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Uma prece ao Todo que está em Tudo

(Versão da oração “Pai-Nosso” inspirada nos ensinamentos de Omraam Mikhaël Aïvanhov)

Ó Criador do Cosmos, Todo que está em tudo,

Que nossas mentes sejam iluminadas para bendizer o Teu nome.

Que Teu Amor se ancore para sempre em nossos corações.

Que nossas pequenas vontades curvem-se perante os desígnios do Céu. Que sejamos veículos do Teu reino de harmonia!

Nutre-nos hoje e sempre com o alimento para o corpo e para a alma. Banha nosso espírito com o elixir da Vida eterna.

Liberta-nos de nossa ignorância na medida em que soubermos libertar quem nos feriu.

Ajuda-nos a crescer com cada prova no caminho.

Guia-nos e fortalece-nos eternamente nos auspícios da Luz.

Amém.

The Christ

O ponto no centro do círculo

Aqui e agora, de olhos fechados, sente o teu centro, a consciência que realmente és.

Percebe: todos os eventos e pessoas em tua vida são como sonhos. Uns mais distantes, outros mais próximos; a alguns te afeiçoas mais, a outros, menos. Mas todos são parte de um grande sonho: o sonho de Deus.

Tu, o Ser real, és partícula dessa criação. Vês o sol, fonte de luz? És centelha deste mesmo sol. És idêntico a ele.

Tu, consciência, és o ponto central ao redor do qual giram os elementos periféricos de tua existência.

Fica nesse ponto o tanto quanto possível. Sê esse ponto. Pensa, sente e age desde ele.

Aprecia e agradece a experiência que te traz a periferia da existência, mas não te identifiques com ela.

Sonha com alegria e ama, mas lembra sempre: és o Ser que, para além de todo sonho, está acordado.

Tu és o ponto brilhante no centro do círculo do teu viver.

Krishna star

Equilibrando as polaridades

Sombra e luz, animal e divino, raso e profundo, falso e veraz. Todo traço de caráter humano pode pender para o seu pólo negativo ou positivo. O bem e o mal habitam em nós, e cabe a cada um vigiar o próprio caminhar para saber se está melhorando e evoluindo como pessoa ou se está, ao contrário, rebaixando a sua condição e prejudicando os outros.

É importante compreender isto porque uma das armadilhas mais comuns em que se pode cair é orgulhar-se de algo que constitui um defeito, como se ele fosse grande vantagem evolutiva. Facilmente afeiçoamo-nos a um traço negativo de nosso caráter e recusamo-nos a reconhecê-lo como derrogatório, por puro apego a uma determinada auto imagem que já não corresponde ao que a vida e o futuro nos conclamam a ser.

Além disso, possuímos uma tendência natural a sermos indulgentes com os próprios defeitos e intransigentes com os dos outros. Tudo o que somos ou fazemos de errado perante os tribunais da consciência é, para nós, prontamente justificável, enquanto que o menor deslize do outro é logo tido como carta-branca para trucidá-lo.

Permanecer inerte nos estados negativos aos quais se está apegado pode prorrogar desnecessariamente a evolução pessoal. Sempre chegará o momento em que o equilíbrio da polaridade deverá ser acertado. Isso pode acontecer através da livre decisão de mudar – que é indolor ou envolve a dor do ego apenas -, ou através de aflições aparentemente externas, mas que no fundo foram co-criadas pela consciência individual e pelo processo evolutivo ao qual ela está inexoravelmente submetida.

O estado ideal de equilíbrio pessoal é aquele em que nossos traços negativos não são exatamente aniquilados, o que é impossível na atual condição humana, mas sim forçados a se manifestar na sua polaridade positiva. A esse processo chamamos alquimia espiritual.

Ela só pode ser conseguida a partir do poder de vontade de cada um. Havendo a determinação íntima de melhorar a qualidade dos nossos pensamentos, sentimentos e ações, temos à disposição um sem número de técnicas e ferramentas para nos ajudar na empreitada. Devemos perceber com quais abordagens sentimos maior ressonância e investir nelas como instrumentos úteis na jornada de auto conhecimento.

Um dos sistemas que tem rendido bons resultados em minha jornada pessoal é o dos Florais de Bach. Tenho estudado-os e usado-os de forma mais atenta há cerca de três anos, e venho testemunhando consistentemente seus sutis mas notáveis efeitos equilibradores.

