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O medo do outro apequena a experiência humana

Desde a queda do muro de Berlim, em 1989, a quantidade de muros erguidos em fronteiras ao redor do mundo subiu de 15 para 77, em sua maioria, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Na maior parte dos casos, com a finalidade de conter fluxos imigratórios indesejados pela população local. Vivemos num mundo em que dinheiro e mercadorias circulam com ampla liberdade, mas seres humanos não.

É uma época – já houve outras na história – em que o sentimento anti imigrante se prolifera de vento em popa. Diversos foram os governantes recentemente fortalecidos pelo voto ou mesmo eleitos que encampam essa demanda que está em alta nos tempos atuais.

Que os muros tenham proliferado após um atentado terrorista é um sinal claro de que o sentimento despertado pelo estrangeiro é o de medo. Daí a perfeição do nome desse espírito de época a que assistimos diariamente nas notícias e rodas de conversa: xenofobia.

Desde a designação maniqueísta de um eixo do mal, as populações dos países ocidentais mais prósperos sentem-se ameaçadas em sua estabilidade e privilégios com o influxo deste outro que não se conhece muito bem. Em um mundo profundamente desigual, o sentimento humanitário e a consciência de corresponsabilidade histórica pela miséria dos países de onde partem os imigrantes e refugiados estão, infelizmente, fora de moda.

O medo desperta os piores conceitos nos corações das pessoas. E empobrece a experiência de ser humano, que poderia ser tão mais rica se nos mantivéssemos abertos a compreender aqueles que são diferentes de nós. Ao contrário do que a narrativa do medo quer sugerir, a presença do outro tem muito a somar, a engrandecer nossa bagagem subjetiva, tornando-nos mais maduros, mais maleáveis e menos arrogantes.

É claro que a abertura para o outro requer um certo despojamento de nossas certezas cristalizadas e por isso, desperta talvez um sentimento de vulnerabilidade. Mas fechar-se para aprender com o outro é como deixar de ir até a praia e preferir olhar o mar pela TV por conta do medo de que se for atravessar a rua vai ser atropelado. Ou seja: o medo do encontro com o estrangeiro impede o acesso à riqueza que é a diversidade da experiência humana. Quando escolhemos nos alimentarmos apenas do igual e do familiar, ficamos mais pobres. Se procurarmos viver o encontro com o diferente e aprender com ele, crescemos.

Por isso, nesse tempo em que o sentimento humanitário de irmandade entre povos e grupos mingua a olhos vistos, gostaria de desejar que as pessoas voltassem a dar um voto de confiança no desconhecido. Que erguessem menos muros, físicos e psicológicos, dizendo mais SIM para pessoas diferentes e para novas experiências. Que escolhessem mais se conectar de forma aberta e real com pessoas diversas, ao invés de segregá-las por similaridades forjadas.

Vejo um mundo tão mais rico e pacífico dessa forma…

E não custa lembrar que desde um ponto de vista (bem) mais alto do que o comumente adotado nos embates políticos e filosóficos de todos os tempos, as diferenças baseada em credo, cor, sexo, geografia, espécie ou qualquer outro parâmetro humano, são a mais pura ilusão:

“Na forma de mitos, todas as religiões revelam de alguma forma a origem divina da humanidade. Em algum ponto da história, no entanto, a convicção de que certas raças ou categorias de pessoas eram inferiores encontrou uma forma de adentrar algumas destas religiões, e elas começaram a excluir ou oprimir tais grupos. Jesus foi muito excepcional porque veio para proclamar que qualquer que seja a sua raça, cultura ou status social, todos os seres humanos são essencialmente iguais perante Deus. As diferenças que eles manifestam são apenas superficiais e passageiras: suas qualidades físicas, intelectuais, morais e espirituais, os eventos de suas vidas, tudo o que, de uma forma ou de outra, faz com que alguns pareçam privilegiados e outros não, representa apenas um momento na sua evolução. Seres humanos são irmãos e irmãs por meio da vida que compartilham, por meio da vida divina que flui neles. Esta vida divina torna-os irmãos e irmãs de toda a criação também.”
(Omraam M. Aïvanhov, Meditação Diária de 10/11/2005)

Peter Deunov – A Lei do Amor

Peter Deunov (também conhecido por seu nome iniciático Beinsa Douno), foi um mestre espiritual que viveu entre os anos de 1864 e 1944 na Bulgária, onde liderou estudos e práticas espirituais inspirados principalmente na filosofia do Cristianismo Esotérico.

