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Moana, um conto solar

Uma das vantagens de ser mãe de criança pequena é o contato com produções artísticas e culturais de qualidade voltadas para esse público. Produções que de outro modo talvez não priorizaríamos prestigiar, achando, desde nosso lugar de adultos, tratar-se apenas de mais um ‘desenho infantil’.

Quero escrever então uma recomendação para que todos que gostam de se sentir elevados e inspirados assistam a uma animação que vi junto com minha filha há algumas semanas. Os sentimentos positivos trazidos pela produção Moana (2017), dos estúdios Disney, continuam reverberando toda vez que paro para lembrar dessa alegre estória.

Moana conta a saga a de uma menina que cresce em uma ilha do Oceano Pacífico, designada a ocupar por direito de nascimento o posto de chefe da sua tribo. Mas Moana vive um dilema de alma: parte dela ama a vida que está destinada a ter na sua ilha natal, enquanto outra parte, a intuição do seu coração, chama-a para se aventurar em mares desconhecidos. Moana tem uma relação especial com o mar e a navegação; o horizonte misterioso exerce sobre si uma tração irresistível que de início parece estar em contradição com o papel tradicional que precisa ocupar na sua tribo.

Ao longo da estória a moça vai descobrindo, com o auxílio de sua sábia avó xamã, o significado deste seu chamado intuitivo. Entregando-se para uma aventura cheia de magia e espiritualidade, Moana descobre uma forma de reconciliar o seu profundo dilema cumprindo o seu papel de forma surpreendente, resgatando a esperança do seu povo unindo ao mesmo tempo coragem inovadora e tradições há muito esquecidas.

A trama de Moana é sensivelmente inserida em uma simbologia antiga, xamânica e solar, e certamente foi escrita por alguém que não passa ao largo desse tipo de tema. É uma producao de qualidade rara, cheia de beleza sutil e simbologia espiritual, capaz de deixar qualquer adulto encantado, mais talvez do que as próprias crianças.

E para terminar, deixo os links da música tema da menina Moana no original em Inglês e na versão em Português.

Um caso de amor com as coisas da Índia

Era para ser um simples post sobre as minhas recentes incursões em terapia Ayurveda. Mas percebo agora que o poderoso efeito que esse tratamento tem tido sobre mim é apenas um elo de uma cadeia que, nessa vida, se iniciou há alguns anos, mais acentuadamente nos últimos três.

Já escrevi por várias vezes sobre o quanto aprecio morar em um bairro hindu de Londres. Poderia dizer em essência que aqui me sinto cotidianamente estimulada pelos símbolos, cheiros, práticas, estética e outras manifestações culturais inscritas nessa tradição. Elas me remetem quase à revelia de minha vontade ao intangível perfume espiritual da Índia, dispensando-me de experimentar os aspectos mais crus que uma viagem física à Índia milenar, material, moderna e humana traria.

Não que a essência espiritual resida de fato em alguma localização geográfica. A espiritualidade mora e vive nos corações que a carregam pelo mundo afora, e aqui no bairro calha de haver muitos: alguns com o empurrão do condicionamento cultural, outros independentemente dele.

Não foi intencional a escolha dessa região para morar. Uma sincronicidade acabou mudando o plano original de nos assentarmos num bairro do sul da cidade, que conhecíamos melhor. E de 2013 pra cá muitos foram os insights e aprendizados sobre essa cultura pela qual hoje me declaro apaixonada.

O interesse começou antes, com sensações e descobertas pontuais. Lembro-me de uma ocasião em particular, numa época em que as coisas da Índia não faziam ainda parte do meu universo mais ativo de interesses. Vi, no lampejo do olhar de uma pessoa, alguma coisa que claramente transcendia em muito a dimensão mais grossa da materialidade. Impressionada, um pensamento me invadiu: “esse é o olhar de um iogue”.

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Dissipado tal pensamento, voltei à mente analítica normal e perguntei a mim mesma: mas você que não sabe nada de Hinduísmo, o que acha que sabe a respeito de iogues? Não puxei muito o fio da meada na época, mas a transcendentalidade do tal olhar ficou profundamente gravada na minha alma, como uma pergunta que, apesar de oculta, continua a ansiar por resposta.

Segui estudando ocasionalmente elementos da espiritualidade hindu, que apareciam em meio a outros temas com os quais me identificava mais. Mas tudo ainda parecia muito hermético e difícil de entender. A complexidade do assunto parecia maior do que a minha capacidade de compreendê-lo.

O problema era que vinha tentando entender com a mente. O que quebrou a barreira e me conquistou definitivamente para o universo do Hinduísmo foi a experiência de me sentir acolhida, amparada, guiada e amada por pessoas e seres ressoantes a essa vibração.

Das cuidadoras da escolinha que minha filha começou a frequentar em pleno festival do Navratri (em homenagem à Mãe Divina), quase todas Indianas e muito queridas, passando pelos comerciantes e prestadores de serviço do bairro, sempre muito solícitos, pelo dono super gente boa do apartamento que alugamos e vizinhos simpáticos, até mestres espirituais que admiro, os ventos espirituais da Índia me envolveram de forma irresistível e irreversível.