Utilizando os florais tenho percebido o quanto podemos estar inadvertidamente apegados a certos traços negativos da personalidade e relutando em querer transmutá-los, mesmo quando claramente causam sofrimento indevido a nós ou aos outros. Esse apego pode ser causado por orgulho (distorção auto defensiva), medo de deixar de ser quem somos (medo das boas transformações) ou algum outro tipo de ponto cego consciencial.

Detectar a poeira acumulada nos esconderijos da alma é uma tarefa bastante difícil, e por isso os instrumentos de auto ajuda que sentimos repercutir bem em nós devem ser usados com determinação, entrega e seriedade. É a nossa própria evolução que está em jogo. Nosso ego imporá toda sorte de resistências, mas por fim, atravessar a ponte em direção a versões melhores de nós mesmos é necessário.

O Dr. Bach, médico Inglês que descobriu as essências florais na década de 1930, escreveu que há dois tipos básicos de erro humano causadores de desequilíbrio, sofrimento e doenças do corpo e da alma. O primeiro é agir em discordância dos ditames de nosso eu superior – nosso lado luminoso, signatário da paz e do amor divinos. O segundo é cometer crimes contra a Unidade de todas as coisas.

Os dois tipos de erro são parâmetros úteis para avaliarmos se um determinado traço de caráter nosso se encontra na polaridade negativa – ocasião em que gera desequilíbrio pessoal ou dano a outro – ou se está se manifestando na sua polaridade positiva, quando harmoniza tanto o nosso próprio ser quanto o nosso entorno.

O processo de melhorar a si envolve necessariamente uma “operação pente fino” no caráter e nas emoções. Nela, volta e meia iremos nos deparar com pontos nevrálgicos do eu inferior, e nesse momento a presença de uma ajuda qualificada e de uma vontade corajosa podem fazer toda a diferença na sustentabilidade das transformações positivas. Tocar um ponto nevrálgico do eu inferior é como tentar domar um touro à unha, e muitos serão os convites internos e externos a deixar de lado tal esforço.

A equilibração pessoal deve ser um esforço contínuo, pois a vida é dinâmica. Superada uma fraqueza, outra surgirá à frente por força das novas circunstâncias, ou porque o traço negativo então superado era apenas uma camada recobrindo outra mais profunda.

O caminho evolutivo é longo, mas sua infinitude não deve desanimar ninguém, pois a cada passo dado à frente a vida se torna um pouco mais harmônica, leve e gostosa de se viver.

butterfly_flower

Nascer para o novo é morrer para o velho.

Liberdade e compromisso

Tradução adaptada do original em Inglês

Escutei uma conversa outro dia no café de uma universidade que me deixou um pouco mais esperançosa quanto à humanidade. Alguns jovens estudantes estavam sentados em círculo, em sofás e cadeiras confortáveis, degustando seus lattes e capuccinos, quando um deles se virou para o outro e perguntou quais eram as suas ideias a respeito de ‘ser livre’ e de se ‘fazer o que quiser’. Mais especificamente, o objeto de discussão era a liberdade de não comparecer às aulas que os estudantes não achassem particularmente interessantes.

A resposta que se seguiu me surpreendeu em função da sua maturidade e perspicácia, algo que eu não teria automaticamente esperado de um jovem rapaz de vinte e poucos anos. Mas então fui lembrada de que existem por aí pessoas excepcionais, com uma atitude mais madura do que a média para a sua idade perante a vida. Eis o que ele respondeu:

“Penso que como estudante você é livre para fazer o que quiser, mas que com os seus atos vêm as consequências.” Ele prosseguiu, enquanto todos escutavam atentamente: “E você precisa estar preparado para aceitar as mesmas, como por exemplo, reprovar na matéria. Desde que você esteja disposto a aceitar as consequências, você é livre para fazer o que quiser. Com a liberdade vem a responsabilidade”.

À sua fala seguiram-se sobriedade e reflexão silenciosa no grupo. Havia claramente sabedoria e verdade naquela afirmação.

Com frequência pensamos que liberdade é fazer o que quer que vem à mente, seguir nossos impulsos e saciar nossas vontades. O problema é que nunca parecemos tão bem dispostos para aceitar a responsabilidade pelas consequências trazidas por essa suposta liberdade. Como somos parte de um mecanismo maior, nossas ações sempre irão desencadear reações – este, aliás, é precisamente o sentido do conceito espiritual de carma.

Na realidade, somos muito inclinados a dar livre vazão às nossas causas descuidadas, ao mesmo tempo em que tendemos a esquecer e recusar a responsabilidade pelas reações desencadeadas.

