo é morrer para o velho.

Palavras são toques na alma

Algumas passagens da infância marcam a nossa memória sem que saibamos exatamente o por quê.

Entre as minhas está um momento vivido em torno dos dez anos de idade, época em que estudava com gosto a bíblia e os ensinamentos cristãos, que permearam minha formação de base num colégio franciscano do interior de Santa Catarina.

Eu estava sentada no banco da igreja católica ouvindo, como de praxe semanal, a explicação do padre sobre o evangelho lido naquele dia, que incluía o seguinte trecho dos provérbios (12:18):

“Há alguns que falam como que espada penetrante, mas a língua dos sábios é saúde.”

Ainda posso me ver sentada no banco comprido de mogno, com a roupinha comportada e o cabelo domado por uma tiara, bem atenta àquelas palavras que se gravavam na alma como um insight mágico. ‘Sim’, pensei, ‘isso é tão verdadeiro! Como seria bom se todos tivessem consciência disso…’

Tantos anos mais tarde, afastada da igreja desde os catorze ou quinze, a metáfora da língua como espada ou como saúde permanece gravada profundamente no meu coração. É, sem dúvida, uma das verdades espirituais que mais amo – o que, claro, não quer dizer que nunca tenha vacilado quanto à sua consecução.

A luz deste provérbio está sempre no background da minha consciência, e por isso uma das coisas que mais me entristecem é cometer – ou ver cometida – a violência através das palavras ou das intenções.

Sim, as intenções, os sentimentos que animam o dizer, são o que de fato valem, pois o fel do destempero de alguém transparece muito claramente mesmo quando profere as mais belas e corretas palavras.

O mais cristalino discernimento será maculado se não for comunicado desde as águas serenas do coração. A palavra nunca cura quando é movida por intenção ácida ou ferina.

A palavra-saúde é aquela que nasce de intenção tão doce quanto a da mãe que se dirige à criança amada. É qualidade de natureza feminina, mas que precisa ser ativamente desenvolvida por todos, homens e mulheres, na alquimia pessoal de se tornar alguém melhor.

Palavras são toques na alma. É sempre bom lembrar que almas são partículas de Deus extremamente sensíveis às durezas e às delicadezas de trato, e que os efeitos de nossas intenções e palavras são de nossa inteira responsabilidade.

Nesses tempos de comunicação tão banalizada e inconsequente, penso no quão valoroso seria se sacralizássemos um pouco mais as intenções e os conteúdos que propagamos no mundo.

Certamente viveríamos em um ambiente mental menos ruidoso, menos conflitivo e menos doloroso, ao passo em que poderíamos continuar afinando, de forma mais harmoniosa, nossas aparentes diferenças.

Pink rose reflection

Jardins que curam

Gosto de caminhar pelas ruas calmas do bairro onde moro, no subúrbio de Londres, apreciando os jardins coloridos e os detalhes das silenciosas casas enxaimel da vizinhança. Os parques e jardins aqui são na sua maioria muito bem cuidados, repletos de árvores, plantas e flores que sinalizam claramente a passagem das estações climáticas. Ao observar um parque ou jardim, pode-se deduzir com boa precisão em que época do ano se está.

A partir do mês de agosto esse passatempo se torna especialmente prazeroso para mim, visto que se inicia o tempo do outono, ou, ao menos, o prenúncio dele. É a estação que considero mais linda, com a temperatura mais agradável, as cores mais bonitas e a energia mais condizente com o tom geral da minha alma. É que nessa encarnação tenho aprendido bastante sobre desapego e renovação, então, de certa forma, me considero uma “alma em outono”. Todas as estações têm o seu valor e a sua beleza, mas tem algo no outono que me faz sentir especialmente desperta.

Talvez por isso ontem, voltando no fim da tarde de um desses passeios, depois de sentir o vento outonal fresco e vê-lo varrer as primeiras folhas secas do ano, pensei em escrever sobre o incrível tanto de coisas que se apaziguam na mente e no coração, durante e após uma caminhada contemplativa junto à natureza. Mas é difícil explicar em palavras tudo o que é liberado, curado e inspirado nesses momentos, pois há muito de subjetivo e não dado à racionalização. Basta então observar o estado interno em que nos encontramos antes e depois de uma experiência assim, tão simples e tão ao alcance de qualquer um. Renovação, preenchimento, organização, harmonia, paz e vigor são alguns dos benefícios sensíveis que o contato com a natureza invariavelmente traz.

