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Uma campanha pela saúde mental

O Reino Unido tem visto nos últimos anos uma forte campanha de sensibilização pública quanto à questão da saúde mental, mais especificamente, um combate ao estigma da loucura. A mensagem básica é que pessoas com problemas psiquiátricos são pessoas como eu e você, apenas vulnerabilizadas por alguma circunstância; que a doença mental pode acontecer a qualquer pessoa e que o preconceito tem efeitos muito nocivos sobre quem já está sofrendo.

A campanha é um esforço conjunto de ONGs da área de saúde mental, e atua em áreas como monitoramento da representação da loucura na mídia, campanhas educativas, entrevistas com pessoas que sofrem de doenças mentais e lobby parlamentar para a causa.

Trabalhei nos anos de 2008 e 2009 para uma destas ONGs e participei do nascimento da campanha, que começou pequenininha, e que hoje tomou proporções importantes. 5 anos depois, percebo a diferença prática que tem feito. Recentemente a rede gigante de supermercados Asda foi forçada pela opinião pública a retirar de venda uma fantasia de “paciente mental” que estava à venda para os festejos de Helloween.

A empresa recebeu vários tweets e cartas manifestando o quanto a associação do sofrimento mental com uma figura de horror era lastimável, e pedindo um retratamento público. A questão foi parar na BBC e a empresa não demorou a se pronunciar, pedindo profundas desculpas pelo lapso, anunciando que retirou imediatamente a fantasia de circulação e que doará uma quantia significativa para uma das principais ONGs que integram a campanha.

É o tipo de resposta institucional que se espera de uma corporação que queira se manter respeitável perante um público exigente. E é o tipo de atitude pública que pode ser desenvolvida com campanhas educativas persistentes e bem executadas.

campanha saúde mental

Gravidez e parto no NHS

Pausa na vida para a experiência de ser mãe. Minha filha completa essa semana um mês de vida fora do útero, e somente agora começo a conseguir parar por alguns minutos pra colocar em palavras o turbilhão de experiências pelas quais passamos nos últimos meses. Quero relatar em especial minha experiência de ser acompanhada durante a gravidez e parto pelo NHS, o serviço público de saúde do Reino Unido.

Nota: esse post foi escrito de pedaço em pedaço, ao longo de dias, ao contrário dos anteriores que costumavam vir de uma vez só. E também não vai ser adequadamente revisado, então perdão antecipado pelos erros de Português e digitação que o leitor encontrar pelo caminho. É que agora entre uma frase e outra acontecem as mil e uma demandas de um bebê recém nascido, conjugadas com as demandas do meu próprio corpo – comer, ir ao banheiro, tomar banho, escovar dentes, dormir. Tem também as coisas da casa, do dia a dia – mas essas ficaram bem para trás na lista de prioridades. Não é mais possível engatar uma tarefa contínua que dure mais que 15 minutos (isso quando dou sorte!), e a dose de perfeccionismo em tudo que faço precisou cair drasticamente.

Bem, vamos ao relato.

Tive uma gravidez super tranquila e saudável, acompanhada integralmente pelo NHS, do qual não tive, até o momento do parto, razões para reclamar. Pelo contrário, havia várias coisas positivas no atendimento pré natal daqui: acompanhamento sério, consultas e exames efetuados dentro da agenda programada, sem atrasos, em bom nível de detalhamento. Muitos cursos gratuitos e material educativo de alta qualidade, disponibilizado em papel, internet e grupos de apoio. Um ponto negativo foi a falta de continuidade dos profissionais, a cada consulta praticamente era um diferente que me atendia, mas como o prontuário (que a mãe carrega consigo) é bem detalhado, cada novo profissional conseguia sem maiores dificuldades continuar o trabalho do outro. No geral, o padrão foi excelente, especialmente considerando que é um serviço público.

O parto, infelizmente, foi uma história diferente. Os últimos anos têm visto um baby boom aqui nesse país, e isto, junto com uma atual carência de profissionais de obstetrícia (serviço aqui liderado pelas midwives, ou obstetrizes, que têm formação superior em enfermagem obstetrícia), gerou um quadro de hospitais sobrecarregados e equipes desgastadas pela demanda excessiva de trabalho. O resultado é que as midwives (não todas, claro, mas muitas) acabam se dessensibilizando, perdendo um pouco de vista a importância do cuidado humanizado para com as futuras mães e seus parceiros nessa hora crucial, que normalmente envolve extrema dor e bastante ansiedade.

