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Moana, um conto solar

Uma das vantagens de ser mãe de criança pequena é o contato com produções artísticas e culturais de qualidade voltadas para esse público. Produções que de outro modo talvez não priorizaríamos prestigiar, achando, desde nosso lugar de adultos, tratar-se apenas de mais um ‘desenho infantil’.

Quero escrever então uma recomendação para que todos que gostam de se sentir elevados e inspirados assistam a uma animação que vi junto com minha filha há algumas semanas. Os sentimentos positivos trazidos pela produção Moana (2017), dos estúdios Disney, continuam reverberando toda vez que paro para lembrar dessa alegre estória.

Moana conta a saga a de uma menina que cresce em uma ilha do Oceano Pacífico, designada a ocupar por direito de nascimento o posto de chefe da sua tribo. Mas Moana vive um dilema de alma: parte dela ama a vida que está destinada a ter na sua ilha natal, enquanto outra parte, a intuição do seu coração, chama-a para se aventurar em mares desconhecidos. Moana tem uma relação especial com o mar e a navegação; o horizonte misterioso exerce sobre si uma tração irresistível que de início parece estar em contradição com o papel tradicional que precisa ocupar na sua tribo.

Ao longo da estória a moça vai descobrindo, com o auxílio de sua sábia avó xamã, o significado deste seu chamado intuitivo. Entregando-se para uma aventura cheia de magia e espiritualidade, Moana descobre uma forma de reconciliar o seu profundo dilema cumprindo o seu papel de forma surpreendente, resgatando a esperança do seu povo unindo ao mesmo tempo coragem inovadora e tradições há muito esquecidas.

A trama de Moana é sensivelmente inserida em uma simbologia antiga, xamânica e solar, e certamente foi escrita por alguém que não passa ao largo desse tipo de tema. É uma producao de qualidade rara, cheia de beleza sutil e simbologia espiritual, capaz de deixar qualquer adulto encantado, mais talvez do que as próprias crianças.

E para terminar, deixo os links da música tema da menina Moana no original em Inglês e na versão em Português.

10 benefícios de se fazer arte

Outro dia me peguei experimentando novamente a gostosa sensação de estar absorvida num pequeno trabalho de arte, quando reconstituía um pedaço de uma página rasgada de um livro de estorinha da minha filha. E prometi para mim mesma, mais uma vez – essas promessas que custamos a pôr em prática – que procuraria garantir mais espaço para essas brincadeiras descompromissadas no meu dia a dia, tão bem que já me fizeram e que, com esse simples desenho, lembrei que ainda me fazem.

Aí me deparei hoje na internet com um artigo em Inglês bem bacana, listando 10 motivos pelos quais desenhar (generalizável para artes em geral) tem efeitos terapêuticos e libertadores. Resolvi traduzi-lo e publicar aqui no blog, pois pode inspirar mais gente por aí.

Saquemos pois os instrumentos de qualquer arte que faça bem à nossa alma e sejamos mais felizes!

Boa leitura.

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10 Maneiras com que Desenhar Pode Aliviar o Estresse e Inspirar Maravilhamento
Orginal em Inglês por Danny Gregory

Procurando por formas de ser mais calmo, feliz e mais centrado? A resposta pode estar nas páginas de um caderno de rascunho.

Como alguém que conhece os efeitos positivos que desenhar pode trazer para a vida de qualquer um, eu gostaria de dividir algumas razões pelas quais desenhar é uma ótima atividade para promover relaxamento e ajudar você a levar uma vida mais feliz.

1. Você se reconectará com o seu espírito travesso.

Muitas pessoas desenhavam e pintavam quando crianças, sem se preocupar com talento ou a qualidade final do produto. Reconectar-se com aquele espírito criativo divertido é relaxante e libertador. Mesmo que você não tenha mais desenhado desde que tinha seis anos, alguns minutos por dia desenhando coisas simples ao seu redor pode liberar uma energia de diversão capaz de preencher todo o seu dia.

2. Você se surpreenderá.

Desenhar não é um assunto misterioro de talento dado por Deus. Leva apenas alguns minutos de prática todos os dias para fazer novas conexões no seu cérebro e no seu corpo. Eu descobri que manter um jornal ilustrado me ajuda a desenvolver um hábito criativo que revitaliza a minha habilidade de desenhar. E na medida em que o seu caderno de rascunhos vai se preenchendo com lindos desenhos, você fica orgulhoso e ávido por continuar.

3. Você conseguirá controlar o tempo.

Fazer arte pára o tempo. Quando você desenha ou pinta o que está ao seu redor, você foca e vê [o objeto] pelo que ele é. Ao invés de viver num mundo virtual, você estará presente. Ao invés de todas as coisas zunindo na sua cabeça, você será capaz de parar, limpar a sua mente, respirar fundo e apenas ser. Você não precisa de um mantra ou guru. Ou uma app. Apenas uma caneta.

4. Você contará a sua história.

A vida é simplesmente uma longa sucessão de pequenas epifanias. Você precisa parar e aproveitá-las. Ao desenhar as coisas cotidianas que você encontra, você estará fazendo um registro do que você está vivendo e o que você está aprendendo. Um desenho e uma frase ou duas em um caderno de rascunhos transforma aqueles momentos cotidianos em algo significante. Com o tempo, você produzirá um livro de memórias – um verdadeiro registro do que é importante em sua vida.

5. Você combaterá o perfeccionismo.

Muitas pessoas são tentadas a evitar fazer coisas que elas não conseguem fazer bem. Mas criatividade se resume em tomar riscos e fazer coisas novas – coisas que podem não se sair exatamente como tínhamos planejado. Desenhar pode ajudar você a evitar as limitações do perfeccionismo e aprender a improvisar. Você aprende a ver “erros” como lições e oportunidades para improvisação. Frequentemente uma linha vacilante ou um respingo de tinta podem transformar um rascunho em uma obra de arte expressiva. Aprenda a deixar rolar, brincar e descobrir.