As observações daquele jovem garoto imediatamente trouxeram à tona esses pensamentos sobre carma, e me fizeram lembrar de um dos livros mais iluminadores que já li sobre o tema da liberdade, de um pensador espiritual que admiro profundamente, Omraam Mikhaël Aïvanhov.

Sua ideia central é a de que não existe algo como liberdade absoluta para a humanidade – ela é reservada ao Criador apenas. Quando alguém está livre de certas circunstâncias, está comprometido com outras. A verdadeira questão, assim, é escolher sabiamente de quais amarras libertar-se e a quais prender-se. Aqui está como ele lindamente coloca isto:

Você deve se libertar, é verdade, mas para limitar a si mesmo. Você deve se libertar internamente de todos os seus instintos e tendências baixas para se amarrar a algo mais elevado, para trabalhar para a coletividade. Este, para mim, é o verdadeiro significado da vida e da liberdade. A felicidade e a alegria consistem em libertar a si mesmo, não em se eximir de suas obrigações, mas em libertar a si mesmo internamente de todas as próprias fraquezas para comprometer-se ainda mais integralmente a ajudar outros. Sim, se você quer ser internamente livre, você deve começar por limitar a si mesmo e sacrificar certas coisas para comprometer-se mais plenamente.” (Aïvanhov, in: Freedom, the Spirit Triumphant)

Libertar-nos de nossas fraquezas e vontades egoístas para nos comprometermos mais plenamente com o auto crescimento e a melhora coletiva: eis uma perspectiva surpreendentemente verdadeira e generosa acerca do que a liberdade realmente é.

Celtic cross of commitment

Image: Celtic Cross of Commitment, by Wild Goose Studio

Palavras são toques na alma

Algumas passagens da infância marcam a nossa memória sem que saibamos exatamente o por quê.

Entre as minhas está um momento vivido em torno dos dez anos de idade, época em que estudava com gosto a bíblia e os ensinamentos cristãos, que permearam minha formação de base num colégio franciscano do interior de Santa Catarina.

Eu estava sentada no banco da igreja católica ouvindo, como de praxe semanal, a explicação do padre sobre o evangelho lido naquele dia, que incluía o seguinte trecho dos provérbios (12:18):

“Há alguns que falam como que espada penetrante, mas a língua dos sábios é saúde.”

Ainda posso me ver sentada no banco comprido de mogno, com a roupinha comportada e o cabelo domado por uma tiara, bem atenta àquelas palavras que se gravavam na alma como um insight mágico. ‘Sim’, pensei, ‘isso é tão verdadeiro! Como seria bom se todos tivessem consciência disso…’

Tantos anos mais tarde, afastada da igreja desde os catorze ou quinze, a metáfora da língua como espada ou como saúde permanece gravada profundamente no meu coração. É, sem dúvida, uma das verdades espirituais que mais amo – o que, claro, não quer dizer que nunca tenha vacilado quanto à sua consecução.

A luz deste provérbio está sempre no background da minha consciência, e por isso uma das coisas que mais me entristecem é cometer – ou ver cometida – a violência através das palavras ou das intenções.

Sim, as intenções, os sentimentos que animam o dizer, são o que de fato valem, pois o fel do destempero de alguém transparece muito claramente mesmo quando profere as mais belas e corretas palavras.

O mais cristalino discernimento será maculado se não for comunicado desde as águas serenas do coração. A palavra nunca cura quando é movida por intenção ácida ou ferina.

A palavra-saúde é aquela que nasce de intenção tão doce quanto a da mãe que se dirige à criança amada. É qualidade de natureza feminina, mas que precisa ser ativamente desenvolvida por todos, homens e mulheres, na alquimia pessoal de se tornar alguém melhor.

Palavras são toques na alma. É sempre bom lembrar que almas são partículas de Deus extremamente sensíveis às durezas e às delicadezas de trato, e que os efeitos de nossas intenções e palavras são de nossa inteira responsabilidade.

Nesses tempos de comunicação tão banalizada e inconsequente, penso no quão valoroso seria se sacralizássemos um pouco mais as intenções e os conteúdos que propagamos no mundo.

Certamente viveríamos em um ambiente mental menos ruidoso, menos conflitivo e menos doloroso, ao passo em que poderíamos continuar afinando, de forma mais harmoniosa, nossas aparentes diferenças.

Pink rose reflection

Inteligência e Sabedoria

Muito se fala hoje sobre a diferença entre inteligência e sabedoria. Enquanto a primeira é uma faculdade fria e árida do intelecto, a segunda é uma percepção mais ampla, rica e profunda da realidade, aquecida pelo amor e sustentada por uma concepção espiritual da vida.