Esses benefícios são velhos conhecidos das sabedorias tradicionais, e modernamente têm sido pesquisados também pela medicina e psicologia convencionais. Lembro de recentemente ter visto, por exemplo, tese de doutorado sobre o tema, e propostas de realização de psicoterapia em ambientes mais verdes e naturais. Já sabemos, mas não custa lembrar: a natureza oferece em abundância não só as substâncias físicas que curam nossos males (e que são a base inclusive para os remédios laboratoriais que compramos nas farmácias), como também as energias sutis que nos harmonizam nos níveis emocional, mental e espiritual.

Para receber essas energias curativas é preciso silenciar-se, abrir-se, observar a natureza e escutar o que ela tem a dizer. A contemplação meditativa da natureza é um fantástico remédio, facilmente acessível, sem perigo de superdosagem e sem contra indicações. Esta generosa amiga-mãe-irmã está sempre disponível para ajudar a nós humanos, atuando em favor de nossa evolução pessoal e coletiva.

Jardim de outono
Jardim de outono

Provocações espiritualistas à filosofia

Revisando alguns posts que tenho em rascunho no blog, encontrei esse pequeno texto do Osho, que tinha separado há mais de um ano, depois de lê-lo em algum lugar na internet e sentir profunda ressonância com a questão que coloca. O texto é uma pequena-grande provocação a respeito da diferença entre a filosofia (e por extensão a sua filha, a ciência) e a espiritualidade (a que ele, mesmo sendo um crítico dos sistemas religiosos fechados, chama de religião, no sentido de religação com a realidade divina).

Escrevi num post anterior sobre a forma com que esse tema se faz presente na minha trajetória. Hoje, na iminência de concluir mais uma etapa da minha formação filosófica em psicoterapia, decidi publicá-lo, para marcar a pertinência e a atualidade da reflexão, que continuo levando comigo na tentativa de equilibrar possibilidades e talentos, fé e discernimento, verdade e responsabilidade.

Então, vamos a ele:

O Ah! das coisas – Osho

“Uma pessoa deve entender o Ah! das coisas e então tudo é compreendido.

Dizem que a filosofia começa com o maravilhar-se. Talvez. Mas a filosofia sempre tenta destruir a maravilha – ela quer matar sua mãe.

Todo o esforço da filosofia é desmistificar a existência.

Quanto mais você acha que sabe, menos você tem respeito, maravilha, reverência, amor. A existência então parece estar no passado, sem relevo; não há mais nenhum mistério nela.

E é claro que, quando não houver nenhum mistério no exterior, não há nenhuma poesia no interior. Eles andam juntos, são paralelos: mistério no exterior, poesia no interior.

A poesia só pode surgir se a vida permanecer merecendo ser explorada. No momento que você sabe, a poesia morre; o ato de conhecer é a morte de tudo aquilo que é bonito em você.

E, com a morte da poesia, você vive uma vida que não vale a pena ser vivida – não pode ter significação, não pode ter nenhuma celebração.

Não pode florescer, não pode dançar; você só pode se arrastar.

Então, talvez aqueles que dizem que a filosofia começa com o maravilhar-se estejam certos, mas eu gostaria de acrescentar mais uma coisa: ela tenta matar sua mãe.

A religião nasce com o maravilhar-se, vive com o maravilhar-se.

A religião inicia com o maravilhar-se e termina com mais maravilhar-se.
Essa é a diferença entre a filosofia e a religião – ambas podem ter o seu começo com o maravilhar-se, mas depois elas pegam caminhos separados.

A religião começa procurando compreender os mistérios e descobre que esses mistérios vão se aprofundando.

Quanto mais você sabe, menos sabe, e o resultado do saber é a ignorância.

Você fica totalmente ignorante, não sabe absolutamente nada.
Um estado de inocência é alcançado.

Nesse estado de inocência, a poesia atinge sua perfeição. Essa poesia é a religião.”