6. Você se reconectará com a sua criança interior.

Desenhe com uma criança, e desenhe com giz de cera, têmpera, pasteis e pintura com os dedos. Interaja com o seu parceiro de desenho. Aceite pedidos. Conte uma história e ilustre-a enquanto o faz. Peça à sua criança que desenhe uma linha maluca e você adiciona a ela para fazer um elefante ou um trem ou um sanduíche de presunto. Rabisque. Respingue. Brinque. Por alguns minutos, libere-se e seja uma criança.

7. Você perceberá que o mundo não é perfeito.

Mas é lindo. E as coisas mais belas têm personalidade e experiência embutidas nelas. Há muito a aprender e apreciar em uma caneca lascada, uma maçã meio-comida, as linhas minúsculas no couro do seu painel. Fazer arte irá lhe mostrar o quanto você já tem. Seus reais tesouros. Um Maserati novo em folha é muito menos belo de se desenhar do que uma pickup velha enferrujada.

8. Você criará memórias.

Quando você desenha, você melhora a sua memória. Ao desacelerar e observar cuidadosamente, você cria registros mais profundos e mais vívidos de tudo que o rodeia. Faça do desenho um hábito, e sua habilidade de evocar o passado e apreciá-lo mais uma vez irá crescer exponencialmente.

9. Você se livrará do tédio.

Você nunca se entediará ou desperdiçará tempo de novo. Todo dia é cheio daqueles momentos entre atividades. A espera no consultório médico, assistir televisão acéfala. Ao invés de ler tweets no seu telefone, você fará uma peça de arte. Cada minuto do seu dia conta. Faça-o valer a pena.

10. Você compartilhará a sua arte.

Na minha escola de desenho, encorajamos estudantes a postar o seu trabalho online. De início pode parecer assustador, exibir o seu trabalho para que estranhos comentem sobre ele. Mas se você encontrar uma comunidade que apóia eencoraja, seu incentivo para desenhar cresce. E as conexões que você forma com os outros na mesma jornada de descoberta são profundas. Desenhe com os seus amigos. Desenhe os seus amigos. Compartilhe o seu caderno de rascunhos e as histórias da sua vida. O que poderia ser mais bonito?

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Reconstituição

Provocações espiritualistas à filosofia

Revisando alguns posts que tenho em rascunho no blog, encontrei esse pequeno texto do Osho, que tinha separado há mais de um ano, depois de lê-lo em algum lugar na internet e sentir profunda ressonância com a questão que coloca. O texto é uma pequena-grande provocação a respeito da diferença entre a filosofia (e por extensão a sua filha, a ciência) e a espiritualidade (a que ele, mesmo sendo um crítico dos sistemas religiosos fechados, chama de religião, no sentido de religação com a realidade divina).

Escrevi num post anterior sobre a forma com que esse tema se faz presente na minha trajetória. Hoje, na iminência de concluir mais uma etapa da minha formação filosófica em psicoterapia, decidi publicá-lo, para marcar a pertinência e a atualidade da reflexão, que continuo levando comigo na tentativa de equilibrar possibilidades e talentos, fé e discernimento, verdade e responsabilidade.

Então, vamos a ele:

O Ah! das coisas – Osho

“Uma pessoa deve entender o Ah! das coisas e então tudo é compreendido.

Dizem que a filosofia começa com o maravilhar-se. Talvez. Mas a filosofia sempre tenta destruir a maravilha – ela quer matar sua mãe.

Todo o esforço da filosofia é desmistificar a existência.

Quanto mais você acha que sabe, menos você tem respeito, maravilha, reverência, amor. A existência então parece estar no passado, sem relevo; não há mais nenhum mistério nela.

E é claro que, quando não houver nenhum mistério no exterior, não há nenhuma poesia no interior. Eles andam juntos, são paralelos: mistério no exterior, poesia no interior.

A poesia só pode surgir se a vida permanecer merecendo ser explorada. No momento que você sabe, a poesia morre; o ato de conhecer é a morte de tudo aquilo que é bonito em você.

E, com a morte da poesia, você vive uma vida que não vale a pena ser vivida – não pode ter significação, não pode ter nenhuma celebração.

Não pode florescer, não pode dançar; você só pode se arrastar.

Então, talvez aqueles que dizem que a filosofia começa com o maravilhar-se estejam certos, mas eu gostaria de acrescentar mais uma coisa: ela tenta matar sua mãe.

A religião nasce com o maravilhar-se, vive com o maravilhar-se.

A religião inicia com o maravilhar-se e termina com mais maravilhar-se.
Essa é a diferença entre a filosofia e a religião – ambas podem ter o seu começo com o maravilhar-se, mas depois elas pegam caminhos separados.

A religião começa procurando compreender os mistérios e descobre que esses mistérios vão se aprofundando.

Quanto mais você sabe, menos sabe, e o resultado do saber é a ignorância.

Você fica totalmente ignorante, não sabe absolutamente nada.
Um estado de inocência é alcançado.

Nesse estado de inocência, a poesia atinge sua perfeição. Essa poesia é a religião.”

Osho em A Revolução: Conversas Sobre Kabir

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As seis formas Gregas de amar

Sabe quando você se depara com um artigo que te faz pensar “puxa, eu queria ter escrito isso!”? Pois bem, aconteceu comigo hoje quando li “Have You Tried the Six Varieties of Love?” de Roman Krznaric. Claro que eu não teria o mesmo conhecimento nem o mesmo estilo elegante de escrever, mas além de o texto ser sobre um tema muito caro ao meu coração – o amor! –, é de um insight tão legal que me senti compelida a traduzir para o Português. Quem sabe assim eu esteja contribuindo para a difusão dessas belas ideias entre os amigos e leitores lusófonos? Então lá vai.