A sabedoria é uma faculdade do espírito; é superior à inteligência e pode dela fazer uso. Já a inteligência é dotada da neutralidade de qualquer instrumento: pode ser colocada a serviço de propósitos deletérios, inócuos, ou afins à sabedoria.

Muito além de compreender a diferença entre ambas, experimentá-la na carne foi um aprendizado chave na minha atual vida.

Cresci estimulada a ter uma auto imagem de ser alguém inteligente. Os fundamentos emocionais sólidos e os incentivos generosos da família, professores e amigos me levaram a desenvolver uma auto estima saudável nesse ponto, ajudando-me a ser uma criança curiosa, interessada em ler, estudar e analisar com profundidade os acontecimentos ao meu redor.

Até certo ponto na vida o desenvolvimento da inteligência conviveu pacificamente com o coração generoso e alegre que é natural de toda criança. Aos poucos porém, ao longo do processo de solidificação do ego adulto, fui erroneamente me identificando com valores do mundo. O resultado foi que a alegria perdeu espaço para uma ansiedade pesarosa, e a generosidade real foi sendo suplantada por desejos que, embora pudessem ser altruístas na estética, eram no fundo de natureza individualista.

Uma ilusão central era a de que seria possível, através do desenvolvimento e direcionamento da inteligência por si mesma, desempenhar um papel relevante nas transformações sociais positivas. Havia um desejo de fazer uma diferença positiva no mundo, mas ele era rebaixado pela expectativa implícita de fazê-lo transitando no território do reconhecimento humano.

O consistente bom desempenho escolar, a facilidade para passar em concursos e o acúmulo de títulos humanos todos alimentavam em mim a ilusão de estar trilhando um caminho real de progresso pessoal. O problema foi que ao longo desse caminho eu fui deixando de lado, por covardia perante a pressão do meio e por ignorar as consequências dessa atitude, as práticas e estudos espirituais que desde criança haviam sido parte integrante e natural da minha vida.

Ao cabo de alguns anos de conquistas acadêmicas e profissionais a vida quis me mostrar, contrastando um auge externo na carreira com o ponto mais baixo no equilíbrio pessoal, o quanto eu havia errado em recobrir o espírito com a areia da quinquilharia emocional e mental acumulada em quase trinta anos de existência.

Ao serrar minha ligação com o mundo espiritual eu adentrava a perigosa zona da ilusão materialista sem o amparo da sustentação mais vital de todas, a espiritualidade. A inteligência árida passou a coexistir com um coração pesado e um corpo desvitalizado. Eu me sentia frágil, vazia e sem esperança de recuperar a alegria de viver.

Tempos difíceis foram esses de escuridão auto infligida. Tempos de educação da alma, porém. Por sorte ou algum crédito cármico que desconheço, foi justamente nesse período que pude reencontrar, através de situações, experiências, sensações, ideias, sentimentos e pessoas, a realidade espiritual ainda ardendo em brasa dentro do meu coração.

A força deste amparo reergueu de forma admirável minha vitalidade, alegria e clareza de propósito. Foi como um segundo nascimento.

As verdades espirituais se inscrevem no campo da sabedoria e é somente ela, aliada ao amor, que pode dar uma verdadeira sustentação perante as questões mais importantes da existência. A inteligência tem um valor menor e relativo. Ela não garante segurança emocional, robustez existencial, qualidade moral, atitude correta e muito menos um sentido para a vida.

Perceber a diferença entre inteligência e sabedoria foi a chave que recuperou minha conexão com as coisas do espírito, que voltaram a guiar meus passos desde então.

Hoje sinto que os desdobramentos desse insight foram muito além do que eu poderia imaginar. Sinto-me mais forte para encarar as dificuldades a que todos estamos sujeitos e seguir melhorando. Estou também mais consciente em relação ao quanto ainda tenho a aprender e praticar. Busco integrar a inteligência a um conjunto maior de valores, e não mais aos julgamentos do ego.

Acima de tudo sou muito mais feliz, por saber e sentir que a estrada da evolução, embora às vezes sinuosa, nos conduz sempre a realidades cada vez mais admiráveis.

We are flowers circling round the sun.
We are flowers circling round the sun.

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“Certa vez, havia um intelectual brilhante que contratou um homem para levá-lo ao mar no seu barco a remo.