Meu interesse e envolvimento tem aumentado ainda mais recentemente, desde que comecei a experimentar sessões semanais de massagem terapêutica Ayurvédica. Vinha, em Dezembro passado, sentindo uma fadiga extraordinária, à época sem explicação física plausível, o que me levou a considerar esse tratamento como uma alternativa para melhorar o meu estado.

Cheguei sem saber o que esperar, totalmente desprovida de informação. Sabia apenas que se tratava de medicina tradicional Indiana. Na conversa para o diagnóstico e prescrição já gostei do que escutei; o Ayurveda é um sistema milenar que baseia sua prática na ideia dos elementos da natureza e do seu equilíbrio na composição energética do corpo. A massagem é feita com o estímulo de pontos energéticos vitais usando óleos herbais adequados ao desequilíbrio em questão. Terminada a consulta com a médica, segui os passos da senhora que seria a minha massagista em direção à sua sala de massagens.

A experiência é difícil de descrever. Talvez por eu ser uma pessoa bastante mental, a massagem daquela senhora, que começa com uma espécie de aquecimento no ponto do chakra frontal, parecia ir quebrando e derretendo várias camadas endurecidas e esquecidas no meu corpo e memória.

A sala, toda em madeira avermelhada escura, tem uma pequena vela e algumas luzes douradas no teto, que dão a iluminação mínima necessária para ela trabalhar. A música, sempre hindu, é deixada em volume moderadamente alto, o que parece fortalecer o seu poder curativo. Já no meu primeiro dia lá dentro tocou uma coletânea de mantras poderosos entoados por um coro de crianças. O cheiro é fortíssimo, uma mistura de incenso com temperos – nem todos apreciam; eu adoro. O óleo é muito quente, quase chega a queimar. O processo é finalizado com uma massagem com um saquinho de ervas embebidas em óleo, lembrando uma pajelança. Nas últimas duas sessões, percebi que minha querida massagista começou fazer uma espécie de oração também. Em outro idioma – provavelmente Gujarat ou Sânscrito – e muito discretamente. Fiquei sem jeito de perguntar, mas sim, ela está incluindo agora uma espécie de vocalização curativa. Meu caso deve ser brabo… risos.

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Já me sinto quase totalmente recuperada do cansaço – o que também atribuo a ter iniciado uma suplementação alimentar com ferro e vitaminas. Mas o maior ganho mesmo tem sido a chance de deixar que o calor do óleo derreta os vestígios de bloqueios do corpo, emoções e mente. De me deixar transportar, pela pungência daquele cheiro, para percepções novas e memórias que eu desconhecia, e que estão mexendo muito com meu coração. De viajar nas vibrações daquelas músicas e de agradecer, infinita e profundamente, por estar tendo acesso a tantas coisas boas assim.

Se bem me conheço, esse caso de amor com as coisas da Índia não me transformará em uma pessoa fantasiosa nem fanática com nada. Há outras atmosferas espirituais pelas quais nutro um amor mais sedimentado – como a Celta, por exemplo – então é mais uma que vem para somar, não predominar. No mais, saio da massagem e já vou voltando à realidade comum, vivendo a vida normal, como todo mundo e sem tentar convencer ninguém de nada. Mas dentro do meu coração eu sinto aquelas pequenas vertigens que antecedem as revoluções íntimas. Ele passou a dançar em êxtase com as energias dessa atmosfera, assim como dançam os corações retratados no lindo filme abaixo (a partir do minuto 12:30):

Não sei dizer no que esse caso de amor vai dar, só sei que ele me deixa profundamente feliz. E por isso vou apreciando-o como posso, com a alegria inocente da criança, que pouco sabe e nada espera, mas tudo sente.

Quando um tijolo vale mais que uma boa vibração

Um acalorado debate tem acontecido entre os residentes da localidade onde moro, uma das regiões mais habitadas por Indianos e hindus no Reino Unido.

Há cerca de um ano, uma sociedade de iogues adquiriu perto daqui um prédio onde antigamente funcionava uma igreja cristã, que então se encontrava desativada. Desde a compra eles estabeleceram as suas atividades ali, e o local começou a funcionar como um templo e centro cultural de linha Vaishnava, como é o caso de vários outros na redondeza.

Como na época da aquisição o prédio ainda estava com a arquitetura da igreja (que, diga-se de passagem, é de gosto duvidoso, com tijolos escuros e uma torre retangular estranha), os iogues naturalmente desejam convertê-lo e adaptá-lo à sua tradição, dando a ele características ornamentais de um templo hindu tradicional.

O fato de estarmos em uma área em que referências visuais hindus são numerosas, inclusive com a presença de templos semelhantes ao que eles desejam estabelecer, levaria a crer que não encontrariam problemas em demarcar fisicamente ali o seu templo. Mas por enquanto o máximo que conseguiram fazer foi colocar a bandeirinha do seu movimento em cima da torre, que ainda ostenta uma enorme cruz branca.

Na Inglaterra em geral os governos locais são muito ciosos da aparência das construções, que acabam sendo todas muito parecidas, em nome da preocupação em se manter uma certa harmonia arquitetural através das épocas. A preservação tem um lado bom – a marca cultural se mantém e a cacofonia estética é relativamente controlada – mas também acaba tornando o visual de diferentes localidades muito parecido. Acredito que muitos que rodaram por aqui já tiveram a impressão, mesmo tendo percorrido uma boa distância, de estar ainda na mesma cidade ou no mesmo bairro, tamanha a semelhança visual entre os diferentes locais. Nos grandes centros, em função da presença de muitas culturas, uma cota maior de diversidade consegue ser acomodada, mas no geral existe no país uma harmonia visual que chega a ser enfadonha.