O extrato a seguir foi retirado do livro The Wellspring of Good – The last words of the Master, disponível em Inglês para download neste link . Tradução para o Português por Samantha Sabel.

A Lei do Amor

[Introdução do editor]: Independentemente das muitas conquistas que foram realizadas por pessoas hoje nas áreas da ciência, artes, tecnologia, bem-estar social e distribuição de recursos econômicos – uma coisa ainda está faltando: o Amor. Somente através do Amor podem todas essas realizações serem benéficas, de grande valor para todos. Somente através do Amor podem ser usadas de tal maneira que tenham significado. Se as pessoas não abraçarem o Amor, perderão tudo e experimentarão a ruína.

O Mestre pregou sobre o Amor como o caminho da salvação para toda a humanidade. Ele revelou suas manifestações, qualidades, ações e Leis, bem como a riqueza infinita do mundo perfeito do qual este Amor veio. Ele testemunhou este mundo com sua vida, seu ensinamento, e todas as suas ações.

O Mestre sempre tinha algo de novo a dizer sobre o Amor. Um dia, ele nos disse:

“No momento em que alcançarmos o Amor, seremos um com Deus. Quando falo sobre o Amor, você precisa entender isso. Estou falando do único jeito de conhecer Deus. Se não viermos a conhecer Deus, ele não poderá nos dar o seu Conhecimento.

A Lei afirma: quando você falar sobre Amor, fale com a sua voz mais suave. Fale tão suavemente que você mal consiga ser ouvido. E fale suavemente sobre a Luz e a Sabedoria também. Fale tão suavemente quanto o amanhecer.

As Virtudes Divinas têm sua fragrância. Se a Justiça entrar em seu coração, a Verdade em sua mente e a Sacralidade em seu poder, você vai emitir uma fragrância interior mais agradável do que a das flores. Essa fragrância interior, esse sublime aroma, é chamado de ‘nyuks’. Não há néctar melhor do que este criado pela natureza. Os alquimistas procuraram esse elemento há séculos. Quando você descobri-lo, você será uma pessoa feliz, e sua alegria será além das palavras. O Amor é o principal componente neste néctar. Por exemplo, você sabe quem te ama, mesmo quando essa pessoa não pronunciou uma palavra. O Amor tem uma fragrância forte como a do cravo; você pode sentir de longe.

Existe uma Lei na Vida, a Lei da Diversidade, pela qual todos podem manifestar o Amor segundo a sua compreensão, e eles nunca farão o que é errado. Portanto, não é necessário ensinar as pessoas a amar.

Outra característica única do Amor é que você não pode expressar Amor da mesma maneira para todos. Seu Amor para cada pessoa é única. Porque cada pessoa é uma manifestação única de Deus, cada um manifesta seu Amor de uma maneira específica. Você pode sentir essa distinção sutil. O seu Amor tem uma qualidade única e intrínseca que nenhuma outra pessoa possui. É isso que torna cada pessoa única.

O Amor primeiro se manifesta para Deus – para o Sublime – então para os fracos, necessitados, abandonados e, finalmente, seres afins. Esta última manifestação de Amor é chamada de ‘Amor de seres semelhantes’. Neste Amor existe uma troca entre as almas. Este é o Amor em seu estado de ascensão, através do qual as almas são capazes de evoluir e a consciência é capaz de se expandir.

Se uma pessoa boa mas de caráter fraco se enamorar por alguém que está na escuridão, a pessoa boa começará a errar e a assumir as falhas do outro. No entanto, se uma pessoa boa experimenta o Amor Divino, isso não acontecerá.

Para habitar na presença do Amor, deve-se tomar o caminho da ascensão; isto é, deve-se entrar em união com o Mundo Invisível e com Deus. Uma boa pessoa é aquela que está unida com aqueles que são poderosos, com aqueles que vêm do Alto. Se não estiver, tirarão vantagens dela pelo fato de ser boa. E no entanto, quando você está unido com aqueles que são poderosos – com o Divino – toda a sua riqueza será depositada no Banco Divino e você se tornará protegido.