Você já Experimentou as Seis Variedades de Amor? – por Roman Krznaric

A cultura do café dos dias de hoje tem um vocabulário incrivelmente sofisticado. Você quer um cappuccino, um espresso, um skinny latte ou talvez um iced caramel macchiato? Os Gregos antigos eram igualmente tão sofisticados na forma com que falavam sobre amor, reconhecendo seis diferentes variedades. Eles teriam ficado chocados com a nossa crueza em usar uma única palavra para sussurrar “eu te amo” num jantar à luz de velas e casualmente assinar um email com “muito amor”.

Então quais eram os seis amores conhecidos dos Gregos? E como eles podem nos inspirar a movermo-nos para além de nosso atual vício no amor romântico, que faz com que 94 por cento das pessoas jovens esperem – mas frequentemente fracassem – encontrar uma alma gêmea única que possa satisfazer todas as suas necessidades amorosas?

Eros: O primeiro tipo de amor era eros, nomeado por causa do deus Grego da fertilidade, e representava a ideia de paixão sexual e desejo. Mas os Gregos não pensavam nele como algo sempre positivo, como tendemos hoje. Na verdade, eros era visto como uma forma perigosa, ardente e irracional de amor que poderia dominar e possuir você – uma atitude compartilhada por muitos pensadores espirituais mais tardios, como o escritor Cristão C.S.Lewis. Eros envolvia uma perda de controle que assustava os Gregos. O que é estranho, porque perder o controle é precisamente o que muitas pessoas agora procuram em um relacionamento. Não esperamos, nós todos, apaixonar-nos “loucamente”?

Philia: A segunda variedade de amor era philia ou amizade, que os Gregos valorizavam muito mais do que a sexualidade baixa de eros. Philia abrangia a amizade camarada profunda que se desenvolvia entre irmãos em armas que haviam lutado lado a lado no campo de batalha. Tinha a ver com demonstrar lealdade aos seus amigos, sacrificando-se por eles, assim como dividir suas emoções com eles. (Uma outra forma de philia, às vezes denominada storge, incorporava o amor entre pais e seus filhos.) Todos podemos nos perguntar quanto deste amor philia camarada temos em nossas vidas. É uma questão importante em uma era em que tentamos acumular “amigos” no Facebook ou ‘seguidores’ no Twitter – conquistas que dificilmente teriam impressionado os Gregos.

Ludus: Esta era a ideia dos Gregos de amor divertido, que se referia à afeição divertida entre crianças ou jovens amantes. Todos tivemos um gosto dele no flerte e provocação nos estágios iniciais de um relacionamento. Mas também vivenciamos nosso ludus quando sentamos em roda em um bar contando piadas e rindo com amigos, ou quando saímos para dançar. Dançar com estranhos pode ser a mais fundamental atividade lúdica, quase um substituto divertido para o sexo em si. As normas sociais torcem o nariz para esse tipo de frivolidade adulta divertida, mas um pouco mais de ludus pode ser justamente o que precisamos para apimentar nossas vidas amorosas.

Agape: O quarto amor, e talvez o mais radical, era ágape ou amor abnegado. Este era um amor que você estendia a todas as pessoas, seja membros familiares ou estranhos distantes. Agape foi mais tarde traduzido para o Latim como caritas, que é a origem da nossa palavra caridade. Lewis referia-se a ele como “amor presente”, a mais alta forma de amor Cristão. Mas ele também aparece em outras tradições religiosas, como a ideia de mettā ou “bondade amorosa universal” no Budismo Theravāda. Há evidências crescentes de que agape está em perigoso declínio em muitos países. Níveis de empatia nos E.U.A. caíram quase 50 por cento ao longo dos últimos 40 anos, com a queda mais acentuada ocorrendo na década passada. Precisamos urgentemente renovar nossa capacidade de nos preocuparmos com estranhos.

Pragma: Outro amor Grego era pragma ou amor maduro. Este era o profundo entendimento que se desenvolvia entre casais de longo casamento. Tinha a ver com fazer acordos para ajudar o relacionamento a funcionar ao longo do tempo, e demonstrar paciência e tolerância. O psicanalista Erich Fromm disse que gastamos muita energia “caindo na paixão” e precisamos aprender mais como “ficar de pé no amor”. Pragma tem precisamente a ver com ficar de pé no amor – fazer um esforço para dar amor ao invés de apenas recebê-lo. Com as taxas de divórcio atualmente na casa dos 50 por cento, os Gregos certamente pensariam que deveríamos trazer uma dose séria de pragma para nossos relacionamentos.

Philautia: A variedade final de amor era philautia ou auto-amor. Os espertos Gregos perceberam que havia dois tipos. Um era uma variedade não saudável associada com narcisismo, onde você se tornava obcecado consigo, e focado em ganhar fama pessoal e fortuna. Uma versão mais saudável de philautia elevava a sua capacidade mais ampla de amar. A ideia era que se você gosta de si mesmo e se sente seguro em si mesmo, você terá amor suficiente para dar aos outros (hoje isto é refletido no conceito inspirado no Budismo de “auto-compaixão”). Ou como disse Aristóteles, “Todos os sentimentos amigáveis por outros são uma extensão dos sentimentos do homem por si mesmo”.

Então o que os Gregos estão realmente tentando nos dizer? De forma mais impressionante, eles encontraram diversos tipos de amor em relacionamentos com uma ampla gama de pessoas – amigos, família, esposas, estranhos e até mesmo com si mesmos. Isto contrasta com o nosso típico foco em uma única relação romântica, onde esperamos encontrar todos os diferentes amores empacotados em uma única pessoa ou alma gêmea. A mensagem dos Gregos é para alimentar as variedades de amor e conectar-se às suas muitas fontes. Não procure apenas eros, mas cultive philia passando mais tempo com velhos amigos, ou desenvolva o seu ludus dançando noite afora.

