Arquivo da categoria: Espiritualidade

Um caso de amor com as coisas da Índia

Era para ser um simples post sobre as minhas recentes incursões em terapia Ayurveda. Mas percebo agora que o poderoso efeito que esse tratamento tem tido sobre mim é apenas um elo de uma cadeia que, nessa vida, se iniciou há alguns anos, mais acentuadamente nos últimos três.

Já escrevi por várias vezes sobre o quanto aprecio morar em um bairro hindu de Londres. Poderia dizer em essência que aqui me sinto cotidianamente estimulada pelos símbolos, cheiros, práticas, estética e outras manifestações culturais inscritas nessa tradição. Elas me remetem quase à revelia de minha vontade ao intangível perfume espiritual da Índia, dispensando-me de experimentar os aspectos mais crus que uma viagem física à Índia milenar, material, moderna e humana traria.

Não que a essência espiritual resida de fato em alguma localização geográfica. A espiritualidade mora e vive nos corações que a carregam pelo mundo afora, e aqui no bairro calha de haver muitos: alguns com o empurrão do condicionamento cultural, outros independentemente dele.

Não foi intencional a escolha dessa região para morar. Uma sincronicidade acabou mudando o plano original de nos assentarmos num bairro do sul da cidade, que conhecíamos melhor. E de 2013 pra cá muitos foram os insights e aprendizados sobre essa cultura pela qual hoje me declaro apaixonada.

O interesse começou antes, com sensações e descobertas pontuais. Lembro-me de uma ocasião em particular, numa época em que as coisas da Índia não faziam ainda parte do meu universo mais ativo de interesses. Vi, no lampejo do olhar de uma pessoa, alguma coisa que claramente transcendia em muito a dimensão mais grossa da materialidade. Impressionada, um pensamento me invadiu: “esse é o olhar de um iogue”.

shiva-nilakantha

Dissipado tal pensamento, voltei à mente analítica normal e perguntei a mim mesma: mas você que não sabe nada de Hinduísmo, o que acha que sabe a respeito de iogues? Não puxei muito o fio da meada na época, mas a transcendentalidade do tal olhar ficou profundamente gravada na minha alma, como uma pergunta que, apesar de oculta, continua a ansiar por resposta.

Segui estudando ocasionalmente elementos da espiritualidade hindu, que apareciam em meio a outros temas com os quais me identificava mais. Mas tudo ainda parecia muito hermético e difícil de entender. A complexidade do assunto parecia maior do que a minha capacidade de compreendê-lo.

O problema era que vinha tentando entender com a mente. O que quebrou a barreira e me conquistou definitivamente para o universo do Hinduísmo foi a experiência de me sentir acolhida, amparada, guiada e amada por pessoas e seres ressoantes a essa vibração.

Das cuidadoras da escolinha que minha filha começou a frequentar em pleno festival do Navratri (em homenagem à Mãe Divina), quase todas Indianas e muito queridas, passando pelos comerciantes e prestadores de serviço do bairro, sempre muito solícitos, pelo dono super gente boa do apartamento que alugamos e vizinhos simpáticos, até mestres espirituais que admiro, os ventos espirituais da Índia me envolveram de forma irresistível e irreversível.

Meu interesse e envolvimento tem aumentado ainda mais recentemente, desde que comecei a experimentar sessões semanais de massagem terapêutica Ayurvédica. Vinha, em Dezembro passado, sentindo uma fadiga extraordinária, à época sem explicação física plausível, o que me levou a considerar esse tratamento como uma alternativa para melhorar o meu estado.

Cheguei sem saber o que esperar, totalmente desprovida de informação. Sabia apenas que se tratava de medicina tradicional Indiana. Na conversa para o diagnóstico e prescrição já gostei do que escutei; o Ayurveda é um sistema milenar que baseia sua prática na ideia dos elementos da natureza e do seu equilíbrio na composição energética do corpo. A massagem é feita com o estímulo de pontos energéticos vitais usando óleos herbais adequados ao desequilíbrio em questão. Terminada a consulta com a médica, segui os passos da senhora que seria a minha massagista em direção à sua sala de massagens.

A experiência é difícil de descrever. Talvez por eu ser uma pessoa bastante mental, a massagem daquela senhora, que começa com uma espécie de aquecimento no ponto do chakra frontal, parecia ir quebrando e derretendo várias camadas endurecidas e esquecidas no meu corpo e memória.

A sala, toda em madeira avermelhada escura, tem uma pequena vela e algumas luzes douradas no teto, que dão a iluminação mínima necessária para ela trabalhar. A música, sempre hindu, é deixada em volume moderadamente alto, o que parece fortalecer o seu poder curativo. Já no meu primeiro dia lá dentro tocou uma coletânea de mantras poderosos entoados por um coro de crianças. O cheiro é fortíssimo, uma mistura de incenso com temperos – nem todos apreciam; eu adoro. O óleo é muito quente, quase chega a queimar. O processo é finalizado com uma massagem com um saquinho de ervas embebidas em óleo, lembrando uma pajelança. Nas últimas duas sessões, percebi que minha querida massagista começou fazer uma espécie de oração também. Em outro idioma – provavelmente Gujarat ou Sânscrito – e muito discretamente. Fiquei sem jeito de perguntar, mas sim, ela está incluindo agora uma espécie de vocalização curativa. Meu caso deve ser brabo… risos.

Krishna_flute_animated

Já me sinto quase totalmente recuperada do cansaço – o que também atribuo a ter iniciado uma suplementação alimentar com ferro e vitaminas. Mas o maior ganho mesmo tem sido a chance de deixar que o calor do óleo derreta os vestígios de bloqueios do corpo, emoções e mente. De me deixar transportar, pela pungência daquele cheiro, para percepções novas e memórias que eu desconhecia, e que estão mexendo muito com meu coração. De viajar nas vibrações daquelas músicas e de agradecer, infinita e profundamente, por estar tendo acesso a tantas coisas boas assim.