Os setores de planejamento dos councils (órgão governamental que se assemelha a uma subprefeitura) são por conta disso muito atuantes, e cada vez que o proprietário de um imóvel deseja fazer reformas no mesmo precisa passar por um burocrático e severo processo de avaliação. Nas reformas mais significativas parte dessa avaliação envolve uma consulta aos residentes locais, que são instados a se manifestarem contra ou a favor da proposta.

O caso do templo hindu está rendendo tanta polêmica que fez com que os residentes locais reativassem uma associação de moradores há anos parada. A associação, que em tese seria um fórum para tratar de assuntos gerais, transformou-se numa espécie de movimento para impedir a qualquer custo a consolidação do templo hindu. Cartas anti-templo começaram a circular, pedindo que inundássemos o site do council com manifestações contrárias à reforma, chamando reunião presencial para tratar do assunto e expondo séries de argumentos desfavoráveis aos iogues.

No início, por estar ocupada com outras coisas, não prestei muita atenção à discussão, mas como as cartas e emails aumentaram em frequencia e agressividade fui pesquisar o teor das manifestações contrárias, que eram quase a totalidade das quase duzentas registradas no council. Afinal, o que poderia haver de tão inadequado com a instalação de mais um mandir na região? Se minha inclinação natural já seria a de apoiar os iogues só por ser uma apreciadora da espiritualidade hindu, depois de ler os motivos alegados fiquei ainda mais afeita à causa deles.

As pessoas não querem o templo aqui por dois motivos principais: ressentimento por não terem podido reformar as próprias casas em ocasiões anteriores e medo de que a falta de estacionamento cause tumulto no trânsito, especialmente em dias de evento. A esse último ponto a sociedade iogue já respondeu, em carta bastante amigável, assegurando que haviam feito o mesmo arranjo de estacionamento atualmente vigente para um centro maçônico que funciona numa rua vizinha.

Essa carta, que inclui uma oferta à comunidade de usar gratuitamente o espaço deles para eventos locais; faz um convite às pessoas para irem conhecer as atividades e manifesta um desejo de se harmonizar com os vizinhos, termina com o honesto dizer: “nosso princípio-guia é a harmonia e fraternidade universal e gostaríamos de construir uma relação de longo prazo com todos vocês, buscando uma oportunidade de melhor servi-los”.

A essas cordiais palavras, porém, seguiu-se prontamente mais um email da associação de moradores assegurando estar fazendo todo o possível para impedir a instalação do templo. Fica difícil entender esse antagonismo todo.

Tudo bem que, do ponto de vista espiritual, onde houver atividades de luz pouco importará a cor do tijolo. Os iogues parecem saber melhor disso, pois vêm mantendo suas atividades normalmente, mesmo em meio a toda a resistência.

Os vizinhos, por sua vez, parecem mais preocupados em conservar os tijolos existentes do que interessados em aproveitar a presença de uma nova brisa espiritual nas próprias cercanias.

Eu gostaria de tê-los como vizinhos.
Eu gostaria de tê-los como vizinhos.

A spiritual perspective on little Aylan’s death

Ler em Português

I can’t recall having been so moved by a picture and a piece of news before. The image of little Aylan’s body washed up on Turkish shores stirred up a plethora of hard-to-describe feelings which immediately took the smile away from my face. I wasn’t alone in my grief: virtually anyone who came across that image felt that as a species we must be doing something very wrong.

Then, while reading about the story on Thursday evening, I looked at a couple of pictures of Aylan still alive as the smiley, happy child described by his father. I couldn’t help but thinking that maybe somehow his spirit knew what he would come to symbolise in his short but significant incarnation.

Maybe he was a happy spirit en route to accomplishing a noble task; a mission of collective consciousness raising. Following years of sluggish governmental response towards the contemporary migrant and refugee crisis, little Aylan’s death may well have been the darkest point before the dawn of a new perspective on the issue.

His short life and his tragic death raised our awareness of global inequality and acted as a stark reminder of our sheer lack of brotherhood. After him and his story, the world is calling for change.

Some of us are lucky enough to have understood that as immortal spirits we are only going through a human journey, and that life does not end with physical death.

Also, the recognition of greater cosmic laws governing our human existence helps us to endure the inevitable pain of physical mortality in a world where all fellow sentient beings are inexorably bound to experience some kind of suffering.

Spirituality, however, does not mean cold inaction or indifference. True spirituality is a living Love, a powerful silent act of compassionately embracing humanity and all of its predicaments.

Spiritual contemplation and meditation on greater truths strengthen us by bringing deep peace to our hearts and minds while at the same time compelling us to incarnate in our own lives the very values of brotherhood and compassion. We are urged to be helpful to earth and to mankind, but at the same time we understand that we can better do so from an unshakable place of equanimity.