Ademais, deveríamos abandonar nossa obsessão com a perfeição. Não espere que seu parceiro lhe ofereça todas as variedades de amor, o tempo todo (sob o risco de você poder negligenciar um parceiro que falhar em atender aos seus desejos). Reconheça que um relacionamento pode começar com bastante eros e divertido ludus, e então evoluir rumo a incorporar mais pragma ou agape abnegado.

Há também o pensamento consolador de que se você sente a falta de um amante em sua vida, ao mapear a extensão na qual todos os seis amores estão presentes, você poderá descobrir que tem muito mais amor do que jamais imaginou.

É hora de introduzirmos as seis variedades de amor Grego em nosso vocabulário cotidiano. Desta forma nos tornaremos tão sofisticados na arte de amar como somos quando pedimos uma xícara de café.

Roman Krznaric. É um pensador cultural Australiano e co-fundador da The School of Life em Londres. Este artigo é baseado no seu novo livro, How Should We Live? Great Ideas from the Past for Everyday Life (BlueBridge).www.romankrznaric.com @romankrznaric

agape love

Love, nature and art: the bastions of spirit

After almost one year blogging in Portuguese, this is my first attempt at writing a post in English. These days, with Google translator and a general heightened linguistic “savvyness”, it should be reasonable to expect a fairly broad reach for posts in Portuguese already, but it doesn’t hurt trying to improve access to ideas I think are worth sharing. The reader will surely find many English mistakes in these attempts, but as long as I manage to get the message across, I am happy.

My previous post was about how responsible I felt for trying to have a better attitude towards personal problems after reading Viktor Frankl’s account on the desolate conditions of concentration camp prisoners. With a gripping sensation in my heart and a need to stop now and then to catch my breath, I moved slowly through his detailed description of how he and his fellow inmates endured – physically and psychologically – the sheer wickedness perpetrated by the guards in the daily life of the camp.

The anguish that overflowed from these passages made it even more comforting to arrive, later on in the book, at one of the most beautiful descriptions of spiritual freedom I ever came across. Because I couldn’t find words better than the author’s to depict the powerful forces that can be unleashed by the spirit to counteract adverse circumstances, I will limit myself to replicate the long quote below.

“We stumbled on in the darkness, over big stones and through large puddles, along the one road leading from the camp. The accompanying guards kept shouting at us and driving us with the butts of their rifles. Anyone with very sore feet supported himself on his neighbour’s arm. Hardly a word was spoken; the icy wind did not encourage talk. Hiding his mouth behind his upturned collar, the man marching next to me whispered suddenly: “If our wives could see us now! I do hope they are better off in their Camps and don’t know what is happening to us.”

That brought thoughts of my own wife to mind. And as we stumbled on for miles, slipping on icy spots, supporting each other time and again, dragging one another up and onward, nothing was said, but we both knew: each of us was thinking of his wife. Occasionally I looked at the sky, where the stars were fading and the pink light of the morning was beginning to spread behind a dark bank of clouds. But my mind clung to my wife’s image, imagining it with an uncanny acuteness. I heard her answering me, saw her smile, her frank and encouraging look. Real or not, her look was then more luminous than the sun which was beginning to rise.

A thought transfixed me: for the first time in my life I saw the truth as it is set into song by so many poets, proclaimed as the final wisdom by so many thinkers. The truth — that love is the ultimate and the highest goal to which man can aspire. Then I grasped the meaning of the greatest secret that human poetry and human thought and belief have to impart: The salvation of man is through love and in love. I understood how a man who has nothing left in this world still may know bliss, be it only for a brief moment, in the contemplation of his beloved. In a position of utter desolation, when man cannot express himself in positive action, when his only achievement may consist in enduring his sufferings in the right way—an honourable way — in such a position man can, through loving contemplation of the image he carries of his beloved, achieve fulfilment. For the first time in my life I was able to understand the meaning of the words, ‘The angels are lost in perpetual contemplation of an infinite glory.’

In front of me a man stumbled and those following him fell on top of him. The guard rushed over and used his whip on them all. Thus my thoughts were interrupted for a few minutes. But soon my soul found its way back from the prisoner’s existence to another world, and I resumed talk with my loved one: I asked her questions, and she answered; she questioned me in return, and I answered.

‘Stop!’ We had arrived at our work site. Everybody rushed into the dark hut in the hope of getting a fairly decent tool. Each prisoner got a spade or a pickaxe.

‘Can’ t you hurry up, you pigs?’ Soon we had resumed the previous day’s positions in the ditch. The frozen ground cracked under the point of the pickaxes, and sparks flew. The men were silent, their brains numb.

My mind still clung to the image of my wife. A thought crossed my mind: I didn’t even know if she were still alive. I knew only one thing — which I have learned well by now: Love goes very far beyond the physical person of the beloved. It finds its deepest meaning in his spiritual being, his inner self. Whether or not he is actually present, whether or not he is still alive at all, ceases somehow to be of importance.

I did not know whether my wife was alive, and I had no means of finding out (during all my prison life there was no outgoing or incoming mail); but at that moment it ceased to matter. There was no need for me to know; nothing could touch the strength of my love, my thoughts, and the image of my beloved. Had I known then that my wife was dead, I think that I would still have given myself, undisturbed by that knowledge, to the contemplation of her image, and that my mental conversation with her would have been just as vivid and just as satisfying. ‘Set me like a seal upon thy heart, love is as strong as death.’

This intensification of inner life helped the prisoner find a refuge from the emptiness, desolation and spiritual poverty of his existence, by letting him escape into the past. When given free rein, his imagination played with past events, often not important ones, but minor happenings and trifling things. His nostalgic memory glorified them and they assumed a strange character. Their world and their existence seemed very distant and the spirit reached out for them longingly: In my mind I took bus rides, unlocked the front door of my apartment, answered my telephone, switched on the electric lights. Our thoughts often centered on such details, and these memories could move one to tears.