Se bem me conheço, esse caso de amor com as coisas da Índia não me transformará em uma pessoa fantasiosa nem fanática com nada. Há outras atmosferas espirituais pelas quais nutro um amor mais sedimentado – como a Celta, por exemplo – então é mais uma que vem para somar, não predominar. No mais, saio da massagem e já vou voltando à realidade comum, vivendo a vida normal, como todo mundo e sem tentar convencer ninguém de nada. Mas dentro do meu coração eu sinto aquelas pequenas vertigens que antecedem as revoluções íntimas. Ele passou a dançar em êxtase com as energias dessa atmosfera, assim como dançam os corações retratados no lindo filme abaixo (a partir do minuto 12:30):

Não sei dizer no que esse caso de amor vai dar, só sei que ele me deixa profundamente feliz. E por isso vou apreciando-o como posso, com a alegria inocente da criança, que pouco sabe e nada espera, mas tudo sente.

Love unites us, Truth sets us free

[Originally written and published in Portuguese]

Love and Truth: so many insights are contained in these simple words! To me, they summarise the essential learning of how to be human in the best sense. Because the best sense of being human is the faculty of Loving with Truth; of uniting whilst honouring freedom; being together without imprisoning.

So much can be said in this respect and so much has already been, in ways much better than I could hope to. But I can sincerely say that I understand, am provoked by and touched by this paradoxical combination: Love and Truth.

Yes, because part of me knows, in practice, what it is like to Love without Truth: hurtful attachment. And part of me knows what Truth without Love can be like: arrogant pride.

Love without Truth suffocates; Truth without Love destroys.

The combination of Love with Truth, however… is a veritable explosion of Good. A centrifugal and centripetal whirlwind at the same time. It elevates everything it touches. It generates strength and energy. It turns the world around. It makes everything grow and become better.

As an apprentice of being human in the best sense, I manage to access some Love with Truth in my most inspired moments. They never last long enough to satisfy the infinite thirst for progress. But gladly so: the path of evolution never reaches its end, and we are forever able to enjoy new landscapes along the way.

Now I understand: my essential search is for learning how to live both the Love that unites and the Truth that sets us free, in a synchronous and increasingly perennial way.

The road may be long, but the destination is fabulous. Infused with hope, the path becomes even more beautiful. And the best mantra to keep us company in this marvelous journey of self betterment is this: Love and Truth.

So be it.

True Love

Pessoas bálsamo e pessoas veneno

Poderia-se imaginar do título desse post que ele trata de dois tipos diferentes de pessoa. Mas o que eu gostaria de escrever hoje é sobre a nossa capacidade de ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Exercitando a mais pura honestidade, reconheceremos essa limitação central da nossa condição humana presente. É uma contradição que todos carregamos; o ser inferior e o ser superior em nós mesmos, a sombra e a luz, especialmente considerando-se uma mesma vida, em que melhoramos tão devagar e tão pouco.

Somos capazes de viver momentos maravilhosos, de coração transbordante e compaixão universal irrestrita, acessando neles talvez uma pequena fração da abundância de luz que habita permanentemente os corações dos grandes mestres do Amor.

Nunca demora muito, porém, para que à chuva de luz se sucedam os períodos desérticos, que são conseqüência das várias pequenas frestas que abrimos cotidianamente para os pensamentos e emoções sombrios. A carga psíquica negativa cuja entrada permitimos e que displicentemente alimentamos aumenta progressivamente até engolfar todo o nosso ser. Uma horda de seres interessados em ver nosso coração cativo dos maus pensamentos e dos maus sentimentos não demora a se aliar a essa empreitada do eu inferior para sabotar aquilo que temos de luminoso.

Somos ainda principiantes na arte da equanimidade. Ainda que no longo prazo e a despeito de nossos deméritos a lei evolutiva nos conduza sempre a melhores paragens, em nossa escala de tempo pessoal poderíamos poupar muito sofrimento próprio e alheio se fôssemos mais versados em reconhecer as artimanhas de nossa própria sombra. Ela sempre se alimenta daquilo a que assentimos por ignorância espiritual, ego ou vaidade.

Ah, como gostamos de nos acreditar melhores, mais justos, mais percebedores da realidade do que os outros, especialmente aqueles que pensam diferente de nós. Somos todos pequenos messias de nossas verdades, sempre dispostos a decepar as “ilusões alheias”, mas cegos ao tamanho desproporcional de nossos egos julgadores.

Ah, como ansiamos ser grandes em nossos pequenos microuniversos… E como ficamos ridículos quando acreditamos ter atingido o ápice da iluminação acerca de algum assunto. É sempre a partir desse momento que nos aguardam as lições mais dolorosas, aquelas que nos colocarão de volta em nosso merecido lugar evolutivo.

É por sorte que somos acompanhados por amigos visíveis e invisíveis que velam por nosso real progresso. É pelas mãos deles e delas que somos impedidos, de inúmeras formas, de levar a cabo nossas investidas de auto sabotagem.

Muitas vezes, exaustos dessa batalha interna entre nossa luz e nossa sombra e prestes a cair na tentação de ligar o piloto automático da vida medíocre, percebemos que são colocadas em nosso caminho pessoas, situações e ideias luminosas para nos impulsionar um pouco mais adiante. Assim, às grandes angústias seguem-se grandes alegrias. Aos momentos de profunda ignorância seguem-se os lampejos salvadores de lucidez.