Osho em A Revolução: Conversas Sobre Kabir

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Lessons from the darkness

“A human being can be compared to a tree. Yes, like a tree, a human being has roots, a trunk and branches which bear leaves, flowers and fruit. The taller the tree, the deeper its roots; in other words, the higher a human being rises, the more his deep instinctive tendencies – sensuality, anger, pride, etc. – are likely to be aroused. […] There are ways of overcoming and controlling these forces and using them to obtain even greater inner achievements. That is what is known as spiritual alchemy.”
(O.M. Aïvanhov, The Powers of Thought)

One of the greatest things about training to be a psychotherapist is the intensive work you get to do on your own emotional self. Any serious psychotherapeutic training will involve an ongoing exposure to therapeutic interventions, be it on the delivering or on the receiving end of them, causing you to learn not only how to become a therapist but also what it feels like to be a client. The result is that after years undergoing this kind of training you become quite aware of your personal emotional baggage, as well as of your subjective strengths and weaknesses. You also improve your ability to make a good use, in life, of your strengths, and to develop healthy self-care mechanisms to protect your sensitive spots.

Because we are always changing and hopefully evolving as human beings, self knowledge is an endless enterprise. So even after having been on the psychotherapy road for a number of years I am still surprised at the things I learn about myself and about others with each new therapeutic encounter. The lessons are always being poured in, be it through empathetic means or personal experience, sometimes in a peaceful and gentle manner, other times quite abruptly and unpleasantly. The latter is usually the case when we find ourselves experiencing unexpected negative emotions triggered by a thought, a relationship or a context.

To use a brilliant expression I’ve heard from a friend, there are times when we feel a “stab of emotion” whose pain leaves no room for a normally functioning planned and rational response.

Lately, maybe as a consequence of my practical counselling training, I’ve been experiencing these “stabs” of difficult emotions more often on different occasions, especially when I open myself up as an individual client or as a participant of a therapeutic group, where we can either project or receive such emotions from someone else. So I thought I’d write a bit about them.

Sorrow, fear, impatience and anger are examples of sharp and mostly negative emotional states which often emerge from within ourselves and in our relationships. They rob our ability to function normally, driving us away from our goals in terms of who we want to be and what we want to achieve in life.

Negative emotions are powerful little creatures: they come about often unannounced, produce a trail of unpleasant physical sensations (such as accelerated heartbeat, a lump in the throat or a headache), and linger for a while, casting shadows on your consciousness before you can actually understand and control them. And to add to the problem, there is often a gap between how these emotions are subjectively felt and how they are objectified and expressed, leading to all sorts of complications in relationships due to poor emotional communication.

It often feels like it would be easier to forget about our negative emotions, but it is precisely in their unconscious nature that their immense power lies. Negative emotions should not be taken for granted!

In a psychotherapy context we allow ourselves to feel these emotions as they come, in a pretty raw state, firstly paying attention to what they do to us. Later, we step out of ourselves and look perspectively at them, trying to understand the role that they play in specific scenarios, or in the wider context of our lives. With perspective, we are more likely to feel empowered to act upon our undesired emotional states. Having good therapeutic company for undertaking this journey is helpful and recommended.

It takes a leap of courage to sincerely experience and expose our negative emotions. A lot of trust and safety is required to create the right atmosphere in which these emotions can be shared, accepted and challenged in a constructive way. A non judgmental attitude is essential. A slowly but surely approach seems to be the safest and most productive avenue to defuse the harmful forces that such emotions, when left untamed, unleash in and around us.

Healing negative emotions is not, therefore, denying their existence within us, but rather shedding a lot of light on them. Only in this way can they be understood and transformed into a fertile ground on which the seeds of wisdom will one day be able to flourish.

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The fiery nature of a life worth living

Versão em Português

“Be who you are meant to be and you will set the world on fire.”

If you’ve ever experienced the feeling of being in tune with your deeper life project you will understand how much truth there is in this quote by Catherine of Siena. Some of us don’t ever come to understand what our purpose in life really is, because this kind of realisation requires a great deal of self observation, self honesty and courage to act in accordance to our inner aspirations. Not everyone likes the idea of facing the depths of self; and not everyone fancies the risks of the uncertain paths of creative living. For my part, I believe that a good degree of self awareness and courage to create one’s own destiny by taking risks and making (often difficult) decisions are two of the few things actually needed to be able to lead a good and worthwhile life.