As the inner life of the prisoner tended to become more intense, he also experienced the beauty of art and nature as never before. Under their influence he sometimes even forgot his own frightful circumstances. If someone had seen our faces on the journey from Auschwitz to a Bavarian camp as we beheld the mountains of Salzburg with their summits glowing in the sunset, through the little barred windows of the prison carriage, he would never have believed that those were the faces of men who had given up all hope of life and liberty. Despite that factor — or maybe because of it — we were carried away by nature’s beauty, which we had missed for so long.

In camp, too, a man might draw the attention of a comrade working next to him to a nice view of the setting sun shining through the tall trees of the Bavarian woods (as in the famous water colour by Dürer), the same woods in which we had built an enormous, hidden munitions plant. One evening, when we were already resting on the floor of our hut, dead tired, soup bowls in hand, a fellow prisoner rushed in and asked us to run out to the assembly grounds and see the wonderful sunset. Standing outside we saw sinister clouds glowing in the west and the whole sky alive with clouds of ever-changing shapes and colours, from steel blue to blood red. The desolate grey mud huts provided a sharp contrast, while the puddles on the muddy ground reflected the glowing sky. Then, after minutes of moving silence, one prisoner said to another, ‘How beautiful the world could be!’

Another time we were at work in a trench. The dawn was grey around us; grey was the sky above; grey the snow in the pale light of dawn; grey the rags in which my fellow prisoners were clad, and grey their faces. I was again conversing silently with my wife, or perhaps I was struggling to find the reason for my sufferings, my slow dying. In a last violent protest against the hopelessness of imminent death, I sensed my spirit piercing through the enveloping gloom. I felt it transcend that hopeless, meaningless world, and from somewhere I heard a victorious “Yes” in answer to my question of the existence of an ultimate purpose. At that moment a light was lit in a distant farmhouse, which stood on the horizon as if painted there, in the midst of the miserable grey of a dawning morning in Bavaria. ‘Et lux in tenebris lucet’ — and the light shineth in the darkness. For hours I stood hacking at the icy ground. The guard passed by, insulting me, and once again I communed with my beloved. More and more I felt that she was present, that she was with me; I had the feeling that I was able to touch her, able to stretch out my hand and grasp hers. The feeling was very strong: she was there. Then, at that very moment, a bird flew down silently and perched just in front of me, on the heap of soil which I had dug up from the ditch, and looked steadily at me.”

(Victor Frankl in: Man’s Search for Meaning)

However gloomy the circumstances, the spirit can always rise above them. Solace and inner freedom can always be found in love, nature, art and spirituality.

A verdade nem sempre está no fundo de um poço

Certa vez um amigo – cujas opiniões, na época, eu considerava bastante – afirmou com um certo desdém, ao saber do meu signo astrológico, que “aquarianos são superficiais”. A afirmativa, meio em tom de brincadeira, meio em tom crítico, foi daqueles comentários supostamente inocentes, mas que ficam repercutindo na mente, levando a pensar nos desdobramentos do que significa.

Acho que todo mundo tem um certo orgulho bobo do seu signo. “Orgulho”, coincidentemente, é uma das características aquarianas – e aquela frase de alguma forma ferira esse meu orgulho. Até porque ela foi dita justamente numa época em que eu me aprofundava muito, na universidade, numa dissertação de assunto filosófico. Ser chamada de superficial naquele momento parecia uma afronta direta à qualidade do trabalho que eu estava desenvolvendo.

Hoje – anos depois desse episódio – me dei conta de que para mim, a superficialidade tem sim um sentido positivo. Tem a sua importância, e talvez até um efeito curativo.

Explico.

Desde que me entendo por gente tenho um jeito meio observador, meio perguntador a respeito da vida e das pessoas. Sempre gostei de estudar. Apesar de neurotípica, sempre me senti um pouco como uma antropóloga em marte: interessada em entender o meu contexto, mas não muito bem encaixada nele. Mais tarde, nos estudos universitários, frequentemente me via atraída para leituras de cunho mais filosófico e teórico, que me interessavam mais do que os manuais pragmáticos de psicologia aplicada. Era como se as leituras “perguntadoras” me levassem para mais perto das verdades do que as leituras “instrutoras”.

Esse meu jeito continua o mesmo, e nessa saga cheia de perguntas, ocasionalmente chego a algumas respostas provisórias.

O problema é que perguntar demais, aprofundar demais um determinado tema, a partir do intelecto, começa a fazer com que eu leve muito a sério as respostas a que eventualmente chego. Acabo esquecendo que as respostas são parciais e provisórias, e a mente começa a funcionar de maneira obtusa, fundamentalista talvez. Tudo passa a ser visto a partir daquela ótica – daquela teoria, daquela resposta – e o clima psicológico ao meu redor se torna sisudo, pesado. Provavelmente atrai até algumas inimizades e provoca alguns afastamentos. É uma seriedade que vem do excessivo perguntar, que toma proporções exageradas, que me torna mais chata, e que sinceramente, nem combina comigo. É um risco que estou sempre correndo, por causa do jeito perguntador, mas estou procurando ficar mais vigilante quanto a ele. Isto porque percebi que as superficialidades – as coisas da vida que não exigem um profundo pensar – são um contrapeso importante para que minha balança não fique desequilibrada.

Cheguei à conclusão – provisória talvez? – de que doses contínuas e não contrabalançadas de filosofia e metafísica provocam efeitos estranhos e não muito desejáveis em mim. Talvez seja imperícia minha, de não saber navegar no profundo sem me afogar lá embaixo. Mas sinto que há um bom aprendizado em abrir mais espaço, na vida, para o superficial e para o não saber. Existe uma paz em não precisar perguntar.

Não quero e nem consigo me livrar dos questionamentos profundos, mas certamente estou aprendendo a colocar um freio neles. Porque, como li num belo livro de psicoterapia existencial, “a verdade nem sempre está no fundo de um poço”. Às vezes as coisas são mais simples e superficiais do que parecem, e nem por isso, menos belas, verdadeiras, importantes ou necessárias.

well

Due belle canzoni

Em clima de música italiana, seguem os vídeos, letras e traduções de duas canções do Luciano Ligabue de que gosto muito. Como não encontrei uma tradução legal delas para o português na web, resolvi fazer eu mesma uma, baseada nos poucos (mas bem aproveitados) meses que fiz de curso de italiano. Não garanto a fidedignidade, então se algum falante tiver correções pra fazer, serão muito bem vindas.