It is only by holding a spiritual perspective on such apparent brutalities that we may find meaning in our human journey, with all its trials and pain, evil and inequality. Life on this Earth can sometimes look like a package of suffering to which we have subscribed and of which we are, to a greater or lesser degree, part and parcel.

It is only by raising our consciousness to the spiritual heights that we will be able to, along with all the great spiritual masters, free our hearts from the grips of our human pain, and work steadfastly for a better world with the serene and active comprehension that stems from the spiritual Light.

Syrian angel - image from Twitter/BBC
Syrian angel – image from Twitter/BBC

Uma perspectiva espiritual sobre a morte do pequeno Aylan

Não me recordo de ocasião em que tenha sido tão mobilizada por uma foto em um artigo de jornal. A imagem do corpo do pequeno Aylan afogado na costa da Turquia instigou uma enxurrada de sentimentos difíceis de descrever e que imediatamente roubaram o sorriso do meu rosto. Eu não estava sozinha em minha dor: praticamente todo ser humano que se deparou com aquela imagem sentiu que, enquanto espécie, devemos estar fazendo algo muito errado.

Então, enquanto lia sobre a história na quinta-feira à noite, me deparei com duas fotos de Aylan ainda vivo, como a criança sorridente e feliz descrita pelo seu pai. Não pude deixar de pensar que talvez, de alguma forma, o seu espírito sabia o que viria a simbolizar em sua curta mas significativa encarnação.

Talvez ele fosse um espírito feliz a caminho de completar uma nobre tarefa; uma missão de elevação da consciência coletiva. Seguindo-se a anos de respostas governamentais arrastadas para a crise contemporânea de migrantes e refugiados, a morte do pequeno Aylan pode muito bem ter sido o ponto mais escuro antes do alvorecer de uma nova perspectiva sobre a questão.

A sua curta vida e trágica morte aumentaram nossa consciência a respeito da desigualdade global, e atuam como um austero apontamento da nossa pura falta de irmandade. Depois dele e de sua história, o mundo está clamando por mudança.

Alguns de nós são afortunados o bastante para ter compreendido que enquanto espíritos imortais estamos apenas atravessando uma jornada humana, e que a vida não termina com a morte física.

Também o reconhecimento de leis cósmicas maiores governando a nossa existência humana nos ajuda a tolerar a inevitável dor da mortalidade física, em um mundo onde todos os seres sencientes estão inexoravelmente destinados a experimentar algum tipo e grau de sofrimento.

Espiritualidade, porém, não significa inação ou indiferença. A verdadeira espiritualidade é Amor vivo; é um ato poderoso e silente de abraçar compassivamente a humanidade com todas as suas dificuldades.

A contemplação espiritual e a meditação em verdades maiores nos fortalecem, trazendo profunda paz aos nossos corações e mentes ao mesmo tempo em que nos impulsionam a encarnar em nossas próprias vidas os exatos valores da fraternidade e da compaixão. Somos instados a sermos úteis para a terra e para a humanidade, mas ao mesmo tempo compreendemos que podemos melhor fazê-lo desde um lugar imperturbável de equanimidade.

É apenas de uma perspectiva espiritual sobre tais aparentes brutalidades que podemos encontrar sentido para nossa jornada humana, para todas as provas e dores, para o mal e a desigualdade. Para todo esse pacote de sofrimentos que parecemos ter subscrito e do qual somos, em maior ou menor grau, parte integrante.

É apenas elevando nossa consciência às alturas espirituais que seremos capazes de, na esteira de todos os grandes mestres espirituais, libertar nossos corações das garras de nossa dor humana e trabalhar firmemente por um mundo melhor, com a compreensão ativa e serena que deriva da Luz espiritual.

A ilusão de se sentir estrangeiro

Tem dias em que um mesmo assunto parece te perseguir, à revelia da sua vontade. Artigos, dizeres, reportagens e cenas aparecem de forma conspiratória na sua frente, como que fazendo um convite irrecusável a parar e pensar a respeito daquele assunto em particular.

Ontem foi a vez do ‘sentimento de ser estrangeiro’, que é comum na situação de ser imigrante, ou quando se enfrenta os limites do próprio tempo, quebrando tabus e o status quo.

Assim, me deparei com um depoimento desassossegado de uma imigrante de longa data; uma sugestão de exposição fotográfica sobre ‘outsiders’ sociais; elogios à bravura solitária de artistas vanguardistas; e o desabafo fictíceo, numa série, de uma personagem mestiça lamentando não conseguir pertencer (nem à Índia nem à Inglaterra).

Mexida com o assunto, não deu pra ir deitar sem antes dar vazão a esse post, jogando as notas do seu rascunho num papel, já bem tarde da noite. E à medida que escrevia, notava que a reflexão clareava pontos sobre os quais eu ainda não tinha pensado, ao menos não dessa forma.

O tema é velho conhecido meu. Além de ser eu mesma imigrante, fiz um mestrado a respeito disso alguns anos atrás, quando dissequei certos elementos identitários (identidade do ponto de vista da psicologia) que compõem o lugar cultural de ser imigrante brasileiro em Londres. Aliás, estou até hoje devendo a publicação desse estudo, por razões diversas. A principal delas agora talvez seja a percepção, sob uma luz mais ampla, de que a questão da identidade cultural é apenas uma roupagem para algo mais profundo, de outra ordem.