A lucidez espiritual traz paz e contentamento, mas é muito difícil tê-la sempre presente. São esses nossos amigos que nos abrem os olhos do discernimento e a generosidade do coração. Deixados aos próprios recursos não venceríamos nossa sombra; causaríamos muitos danos a nós mesmos, e, por ação ou repercussão deletérias, aos outros também.

Felizes aqueles que sentem fazer cada vez menos sentido ventilar o próprio lado pessoa-veneno. Tudo que comunicamos com pesar, revolta, ressentimento e amargor emana correntes tóxicas, que invariavelmente voltarão a nós em algum ponto do caminho.

Não importa apenas o conteúdo do que comunicamos, mas também, e talvez até mais, a energia que vai com esse conteúdo. Quem de fato está vigilante quanto às cargas emocionais que projeta, secreta ou abertamente no mundo?

Não importa o quão justificável lhe pareça o alvo: o destino final de suas emanações sempre será você mesmo.

E assim como é certo que nosso veneno destruirá pouco a pouco o nosso próprio coração, também o bálsamo que eventualmente espalharmos com nossa presença e nossas ações, veladas ou declaradas, retornará a nós, na forma de ajuda real nas nossas horas mais difíceis.

Então, para sermos cada vez mais bálsamo e menos veneno, cabe gravar indelevelmente no coração algumas palavras:

Lucidez para conhecer as artimanhas do ego inferior e fechar inteligentemente as frestas por onde ele se alimenta e ganha força.

Amor e compreensão para recusar qualquer convite ao conflito.

Gratidão a tudo e a todos que reforçam o que há de luminoso em nós; e também a tudo e a todos que desafiam nossos bons propósitos.

Determinação para prosseguir na trilha do autoconhecimento e do domínio de si mesmo.

Harmonia e equilíbrio em todos os nossos passos.

Maat, a personificação da Verdade, do Equilíbrio e da Justiça na cosmogonia do Antigo Egito.
Maat, a personificação da Verdade, do Equilíbrio e da Justiça na cosmogonia do Antigo Egito.

Em alguns dias de rara magnanimidade, eu senti as correntes do Bem Maior atravessando o meu pequeno ser, e fiquei assombrada com a Força que a tudo regenera. Em outros dias também didaticamente inesquecíveis, eu acessei as correntes da Sombra coletiva e quase sucumbi em meio ao caos imagético, mental e emocional que me enxovalhava por dentro.

A alternância dos bons e maus estados se dá, no cotidiano, em um grau menos dramático do que nestes dias raros de intenso sentir. Mas a lição da experiência tem sido essa: somos capazes do melhor e do pior, e todos os dias nos é dada a escolha de qual tendência iremos alimentar. Quem entende isso de verdade não tolera mais em si mesmo a propensão para ser crítico do mundo, pois sabe que ao erguer um tribunal combativo estará na verdade apenas condenando a si mesmo.

Quando um tijolo vale mais que uma boa vibração

Um acalorado debate tem acontecido entre os residentes da localidade onde moro, uma das regiões mais habitadas por Indianos e hindus no Reino Unido.

Há cerca de um ano, uma sociedade de iogues adquiriu perto daqui um prédio onde antigamente funcionava uma igreja cristã, que então se encontrava desativada. Desde a compra eles estabeleceram as suas atividades ali, e o local começou a funcionar como um templo e centro cultural de linha Vaishnava, como é o caso de vários outros na redondeza.

Como na época da aquisição o prédio ainda estava com a arquitetura da igreja (que, diga-se de passagem, é de gosto duvidoso, com tijolos escuros e uma torre retangular estranha), os iogues naturalmente desejam convertê-lo e adaptá-lo à sua tradição, dando a ele características ornamentais de um templo hindu tradicional.

O fato de estarmos em uma área em que referências visuais hindus são numerosas, inclusive com a presença de templos semelhantes ao que eles desejam estabelecer, levaria a crer que não encontrariam problemas em demarcar fisicamente ali o seu templo. Mas por enquanto o máximo que conseguiram fazer foi colocar a bandeirinha do seu movimento em cima da torre, que ainda ostenta uma enorme cruz branca.

Na Inglaterra em geral os governos locais são muito ciosos da aparência das construções, que acabam sendo todas muito parecidas, em nome da preocupação em se manter uma certa harmonia arquitetural através das épocas. A preservação tem um lado bom – a marca cultural se mantém e a cacofonia estética é relativamente controlada – mas também acaba tornando o visual de diferentes localidades muito parecido. Acredito que muitos que rodaram por aqui já tiveram a impressão, mesmo tendo percorrido uma boa distância, de estar ainda na mesma cidade ou no mesmo bairro, tamanha a semelhança visual entre os diferentes locais. Nos grandes centros, em função da presença de muitas culturas, uma cota maior de diversidade consegue ser acomodada, mas no geral existe no país uma harmonia visual que chega a ser enfadonha.

Os setores de planejamento dos councils (órgão governamental que se assemelha a uma subprefeitura) são por conta disso muito atuantes, e cada vez que o proprietário de um imóvel deseja fazer reformas no mesmo precisa passar por um burocrático e severo processo de avaliação. Nas reformas mais significativas parte dessa avaliação envolve uma consulta aos residentes locais, que são instados a se manifestarem contra ou a favor da proposta.

O caso do templo hindu está rendendo tanta polêmica que fez com que os residentes locais reativassem uma associação de moradores há anos parada. A associação, que em tese seria um fórum para tratar de assuntos gerais, transformou-se numa espécie de movimento para impedir a qualquer custo a consolidação do templo hindu. Cartas anti-templo começaram a circular, pedindo que inundássemos o site do council com manifestações contrárias à reforma, chamando reunião presencial para tratar do assunto e expondo séries de argumentos desfavoráveis aos iogues.