Il giorno di dolore che uno ha

Il giorno di dolore che uno ha O dia de dor que se tem
Quando tutte le parole
sai che non ti servon più
Quando sudi il tuo coraggio
per non startene laggiù
Quando tiri in mezzo Dio
o il destino, o chissà che
Che nessuno se lo spiega
perché sia successo a te
Quando todas as palavras
sabes que não te servem mais
Quando trabalhas tua coragem
para não permanecer lá embaixo
Quando jogas no meio Deus
ou o destino, ou o que for
Que ninguém te explica
por que aconteceu com você
Quando tira un po’ di vento
che ci si rialza un po’
E la vita è un po’ più forte
del tuo dirle “grazie no”
Quando sembra tutto fermo
la tua ruota girerà.
Sopra il giorno di dolore che uno ha
Tu ru ru…
Quando sopra um pouco de vento
que nos ergue um pouco
E a vida é um pouco mais forte
do que você dizer a ela “não, obrigado”
Quando tudo parece parado
teu caminho mexer-se-á
Sobre o dia de dor que se tem
Tu ru ru…
Quando indietro non si torna
Quando l’hai capito che
che la vita non è giusta
come la vorresti te
Quando farsi una ragione
vorrà dire vivere
Te l’han detto tutti quanti
che per loro è facile
Quando para trás não se volta
Quando entendestes que
que a vida não é justa
como gostarias que fosse
Quando dar-se uma razão
significará viver
Tantos ter-te-ão dito
que para eles é fácil
Quando batte un po’ di sole
dove ci contavi un po’
E la vita è un po’ più forte
del tuo dirle “ancora no”
Quando la ferita brucia la tua pelle si farà.
sopra il giorno di dolore che uno ha.
Tu ru ru…
Quando bate um pouco de sol
onde nos encontrávamos um pouco
E a vida é um pouco mais forte
do que você dizer a ela “ainda não”
Quando a ferida queima, tua pele se fará
sobre o dia de dor que se tem
Tu ru ru…
Quando il cuore senza un pezzo
il suo ritmo prenderà.
Quando l’aria che fa il giro
i tuoi polmoni beccherà.
Quando questa merda intorno
sempre merda resterà.
Riconoscerai l’odore
perché questa è la realtà.
Quando o coração sem um pedaço
retomar o seu ritmo
Quando o ar que faz o movimento
teus pulmões tocará
Quando esta merda ao redor
sempre merda permanecerá
Reconhecerás o odor
porque esta é a realidade
Quando la tua sveglia suona
e tu ti chiederai “che or’è?”
Che la vita è sempre forte
molto più che facile
Quando sposti appena il piede
lì il tuo tempo crescerà.
Sopra il giorno di dolore che uno ha
Tu ru ru…
Quando teu despertador tocar
e te perguntares “que horas são?”
Que a vida é sempre forte
muito mais do que fácil
Assim que moveres teus pés
ali teu tempo crescerá
Sobre o dia de dor que se tem
Tu ru ru…

Non è tempo per noi

Non è tempo per noi Não é tempo para nós
Ci han concesso solo una vita
Soddisfatti o no qua non rimborsano mai
E calendari a chiederci se
stiamo prendendo abbastanza abbastanza
Se per ogni sbaglio avessi mille lire
che vecchiaia che passerei
Concederam-nos apenas uma vida
Satisfeitos ou não, aqui não reembolsam nunca
E os calendários a perguntar-nos se
estamos aproveitando o bastante, o bastante
Se por cada erro ganhasse mil liras
que aposentadoria teria!
Strade troppo strette e diritte
per chi vuol cambiar rotta
oppure sdraiarsi un po’
Che andare va bene pero’
a volte serve un motivo, un motivo
Certi giorni ci chiediamo e’ tutto qui?
e la risposta e’sempre si
Estradas estreitas e retas demais
para quem quer mudar de rota
ou talvez descansar um pouco
É que tudo bem caminhar, mas
às vezes é bom ter um motivo, um motivo
Alguns dias nos perguntamos “está tudo aqui?”
e a resposta é sempre sim
Non e’ tempo per noi
che non ci svegliamo mai
Abbiam sogni pero’ troppo grandi e belli sai
Belli o brutti abbiam facce
che pero’ non cambian mai
Non e’ tempo per noi
e forse non lo sara’ mai
Não é tempo para nós
que não acordamos nunca
Temos sonhos porém grandes e belos demais, você sabe
Belas ou feias temos faces
que no entanto não mudam
Não é tempo para nós
e talvez nunca será
Se un bel giorno passi di qua
lasciati amare e poi scordati svelta di me
Che quel giorno e’ gia’ buono per
amare qualchedun’altro, qualche altro
Dicono che noi ci stiamo buttando via
ma siam bravi a raccoglierci
Se num belo dia passares aqui
deixa-te amar e depois lembra-te, acordada, de mim
Que este dia já é bom para
amar qualquer um outro, qualquer outro
Dizem que estamos nos jogando fora
mas somos bons em nos reerguer
Non e’ tempo per noi
che non ci adeguiamo mai
Fuorimoda, fuoriposto,
insomma sempre fuori dai
Abbiam donne pazienti
rassegnate ai nostri guai
Non e’ tempo per noi
e forse non lo sara’ mai
Não é tempo para nós
que não nos adequamos nunca
Fora de moda, fora de lugar,
em suma, sempre fora, vai
Temos mulheres pacientes
resignadas aos nossos problemas
Não é tempo para nós
e talvez nunca será
Non e’ tempo per noi
che non vestiamo come voi
Non ridiamo, non piangiamo,
non amiamo come voi
Forse ingenui o testardi
Poco furbi casomai
Non e’ tempo per noi
e forse non lo sara’ mai
Não é tempo para nós
que não nos vestimos como vocês
Não rimos, não choramos,
não amamos como vocês
Talvez ingênuos ou teimosos
Pouco espertos talvez
Não é tempo para nós
e talvez nunca será