Ele perguntou ao barqueiro: ‘Meu bom homem, você sabe alguma coisa de astronomia?’ ‘Não.’, respondeu o barqueiro. ‘Que pena,’ disse intelectual; ‘Você está perdendo tanto; um quarto da sua vida está desperdiçado. Mas, talvez você saiba alguma coisa de física?’’Nem um pouco, Sua Excelência!’ disse o barqueiro. ‘Oh, meu pobre homem, dois quartos da sua vida estão perdidos!’ lamentou o erudito; ‘Mas talvez você saiba bastante de química?’ ‘O que é isso?’ disse o barqueiro; ‘Nunca ouvi falar!’ ‘Que ignorância,’ lamentou o estudioso; ‘Três quartos da sua vida desperdiçados!’

O pequeno barco foi mais e mais mar adentro e, dentro em pouco, uma tempestade violenta estourou e as ondas ameaçavam engolfá-los.

‘Sua Excelência,’ gritou o barqueiro; ‘Você sabe nadar?’ ‘Não, não sei.’ respondeu o intelectual. ‘Bem, Senhor,’ exclamou o barqueiro; ‘São quatro quartos da sua vida desperdiçados!’

Vocês veem? Há alguns tipos de conhecimento que não são muito úteis. Não são nada mais do que decorações. Ah, com certeza, podem ser usados para ganhar dinheiro, mas se uma tempestade vier vocês logo verão se conseguem ajudá-los a nadar! A vida é um oceano, como vocês muito bem sabem, e nesse oceano existem alguns tipos de conhecimento que são muito mais úteis que outros: o conhecimento que pode ajudar um homem a viver.

Que direção dar à sua vida; qual alto ideal escolher; como transformar os pensamentos e sentimentos que nos perturbam; como interpretar os eventos acontecendo ao nosso redor; como verificar nossas relações com o macrocosmo; como comer, dormir, lavar-se e respirar… como amar: estas são as coisas que precisamos conhecer.”

~ Omraam Mïkhael Aïvanhov in: The Second Birth, Love, Wisdom, Truth
Postado originalmente e traduzido de Journey with Omraam

As primeiras Magnólias

É verdade que a primeira árvore florida avistei cedo neste inverno Londrino, ali nos últimos dia de Dezembro. Fiquei surpresa com a precocidade daquela cerejeira; depois pensei que vinha sendo mesmo um inverno ameno.

Para as plantas, as estações não se marcam no calendário; acontecem no sentir. E para elas, apesar dos dias frios de céu cinzento persistente, já vivemos os primórdios da primavera.

Sim, estações do ano são parte do aspecto fenomênico da realidade, e todos os anos se repetem sem grandes novidades. Em tese não haveria nada a se comemorar ou lamentar com a sua passagem. Mas desde o ponto de vista de quem experimenta a vida fenomênica na carne, as renovações sazonais provocam mudanças sensíveis e coletivas no humor e no ritmo da vida.

A primavera traz consigo por excelência a esperança da vida que recomeça.

É a estação favorita de muitos. Pessoalmente não consigo decidir, pois vejo belezas e prazeres próprios em cada época do ano. Talvez a que mais me enfada é o verão, mas nos últimos anos a coisa tem mudado de figura. Viver em terras oceânicas temperadas faz com que se aprenda a apreciar de forma especial a presença fulgurante do sol.

Além dos dias mais longos, as pequenas flores salpicando aqui e ali e o crescendo dos pássaros nos parques já dão o tom primaveril nos ares da cidade. As cores, os sons e a luz desta linda estação operam um verdadeiro milagre, reanimando e rejuvenescendo os corações abatidos pela aridez do inverno.

É cedo no calendário dos homens, mas a natureza avisa e os corações observadores sabem: por aqui, as bênçãos antecipadas da primavera já dão o ar de sua graça.

As primeiras flores de Magnólia
As primeiras flores de Magnólia

Um caso de amor com as coisas da Índia

Era para ser um simples post sobre as minhas recentes incursões em terapia Ayurveda. Mas percebo agora que o poderoso efeito que esse tratamento tem tido sobre mim é apenas um elo de uma cadeia que, nessa vida, se iniciou há alguns anos, mais acentuadamente nos últimos três.

Já escrevi por várias vezes sobre o quanto aprecio morar em um bairro hindu de Londres. Poderia dizer em essência que aqui me sinto cotidianamente estimulada pelos símbolos, cheiros, práticas, estética e outras manifestações culturais inscritas nessa tradição. Elas me remetem quase à revelia de minha vontade ao intangível perfume espiritual da Índia, dispensando-me de experimentar os aspectos mais crus que uma viagem física à Índia milenar, material, moderna e humana traria.

