As eleições, e a vida que segue

No aspecto psicológico, o término das eleições presidenciais brasileiras foi um grande alívio coletivo, porque neutralizou um pouco (não completamente) a atmosfera pesada que vinha se sustentando e crescendo nos últimos meses no país, feito nuvem escura, carregada das piores manifestações do ser humano: ódio, sarcasmo, arrogância, pedantismo, maniqueísmo, divisão, infâmia e vileza.

O alívio do término se deu tanto para votantes de Dilma quanto de Aécio. A tensão, o desgaste e o cansaço existiam em ambos os lados. O país desenvolveu uma divisão mais polarizada no campo político, ainda que continuasse havendo, sob a égide das duas candidaturas, uma diversidade tal de interesses que impedia os eleitores mais ponderados de endossá-las sem ressalvas ou preocupações.

Eu apoiei a candidatura do PSDB, por vários motivos, incluindo constatações que acumulei nos meus trajetos na academia e no serviço público, questões técnicas e econômicas, mas principalmente a percepção de que era a candidatura mais alinhada com um fortalecimento saudável das instituições, com a preservação da democracia, com a alternância do poder e com uma blindagem necessária contra ideologias divisivas fomentadas pelo atual governo (ricos x pobres, negros x brancos, mulheres x homens).
Sendo assim, fui uma das milhões de pessoas que lamentou aquele anúncio da apuração já adiantada, dando a vantagem para candidata do PT. Foi a derrota daquilo que eu e tantos outros acreditavam ser prioritário, nesse momento, para o país.

Uma semi-derrota, aliás, levando-se em conta a estreita margem de vitória e a imagem positiva com que a oposição saiu da campanha. O partido da situação, ao contrário, teve sua hegemonia e credibilidade seriamente abaladas entre setores significativos da sociedade. A candidata eleita teve, inclusive, de ajustar drasticamente o discurso logo após a eleição para assegurar alguma governabilidade e acalmar os ânimos de um Brasil ideologicamente e socioeconomicamente dividido. Somos um país afeito ao amálgama das diferenças e aos sincretismos pacíficos, mas ao longo de muitos anos temos sido martelados por um insidioso discurso de “nós contra eles”, cerne da retórica petista e de outras esquerdas, herdeiras da anacrônica tradição revolucionária sangrenta de Marx que nada de bom gerou na história do planeta.

Depois de uma ou duas horas digerindo a notícia, então, o sono trouxe o muito bem vindo renovar de perspectiva do dia seguinte. Acordei aqui no hemisfério norte já presenteada por uma manhã ensolarada de outono, que fez tudo parecer estar certo, mesmo quando minha limitada percepção insiste em enxergar as linhas tortas. Continuava achando que os eleitores de Dilma haviam feito uma má escolha para o país como um todo, mas tratei de ir cuidar da vida cotidiana. E comecei a pensar no balanço emocional que fica depois de respirar por tantos meses uma atmosfera coletiva assim densa, como eu vinha dizendo no primeiro parágrafo.

Antes da eleição, acompanhei as notícias e opiniões políticas através de jornais, blogs e twitter, procurando ler apenas análises profissionais, opiniões fundamentadas e discussões civilizadas. Nas duas semanas anteriores ao segundo turno acompanhei o assunto com mais intensidade; mais do que gostaria e até do que deveria, se tivesse quisto preservar minha saúde. Uma velha conhecida dor de estômago, companheira dos tempos em que eu me ocupava de política e ideologia de forma intensa, veio me revisitar por conta dessa porta que abri, acusando claramente o uso enviesado da intelectualidade e a co-vibração de energias de qualidade duvidosa. É muito difícil entrar num mar de lama e não acabar se sujando um pouco também.

A troca personalizada de ideias reservei para aqueles com quem converso fora das redes sociais, pois estas potencializam muitos mal-entendidos, geram desgaste desnecessário e, francamente, não mudam a opinião de quem já bem se informou. Uma reportagem da Revista Época descreveu muito bem a divisão virulenta por que acabamos de passar no Brasil e o papel do imediatismo da internet no agravamento do fenômeno.

O que fico feliz de ter conseguido fazer desta vez foi ter mantido sob rédeas curtas os impulsos de natureza inferior que me atravessavam nos dias de maior indignação. Certamente, quase ninguém que tenha se envolvido com a polarizada discussão pode dizer que não vibrou energias esquisitas nesse período. Pior para nós; saímos todos meio maculados; uns mais e outros menos. Ao menos alguns de nós se recusaram a dar vazão pública a essas baixas vibrações, e pelo menos não engrossaram o caldo das animosidades que poluiu a atmosfera brasileira por esses dias.

Espero sinceramente que, independente de quais sejam nossos governantes, possamos aprender a governar melhor a nós mesmos, inclusive durante essas sedutoras situações de comoções estranhas de massa. E também que tenhamos sabedoria para reestabelecer de forma construtiva o diálogo interrompido, com maturidade para entender e respeitar as diferenças, procurando com boa vontade as melhores saídas para os problemas do país.

Water Lilies and Japanese Bridge (Monet, 1897-1899)
Water Lilies and Japanese Bridge (Monet, 1897-1899)

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