Saudações florais

Escrevo esse post do quarto de uma pousada ao lado do Bach Centre, na pequena localidade de Brightwell-cum-Sotwell, Oxfordshire, Inglaterra. O centro também é conhecido como Mount Vernon: trata-se da casa onde Dr. Edward Bach fabricava e receitava seus famosos remédios florais na década de 30. Estou aqui por dois dias para fazer a primeira etapa do curso de formação em florais, que é oferecido em três fases algumas vezes por ano, em várias localidades do mundo credenciadas pelo centro.

A fase 1 é uma introdução bem básica aos modos de preparar, auto-aplicar e/ou receitar os 38 remédios desenvolvidos pelo Dr. Bach, com um pouco de teoria e bastante prática. A turma da qual estou participando tem cerca de 12 pessoas, vindas das mais diversas partes do mundo (como Inglaterra, Escócia, Hungria, México, Chile, Itália); todas mulheres na faixa etária de 25 a 45 anos. A maioria parece ter vindo com a intenção de cumprir todas as fases e se tornar terapeuta oficial do sistema Bach; menos pessoas inscreveram-se para conhecer mais de perto a filosofia e as essências sem planos muito definidos do que fazer com o conhecimento depois – meu caso.

Estou bem feliz de estar aqui. Um dos primeiros brinquedos que vagamente me lembro de ter desejado quando criança era um kit da Estrela chamado Alquimia, em que se misturavam substâncias simples para chegar a compostos mais complexos. Por algum motivo, aquilo me encantava, e tendo tido hoje a oportunidade de preparar uma solução sob medida para as minhas próprias dificuldades emocionais, fui remetida diretamente àquela gostosa sensação de fascínio pelo preparo alquímico.

Já quando adolescente, minha dúvida para o vestibular por um bom tempo foi entre psicologia e agronomia: seria mais legal estudar pessoas ou plantas? Por esses e outros motivos, voltar a ter contato mais próximo com o mundo botânico tem sido ao mesmo tempo lúdico, significativo e reconfortante.

Devo apenas dizer, sob o risco de estar sendo precipitada, que mesmo admirando e acreditando nos princípios curativos das plantas e das flores, o pouco que aprendi hoje me fez pensar num aspecto da utilização dos florais que, confesso, me incomodou um pouco: o risco de alguém se tornar altamente floral-dependente, de uma forma desengajada do processo de auto-conhecimento. Em alguns casos parece acontecer uma transferência da responsabilidade pelo crescimento pessoal para a garrafinha da solução, o que no longo prazo não surtiria efeitos sustentáveis. Notei isso através de alguns relatos, por exemplo, de pessoas dizendo que há muitos anos não saem de casa sem determinadas garrafinhas na bolsa, ou que têm feito uso crônico e intensivo dos florais para as situações mais corriqueiras da vida.

Quero crer que esse é um risco que o curso aborda em algum ponto da formação, e que pode ser trabalhado e evitado por um terapeuta responsável. O sistema preza pela simplicidade, o que é bom e faz sentido porque permite o seu amplo alcance. Mas para algumas pessoas isso parece significar uma licença para lidar com problemas emocionais complexos através de soluções mágicas, negligenciando as indispensáveis doses de auto análise que esse tipo de esforço requer.

Independente disso, a experiência como um todo está sendo ótima. O curso em si é pessoalmente e profissionalmente enriquecedor, e está sendo bem legal realizá-lo na atmosfera da pequena casa e do singelo jardim onde o sistema foi concebido e consolidado. Parte das matrizes dos remédios é fabricada nesse local até hoje, colhendo-se as flores do jardim nas devidas estações e preparando as matrizes à moda original. A beleza bucólica do lugar é encantadora, e as energias das plantas e flores são altamente revigorantes – especialmente num dia fresco e ensolarado de primavera como foi o de hoje.

Abraços, com a energia das flores, para os amigos e leitores do blog.

water violet bach remedy

Dois poemas

Seguem duas belas mensagens filosóficas, poéticas e espiritualistas sobre a paradoxal condição humana. Ambas foram extraídas do livro De Alma para Alma, de autoria do filósofo e educador brasileiro Huberto Rohden.

Entre dois mundos

(Huberto Rohden)

Estendera o Eterno, de um a outro extremo, a sua potência creadora – desde os puros espíritos até a matéria bruta.
Desde a mais alta vida intelectual – até à mais profunda negação do intelecto.
Entretanto, não atingira ainda o Eterno o extremo limite de sua divina audácia…
Restava-lhe ainda o mais temerário e paradoxal de todos os atos – a união do espírito e da matéria.
Seria possível fundir em um único ser a luz dos puros espíritos – e a noite da matéria inerte?…
Reduzir a uma síntese essas duas antíteses?
“E disse o Senhor: Façamos o homem – e fez Deus, da substância da terra, um corpo e inspirou-lhe na face o espírito vivente”…
E ergueu-se, no meio da natureza virgem, esse paradoxo ambulante, esse enigma anônimo, essa indefinível esfinge, semi-animal e semi-anjo – o homem…
Quando os espíritos celestes viram o homem, exultaram sobre a sua grandeza e choraram sobre a sua miséria…
Cristalizaram-se, na alma humana, essas centelhas de júbilo e essas lágrimas de dor – e formaram um mar imenso de doce amargura e inextinguível nostalgia…
Principiou, então, neste mundo visível, a luta entre a luz e as trevas – entre o bem e o mal…
A história da humanidade…
Têm os puros espíritos sua pátria – lá em cima…
Tem a matéria bruta sua sede – cá embaixo…
Mas onde está a pátria do espírito-matéria?…
Na terra? – protesta o espírito!
No céu? – protesta a matéria!
Entre o céu e a terra? – mas lá se erguem os braços duma cruz!
É por isso mesmo que o mais humano e mais divino dos homens expirou entre o céu e a terra – na sua pátria cruciforme…
“Não havia lugar para ele” – em outra parte…
E é por isso mesmo que os melhores dentre os homens são sempre crucificados…
Não os compreende a terra – nem os acolheu ainda o céu…
E assim, entre o céu e a terra, vive o homem esta vida dilacerada de angústias e paradoxos.
Sem pátria certa…
Em perene exílio…
Oscilando entre a matéria e o espírito…
Lutando…
Sofrendo…
Amando…
Até que a matéria volte à matéria…
E o espírito ao Espírito…
Sintetizando dois mundos…
Em Deus…