Going back to de Siena’s quote, which is likely to be an adaptation of “If you are what you should be, you will set all of Italy ablaze!” (Letter T368), I’d go further to say that this fire that “ignites the world” stems from the incandenscence of the self-actualised being. In this process, “self” itself is “set alight”. Thinking in terms of energy fields, the sensation can even be physically felt: when you’re doing what you love doing and what you were born to do, your whole being trembles in excitement, as if it were on fire, but in a controlled, constructive and productive way. You feel lucid, tireless, aware and empowered. You feel the positive impact of your righteous actions on others and on your surroundings, and you are given great, unsolicited feedback. It is a most rewarding experience and when it happens, you know you’re on the right track to becoming happier as you move forward.

I am not a Catholic nor a believer in institutional sainthood, but this does not diminish the truthfulness of what de Siena said. It resonates with the psychological concept of self-actualisation and with the spiritual concept of self-realisation. Most importantly, it can be easily verified by lived experience.

It’s important to say that a life project is not necessarily a grandiose, notable enterprise. It can be something completely anonymous and simple, like being a good mother to your child. But in every case, it involves becoming someone better and helping others to do the same, in however small a scale it may be. There can be no genuine fulfilment in selfish or purely materialistic pursuits.

The unmistakable signs that you are accomplishing your mission in life – or living a good, worthwhile life – are peaceful contentment, a growing joy of living, and a need to share the love you feel with fellow living beings. There is a great, perennial source of Life, Wisdom, Love and Joy that surpasses our individual personalities and connects us all. Our mission, whatever shape or size it may have, will always involve clearing our inner channels to allow these divine waters to flow freely through ourselves towards the others.

This is why the most powerful change that one can make is the change in one’s own self. Getting rid of everything that diminishes and divides us – fear, doubt, hatred, intolerance, arrogance – and nurturing our higher selves – our ability to love, to trust, understand and care -, both in ourselves and in others, are the two keys to becoming who you are meant to be. And to set the world – yourself included – on an irresistible and captivating fire.

Rassouli Eternal Annexation

Image: Eternal Annexation (Rassouli)

Sobre o cuidado

Cuidado. Interesse, amparo, zelo, desvelo.

Atividade explícita e implícita que se compõe de várias pequenas e grandes intenções, atitudes e gestos. Embora às vezes imperceptível ao olhar externo, sua presença ou ausência é sempre agudamente sentida pelos envolvidos na relação de cuidado.

Vibração feminina e maternal, pode ser exercida por homens e mulheres, sejam eles pais biológicos ou não.

Quem ama cuida do que é amado. Familiares, cônjuges e amigos cuidam uns dos outros. Cuidamos de nós mesmos. Cuidamos de tudo aquilo que nos é caro, desde objetos até pessoas e ideais.

O cuidado preserva e promove a vida. É sentimento nobre, e em tempos de individualismo exacerbado, precisa ser cultivado nas esferas pessoais e coletivas. Vale cuidar de muitas coisas – pertences, plantas, animais, meio ambiente, relacionamentos, grupos, projetos. Cada relação de cuidado é uma oportunidade de exercer a entrega do que se tem de melhor a um outro; uma oportunidade de doar amor.

Em condições normais de “temperatura e pressão”, o cuidado precisa ser equilibrado com o incentivo à independência, pois os subprodutos do seu excesso são o sufocamento, o apego e a dependência doentia. Assim, um filho amado não pode ser excessivamente cuidado, sob o risco de ter a sua capacidade de desenvolver a autonomia severamente prejudicada. Pessoas que se amam precisam constantemente equilibrar a manifestação do cuidado com o respeito às individualidades. Pacientes precisam de acolhimento, mas objetivam seguir a vida sem necessidade da terapia. Grupos sociais vulneráveis precisam de assistência, mas têm sua liberdade maculada com o paternalismo. Projetos precisam de dedicação perseverante para se materializarem, mas é necessário saber improvisar e seguir em frente quando os planos não dão certo.

Já quando há condição de maior vulnerabilidade, o cuidado precisa ser redobrado. Um objeto desgastado, um corpo doente, uma alma ferida, um relacionamento fragilizado ou um ideal ameaçado por circunstâncias desfavoráveis se beneficiam de um cuidado mais intenso. Precisam de uma dose extra de atenção e de energia amorosa para conseguirem se reestabelecer.