Como minha gestação se prolongava além do esperado (estava com quase 42 semanas completas), fui encaminhada para uma indução de parto natural, que é o procedimento padrão do NHS nesses casos. Tudo corria dentro do esperado e tanto eu quanto a bebê vínhamos reagindo bem à indução, mas a falta de sensibilidade das midwives que me atendiam na fase crítica do parto e a demora em conseguir liberação para transferência à ala de parto acabaram prolongando demais o meu “labour” (palavra em inglês para parto, um verdadeiro labor!), abrindo margem para complicação do meu quadro e gerando a necessidade de uma cesareana de emergência 48 horas depois de ter iniciado a indução.

Eu gostaria de ter tido um parto natural, e cheguei muito perto de conseguir. Não foi o fato de ter feito cesareana que me chateou – na verdade, àquela altura a operação veio como um alívio de toda a situação – mas sim a certeza de que ela acabou sendo necessária por causa de uma certa negligência da equipe que me atendia. Ainda estou para organizar uma reclamação formal do ocorrido, e nesse ponto, teço mais um elogio ao NHS, pois o serviço de reclamação é muito bem organizado: uma profissional da ouvidoria do hospital virá até minha casa na semana que vem para ouvir meu relato e saber os motivos de eu não ter aprovado o atendimento que recebi no hospital.

Todo o follow-up pós natal oferecido pelo NHS também merece elogios. Um ou dois dias depois de receber alta hospitalar, as midwives comunitárias começam uma série de visitas domiciliares para checar a recuperação das mães e a saúde dos bebês, e também para sanar quaisquer dúvidas das famílias. Elas andam pelo bairro carregando todo o equipamento – medidor de pressão, termômetro, balança para pesar os babys, injeções, instrumentos, etc. – e realizam essas visitas, que só se encerram quando elas avaliam que a mãe e o bebê estão em boas condições. Depois de liberados pelas midwives comunitárias, a mãe e o bebê ficam sob os cuidados do health visitor, um profissional de enfermagem com um ano de especialização em maternidade e primeira infância. Esse profissional avaliará periodicamente a criança até que complete 5 anos de idade, momento a partir do qual o responsável passa a ser a enfermeira da escola.

A experiência do parto me abalou bastante emocionalmente. Aos poucos, porém, tenho conseguido organizar em palavras o que antes vinha apenas em lágrimas. Estou deixando o sentimento de chateação para trás e focando mais na relação com minha linda bebê. Ela é uma criança muito amável, esperta, e outros tantos adjetivos bons que não vou reproduzir aqui para não pesar a mão naquela “corujice” que assola todas as mães.

No fim, como muitas amigas diziam, por mais que o parto não tenha sido como se queria – e raramente ele é – tudo o que vem depois significa e marca muito mais, apagando com amor qualquer memória negativa que possa ter restado.

Atualização: Um mês após o parto e algumas visitas domiciliares das midwives comunitárias depois, recebi em casa uma midwife senior, uma senhora que após dedicar a vida à profissão agora é aposentada e empregada pelo hospital como consultora da maternidade. O trabalho dela é identificar as deficiências no sistema e dar o feedback ao hospital. Ela ficou cerca de duas horas conversando comigo e anotando tudo o que eu dizia. Demonstrou conhecer todos os detalhes do meu histórico – inclusive coisas que nem eu lembrava mais – e tomou nota de todos os nomes que eu mencionei, demonstrando saber de quem se tratava. Colocou-se ao meu lado nas reclamações, e disse que iria conversar com os supervisores das pessoas mencionadas para traçar um plano personalizado de melhoria profissional para elas. Para algumas, não era a primeira vez que ela recebia reclamações.

A senhora, uma enfermeira emigrada há muitos anos da Guiana, era extremamente simpática e afável, e pareceu levar bastante a sério todos os meus comentários. Disse que daqui a um mês, quando retornasse de suas férias e tivesse feito os primeiros encaminhamentos, me mandaria um e-mail ou faria um telefonema para me atualizar quanto às providências que foram tomadas. Acredito que de alguma forma a mensagem chegará onde precisa chegar, e isso me deixa mais tranquila para poder virar de vez a página das coisas que não saíram conforme eu esperava. Novamente, e pra fechar a experiência, ponto para o NHS.

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Os barbeiros Afegãos

Nesse domingo de Páscoa saímos para uma caminhada pelo nosso novo bairro, de maioria imigrante – predominando indianos Gujaratis. Os negócios não-cristãos estavam todos abertos, incluindo um barbeiro em que o Leo decidiu entrar pra cortar o cabelo.