Heróis – de papelão

(Huberto Rohden)

Anteontem…
Sentia-me eu possuído dum grande idealismo.
Indômita coragem enchia-me o coração.
Estava disposto a sofrer por ti, Senhor, afrontas e ludíbrios em praça pública.
Invejava os mártires do Coliseu, dilacerados pelos leões da Mesopotâmia e pelas panteras da Numídia.
Suspirava pela sorte dos heróis que, entre hinos e sorrisos, subiam às fogueiras ou se estendiam nas rodas de suplício.
Quem me dera sair pelo mundo afora a pregar o Evangelho a povos bárbaros!
Tão grande era o idealismo e a sede de sofrimento que me ardia na alma, que insípidas e vergonhosas me pareciam essas vinte e quatro horas da vida cotidiana.
Assim foi anteontem…

Ontem…
Quando acordei, chamei a empregada para me trazer o café e o jornal.
E ela mos trouxe, mas não me disse “bom dia” – e encheu-se de ira o coração…
E por que não deu o jornal o meu nome entre os benfeitores do Abrigo Cristo Redentor? Não sabe que contribuí com dez milhões de cruzeiros?
E por que me apelida essa revista ilustrada de “senhor”, quando eu sou “doutor”?
O cigarro que mandei comprar era de qualidade inferior – e transbordou-me a bílis, enchendo-me de fel as vias do sangue.
Ao sair de casa, verifiquei que faltava um botão da camisa – e taxei de relaxada a companheira da minha vida.
Ao tomar o ônibus, encontrei-o superlotado – e mandei ao inferno a empresa com todos os seus funcionários.
Assim foi ontem…

Hoje…
Fui intimado a comparecer às barras do tribunal…
Sobre a cátedra de juiz estava sentada a Consciência, calma, serena, austera.
E eu, no banco dos réus, humilde, sincero, confuso…
E, abrindo os lábios, disse a Consciência, inexorável:
“Tu, que sonhas com os feitos heroicos – sucumbes a uma ninharia?
Tu, que queres lutar com leões e panteras – capitulas em face de uma mosca?
Tu, disposto a derramar o sangue por amor do Cristo – ignoras o á-bê-cê da caridade?…”
Eu, de olhos baixos e coração pequenino, ouvia, calado…
“Não exijo de ti” – prosseguiu a Consciência – “que tomes entre dois dedos o Corcovado e o jogues às águas da Guanabara – mas exijo que seja senhor dos teus nervos, e não te reduza a escravo dos teus escravos.
Exijo de ti o menor e o maior de todos os sacrifícios: que suportes, sereno, calmo, amável, as vinte e quatro horas de cada dia…”

anjo caído

A árvore

Num certo fim de verão, uma frondosa árvore deixou cair no chão um de seus saborosos frutos maduros. No fruto havia sementes que, imperceptíveis ao observador externo, pulsavam de vida no seu interior. O chão absorveu com gosto a doçura daquela fruta, e acolheu no seu seio aquecido as pequenas e frágeis sementes, protegendo-as das estações frias que vinham pela frente.

Perguntando-se sobre o paradeiro do seu fruto caído, a árvore viu chegar o outono, e ainda que um pouco temerosa, seguiu a orientação da natureza, deixando-se despir de todas as suas folhas. Mal sabia ela que aquelas suas folhas perdidas adubariam o terreno que abrigava sua filhote, servindo de alimento orgânico para o seu crescimento.

Veio o inverno, e a árvore, completamente desnuda, viu acumular em seus galhos ressecados grossas camadas de neve branca, que a deixavam linda, mas cuja temperatura nem sempre era fácil de suportar. Atenta aos chamados da natureza, porém, a árvore ali permaneceu, serena, procurando relevar o frio e apreciar a beleza das alvas paisagens ao seu redor.

Os primeiros ventos cálidos da primavera sopraram, e para a surpresa da árvore, ao seu lado, no chão, despontava um pedacinho de verde brilhante, que se parecia com ela mesma, rejuvenescida. Era a sua filhote, o ex-fruto maduro que a generosidade da natureza agora transformara em um novo ser. Que alegria!

Transbordando de gratidão, percebeu que botões verdes recomeçaram a brotar também nela mesma, tornando-a novamente colorida e produtiva. Sabia que havia ganhado naquela pequena companheira um grande presente, pois dividiria com ela, de perto, todas as belezas e desafios das futuras estações, tantas quantas a natureza permitisse que apreciassem juntas.

Sentindo-se abençoada, a árvore relfetiu que para merecer tal presente, a única coisa que lhe tinha sido pedida foi que se despojasse de tudo que imaginava seu – frutos, folhas – e que os entregasse aos ritmos da natureza. Fora-lhe pedido que confiasse no poder maior que girava os ciclos da vida, e que escapava à sua limitada compreensão individual.

A árvore compreendeu que somente com sua plena entrega puderam ser abertos os caminhos para a maravilha daquelas novas alegrias, daqueles novos encontros e daquela nova vida.

Árvore frutífera