No início, por estar ocupada com outras coisas, não prestei muita atenção à discussão, mas como as cartas e emails aumentaram em frequencia e agressividade fui pesquisar o teor das manifestações contrárias, que eram quase a totalidade das quase duzentas registradas no council. Afinal, o que poderia haver de tão inadequado com a instalação de mais um mandir na região? Se minha inclinação natural já seria a de apoiar os iogues só por ser uma apreciadora da espiritualidade hindu, depois de ler os motivos alegados fiquei ainda mais afeita à causa deles.

As pessoas não querem o templo aqui por dois motivos principais: ressentimento por não terem podido reformar as próprias casas em ocasiões anteriores e medo de que a falta de estacionamento cause tumulto no trânsito, especialmente em dias de evento. A esse último ponto a sociedade iogue já respondeu, em carta bastante amigável, assegurando que haviam feito o mesmo arranjo de estacionamento atualmente vigente para um centro maçônico que funciona numa rua vizinha.

Essa carta, que inclui uma oferta à comunidade de usar gratuitamente o espaço deles para eventos locais; faz um convite às pessoas para irem conhecer as atividades e manifesta um desejo de se harmonizar com os vizinhos, termina com o honesto dizer: “nosso princípio-guia é a harmonia e fraternidade universal e gostaríamos de construir uma relação de longo prazo com todos vocês, buscando uma oportunidade de melhor servi-los”.

A essas cordiais palavras, porém, seguiu-se prontamente mais um email da associação de moradores assegurando estar fazendo todo o possível para impedir a instalação do templo. Fica difícil entender esse antagonismo todo.

Tudo bem que, do ponto de vista espiritual, onde houver atividades de luz pouco importará a cor do tijolo. Os iogues parecem saber melhor disso, pois vêm mantendo suas atividades normalmente, mesmo em meio a toda a resistência.

Os vizinhos, por sua vez, parecem mais preocupados em conservar os tijolos existentes do que interessados em aproveitar a presença de uma nova brisa espiritual nas próprias cercanias.

Eu gostaria de tê-los como vizinhos.
Eu gostaria de tê-los como vizinhos.

A spiritual perspective on little Aylan’s death

Ler em Português

I can’t recall having been so moved by a picture and a piece of news before. The image of little Aylan’s body washed up on Turkish shores stirred up a plethora of hard-to-describe feelings which immediately took the smile away from my face. I wasn’t alone in my grief: virtually anyone who came across that image felt that as a species we must be doing something very wrong.

Then, while reading about the story on Thursday evening, I looked at a couple of pictures of Aylan still alive as the smiley, happy child described by his father. I couldn’t help but thinking that maybe somehow his spirit knew what he would come to symbolise in his short but significant incarnation.

Maybe he was a happy spirit en route to accomplishing a noble task; a mission of collective consciousness raising. Following years of sluggish governmental response towards the contemporary migrant and refugee crisis, little Aylan’s death may well have been the darkest point before the dawn of a new perspective on the issue.

His short life and his tragic death raised our awareness of global inequality and acted as a stark reminder of our sheer lack of brotherhood. After him and his story, the world is calling for change.

Some of us are lucky enough to have understood that as immortal spirits we are only going through a human journey, and that life does not end with physical death.

Also, the recognition of greater cosmic laws governing our human existence helps us to endure the inevitable pain of physical mortality in a world where all fellow sentient beings are inexorably bound to experience some kind of suffering.

Spirituality, however, does not mean cold inaction or indifference. True spirituality is a living Love, a powerful silent act of compassionately embracing humanity and all of its predicaments.

Spiritual contemplation and meditation on greater truths strengthen us by bringing deep peace to our hearts and minds while at the same time compelling us to incarnate in our own lives the very values of brotherhood and compassion. We are urged to be helpful to earth and to mankind, but at the same time we understand that we can better do so from an unshakable place of equanimity.

It is only by holding a spiritual perspective on such apparent brutalities that we may find meaning in our human journey, with all its trials and pain, evil and inequality. Life on this Earth can sometimes look like a package of suffering to which we have subscribed and of which we are, to a greater or lesser degree, part and parcel.

It is only by raising our consciousness to the spiritual heights that we will be able to, along with all the great spiritual masters, free our hearts from the grips of our human pain, and work steadfastly for a better world with the serene and active comprehension that stems from the spiritual Light.

Syrian angel - image from Twitter/BBC
Syrian angel – image from Twitter/BBC

Uma perspectiva espiritual sobre a morte do pequeno Aylan

Não me recordo de ocasião em que tenha sido tão mobilizada por uma foto em um artigo de jornal. A imagem do corpo do pequeno Aylan afogado na costa da Turquia instigou uma enxurrada de sentimentos difíceis de descrever e que imediatamente roubaram o sorriso do meu rosto. Eu não estava sozinha em minha dor: praticamente todo ser humano que se deparou com aquela imagem sentiu que, enquanto espécie, devemos estar fazendo algo muito errado.

Então, enquanto lia sobre a história na quinta-feira à noite, me deparei com duas fotos de Aylan ainda vivo, como a criança sorridente e feliz descrita pelo seu pai. Não pude deixar de pensar que talvez, de alguma forma, o seu espírito sabia o que viria a simbolizar em sua curta mas significativa encarnação.

Talvez ele fosse um espírito feliz a caminho de completar uma nobre tarefa; uma missão de elevação da consciência coletiva. Seguindo-se a anos de respostas governamentais arrastadas para a crise contemporânea de migrantes e refugiados, a morte do pequeno Aylan pode muito bem ter sido o ponto mais escuro antes do alvorecer de uma nova perspectiva sobre a questão.