A placa na porta sinalizava com clareza que era um lugar para cortar cabelos de homens. No ambiente, bem masculino e aparentemente muçulmano, me sentei quieta num cantinho pra esperar. Pensei que a presença de uma mulher no ambiente podia ser meio estranha para aqueles 4 funcionários jovens, que em nenhum momento me dirigiram um olhar ou palavra. Estava quente ali dentro, mas mantive meu chapéu cobrindo o cabelo, não tirei casaco nem luva, só pra garantir. Observei discretamente a rotina do lugar.

Dois dos funcionários atendiam clientes enquanto conversavam entre si numa língua desconhecida. Perguntado pelo Leo, um deles respondeu que eram todos do Afeganistão. Por entre uma cortina de plástico dava pra ver o terceiro, usando, numa parte interna do salão, uma pia para esfregar seus pés, mãos, rosto e dentes. Não parecia estar sujo, mas esfregava essas partes vigorosamente, como se estivesse se lavando após caminhar na lama. Ficou fazendo isso por uns dez minutos.

Enquanto isso, em outro canto, o quarto rapaz estendia um pequeno tapete com motivos árabes e uma mesquita dourada bordados. O tapete foi estendido na diagonal, de frente para uma parede, ao lado de uma das cadeiras de corte. Tirou os sapatos, vestiu um casaco, cobriu a cabeça com o capuz e começou uma sequência de ficar de pé, se ajoelhar, tocar o tapete com a testa e beijar o tapete. Alternava essas posições enquanto murmurava preces, e assim fez durante os mesmos dez minutos em que o colega se lavava no outro ambiente.

O rapaz da pia atravessou a cortina desfiada vestindo pantufas e se dirigiu ao local do tapete, que acabara de ser enrolado pelo colega que terminara sua rodada de preces. O tapete passou de mãos, assim como o casaco. Estendendo o tapete no exato mesmo lugar e ângulo, e cobrindo a cabeça com o capuz do casaco emprestado, o sujeito recém-banhado iniciou a mesma sequência de posições e preces, enquanto o outro se retirou para um canto e ficou sentado, pensativo.

A essa altura o corte de cabelo do Leo tinha acabado e não deu pra continuar observando. Fico fascinada com essas experiências estranhas, em que nos perdemos nos códigos culturais que nos são desconhecidos. É sempre uma boa lembrança de que apesar de costumarmos medir tudo pelo nosso ponto de vista, o mundo é estonteantemente mais diverso do que conseguimos supor.

prece muçulmana

Mudança: um mergulho em praticidades

Desde que retornamos a Londres estávamos alugando um quarto na casa de uma amiga, e agora nos mudamos para um flat não mobiliado. Assim como em outras fases em que me mudei, a semana que passou foi um período em que as praticidades ganharam o centro das atenções. Quando você se muda para um lugar apenas com roupas, sem possuir nem uma colher de cafezinho, os requisitos para tocar uma vida normal deixam de ser banais e saltam aos olhos: o valor de uma cadeira, de uma mesa, de uma cama de verdade. Facas, panelas, pratos e xícaras. Todos objetos desenhados ao longo do tempo pela inteligência humana para tornar nossa vida fácil como ela é hoje. Sofá… sofá é um luxo, gente! Agradeçam a existência do seu.

Não sou das pessoas mais práticas que conheço. Por isso, a última semana tem sido um banho de mundo real para mim, envolvida que fiquei 24 horas por dia com a necessidade de limpar e rechear uma casa para torná-la modernamente habitável. A primeira fase, que durou uns 3 dias, foi a faxina. Muitas casas aqui têm carpet – assim como as casas brasileiras na década de 80 – e existe uma série de procedimentos para lavar e limpar bem o carpet usado por inquilinos anteriores. Desde aprender qual o produto e a máquina certos, tudo é uma aventura. Limpar banheiras – outra peça comum nas residências inglesas – também tem suas particularidades, assim como remover “limescale”, que é uma crosta que se acumula nas peças de metal devido à química da água reciclada que circula por aqui.

Quanto à mobília e utensílios, ainda faltam vários itens, grandes e pequenos, mas aos poucos o novo lar está tomando a forma que queremos. O início é um exercício de criatividade: um saco de lixo forte é um substituto barato para uma mala; uma caixa de papelão quebra o galho como mesa; um lençol dá uma excelente cortina provisória. Cada nova aquisição é uma pequena alegria, especialmente para o corpo. As costas reclamam feio por ter de dormir no colchão inflável e usar o computador no chão enquanto não chegam a cama e a escrivaninha. Também não é moleza carregar os itens comprados – alguns bem pesados – sem carro. Os cinco minutos que separam nosso flat do ponto de ônibus mais próximo parecem uma eternidade quando se está carregando coisas pesadas!