A experiência de ser preenchido pelo amor e pelo cuidado estabiliza o ser, abrindo espaço para que ele desenvolva maior sensibilidade às fragilidades alheias. Uma vez cuidados, nos sentimos relativamente inteiros, quando não transbordantes, e passamos a ter a necessidade de cuidar também, para retibuir e propagar o bem que nos foi feito. O ímpeto do cuidador só se apazigua com a emancipação alheia, quando o cuidado que antes era demandado pode até continuar sendo bem-vindo, mas deixou de ser necessário.

Por isto, os que se sentem bem amados querem cuidar, e até mesmo se frustram por não poderem se fazer presentes em todas as situações que requerem e merecem o cuidado que agora também têm para dar. As restrições para a partilha do amor trazem, porém, o importante aprendizado da compreensão dos limites existentes para atuação de cada um no mundo. Não se pode cuidar de todos que precisam, o tempo todo, em todo lugar.

A onipotência é reservada a um Poder Maior. A nós, humanos, parciais e falíveis, cabe a tarefa de de estabelecer as prioridades corretas, repousando nosso amor nos lugares e situações de menor escala, onde ele conseguirá fazer uma maior diferença. Entregar todo o resto, o que não se alcança, nas mãos deste Poder que nos transcende, é demonstração de maturidade e exercício de fé.

Pietà di Michelangelo

Na trilha do autoconhecimento

Quando a gente se muda para longe é comum que a casa dos pais, na cidade de origem, se transforme num depósito provisório daquelas coisas que “são minhas, quero guardar, mas quando eu tiver espaço eu levo”. De vez em quando bate uma saudade desses objetos (no meu caso fotos, CDs e livros). Esse é o caso do meu álbum de formatura, que já conta onze anos de idade.

Esses dias pedi para a minha irmã escanear e me mandar uma das fotos desse álbum. Essa foto por muito tempo me foi tida como uma das que eu mais gostava, e eu queria agora, alguns anos mais tarde, dar mais uma olhadinha nela.

Que surpresa foi rever essa foto. Em outro post eu comentei sobre o efeito de reversão do registro que uma foto antiga ressucitada pode provocar. Naquele caso, uma foto da adolescência me fez perceber que naquela época havia mais momentos felizes do que eu atualmente lembrava. No caso dessa foto de formatura, aconteceu justamente o contrário.

A foto, do exato momento do juramento da profissão, simbolizava uma realização por anos ansiada, um momento de vitória, de conquista, de orgulho, de iniciação. Eu estava entrando para um seleto clube ao qual eu sempre quis pertencer, o de psicólogos avalizados. De fato, logo após receber o diploma fui abraçada calorosamente por um professor que me saudou literalmente assim: “seja muito bem vinda ao clube”. Eu estava recebendo a sanção social e dos pares para ocupar um lugar de referência quanto aos assuntos do autoconhecimento. Eu estava no topo do meu mundo particular.

Mas, estranho, eu costumava gostar bem mais dessa foto. Na verdade, eu era apaixonada por ela. E agora, ela me evocava um sentimento diferente. Nela, eu agora via uma espécie de vazio no meu olhar. E inevitavelmente veio a pergunta: o que mudou?

Mudou a minha compreensão do que seja realmente possível na esfera do conhecer-se e, ainda mais complicado, ajudar alguém a se conhecer melhor também. Não é um caso – como eu ingenuamente pensava à época – de acumular conhecimento na sua própria cabeça para depois destrinchar o funcionamento de outras, e assim descobrir alguma luz que guiasse a todos pelos melhores caminhos. O autoconhecimento é um processo ainda muito misterioso, o mais de todos, como muito bem colocado num texto legal de Paul Brunton que recebi esses dias de um amigo. Não é de uma pretensão enorme atribuir a si mesmo o direito comercial e exclusivo de dizer verdades, ainda que relativas ou contextualizadas sob a sua limitada percepção, sobre as coisas da alma humana?

Ao mesmo tempo, autoconhecimento continua parecendo ser a chave para uma vida mais feliz. Há um valor em persegui-lo, mas o problema é o sentimento de “clube dos autorizados”. Nossos sonhos de maestria são patéticos nessa área, onde – hoje percebo – os mais sábios são aqueles que com o passar do tempo mais estupefatos ficam com a própria pequenez diante da vastidão do que desconhecemos.