Existe uma Lei que afirma: quando duas pessoas se gostam ou se desprezam mutuamente, receberão uma da outra os traços de caráter mais positivos e virtuosos no início, e depois isso, os traços de caráter mais negativos e imorais. Isto é uma Lei inextricável. Independentemente de você gostar ou desprezar uma pessoa, você começará a se comportar como ela. Você pergunta: ‘O que posso fazer para me libertar desta Lei?’ Você não pode se libertar desta lei. Mas você pode amar o Divino dentro de cada ser humano. Portanto, ame a Deus dentro de quem Ele mesmo se manifesta, para que você possa começar a amar como Ele faz. Por esta razão, Comece a amar o Divino em todos os seres.

Outra Lei do Amor afirma: quando você ama outro, você recebe a metade do seu estado bom ou ruim. Se ele se tornar empobrecido, você também se tornará pobre; se ele se tornar rico, você adquirirá metade de sua riqueza.

Outra Lei afirma: Mesmo que todos o desprezem, haverá sempre quem te ama. Quando todos começam a amá-lo, sempre haverá pelo menos um que não o ama. Isto não pode ser evitado. Esta Lei baseia-se no nosso nível atual de desenvolvimento.

Você conhece uma pessoa que parece amar você. Por que ele te ama? Houve um tempo em que você quis que ele te amasse e agora, ele ama você. Incompreensíveis são os caminhos de Deus.

Uma Lei é afirmada da seguinte maneira: quando você percebe a coisa mais sublime dentro de alguém, essa pessoa se sentirá atraída por você.

Outra Lei do Amor afirma: aquele que permanece no Amor terá o poder de atrair outros para si mesmo. Se ele passar por uma pessoa, isso é suficiente para ser seguido. No entanto, a pessoa que permanece no Amor só será reconhecida por aqueles cuja consciência foi despertada. Mas, para aqueles que não foram despertados, ele é considerado uma pessoa comum. Aquele que permanece no Amor pode ser comparado a uma flor em florescência que atrai as abelhas. Por que todos são atraídos por esta flor? É porque há algo que podem receber dela. Isto é o que representa o Amor, a vida ideal. Se a Lei do Amor nos fosse transmitida, teríamos o poder de atrair os outros. Uma das suas atribuições é receber de Deus e transmitir a outros o que foi recebido. Quando você ama alguém, é porque outras pessoas te amam, e com esse Amor você o ama. Esta é a Lei da Unicidade do Amor.

Quando eu digo que amo alguém, é porque eu sei que este Amor já chegou à realização. Poderia ter chegado à realização no plano físico, no plano espiritual ou no mundo divino.”

Um irmão perguntou: ‘Como o Amor é capaz de se contaminar?’ O Mestre respondeu:

“Todos os pensamentos que alcançam você se tornam seu ambiente pessoal. Quando o Amor entra neste ambiente, ele absorve a influência dos seus pensamentos negativos e dessa maneira se torna contaminado.

Uma Lei do Amor reina suprema: aquele que te ama se alegra com a menor coisa que você oferece. Aquele que te ama pode te dar uma pequena semente, e você deve se alegrar com ela pois algo grande será gerado. Apenas o Amor é capaz de criar algo excelente da menor das coisas. Sempre que uma pessoa habita fora do Amor, as coisas mais grandiosas irão diminuir. E, no entanto, quando uma pessoa reside no Amor, a menor das coisas crescerá.

Todos nós precisamos testar essas coisas.”

Beinsa Douno (Peter Deunov)

Rosa vermelha sob a luz da aurora.

Moana, um conto solar

Uma das vantagens de ser mãe de criança pequena é o contato com produções artísticas e culturais de qualidade voltadas para esse público. Produções que de outro modo talvez não priorizaríamos prestigiar, achando, desde nosso lugar de adultos, tratar-se apenas de mais um ‘desenho infantil’.

Quero escrever então uma recomendação para que todos que gostam de se sentir elevados e inspirados assistam a uma animação que vi junto com minha filha há algumas semanas. Os sentimentos positivos trazidos pela produção Moana (2017), dos estúdios Disney, continuam reverberando toda vez que paro para lembrar dessa alegre estória.

Moana conta a saga a de uma menina que cresce em uma ilha do Oceano Pacífico, designada a ocupar por direito de nascimento o posto de chefe da sua tribo. Mas Moana vive um dilema de alma: parte dela ama a vida que está destinada a ter na sua ilha natal, enquanto outra parte, a intuição do seu coração, chama-a para se aventurar em mares desconhecidos. Moana tem uma relação especial com o mar e a navegação; o horizonte misterioso exerce sobre si uma tração irresistível que de início parece estar em contradição com o papel tradicional que precisa ocupar na sua tribo.