A sua curta vida e trágica morte aumentaram nossa consciência a respeito da desigualdade global, e atuam como um austero apontamento da nossa pura falta de irmandade. Depois dele e de sua história, o mundo está clamando por mudança.

Alguns de nós são afortunados o bastante para ter compreendido que enquanto espíritos imortais estamos apenas atravessando uma jornada humana, e que a vida não termina com a morte física.

Também o reconhecimento de leis cósmicas maiores governando a nossa existência humana nos ajuda a tolerar a inevitável dor da mortalidade física, em um mundo onde todos os seres sencientes estão inexoravelmente destinados a experimentar algum tipo e grau de sofrimento.

Espiritualidade, porém, não significa inação ou indiferença. A verdadeira espiritualidade é Amor vivo; é um ato poderoso e silente de abraçar compassivamente a humanidade com todas as suas dificuldades.

A contemplação espiritual e a meditação em verdades maiores nos fortalecem, trazendo profunda paz aos nossos corações e mentes ao mesmo tempo em que nos impulsionam a encarnar em nossas próprias vidas os exatos valores da fraternidade e da compaixão. Somos instados a sermos úteis para a terra e para a humanidade, mas ao mesmo tempo compreendemos que podemos melhor fazê-lo desde um lugar imperturbável de equanimidade.

É apenas de uma perspectiva espiritual sobre tais aparentes brutalidades que podemos encontrar sentido para nossa jornada humana, para todas as provas e dores, para o mal e a desigualdade. Para todo esse pacote de sofrimentos que parecemos ter subscrito e do qual somos, em maior ou menor grau, parte integrante.

É apenas elevando nossa consciência às alturas espirituais que seremos capazes de, na esteira de todos os grandes mestres espirituais, libertar nossos corações das garras de nossa dor humana e trabalhar firmemente por um mundo melhor, com a compreensão ativa e serena que deriva da Luz espiritual.

O fim da noite escura da alma

Éramos tristes e endurecidos, mas não percebíamos nossa dor. Asfixiava-nos a falta de arejamento nas ideias, enquanto nosso coração se enrijecia com o esquecimento de nossa origem espiritual. Vivíamos na terra acreditando conhecer a realidade das coisas, sem perceber que o essencial nos escapava: a força vital e intangível do espírito.

Regozijávamo-nos em nosso poder de fogo intelectual. Esmiuçávamos e resolvíamos qualquer problema mundano que nos fosse colocado, e fazíamos questão de exibir tal potência como um troféu. Sentíamo-nos grandes em nós mesmos, e havia neste sentimento alguma violência. Às vezes de forma sutil, às vezes de forma escancarada, a truculência do ego nos fazia acreditar sermos melhores, mais aptos, mais merecedores de reconhecimento e louvor humano. Surfávamos a crista da onda dos papeis humanos que nos cabiam. Sentíamo-nos donos de nosso próprio destino.

Até o dia em que assistimos, feito espectadores impotentes, à ruína do castelo de ilusões sobre o qual assentávamos nossa base existencial. Alguns de nós sucumbiram à dor da morte de alguém amado. Outros de nós foram desacreditados e achacados por aqueles mesmos que antes nos adulavam. Alguns ainda viram relacionamentos vitais morrerem à míngua por pura falta de amor. E outros amargaram pungentemente o remorso de ter feito alguém sofrer.

Durante tal noite escura da alma, com os poros do ego semi-abertos pela ação dolorosa da ignorância, bastou que nos sentássemos sob um céu de crepúsculo profundamente dourado para que acontecesse a derradeira transformação. O Fogo Divino comunicou-se conosco, dizendo-nos de nossa misteriosa condição: pequenos e frágeis enquanto sozinhos, grandiosos enquanto filhos de Deus.

Devolvíamos neste momento mágico, silencioso e solene, tudo o que antes pensávamos ser ao nosso Pai Celestial. E assim relembramos nossa verdadeira origem e nossa verdadeira herança: éramos espíritos imortais irmanados na Luz.

Depositava-se ali, em nossas mãos, gentil e decisivamente, a chave para vencer toda dor do passado e voltar a ter esperança no futuro. A chave era a espiritualidade amorosa e consciente.

Profundamente gratos e de alma inflexionada, sabíamos que esta chave em si mesma era um tesouro de particular qualidade. O Amor e a Consciência são um repositório inesgotável de Força e Luz, que tanto mais cresce quanto mais amplamente for compartilhado.

Pôr do sol em Florianópolis, 27-8-2015 Foto de Úrsula Carreirão
Pôr do sol em Florianópolis, 27-8-2015
Foto de Úrsula Carreirão

A maternidade até aqui

(Um pequeno relato da minha experiência de ser mãe até o presente momento)

Minha filha conta hoje dois anos de idade e desde que o seu projeto de ser entrou em minha vida muita coisa mudou para melhor. Faço questão de frisar isso porque até engravidar eu tinha dúvidas sobre qual seria o saldo da experiência de ser mãe. Sou daquela geração de mulheres que cresceu esperando ter uma profissão, um bom grau de independência e funções socialmente úteis, para além do tradicional papel de “apenas” se dedicar à felicidade individual e familiar-nuclear.

Explico as aspas, que ilustram talvez a essência desse texto: existe coisa que requer mais vigilância do que conseguir se manter feliz e equilibrado consigo mesmo e nas relações íntimas e cotidianas? Não é justamente nelas que as mesquinharias do ego costumam encontrar espaço para se multiplicar? E por este exato motivo, não seriam elas um terreno privilegiado para se poder trabalhar a própria evolução espiritual e, por derivação, coletiva?