Não que a essência espiritual resida de fato em alguma localização geográfica. A espiritualidade mora e vive nos corações que a carregam pelo mundo afora, e aqui no bairro calha de haver muitos: alguns com o empurrão do condicionamento cultural, outros independentemente dele.

Não foi intencional a escolha dessa região para morar. Uma sincronicidade acabou mudando o plano original de nos assentarmos num bairro do sul da cidade, que conhecíamos melhor. E de 2013 pra cá muitos foram os insights e aprendizados sobre essa cultura pela qual hoje me declaro apaixonada.

O interesse começou antes, com sensações e descobertas pontuais. Lembro-me de uma ocasião em particular, numa época em que as coisas da Índia não faziam ainda parte do meu universo mais ativo de interesses. Vi, no lampejo do olhar de uma pessoa, alguma coisa que claramente transcendia em muito a dimensão mais grossa da materialidade. Impressionada, um pensamento me invadiu: “esse é o olhar de um iogue”.

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Dissipado tal pensamento, voltei à mente analítica normal e perguntei a mim mesma: mas você que não sabe nada de Hinduísmo, o que acha que sabe a respeito de iogues? Não puxei muito o fio da meada na época, mas a transcendentalidade do tal olhar ficou profundamente gravada na minha alma, como uma pergunta que, apesar de oculta, continua a ansiar por resposta.

Segui estudando ocasionalmente elementos da espiritualidade hindu, que apareciam em meio a outros temas com os quais me identificava mais. Mas tudo ainda parecia muito hermético e difícil de entender. A complexidade do assunto parecia maior do que a minha capacidade de compreendê-lo.

O problema era que vinha tentando entender com a mente. O que quebrou a barreira e me conquistou definitivamente para o universo do Hinduísmo foi a experiência de me sentir acolhida, amparada, guiada e amada por pessoas e seres ressoantes a essa vibração.

Das cuidadoras da escolinha que minha filha começou a frequentar em pleno festival do Navratri (em homenagem à Mãe Divina), quase todas Indianas e muito queridas, passando pelos comerciantes e prestadores de serviço do bairro, sempre muito solícitos, pelo dono super gente boa do apartamento que alugamos e vizinhos simpáticos, até mestres espirituais que admiro, os ventos espirituais da Índia me envolveram de forma irresistível e irreversível.

Meu interesse e envolvimento tem aumentado ainda mais recentemente, desde que comecei a experimentar sessões semanais de massagem terapêutica Ayurvédica. Vinha, em Dezembro passado, sentindo uma fadiga extraordinária, à época sem explicação física plausível, o que me levou a considerar esse tratamento como uma alternativa para melhorar o meu estado.

Cheguei sem saber o que esperar, totalmente desprovida de informação. Sabia apenas que se tratava de medicina tradicional Indiana. Na conversa para o diagnóstico e prescrição já gostei do que escutei; o Ayurveda é um sistema milenar que baseia sua prática na ideia dos elementos da natureza e do seu equilíbrio na composição energética do corpo. A massagem é feita com o estímulo de pontos energéticos vitais usando óleos herbais adequados ao desequilíbrio em questão. Terminada a consulta com a médica, segui os passos da senhora que seria a minha massagista em direção à sua sala de massagens.

A experiência é difícil de descrever. Talvez por eu ser uma pessoa bastante mental, a massagem daquela senhora, que começa com uma espécie de aquecimento no ponto do chakra frontal, parecia ir quebrando e derretendo várias camadas endurecidas e esquecidas no meu corpo e memória.

A sala, toda em madeira avermelhada escura, tem uma pequena vela e algumas luzes douradas no teto, que dão a iluminação mínima necessária para ela trabalhar. A música, sempre hindu, é deixada em volume moderadamente alto, o que parece fortalecer o seu poder curativo. Já no meu primeiro dia lá dentro tocou uma coletânea de mantras poderosos entoados por um coro de crianças. O cheiro é fortíssimo, uma mistura de incenso com temperos – nem todos apreciam; eu adoro. O óleo é muito quente, quase chega a queimar. O processo é finalizado com uma massagem com um saquinho de ervas embebidas em óleo, lembrando uma pajelança. Nas últimas duas sessões, percebi que minha querida massagista começou fazer uma espécie de oração também. Em outro idioma – provavelmente Gujarat ou Sânscrito – e muito discretamente. Fiquei sem jeito de perguntar, mas sim, ela está incluindo agora uma espécie de vocalização curativa. Meu caso deve ser brabo… risos.