Essa sensação familiar de desencaixe que vivenciamos na imigração não é exclusiva de imigrantes internacionais. Um simples ser blumenauense em Floripa, nordestino no Rio, carioca em São Paulo ou gaúcho no Norte já dá pano pra manga em movimentar os mesmos tipos de estranhamento e adaptação cultural. Dentro de uma mesma nação as diferenças tendem a ser menos drásticas porém, enquanto que em um país muito diferente do seu você se depara com coisas bem mais alheias aos seus hábitos.

Ampliando um pouco a questão, não é difícil constatar também que o sentimento de estrangeiro é comum a muitas pessoas, imigrantes ou não, relativamente a diferentes aspectos da vida. Será então que existe esse sujeito que imaginamos 100% adaptado à sua realidade particular, ao qual nos opomos considerando-nos mais estrangeiros e desadaptados do que ele? Não seria o sentimento de ‘não pertencer’ comum à grande maioria das pessoas, cada uma dentro de um contexto próprio – o da família, da religião, da sociedade, do país, das escolhas individuais?

Em outras palavras, não nos sentimos todos estrangeiros ou marginais em alguma medida, em algum sentido?

Acredito que sim. E acredito que isso acontece porque todos nós, seres humanos, sobrevalorizamos as coisas periféricas, incluindo aí as nossas identidades culturais. Por causa de nosso modo apressado e desatento de viver, tornamo-nos prisioneiros dos detalhes fenomênicos da vida, aos quais nos apegamos para dizermo-nos ‘diferentes’. Esses detalhes acabam ganhando status de realidade em detrimento do Ser real, que vai além de tudo que se manifesta externamente.

Parece então que todas essas dissonâncias culturais, de valores, de aparência física e de identidades são na verdade problemas secundários, alimentos relevantes apenas para os nossos egos. Pequenos apegos que dão-lhes assunto para conversar, incapazes que são de ficar quietos. Questões que perdem qualquer importância assim que passamos a contemplar a essência de nossa identidade espiritual real.

Essa identidade é a da Luz divina, fonte original de todas as formas de vida e de não-vida. Mantivéssemo-nos mais atentos a essa identidade real, abalaríamo-nos menos, muito menos, com as ondulações que a periferia ilusória nos apresenta a todo instante. Estaríamos aqui, na China ou em Marte, serenos e centrados na única coisa que existe: a Luz que irmana todas as coisas manifestas na criação.

Esse exercício radical porém é difícil, e pode ser negativamente desestabilizador. Há um texto, de que gosto muito, que fala sobre como transitar de forma equilibrada pelo mundo carregando dentro de si a ‘caverna sagrada’, de onde podemos perceber todas as coisas na sua correta escala de valores. É preciso viver em paz na manifestação periférica, porém compreendendo-a a partir do centro real, sem nunca permitir o movimento na direção contrária.

Enquanto não conseguimos habitar de forma permanente esse centro imperturbável de nossa consciência, podemos ao menos guardar em nossos corações a lembrança dessa Verdade e apoiarmo-nos nela nos momentos em que, engolfados pela ilusão, sentirmos-nos isolados, desadaptados ou incompreendidos.

É preciso, enfim, sempre lembrar que estamos todos unidos por uma mesma essência espiritual, que é origem e destino de todas as coisas, feito uma verdadeira pátria primordial, onde não há estrangeiros.

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Meu Brasil brasileiro…

Esse não é um post patriótico. Não tenho orgulho nem vergonha de ter nascido brasileira, assim como não tenho orgulho nem vergonha de morar no Reino Unido. Nação para mim é um conceito periférico; acredito que a verdadeira riqueza da experiência humana deve ser construída olhando-se para o que existe de melhor em diferentes lugares do globo – e além dele!

Feito o disclaimer, gostaria de listar aqui algumas observações colecionadas nas últimas férias, passadas no período de Natal e ano novo no litoral norte de Santa Catarina. Foram três semanas maravilhosas de descanso, convívio familiar e renovação de energias, pelas quais sou muito grata. Mas foi também uma ocasião para notar, com os olhos semi-forasteiros que todo imigrante se acostuma a ter, alguns problemas bem brasileiros que, ao meu ver, comprometem bastante a qualidade da experiência de morar no Brasil hoje em dia.

Mas quero começar falando de amenidades. Dezembro na zona tropical é muito quente, mas no estado de Santa Catarina, que já fica abaixo do Trópico de Capricórnio, não é tão quente assim. Teve noites que deu até pra usar um casaquinho – e fui chamada de friorenta todas as vezes em que fiz isso.

Dezembro por lá também é um mês em que falta muita coisa. Falta água, energia elétrica, sinal de celular e internet. Falta liberdade de ir e vir: o trânsito é impraticável, para carros e coletivos igualmente. Percorrer cinquenta quilômetros pode facilmente levar algumas horas. Alguns planos de encontrar amigos em cidades próximas tiveram de ser cancelados por causa disso.