Ao longo da estória a moça vai descobrindo, com o auxílio de sua sábia avó xamã, o significado deste seu chamado intuitivo. Entregando-se para uma aventura cheia de magia e espiritualidade, Moana descobre uma forma de reconciliar o seu profundo dilema cumprindo o seu papel de forma surpreendente, resgatando a esperança do seu povo unindo ao mesmo tempo coragem inovadora e tradições há muito esquecidas.

A trama de Moana é sensivelmente inserida em uma simbologia antiga, xamânica e solar, e certamente foi escrita por alguém que não passa ao largo desse tipo de tema. É uma producao de qualidade rara, cheia de beleza sutil e simbologia espiritual, capaz de deixar qualquer adulto encantado, mais talvez do que as próprias crianças.

E para terminar, deixo os links da música tema da menina Moana no original em Inglês e na versão em Português.

O saudável exercício de sair de si mesmo

Tenho visto cada vez mais circular na literatura popular, acadêmica e espiritualista a ideia da importância de se ter uma atividade imbuída de propósito. A experiência do propósito já é amplamente reconhecida como uma força que combate a ansiedade, os estados depressivos e o vazio existencial.

Faz sentido pensar que uma vida voltada apenas para si está fadada a cair num vazio, pois inevitavelmente chegará o momento em que a pessoa ensimesmada constatará a irrealidade do próprio ego. Se assentamos nossa base existencial no engodo de nossas frustrações e quereres fugazes, mais cedo ou mais tarde teremos de reconhecer que havia na vida muito mais do que nossas preocupações e percepções egoístas. A desconexão que construímos ao nos relacionarmos com os outros enquanto egos separados e demandantes é receita certa para o sofrimento.

De minha parte, tenho feito um exercício de observar meus próprios estados mentais e emocionais antes, durante e logo após os momentos em que trabalho como terapeuta. Oferecer terapia é um trabalho que envolve mergulhar no universo psíquico das pessoas que vêm até mim e procurar, junto com elas, as luzes, saídas e alívios adequados às dores e contextos que cada uma vive.

Por ora, não são muitos os pacientes que encampo ao mesmo tempo para um trabalho mais profundo e prolongado. Já que o contexto pede e possibilita, prefiro trabalhar com poucas situações e assim conseguir me dedicar com maior qualidade a elas. Na prática, concentro as poucas vagas que ofereço num determinado dia da semana. Como cada atendimento envolve trabalho antes, durante e depois da sessão, acabo preenchendo ao menos dois dias da semana com essa atividade. São dois dias em que claramente percebo o quão menos ensimesmada consigo ficar.

Essa história de que ao ajudar os outros estamos em primeiro lugar ajudando a nós mesmos é muito real em minha experiência. Eu sinto isso todas as vezes em que atendo, escrevo, ou me entrego a uma atividade de forma espontânea e inteira, por exemplo sendo mãe para a minha pequena de quatro anos.

Estar inteiro em uma situação que nos transcende é uma boa oportunidade que a consciência tem de reorganizar os cacos mentais e emocionais que sobram todas as vezes em que passamos períodos prolongados pensando sobre nós mesmos sem realizar nada pelos outros, encastelados em nossas próprias certezas, memórias, planos e devaneios. A ação construtiva em benefício alheio tem um grande poder de organizar e curar a alma de quem a realiza.

Nos momentos em que eu tinha essa convicção apenas como afirmação teórica, chegava a duvidar de que fosse realmente assim. Agora, constatando na prática o salutar efeito de sair de mim mesma com mais regularidade, sei por experiência que pensar menos em mim e realizar algo por outros é uma experiência que equilibra a própria alma. Alguma mágica acontece que nos faz sair da experiência melhorados, mais contentes, otimistas e apaziguados. E a esse contentamento se segue a responsabilidade de retornar a nós mesmos com a clara consciência de que a vida é muito maior do que os dramas que nosso ego tanto valorizava quando se imaginava sozinho.

Perceber que para além de um ego somos consciências cuja experiência se conecta com a do próximo, e que com o próximo podemos aprender muito sobre nós mesmos, tem sido o maior benefício de sair um pouco mais frequentemente de mim. Quanto mais saídas desse tipo realizo, mais incapaz meu ego fica de sustentar sua ilusão predileta, a de que tudo que lhe acontece ou deixa de acontecer tem suma importância na cadência do universo.