Krishna_flute_animated

Já me sinto quase totalmente recuperada do cansaço – o que também atribuo a ter iniciado uma suplementação alimentar com ferro e vitaminas. Mas o maior ganho mesmo tem sido a chance de deixar que o calor do óleo derreta os vestígios de bloqueios do corpo, emoções e mente. De me deixar transportar, pela pungência daquele cheiro, para percepções novas e memórias que eu desconhecia, e que estão mexendo muito com meu coração. De viajar nas vibrações daquelas músicas e de agradecer, infinita e profundamente, por estar tendo acesso a tantas coisas boas assim.

Se bem me conheço, esse caso de amor com as coisas da Índia não me transformará em uma pessoa fantasiosa nem fanática com nada. Há outras atmosferas espirituais pelas quais nutro um amor mais sedimentado – como a Celta, por exemplo – então é mais uma que vem para somar, não predominar. No mais, saio da massagem e já vou voltando à realidade comum, vivendo a vida normal, como todo mundo e sem tentar convencer ninguém de nada. Mas dentro do meu coração eu sinto aquelas pequenas vertigens que antecedem as revoluções íntimas. Ele passou a dançar em êxtase com as energias dessa atmosfera, assim como dançam os corações retratados no lindo filme abaixo (a partir do minuto 12:30):

Não sei dizer no que esse caso de amor vai dar, só sei que ele me deixa profundamente feliz. E por isso vou apreciando-o como posso, com a alegria inocente da criança, que pouco sabe e nada espera, mas tudo sente.

Love unites us, Truth sets us free

[Originally written and published in Portuguese]

Love and Truth: so many insights are contained in these simple words! To me, they summarise the essential learning of how to be human in the best sense. Because the best sense of being human is the faculty of Loving with Truth; of uniting whilst honouring freedom; being together without imprisoning.

So much can be said in this respect and so much has already been, in ways much better than I could hope to. But I can sincerely say that I understand, am provoked by and touched by this paradoxical combination: Love and Truth.

Yes, because part of me knows, in practice, what it is like to Love without Truth: hurtful attachment. And part of me knows what Truth without Love can be like: arrogant pride.

Love without Truth suffocates; Truth without Love destroys.

The combination of Love with Truth, however… is a veritable explosion of Good. A centrifugal and centripetal whirlwind at the same time. It elevates everything it touches. It generates strength and energy. It turns the world around. It makes everything grow and become better.

As an apprentice of being human in the best sense, I manage to access some Love with Truth in my most inspired moments. They never last long enough to satisfy the infinite thirst for progress. But gladly so: the path of evolution never reaches its end, and we are forever able to enjoy new landscapes along the way.

Now I understand: my essential search is for learning how to live both the Love that unites and the Truth that sets us free, in a synchronous and increasingly perennial way.

The road may be long, but the destination is fabulous. Infused with hope, the path becomes even more beautiful. And the best mantra to keep us company in this marvelous journey of self betterment is this: Love and Truth.

So be it.

True Love

Pessoas bálsamo e pessoas veneno

Poderia-se imaginar do título desse post que ele trata de dois tipos diferentes de pessoa. Mas o que eu gostaria de escrever hoje é sobre a nossa capacidade de ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Exercitando a mais pura honestidade, reconheceremos essa limitação central da nossa condição humana presente. É uma contradição que todos carregamos; o ser inferior e o ser superior em nós mesmos, a sombra e a luz, especialmente considerando-se uma mesma vida, em que melhoramos tão devagar e tão pouco.

Somos capazes de viver momentos maravilhosos, de coração transbordante e compaixão universal irrestrita, acessando neles talvez uma pequena fração da abundância de luz que habita permanentemente os corações dos grandes mestres do Amor.

Nunca demora muito, porém, para que à chuva de luz se sucedam os períodos desérticos, que são conseqüência das várias pequenas frestas que abrimos cotidianamente para os pensamentos e emoções sombrios. A carga psíquica negativa cuja entrada permitimos e que displicentemente alimentamos aumenta progressivamente até engolfar todo o nosso ser. Uma horda de seres interessados em ver nosso coração cativo dos maus pensamentos e dos maus sentimentos não demora a se aliar a essa empreitada do eu inferior para sabotar aquilo que temos de luminoso.