Como acredito que sim, fico feliz por ter superado alguns medos infundados e aceitado de coração desempenhar esse papel. Passado algum tempo percebi que ser mãe não me fez perder nada; pelo contrário, me fez ganhar muitas coisas boas e neutralizar outras ruins, como por exemplo a própria ansiedade demasiada por me dedicar a causas externas.

Tendo acontecido na esteira de uma nova percepção de valores, a experiência de ser mãe me caiu como uma luva. Tenho sentido-a como um passo certeiro à frente no aprimoramento de muitas lições que considero importantes: o equilíbrio das coisas, a paciência incondicional (que brota naturalmente perante a fragilidade de um bebê), a revitalização pessoal e flexibilização do próprio ser (que derivam do contato com o mundo lúdico da criança), a percepção profunda do outro, a empatia, a responsabilidade real e intransferível por um outro ser, a sabedoria de se fazer presente ou ausente na medida correta para o desenvolvimento do outro.

A maternidade convergiu perfeitamente com um projeto pessoal – que é, diga-se de passagem, empreitada para várias vidas – de ser cada vez mais, e mais verdadeiramente, alguém que saiba sustentar essas qualidades no trato com todos os seres humanos, quiçá com todos os seres sencientes. Se estes valores farão de mim também uma melhor profissional quando eventualmente voltar a trabalhar, não tenho dúvidas, mas isso passou a ser um detalhe: o rótulo profissional deixou de ser importante como antes era. O trabalho sobre mim mesma e a repercussão dele nas relações visíveis e invisíveis com outras pessoas passou a ser a minha real prioridade. E haja trabalho!

Não quero com isso levantar nenhum tipo de bandeira em prol de se ter filhos. É uma questão muito pessoal, e felizmente vivemos em uma época em que existe plena liberdade para que mulheres e homens escolham o que fazer nesta seara. Há muitos projetos de vida plenos e frutíferos que não precisam envolver a gestação de uma criança física.

O que achei que valia a pena registrar, porém, é que há um sem número de benesses, para além das óbvias, que derivam da experiência de gestar e educar uma criança. E que, em muitos sentidos, têm uma sorte e uma oportunidade tremendas aqueles que decidem abraçar essa aventura.

stairway

Raise above your human level of concern

Raise above your human level of concern.

Remember the spirit that you are.

Humanity gets so entangled in muddy emotions that it fails to see the wider meanings behind all trials and suffering.

From the perspective of the Creator – or even of more evolved friends – those situations which humans find most difficult have a clear place in the bigger scheme of things.

So, do not get discouraged by any kind of earthly setback, not even those created by your own mind.

Know, deep inside, that everything is slowly marching towards evolution. Do not be saddened by your temporary inability to understand.

Never lose your sense of purpose, for in this life, it is the most precious treasure you can carry with you. Take strength and nourishment from it.

And know, deep in your heart, that you are never alone.

Remember: raise above your human level of concern.

Forest being (Art by Gilbert Williams - unknown title)
Forest being
(Art by Gilbert Williams – unknown title)

Eleve-se acima do seu nível humano de preocupação

Eleve-se acima do seu nível humano de preocupação.

Lembre-se do espírito que você é.

A humanidade fica tão embaraçada em emoções turvas que falha em ver os sentidos mais amplos por detrás de seus testes e sofrimentos.

Da perspectiva do Criador – ou até mesmo de amigos mais evoluídos – aquelas situações que os seres humanos acham mais difíceis ocupam um claro lugar no esquema maior das coisas.

Portanto, não se desencoraje por nenhum revés terreno, nem mesmo aqueles criados pela sua própria mente.

Saiba, no seu íntimo, que tudo está lentamente marchando rumo à evolução; não se entristeça pela sua incapacidade temporária de compreender.

Nunca perca o seu senso de propósito, pois nesta vida, ele é o tesouro mais precioso com que você pode contar. Tome força e refúgio nele.

E saiba, profundamente em seu coração, que você nunca está sozinho.

Lembre-se: eleve-se acima do seu nível humano de preocupação.

Como melhorar a manifestação do Amor

A questão dos princípios masculino e feminino é uma das temáticas espirituais que considero mais fascinantes para estudo, meditação e auto aperfeiçoamento. A abordagem espiritual do tema traz inúmeros desdobramentos e pontos para reflexão, entre eles, o tema central do Amor enquanto força divina de Vida.

O Mestre Omraam Mikhaël Aïvanhov tratou deste tema em profundidade, notadamente nos volumes 14 e 15 das Obras Completas (ainda não disponíveis em Português). Uma versão mais condensada das ideias contidas nestes escritos pode ser lida no igualmente brilhante “O Masculino e o Feminino, Princípios da Criação“.

O trecho reproduzido a seguir, gentilmente enviado via newsletter pela Publicações Maitreya, inspira a todos aqueles que se preocupam em melhorar a sua manifestação no mundo, incluindo aí a arte de melhor Amar.

Como melhorar a manifestação do Amor

Extrato de “O Masculino e o Feminino, Princípios da Criação“, de Omraam Mikhaël Aïvanhov

“Com o decorrer das eras, o conceito de amor evoluiu. Os primitivos comportavam-se neste domínio com uma violência, uma brutalidade e uma sensualidade indescritíveis. Eram oceanos desenfreados, vulcões em erupção. Com o tempo, com o despertar da consciência e da sensibilidade, novos elementos se juntaram: a ternura, a subtileza, a delicadeza… No entanto, ainda hoje, na maioria dos casos, o amor continua a ser uma manifestação primitiva.

O amor passional, instintivo, que se praticou durante milênios, gravou-se tão profundamente no homem que ele agora não sabe como refiná-lo, como torná-lo mais nobre, e, por enquanto, amar continua a parecer-se com uma carnificina: as pessoas atiram-se umas sobre as outras, brutalmente, sem preparação, sem estética, sem poesia. Têm fome e então comem, regalam-se e ficam saciadas por um tempo; depois, voltam a ter fome e novamente se atiram à comida.