Santa Catarina é um dos estados mais ricos do país, mas mesmo assim, os contrastes da paisagem urbana são chocantes. Via de regra, tudo que é público é mal feito e mal conservado, isso quando existente. Calçadas, por exemplo, em certas cidades são artigo raro; no seu lugar, pedregulhos e poças de lama. Já os espaços privados variam desde o casebre mais enjambrado e o terreno abandonado cheio de mato e lixo até as construções mais elegantes, algumas até espalhafatosas. Essas últimas são monitoradas pelos mais sofisticados esquemas de segurança, revelando o medo da violência em cada canto das ruas. O resultado é um clima tenso e uma paisagem desarmônica, feito um tecido todo remendado. Só são belas e bem cuidadas as partes que pertencem a alguém em particular, ou então aquelas ainda intocadas pelo homem.

Nesse espírito de cada um cuidar do que é seu e ninguém cuidar do que é de todos, a sensação que dá é de que apesar da imagem de povo solidário, há um traço menos caricato mas muito real na sociedade brasileira, o do “cada um por si”. Ele frequentemente dá ao cidadão que circula nas ruas e que usa os serviços, sejam eles públicos ou não, a sensação de vulnerabilidade, de não poder realmente contar com a solidariedade ou o profissionalismo alheios. Muitos fazem apenas o mínimo necessário para que as coisas funcionem aos trancos e barrancos. Poucos procuram desempenhar seu papel social ou profissional com um esmero extra. A expectativa geral quanto ao desempenho de tudo e de todos é muito baixa; há muita tolerância com o que não funciona.

Por causa da mentalidade do cada um por si, o brasileiro acostumou-se a achar natural flexionar algumas regras, inclusive morais, para tirar vantagem própria em algumas situações. Desde a sonegação do imposto até o falso testemunho, tudo parece se justificar pela lógica de que é necessário ser esperto para não ser passado para trás, ou para se obter o que se quer. Uma conduta nada cívica e bastante individualista e competitiva, que em nada contribui para a melhora dos problemas públicos dos quais falei mais acima. Aliás, parece ser exatamente essa conduta que emperra qualquer real progresso coletivo.

Desnecessário falar que há exceções, mas infelizmente ainda são exatamente isso: exceções. Destoam do padrão geral que se observa no país. E não sei ao certo qual é a fórmula para resolver esses problemas, embora deposite minha esperança no tempo, na auto-educação de cada cidadão e na educação das crianças.

Eu evito tecer críticas ao Brasil e aos brasileiros. Sou uma filha da terra e apesar de não residir aí no momento, é a casa de toda a minha família e da maioria dos meus amigos.

O Brasil é maravilhoso por sua exuberância natural e todos os frutos que essa riqueza lhe dá: paisagens naturais, comidas tropicais, energia do sol, e até muito da alegria das pessoas, que deriva de tanta abundância de energia imanente. Mas claro, até a riqueza natural pode estar com os dias contados se não nascer na coletividade uma preocupação para além do individual e do imediato.

É um país solar, expansivo, em que a vida pulsa para fora das casas (às vezes isso significa ter de ouvir a música ruim do vizinho até as três da manhã) e em que as pessoas sorriem, apesar de tudo. É um celeiro espiritual mundial, com um sincretismo pacífico (um tanto arranhado pela cisão das igrejas cristãs) que poderia servir de espelho para outros lugares do mundo.

Eu mesma sempre fui de modo geral muito feliz morando aí. Mas frequentemente me pego a pensar em como o Brasil poderia ser um lugar tão melhor se cada cidadão ousasse ser mais honesto, mais solidário e mais empenhado em respeitar o funcionamento coletivo da sociedade.

Eu não sou perfeita nesse sentido e certamente tenho meu quinhão de erros na bagagem, mas me preocupo cada vez mais em me vigiar e em acertar os passos dados nessa existência. Acredito que isso é quase o máximo que dá pra fazer – e já é muito, tão mais difícil do que esbravejar contra os erros alheios. Extrapolando um pouco, dá ainda para compartilhar esse tipo de impressão que divido aqui com vocês.

Não quero trazer ao leitor brasileiro nenhum tipo de pesar ou sentimento de auto-depreciação, pois além de isso não ser produtivo, não há pessoa ou sociedade no mundo que não tenha a sua parcela de coisas a melhorar. Espiritualmente, aliás, os seres humanos do mundo todo vibram mais ou menos na mesma média, na mesma densidade energética, emocional e consciencial. É só que do ponto de vista social e humano, há uma clara diferença entre países mais e menos avançados nesse ou naquele aspecto. E são essas coisas a que podemos individual e coletivamente estar atentos.

São áreas em que podemos melhorar. É nelas que me pego a pensar cada vez que saio do meu limbo de imigrante latina num país anglo-saxão e volto para o pedaço de terra que um dia já pude chamar, com um olhar um pouco mais indulgente, de casa.

Itapema

Histórias para contar

Todo mundo tem as suas histórias pra contar. Esses dias estava lembrando de alguns “causos” que já me aconteceram aqui em London, a maioria deles na primeira rodada em que vivi aqui, entre os anos de 2006 e 2009. Hoje em dia ando colecionando menos eventos, dada a minha pacata vida de mãe que fica em casa. Aliás, pacata dependendo do ponto de vista, né? Mas enfim, as histórias mais aventurosas datam dessa outra época mesmo.