Somos ainda principiantes na arte da equanimidade. Ainda que no longo prazo e a despeito de nossos deméritos a lei evolutiva nos conduza sempre a melhores paragens, em nossa escala de tempo pessoal poderíamos poupar muito sofrimento próprio e alheio se fôssemos mais versados em reconhecer as artimanhas de nossa própria sombra. Ela sempre se alimenta daquilo a que assentimos por ignorância espiritual, ego ou vaidade.

Ah, como gostamos de nos acreditar melhores, mais justos, mais percebedores da realidade do que os outros, especialmente aqueles que pensam diferente de nós. Somos todos pequenos messias de nossas verdades, sempre dispostos a decepar as “ilusões alheias”, mas cegos ao tamanho desproporcional de nossos egos julgadores.

Ah, como ansiamos ser grandes em nossos pequenos microuniversos… E como ficamos ridículos quando acreditamos ter atingido o ápice da iluminação acerca de algum assunto. É sempre a partir desse momento que nos aguardam as lições mais dolorosas, aquelas que nos colocarão de volta em nosso merecido lugar evolutivo.

É por sorte que somos acompanhados por amigos visíveis e invisíveis que velam por nosso real progresso. É pelas mãos deles e delas que somos impedidos, de inúmeras formas, de levar a cabo nossas investidas de auto sabotagem.

Muitas vezes, exaustos dessa batalha interna entre nossa luz e nossa sombra e prestes a cair na tentação de ligar o piloto automático da vida medíocre, percebemos que são colocadas em nosso caminho pessoas, situações e ideias luminosas para nos impulsionar um pouco mais adiante. Assim, às grandes angústias seguem-se grandes alegrias. Aos momentos de profunda ignorância seguem-se os lampejos salvadores de lucidez.

A lucidez espiritual traz paz e contentamento, mas é muito difícil tê-la sempre presente. São esses nossos amigos que nos abrem os olhos do discernimento e a generosidade do coração. Deixados aos próprios recursos não venceríamos nossa sombra; causaríamos muitos danos a nós mesmos, e, por ação ou repercussão deletérias, aos outros também.

Felizes aqueles que sentem fazer cada vez menos sentido ventilar o próprio lado pessoa-veneno. Tudo que comunicamos com pesar, revolta, ressentimento e amargor emana correntes tóxicas, que invariavelmente voltarão a nós em algum ponto do caminho.

Não importa apenas o conteúdo do que comunicamos, mas também, e talvez até mais, a energia que vai com esse conteúdo. Quem de fato está vigilante quanto às cargas emocionais que projeta, secreta ou abertamente no mundo?

Não importa o quão justificável lhe pareça o alvo: o destino final de suas emanações sempre será você mesmo.

E assim como é certo que nosso veneno destruirá pouco a pouco o nosso próprio coração, também o bálsamo que eventualmente espalharmos com nossa presença e nossas ações, veladas ou declaradas, retornará a nós, na forma de ajuda real nas nossas horas mais difíceis.

Então, para sermos cada vez mais bálsamo e menos veneno, cabe gravar indelevelmente no coração algumas palavras:

Lucidez para conhecer as artimanhas do ego inferior e fechar inteligentemente as frestas por onde ele se alimenta e ganha força.

Amor e compreensão para recusar qualquer convite ao conflito.

Gratidão a tudo e a todos que reforçam o que há de luminoso em nós; e também a tudo e a todos que desafiam nossos bons propósitos.

Determinação para prosseguir na trilha do autoconhecimento e do domínio de si mesmo.

Harmonia e equilíbrio em todos os nossos passos.

Maat, a personificação da Verdade, do Equilíbrio e da Justiça na cosmogonia do Antigo Egito.
Maat, a personificação da Verdade, do Equilíbrio e da Justiça na cosmogonia do Antigo Egito.

Em alguns dias de rara magnanimidade, eu senti as correntes do Bem Maior atravessando o meu pequeno ser, e fiquei assombrada com a Força que a tudo regenera. Em outros dias também didaticamente inesquecíveis, eu acessei as correntes da Sombra coletiva e quase sucumbi em meio ao caos imagético, mental e emocional que me enxovalhava por dentro.

A alternância dos bons e maus estados se dá, no cotidiano, em um grau menos dramático do que nestes dias raros de intenso sentir. Mas a lição da experiência tem sido essa: somos capazes do melhor e do pior, e todos os dias nos é dada a escolha de qual tendência iremos alimentar. Quem entende isso de verdade não tolera mais em si mesmo a propensão para ser crítico do mundo, pois sabe que ao erguer um tribunal combativo estará na verdade apenas condenando a si mesmo.