Muitas, mesmo as que pertencem a uma sociedade que se diz culta, praticam o amor como selvagens: sem qualquer poesia, qualquer beleza, qualquer harmonia, nada… Elas devoram-se! E, mesmo que se esforcem por oferecer ao seu parceiro um comportamento mais requintado, isso ainda não é o verdadeiro amor, são apenas uns adornozinhos.

O amor é um impulso magnífico, mas misturam- se nele imensos elementos passionais que impedem o aparecimento da sua verdadeira natureza…

Observai os animais quando nascem: um cãozinho, um vitelinho, um cabritinho… Eles não estão muito asseados e a mãe limpa-os. E também se dá um banho às crianças recém-nascidas. Pois bem, com o amor deve-se fazer a mesma coisa.

O amor é um filho divino, porque em toda e qualquer forma de amor existe Deus, mas é preciso limpar o amor, purificá-lo, educá-lo, reforçá-lo, libertá-lo, para se descobrir a Divindade. Mesmo o amor mais egoísta, mais inferior, mais sensual, contém uma quinta-essência divina, mas coberta com demasiados elementos heteróclitos, porque, no seu trajeto, ele teve de atravessar certos lugares que não estavam nada limpos: chaminés, caminhos lamacentos…

Mesmo as melhores coisas que vêm do Céu têm de atravessar as camadas que nós acumulamos; pensamentos e desejos inferiores, e toda a espécie de elucubrações mentirosas. Por isso, por agora elas estão envolvidas em sujidade; são pedras preciosas que precisam de ser limpas. Enquanto o homem não pensar em purificar-se, todos os impulsos, ímpetos e forças vindos do Céu serão deformados.

O amor é a vida divina que desce às regiões inferiores para as invadir, as regar, as vivificar. É a mesma energia que a energia solar, a mesma luz, o mesmo calor, a mesma vida, mas, ao vir até nós como um rio, carrega-se com as impurezas das regiões que é obrigada a atravessar. Ela brotou, pura e cristalina, do cume das altas montanhas, mas tornou-se irreconhecível por causa da sua descida às camadas inferiores, entre os humanos, que consideram o amor unicamente como um meio de ter prazer ou de perpetuar a espécie.

Então, põe-se a questão: posto que se trata de uma energia divina, a mais poderosa e a mais essencial, como torná-la de novo tão pura como era no começo, na sua origem?…

Primeiro, deve-se saber que o amor tem milhares de graus, ou degraus, do mais grosseiro ao mais subtil, e que é possível subir esses degraus. Pelo pensamento desperto, pela atenção concentrada, por um controlo inteligente, pode fazer-se um trabalho sobre si próprio para que esta energia se torne de novo tão límpida como a luz do sol e aja beneficamente por toda a parte onde passar, em vez de demolir e de destruir.

Há, pois, algumas regras a conhecer, mas, para as aplicar, não tereis de esperar até ter a vossa amada nos braços durante o amor. Elas devem ser aprendidas nas atividades quotidianas, muito antes de se desencadearem os processos do amor.

Tomemos um exemplo. Todos os dias vós deveis comer. Mas, quando estais à mesa, não engolis tudo o que tendes no prato; fazeis escolhas. Sejam mariscos, peixes, queijos, legumes ou frutos, há sempre alguma coisa grosseira ou indigesta que se deve lavar ou deitar fora. O homem, que é mais evoluído do que os animais, faz escolhas na comida; os animais não fazem. Mas, quando se trata de sentimentos e de pensamentos, ele já não faz qualquer seleção, engole tudo.

Por quê? Por que é que os seres que se amam, quando querem abraçar-se e beijar-se, nunca pensam em eliminar primeiro as impurezas daquilo que vão “comer”? Muitas vezes, nos seus sentimentos, nos seus beijos, eles deixaram infiltrar-se germes de doenças e de morte que a sua inconsciência não lhes permitiu ver e eliminar.

Sim, a morte infiltra-se no amor inferior, o amor estúpido em que não há consciência, nem controlo, nem luz. E é este amor que, por todo o lado, é tão cantado, louvado, glorificado! Ninguém conhece um outro amor e, se falardes dele, as pessoas olharão para vós pensando que estais loucos.

Tudo começa pela nutrição. Antes de ir para a mesa, lava-se as mãos e, antigamente, até se dizia uma oração para convidar o Senhor a partilhar a refeição. Talvez ainda haja camponeses que continuam a fazê-lo, mas as pessoas cultas acabaram com essas tradições. É a isto que a inteligência e a cultura conduzem os humanos!…

Lavar as mãos e convidar o Senhor para a mesa eram práticas que continham um sentido profundo, e os Iniciados que as introduziram queriam dizer aos seus discípulos: «Do mesmo modo, antes de amar um ser, antes de o tomar nos braços, convidai os anjos a participar nesse banquete; mas, primeiro, lavai as mãos, isto é, purificai-vos, tende a vontade de não sujar esse ser, de não lhe passar as vossas doenças, o vosso desalento, a vossa tristeza.»

Mas, em geral, como é que as coisas se passam? O rapaz está infeliz, “nas lonas”, e, para se reconfortar, tem necessidade de abraçar e beijar a sua namorada. Então, o que é que ele lhe dá? Ele tira-lhe tudo – as forças, a alegria, as inspirações – e em troca só lhe dá sujidades! Em tais circunstâncias, ele não devia abraçá-la, mas sim pensar: «Hoje estou pobre, miserável, sujo. Então, vou preparar-me, lavar-me e, quando estiver verdadeiramente em bom estado, irei levar-lhe a minha riqueza.»