Uma delas aconteceu quando fui procurar trabalho, durante uma pausa que fiz num período de estudo. Eu fazia um mestrado em psicologia e queria ganhar experiência em trabalhos relacionados à pesquisa, que se harmonizassem com o que eu vinha estudando. Durante essa busca descobri que aqui tem emprego de tudo quanto é tipo, coisas que eu nem imaginava. E quase embarquei numa furada cogitando entrar em uma área que não era familiar para mim.

Apareceu um anúncio intrigante dizendo ser de “business intelligence”. Descrevia um perfil que combinava com o que eu buscava na época: pedia habilidade para pesquisa, análise de dados, coisas do tipo. Pesquisei o website da empresa, vi o nome do fundador e fui pra internet levantar a ficha do cara. Descobri que ele tinha se formado no mesmo lugar onde eu estava estudando, e que tinha publicado um livro que – ta-da! – estava disponível para empréstimo na biblioteca à qual eu tinha acesso.

Destrinchei o livro todo e fui pra entrevista conhecendo as ideias do cara de trás pra frente. Fiz uns testes por escrito lá no escritório deles (tinha umas perguntas estranhas, por exemplo como eu faria para levantar informações relevantes sobre o mercado de lentes de contato na Rússia) e depois fui entrevistada por uma sócia dele, falando tudo o que eu achava que eles queriam ouvir. Por fim, perguntaram qual era minha pretensão salarial, e pra aumentar minhas chances chutei meio baixo, para que o problema não fosse esse.

Apesar de não ter decidido se simpatizava ou não com aquela empresa, eu estava ansiosa pra trabalhar! Mas fui embora sem saber se tinha sido escolhida. Me disseram que ainda veriam outras pessoas e que qualquer coisa fariam contato comigo. Achei o papo meio furado e não fiquei mais pensando a respeito. Não achava que tinha muita chance; imaginava que iriam querer alguém com um perfil mais corporativo.

No dia seguinte fui participar de uma outra seleção, dessa vez para o cargo de auxiliar de pesquisa em uma Ong de saúde mental. Tinha bem mais a ver com o meu background, mas pagava um pouco menos e era uma função mais administrativa. Já na empresa de “business intelligence”, além de ganhar um salário maior, parecia que eu iria aprender mais daquilo que eu buscava.

No mesmo dia em que recebi a oferta da Ong recebi também uma ligação da mulher que me entrevistara na empresa: ela também queria me contratar. Fiquei na maior dúvida! Pedi umas horas para pensar, troquei uma ideia com meu marido e, ainda incerta mas seguindo a intuição, decidi pela Ong.

Liguei para a moça para avisá-la que infelizmente eu havia decidido por uma outra vaga. Ela ficou super decepcionada e me perguntou se eu mudaria de ideia caso ela me pagasse mais do que havia sido inicialmente oferecido. Como eu já estava decidida, me vi tendo de dispensar as contra-ofertas dela de uma forma até meio apressada, porque estava insistindo além da conta.

Depois que passou tudo eu fui ler alguns artigos a respeito do tipo de business dessa empresa estranha. Eles atuavam, na verdade, numa área eticamente cinza, chamada inteligência competitiva. Com as leituras posteriores, e lembrando de algumas coisas que me perguntaram na entrevista (como por exemplo “como eu me sentiria se precisasse ligar para uma empresa fingindo ser uma outra pessoa, pra conseguir umas informações”, ou “como eu reagiria se fosse descoberta numa incursão desse tipo”), eu me toquei que estaria entrando num ramo muito próximo da espionagem industrial, que é uma prática ilegal. Toda a postura da entrevistadora dava a crer que ela queria testar o quão confortável eu ficaria em cenários que requeriam atitudes não exatamente sinceras. Me assusta pensar que fiz o jogo tão direitinho que ela ficou interessadíssima em me contratar!

A memória desse episódio foi reavivada recentemente quando li uma “senhora bronca” do mestre espiritualista Aïvanhov acerca da prática da espionagem por governos e corporações. Acho que cheguei perto de pagar um mico ético e espiritual grande mas felizmente, naquela ocasião, apareceu uma luzinha pra me guiar por um caminho mais correto.

Então, pra concluir, por muito pouco não posso dizer que um dia já fui uma espiã. O máximo que acabei chegando perto disso foi ter trabalhado fisicamente ao lado do prédio do MI5, o empregador do James Bond :-). Era ali que ficava o escritório da Ong. Sempre que eu olhava pela janela e via os espiões do governo circulando na área, pensava comigo: “quase fui uma de vocês”. Só que pior, claro, porque a finalidade não seria a segurança nacional, mas sim enriquecer de forma ilícita o bolso de alguém.

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Imagem: “Storyteller” (Anker Grossvater, 1884)

Curiosidades do código de trânsito Britânico

A excentricidade mais conhecida do código de trânsito do Reino Unido é a tal da “mão inglesa”, que para o brasileiro se traduz em dirigir na “mão contrária” ao seu habitual. Os controles de pedal são iguais aos brasileiros, mas o motorista se senta no lado direito do automóvel e as marchas são trocadas com a mão esquerda. Nas autoestradas, a via de trânsito normal é a esquerda, e a ultrapassagem se dá pela direita.