Bom seria se fôssemos capazes de manter essa saudável percepção ao longo de toda nossa vida. Se pudéssemos afirmar, de coração leve, que em nossa passagem por aqui aprendemos a realizar mais e a exigir menos.

Enquanto isso, seguimos tentando aprender a sutil mas essencial diferença entre estar centrado e estar ensimesmado.

Ser feliz é simples

Ser feliz é simples. Nós é que muitas vezes resistimos a essa simplicidade. Gostamos de nos acreditar complexos e indecifráveis, de nos sentir únicos e especiais. E, embora isto seja verdadeiro no que tange aos caminhos pessoais de manifestação, somos também, em nossa essência, irmanados por uma unicidade simples.

O um é simples. A luz, origem de tudo, também. A conexão integral com o espírito se dá primordialmente pelas atividades mais simples. Os bens que preenchem e alegram a alma são singelos e imateriais.

A liberdade serena. O trabalho inspirado. A amizade. A paz. A compreensão. O amor. A consciência. Nossa passagem na Terra serve para aprendermos a caminhar com a chama destes valores sempre animando o nosso viver. Quando afastamo-nos deles, sofremos e fazemos sofrer. Adoecemos, e adormecemos…

Os caminhos da evolução do espírito estão abertos, e os seus mapas apontam para a simplicidade. Que não nos faltem lucidez e tenacidade para trilhá-los. E que a leveza de tudo que é bom, justo e simples nos ajude hoje a plantar as sementes de um belo amanhã.

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Impermanência da matéria, Eternidade do espírito

Semana em pleno andamento, preocupações pé no chão a todo vapor. Trabalhar, ganhar o pão que se come, cuidar de onde mora, do corpo, das crianças, dos pais, dos bichinhos. Arrastar o corpo pra lá, arrastar o corpo pra cá, resolver coisas. Acompanhar as notícias, se engajar com questões políticas e sociais contemporâneas, se preocupar, se emocionar, lembrar e sonhar… tudo dentro do escopo dessa nossa existência limitada, não é mesmo?

Girar junto com essa roda é inevitável e faz parte do caminhar na Terra. Mas é bom, muito bom, fazê-la parar mentalmente com alguma frequência e colocar as coisas na sua devida perspectiva.

Olhar para as estrelas é um exercício clássico nesse sentido. Mas tem um outro que também me fascina: pensar na longa história geológica da Terra e em como civilizações tão complexas e fervilhantes quanto a nossa atual transformaram-se, do ponto de vista físico, em simples camadas geológicas sobrepostas uma à outra, por ordem de antiguidade material.

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Sim, tudo o que se vê com os olhos físicos, tudo que tocamos com as mãos físicas, os cheiros que sentimos, todos os corpos que conhecemos, todas essas coisas às quais damos tanta importância no dia a dia: um dia tudo isso perece e desaparece, transformando-se radicalmente ao ser reabsorvido pelos elementos da Mãe Terra.

As camadas geocronológicas da Terra revelam a história Dela, que é também a história dos nossos corpos e objetos físicos, e mostram como todos eles retornam, um dia, ao seio da Mãe.

O que fica é apenas o que se sente, o que se pensa, o que se É. O que sobrevive, o que deixa marcas eternas, é tudo aquilo que é do Espírito. Ele, que eternamente se recasa com a Natureza, para formar novos corpos e novas civilizações, no anseio de aperfeiçoar cada vez mais a sua manifestação. E nós somos parte dessa história, desta saga espiritual de auto superação.

Que saibamos, então, exercitar a suspensão dos véus opacos da matéria, fazendo nossas escolhas, agindo e caminhando sempre conscientes da eternidade de nosso espírito.

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Gratidão aos ensinamentos diamantinos do Buddha.

Uma prece ao Todo que está em Tudo

(Versão da oração “Pai-Nosso” inspirada nos ensinamentos de Omraam Mikhaël Aïvanhov)

Ó Criador do Cosmos, Todo que está em tudo,

Que nossas mentes sejam iluminadas para bendizer o Teu nome.

Que Teu Amor se ancore para sempre em nossos corações.

Que nossas pequenas vontades curvem-se perante os desígnios do Céu. Que sejamos veículos do Teu reino de harmonia!

Nutre-nos hoje e sempre com o alimento para o corpo e para a alma. Banha nosso espírito com o elixir da Vida eterna.

Liberta-nos de nossa ignorância na medida em que soubermos libertar quem nos feriu.