Apesar disso, essa imersão nas coisas “pé no chão” me fez muito bem. Representou uma folga daqueles estados de espírito reflexivos, cheios de planejamentos e quebra-cabeças mentais que provocam o seu tipo específico de cansaço. O cansaço das coisas práticas é bem físico e, assim como um bom exercício na academia, relaxa a mente. Muitas mulheres da minha geração torceriam o nariz pra essa constatação, mas afirmo sem medo de errar que faxina e arrumação também têm o seu valor. Para homens e mulheres igualmente.

mudança

Conversando com culturas

Uma definição simples de cultura é o compartilhamento de referências sociais e psicológicas entre um grupo de pessoas. Grupos culturais podem ser delimitados pelo viés da geografia, da biologia, da religião, da história e muitos outros ângulos. Além disso, podemos também pensar que cada ser humano é feito de relações únicas que estabelece com o corpo, com o ambiente, com os outros, consigo mesmo e com a espiritualidade. Nesse sentido, uma só pessoa já pode ser vista como um universo cultural diferente – que o digam os casados!

Todos nós estamos expostos a encontros interculturais cotidianamente. Eles se dão não só através da mídia e das artes, mas sobretudo nas interações corriqueiras com pessoas vindas de diversos lugares e criadas sob a influência de diversos costumes. Esta é a regra, e cada vez mais o será, neste nosso mundo que se globaliza rapidamente. Mas o fato de estarmos expostos aos encontros interculturais não significa que estejamos abertos para absorver lições e tirar crescimentos pessoal dos mesmos. O mais frequente, aliás, é passearmos pela vida analisando tudo e todos a partir de pontos de vista que, com nossa permissão indolente, cristalizaram-se em nós. Sofremos – e fazemos sofrer – com a diferença, e ansiamos pelo conforto do igual.

O contexto da imigração é um dos cenários possíveis – mas nem de longe o único – para exercitar a abertura aos encontros interculturais. Nele, ficar fechado nas próprias referências leva ao isolamento e à tristeza da solidão, pois não há muitos “iguais” ao seu redor para oferecer o refúgio da familiaridade. Quando se mora em outro país – e quanto mais culturalmente distante, mais radical talvez seja a proposição – a diferença lhe é “esfregada na cara”, mesmo quando você não estava afim ou apto a percebê-la por esforço próprio. E é preciso de alguma forma lidar com ela para poder tocar a vida. O exemplo mais básico disso é o da comunicação numa segunda língua, quando uma conversa boba – ou pior, importante – qualquer precisa continuar, apesar de você não ter entendido alguma palavra-chave, ou não ter sido entendida. Nessas horas é preciso esquecer o orgulho, improvisar e seguir em frente.

Os chacoalhões da imigração atingem em cheio nossa inércia consciencial e as identidades que construímos, que passam a ser vistas com um olhar bem mais perspectivo. Foi na Inglaterra que aprendi, por exemplo, que não sou branca, quando um policial inglês riu da minha cara ao me escutar me auto-descrevendo desta forma. Em boa medida, continuar sendo a mesma pessoa não é uma escolha, ao menos não uma sustentável no longo prazo.

A mesma lógica pode ser transposta para o encontro com a diferença em geral. Imaginemos uma uma escala que vai do extremo de “continuar tendo aquela velha opinião” ao extremo de “dissolver-se na coletividade de diferenças”. A globalização e a evolução têm nos empurrado, em qualquer contexto – não sem resistência e nem sem problemas – para a segunda alternativa.

Como nenhum extremo parece saudável, o ponto de equilíbrio precisa ser encontrado em valores essenciais que funcionem como uma base a partir da qual a exploração da diferença só acrescentará riqueza e crescimento pessoal e coletivo. Gosto de pensar que caminhamos rumo a um estado de espírito em que a diferença é acolhida e entendida como uma superficialidade sob a qual estão escondidas as verdadeiras essências humanas. Os encontros interculturais – ou, simplesmente, humanos – seriam tanto mais pacíficos e enriquecedores quanto mais conseguíssemos enxergar a unidade sob nossa aparente diversidade.

unidade na diversidade