Estudando para tirar a carteira de motorista local (a brasileira vale por aqui somente até um ano após a entrada para residir no país) identifiquei algumas outras coisas que para nós brasileiros são bem curiosas, como por exemplo:

– O sentido em que se estaciona o carro não precisa obedecer a mão do lado da rua em que se encontra. Assim, andando pelas ruas, se vêem carros estacionados pra frente e pra trás, no mesmo lado da rua;

– Dentre os veículos de emergência, tem um específico para resgates em montanha, e outro para desarmar bombas;

– Existem quatro tipos diferentes de travessia para pedestre, cada um deles com funcionamento e sinalização de luz diferente (haja memória!);

– Em alguns lugares existem “travessias equestres”, com o botão para o cavaleiro apertar na altura da sela do cavalo;

– Há regras especificando o que fazer caso você esteja dirigindo por uma estrada que esteja bloqueada por um rebanho de ovelhas (parar, esperar e obedecer ao comando do pastor);

– O uso de capacete para motos é obrigatório, exceto para pessoas da religião Sikh, que não podem tirar o turbante por motivos religiosos.

Além dessas deve haver outras, e se com o tempo eu me deparar com mais alguma, acrescento à lista.

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Televisão para crianças

Durante boa parte do dia a televisão aqui em casa fica ligada no canal infantil da BBC, o CBeebies. Minha bebê de 4 meses ainda não entende o conteúdo, mas gosta das músicas, barulhos, vozes e cores que passam no canal. Ela fica uns bons períodos entretida enquanto eu, tentando abstrair e deixar o barulho de fundo, vou fazendo outras coisas, como por exemplo escrever aqui no blog.

Nunca gostei de barulho de fundo pra escrever ou pra ler, com exceção de música calma instrumental – o completo oposto do tipo de barulho que passa no canal da criançada – mas é uma habilidade nova que precisei desenvolver. Estou sempre com os olhos e ouvidos um pouco nas minhas atividades e um pouco na minha bebê.

Dito isso, desde que me mudei de volta pro UK tenho assistido mais televisão do que fazia no Brasil. Ainda grávida, em casa e sem trabalhar, assistia programas jornalísticos, de variedades e documentários, e ficava admirada com a qualidade da produção televisiva daqui.

Com a chegada da bebê comecei a me inteirar da programação infantil, e fiquei encantada com a qualidade dos programas do CBeebies. A maioria deles têm um tipo de estimulação muito bem pensada e produzida, fazendo com que os pais possam deixar seus pequenos curtir a TV na certeza de estar colocando-os em contato com conteúdos enriquecedores e sadios. O canal é admirável pela sua qualidade visual, musical, cultural, congnitiva e de inclusão social. Os apresentadores e personagens são de várias etnias, além de alguns serem também portadores de necessidades especiais, físicas e cognitivas.

Os programas são muito criativos. Alguns dos meus favoritos mostram coisas como bonequinhos fazendo Yoga, desenhos ensinando detalhes de línguas e culturas comumente encontradas no Reino Unido (como Urdu, Hindi, Galês, Francês, Alemão), histórias da cultura local, crianças com necessidades especiais e linguagem de sinais. Especialmente lindo é o programa da hora de dormir, que passa à noitinha, cujas músicas têm um efeito calmante até em adultos!

O CBeebies é voltado para as crianças que ainda não vão na escola, mas nós pais acabamos por aprender várias palavras e detalhes culturais novos também, além de nos divertir. Dá pra perceber que por detrás do CBeebies tem um trabalho cuidadosamente elaborado, resultando numa programação de alta qualidade. Sorte da criançada de poder contar com um canal de televisão assim.

Uma campanha pela saúde mental

O Reino Unido tem visto nos últimos anos uma forte campanha de sensibilização pública quanto à questão da saúde mental, mais especificamente, um combate ao estigma da loucura. A mensagem básica é que pessoas com problemas psiquiátricos são pessoas como eu e você, apenas vulnerabilizadas por alguma circunstância; que a doença mental pode acontecer a qualquer pessoa e que o preconceito tem efeitos muito nocivos sobre quem já está sofrendo.

A campanha é um esforço conjunto de ONGs da área de saúde mental, e atua em áreas como monitoramento da representação da loucura na mídia, campanhas educativas, entrevistas com pessoas que sofrem de doenças mentais e lobby parlamentar para a causa.

Trabalhei nos anos de 2008 e 2009 para uma destas ONGs e participei do nascimento da campanha, que começou pequenininha, e que hoje tomou proporções importantes. 5 anos depois, percebo a diferença prática que tem feito. Recentemente a rede gigante de supermercados Asda foi forçada pela opinião pública a retirar de venda uma fantasia de “paciente mental” que estava à venda para os festejos de Helloween.

A empresa recebeu vários tweets e cartas manifestando o quanto a associação do sofrimento mental com uma figura de horror era lastimável, e pedindo um retratamento público. A questão foi parar na BBC e a empresa não demorou a se pronunciar, pedindo profundas desculpas pelo lapso, anunciando que retirou imediatamente a fantasia de circulação e que doará uma quantia significativa para uma das principais ONGs que integram a campanha.

É o tipo de resposta institucional que se espera de uma corporação que queira se manter respeitável perante um público exigente. E é o tipo de atitude pública que pode ser desenvolvida com campanhas educativas persistentes e bem executadas.

campanha saúde mental