Ajuda-nos a crescer com cada prova no caminho.

Guia-nos e fortalece-nos eternamente nos auspícios da Luz.

Amém.

The Christ

O ponto no centro do círculo

Aqui e agora, de olhos fechados, sente o teu centro, a consciência que realmente és.

Percebe: todos os eventos e pessoas em tua vida são como sonhos. Uns mais distantes, outros mais próximos; a alguns te afeiçoas mais, a outros, menos. Mas todos são parte de um grande sonho: o sonho de Deus.

Tu, o Ser real, és partícula dessa criação. Vês o sol, fonte de luz? És centelha deste mesmo sol. És idêntico a ele.

Tu, consciência, és o ponto central ao redor do qual giram os elementos periféricos de tua existência.

Fica nesse ponto o tanto quanto possível. Sê esse ponto. Pensa, sente e age desde ele.

Aprecia e agradece a experiência que te traz a periferia da existência, mas não te identifiques com ela.

Sonha com alegria e ama, mas lembra sempre: és o Ser que, para além de todo sonho, está acordado.

Tu és o ponto brilhante no centro do círculo do teu viver.

Krishna star

Equilibrando as polaridades

Sombra e luz, animal e divino, raso e profundo, falso e veraz. Todo traço de caráter humano pode pender para o seu pólo negativo ou positivo. O bem e o mal habitam em nós, e cabe a cada um vigiar o próprio caminhar para saber se está melhorando e evoluindo como pessoa ou se está, ao contrário, rebaixando a sua condição e prejudicando os outros.

É importante compreender isto porque uma das armadilhas mais comuns em que se pode cair é orgulhar-se de algo que constitui um defeito, como se ele fosse grande vantagem evolutiva. Facilmente afeiçoamo-nos a um traço negativo de nosso caráter e recusamo-nos a reconhecê-lo como derrogatório, por puro apego a uma determinada auto imagem que já não corresponde ao que a vida e o futuro nos conclamam a ser.

Além disso, possuímos uma tendência natural a sermos indulgentes com os próprios defeitos e intransigentes com os dos outros. Tudo o que somos ou fazemos de errado perante os tribunais da consciência é, para nós, prontamente justificável, enquanto que o menor deslize do outro é logo tido como carta-branca para trucidá-lo.

Permanecer inerte nos estados negativos aos quais se está apegado pode prorrogar desnecessariamente a evolução pessoal. Sempre chegará o momento em que o equilíbrio da polaridade deverá ser acertado. Isso pode acontecer através da livre decisão de mudar – que é indolor ou envolve a dor do ego apenas -, ou através de aflições aparentemente externas, mas que no fundo foram co-criadas pela consciência individual e pelo processo evolutivo ao qual ela está inexoravelmente submetida.

O estado ideal de equilíbrio pessoal é aquele em que nossos traços negativos não são exatamente aniquilados, o que é impossível na atual condição humana, mas sim forçados a se manifestar na sua polaridade positiva. A esse processo chamamos alquimia espiritual.

Ela só pode ser conseguida a partir do poder de vontade de cada um. Havendo a determinação íntima de melhorar a qualidade dos nossos pensamentos, sentimentos e ações, temos à disposição um sem número de técnicas e ferramentas para nos ajudar na empreitada. Devemos perceber com quais abordagens sentimos maior ressonância e investir nelas como instrumentos úteis na jornada de auto conhecimento.

Um dos sistemas que tem rendido bons resultados em minha jornada pessoal é o dos Florais de Bach. Tenho estudado-os e usado-os de forma mais atenta há cerca de três anos, e venho testemunhando consistentemente seus sutis mas notáveis efeitos equilibradores.

Utilizando os florais tenho percebido o quanto podemos estar inadvertidamente apegados a certos traços negativos da personalidade e relutando em querer transmutá-los, mesmo quando claramente causam sofrimento indevido a nós ou aos outros. Esse apego pode ser causado por orgulho (distorção auto defensiva), medo de deixar de ser quem somos (medo das boas transformações) ou algum outro tipo de ponto cego consciencial.

Detectar a poeira acumulada nos esconderijos da alma é uma tarefa bastante difícil, e por isso os instrumentos de auto ajuda que sentimos repercutir bem em nós devem ser usados com determinação, entrega e seriedade. É a nossa própria evolução que está em jogo. Nosso ego imporá toda sorte de resistências, mas por fim, atravessar a ponte em direção a versões melhores de nós mesmos é necessário.