Nunca se pensa assim, mas no futuro, quando houver compreensão, ficar-se-á envergonhado e enojado ao ver a fealdade com que se amou os outros. Vós direis: «Mas toda a gente faz assim; quando se está triste, tem-se necessidade de ser consolado.» Não é porque toda a gente é inconsciente e egoísta que vós também deveis sê-lo!

No futuro, todos aprenderão a amar como o sol, como os anjos, como os grandes Mestres, que, no seu amor, jamais tiram; pelo contrário, eles dão sempre.

Há dias em que vos sentis pobres; nesses dias, mantende-vos afastados da vossa amada, senão a lei virá perguntar-vos por que é que a roubastes. As pessoas são extraordinárias: quando se sentem bem, distribuem as suas riquezas a quem quer que seja, mas, quando estão infelizes, desesperadas, vêm espoliar aqueles que amam. Comportam-se como ladrões; sim, autênticos ladrões.

Portanto, quer para o amor, quer para a nutrição, a primeira regra é não comer o alimento que está diante de vós sem ter feito previamente uma seleção. Por isso, é preciso saber a diferença entre um sentimento e outro: um sentimento egoísta e um sentimento desinteressado, um sentimento que limita e um sentimento que liberta, um sentimento que perturba e um sentimento que harmoniza…

Mas, para se poder classificar os sentimentos, é preciso estar vigilante, pois, se fordes tocados por um impulso cego e a vossa atenção estiver adormecida, não estareis presentes na fronteira para ver se se trata de inimigos que estão a infiltrar-se para minar o vosso reino. A vigilância, a atenção e o controlo são necessários para não vos deixardes levar.

Ora, no seu amor, as pessoas só pensam em deixar-se levar. Suprimir o pensamento, a consciência, ficar inebriado… Para elas, é isto o grande amor. Parece que, se não se estiver inebriado, se tem menos sensações! Mas o que sabem elas disso? Já tentaram estar vigilantes, fazer uma seleção e ligar-se às correntes superiores para ver que alegria experimentarão e que descobertas farão?… Se nunca experimentaram, como podem pronunciar-se?”

Krishna and Radha
Krishna and Radha

A ascese possível

Quando pensamos em ascetismo espiritual, logo vem à mente a figura de um iogue ou monge que personifica em sua aparência, vestimentas e entorno práticas austeras de desapego da matéria. Essa representação automática que temos de alguém seriamente dedicado à espiritualidade acaba funcionando como uma barreira, atrapalhando a compreensão do que significa o auto-aperfeiçoamento espiritual e de como uma espiritualidade profunda pode permear o nosso cotidiano comum.

Que o caminho da espiritualidade é um caminho de ascese não há dúvida. Mas a disciplina e o despojamento evidentes na figura dos ascetas são apenas uma das faces possíveis da entrega espiritual, apropriada para alguns, mas nem de longe mandatória para todos.

Os caminhos espirituais são muitos. Arriscaria dizer, únicos para cada um de nós, conforme nossa trajetória e necessidade de aprendizado. A primeira lição espiritual verdadeira é aquela de olhar para dentro de si e perceber esse caminho peculiar.

Em relação à senda interior, tudo aquilo que acontece fora de nós é de segunda importância. As pessoas atualmente encarnadas no Ocidente urbano, por exemplo, poderiam pensar viver em um entorno desfavorável para a manutenção de uma boa sintonia espiritual. O distanciamento da mãe natureza e a imersão no ruído humano, que valoriza as aparências, nutre pensamentos mesquinhos e emoções conturbadas, trazem desafios específicos para a manutenção do equilíbrio pessoal. Mas são justamente os desafios que nos possibilitam exercitar a espiritualidade no dia-a-dia.

Precisamos, nesse contexto, de altas doses de discernimento para reconhecer o que é valor transitório e o que é valor perene. De muito amor para nos relacionarmos com todos os diferentes seres de forma fraterna. De bastante concentração para conseguir parar, dentro de nós, a roda de ilusões, e nos reconectarmos à fonte que anima nossos melhores propósitos.

As cidades podem ser excelentes salas de aula para aperfeiçoar a nossa forma de estar com os outros neste mundo; para testar nossa perseverança frente às dificuldades e para reforçar nossa capacidade de nos mantermos ligados ao Alto, ainda que enredados nos véus da matéria. A vida comum, com todas as imperfeições das quais somos atores e espectadores, nos estimula a desenvolver o “monastério de dentro”.

Neste santuário íntimo, todos os esforços que empregamos para sermos melhores conosco, com os outros e com o Universo, nos níveis físico, emocional e mental, são pequenas formas de ascetismo. A determinação firme de superar nossas próprias fraquezas, vícios, medos e auto-enganos são aquilo que podemos chamar de uma ascese possível.

Cabe a cada um julgar a extensão das asceses possíveis que consegue incorporar em sua vida. O importante é se dispor a dar passos graduais e cultivar a força necessária para formar novos hábitos, ou se desfazer de velhos. E viver com gratidão pela chance de buscar um melhoramento espiritual consciente, sadio e sustentável.

Felizmente, quanto mais nos esforçamos e mais sinceramente o fazemos, tanto mais ajuda recebemos. A ajuda, que às vezes só é compreendida em retrospecto, vem em forma de tudo que nos alinha com o melhor que podemos ser num determinado momento: contextos que favorecem, adversidades que ensinam, pessoas importantes, energias que apaziguam, ideias que nos fortalecem e sincronicidades que nos impulsionam um pouco mais adiante.

Arte: Jimmy Lawlor
Arte: Jimmy Lawlor