A foto do olhar orgulhoso, vazio de amor real e cheio de ego, felizmente amarelece com o passar do tempo e esvaece com a experiência de vida. De todo esse universo “formatural” há, no entanto, um objeto que ainda guardo com carinho: o anel, presenteado por minha mãe. O círculo de ouro, cinzelado com um animal de visão noturna, um símbolo grego para a alma, e uma pedra lapis lazuli cravada no topo, representa, ainda, o espírito das coisas que mais me enternecem, movimentam e vitalizam nessa jornada terrestre. A diferença é que agora percebo um pouco mais claramente a insignificância dos meus passos, claudicantes sob uma luz maior, que é a verdadeira força motriz de todas as coisas.

anel formatura psicologia

Entre o céu e a terra

Com o tempo livre mais escasso, tenho priorizado as atividades de que mais gosto e tentado encaixá-las ao redor da agenda da bebê. Essa organização forçada pela compressão do tempo livre é um fenômeno bem conhecido de quem trabalha fora ou é muito ocupado, e não raro resulta num ritmo de realização geral mais acelerado.

No topo da lista das atividades preferidas que estão ao meu alcance no contexto de hoje estão as leituras. Sempre com bem mais livros para ler do que efetivamente lidos, essa lista a toda hora se renova, cresce e nunca será vencida. Os homens e mulheres de hoje têm à disposição uma fonte inesgotável de alimento para a alma!

Essa infinitude costumava me assustar e desencorajar, mas agora, ocupando o papel principal de mãe e com uma auto-expectativa de realização intelectual mais baixa, tenho conseguido consumir mais livros. Meus assuntos favoritos – espiritualidade, filosofia/psicologia, e eventualmente poesia – garantem um bom contraste com o trocar de fraldas e a interação física que uma bebezinha de quatro meses requer.

O problema de algumas dessas leituras é que elas às vezes são um gatilho para um modo muito aéreo e alheio à concretude do mundo ao meu redor.

Essa semana mesmo, por exemplo, depois de ler à tarde alguns capítulos da biografia de um líder espiritual hindu que frequentemente entrava em estado de samadhi, saí à noite até o shopping centre mais próximo de casa, onde fica a academia que voltei a frequentar. O contraste entre a tarde quieta – quase meditativa – e aquelas luzes do comércio natalino, o furor dos consumidores, e até mesmo o empenho das pessoas em disciplinar o corpo físico na academia foi bem intenso. Me senti “desencaixada”, como se estivesse andando dentro de um sonho brumoso (pra completar o clima, a noite estava brumosa!), irreal e arrastado, pois meus pensamentos continuavam com o livro, que eu teria preferido continuar lendo ao invés de “sair pro mundo”.

Essa sensação, à qual estão propensos os mais sonhadores (embora possamos nos perguntar o que é sonho e o que é realidade), além de estranha é perigosa, porque, uma vez no mundo, você precisa prestar atenção no que está fazendo, onde está pisando, cuidar dos seus pertences, etc. Nos últimos meses, por exemplo, já perdi misteriosamente três objetos de valor enquanto andava na rua, tive a carteira furtada duas vezes e outros pequenos incidentes que poderiam facilmente ter evoluído pra coisa mais séria.

Tenho me esforçado em aprender a identificar esses estados mentais excessivamente aéreos e a exercer controle sobre eles. Naquela noite, enquanto caminhava na esteira, fui fazendo um esforço mental de me conectar com o aqui e agora, colocando umas músicas que chamam mais à terra, prestando atenção ao corpo e disciplinando os pensamentos para esquecer o livro e focar no contexto ao meu redor. É como uma meditação ao contrário: um movimento de ir descendo a consciência, degrau por degrau, de um plano mais etéreo ao plano mais denso.

Para alguns de nós é tentador permanecer no mundo dos pensamentos, que tem mais leveza, beleza e liberdade. Mas é fundamental conseguir equilibrar os dois pólos. Afinal, todas as experiências – as sutis e as densas, as grandiosas e as medíocres – são parte integrante da nossa jornada de crescimento pessoal.

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