O Dr. Bach, médico Inglês que descobriu as essências florais na década de 1930, escreveu que há dois tipos básicos de erro humano causadores de desequilíbrio, sofrimento e doenças do corpo e da alma. O primeiro é agir em discordância dos ditames de nosso eu superior – nosso lado luminoso, signatário da paz e do amor divinos. O segundo é cometer crimes contra a Unidade de todas as coisas.

Os dois tipos de erro são parâmetros úteis para avaliarmos se um determinado traço de caráter nosso se encontra na polaridade negativa – ocasião em que gera desequilíbrio pessoal ou dano a outro – ou se está se manifestando na sua polaridade positiva, quando harmoniza tanto o nosso próprio ser quanto o nosso entorno.

O processo de melhorar a si envolve necessariamente uma “operação pente fino” no caráter e nas emoções. Nela, volta e meia iremos nos deparar com pontos nevrálgicos do eu inferior, e nesse momento a presença de uma ajuda qualificada e de uma vontade corajosa podem fazer toda a diferença na sustentabilidade das transformações positivas. Tocar um ponto nevrálgico do eu inferior é como tentar domar um touro à unha, e muitos serão os convites internos e externos a deixar de lado tal esforço.

A equilibração pessoal deve ser um esforço contínuo, pois a vida é dinâmica. Superada uma fraqueza, outra surgirá à frente por força das novas circunstâncias, ou porque o traço negativo então superado era apenas uma camada recobrindo outra mais profunda.

O caminho evolutivo é longo, mas sua infinitude não deve desanimar ninguém, pois a cada passo dado à frente a vida se torna um pouco mais harmônica, leve e gostosa de se viver.

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Nascer para o novo é morrer para o velho.

Palavras são toques na alma

Algumas passagens da infância marcam a nossa memória sem que saibamos exatamente o por quê.

Entre as minhas está um momento vivido em torno dos dez anos de idade, época em que estudava com gosto a bíblia e os ensinamentos cristãos, que permearam minha formação de base num colégio franciscano do interior de Santa Catarina.

Eu estava sentada no banco da igreja católica ouvindo, como de praxe semanal, a explicação do padre sobre o evangelho lido naquele dia, que incluía o seguinte trecho dos provérbios (12:18):

“Há alguns que falam como que espada penetrante, mas a língua dos sábios é saúde.”

Ainda posso me ver sentada no banco comprido de mogno, com a roupinha comportada e o cabelo domado por uma tiara, bem atenta àquelas palavras que se gravavam na alma como um insight mágico. ‘Sim’, pensei, ‘isso é tão verdadeiro! Como seria bom se todos tivessem consciência disso…’

Tantos anos mais tarde, afastada da igreja desde os catorze ou quinze, a metáfora da língua como espada ou como saúde permanece gravada profundamente no meu coração. É, sem dúvida, uma das verdades espirituais que mais amo – o que, claro, não quer dizer que nunca tenha vacilado quanto à sua consecução.

A luz deste provérbio está sempre no background da minha consciência, e por isso uma das coisas que mais me entristecem é cometer – ou ver cometida – a violência através das palavras ou das intenções.

Sim, as intenções, os sentimentos que animam o dizer, são o que de fato valem, pois o fel do destempero de alguém transparece muito claramente mesmo quando profere as mais belas e corretas palavras.

O mais cristalino discernimento será maculado se não for comunicado desde as águas serenas do coração. A palavra nunca cura quando é movida por intenção ácida ou ferina.

A palavra-saúde é aquela que nasce de intenção tão doce quanto a da mãe que se dirige à criança amada. É qualidade de natureza feminina, mas que precisa ser ativamente desenvolvida por todos, homens e mulheres, na alquimia pessoal de se tornar alguém melhor.

Palavras são toques na alma. É sempre bom lembrar que almas são partículas de Deus extremamente sensíveis às durezas e às delicadezas de trato, e que os efeitos de nossas intenções e palavras são de nossa inteira responsabilidade.

Nesses tempos de comunicação tão banalizada e inconsequente, penso no quão valoroso seria se sacralizássemos um pouco mais as intenções e os conteúdos que propagamos no mundo.

Certamente viveríamos em um ambiente mental menos ruidoso, menos conflitivo e menos doloroso, ao passo em que poderíamos continuar afinando, de forma mais harmoniosa, nossas aparentes diferenças.

Pink rose reflection