A verdade nem sempre está no fundo de um poço

Certa vez um amigo – cujas opiniões, na época, eu considerava bastante – afirmou com um certo desdém, ao saber do meu signo astrológico, que “aquarianos são superficiais”. A afirmativa, meio em tom de brincadeira, meio em tom crítico, foi daqueles comentários supostamente inocentes, mas que ficam repercutindo na mente, levando a pensar nos desdobramentos do que significa.

Acho que todo mundo tem um certo orgulho bobo do seu signo. “Orgulho”, coincidentemente, é uma das características aquarianas – e aquela frase de alguma forma ferira esse meu orgulho. Até porque ela foi dita justamente numa época em que eu me aprofundava muito, na universidade, numa dissertação de assunto filosófico. Ser chamada de superficial naquele momento parecia uma afronta direta à qualidade do trabalho que eu estava desenvolvendo.

Hoje – anos depois desse episódio – me dei conta de que para mim, a superficialidade tem sim um sentido positivo. Tem a sua importância, e talvez até um efeito curativo.

Explico.

Desde que me entendo por gente tenho um jeito meio observador, meio perguntador a respeito da vida e das pessoas. Sempre gostei de estudar. Apesar de neurotípica, sempre me senti um pouco como uma antropóloga em marte: interessada em entender o meu contexto, mas não muito bem encaixada nele. Mais tarde, nos estudos universitários, frequentemente me via atraída para leituras de cunho mais filosófico e teórico, que me interessavam mais do que os manuais pragmáticos de psicologia aplicada. Era como se as leituras “perguntadoras” me levassem para mais perto das verdades do que as leituras “instrutoras”.

Esse meu jeito continua o mesmo, e nessa saga cheia de perguntas, ocasionalmente chego a algumas respostas provisórias.

O problema é que perguntar demais, aprofundar demais um determinado tema, a partir do intelecto, começa a fazer com que eu leve muito a sério as respostas a que eventualmente chego. Acabo esquecendo que as respostas são parciais e provisórias, e a mente começa a funcionar de maneira obtusa, fundamentalista talvez. Tudo passa a ser visto a partir daquela ótica – daquela teoria, daquela resposta – e o clima psicológico ao meu redor se torna sisudo, pesado. Provavelmente atrai até algumas inimizades e provoca alguns afastamentos. É uma seriedade que vem do excessivo perguntar, que toma proporções exageradas, que me torna mais chata, e que sinceramente, nem combina comigo. É um risco que estou sempre correndo, por causa do jeito perguntador, mas estou procurando ficar mais vigilante quanto a ele. Isto porque percebi que as superficialidades – as coisas da vida que não exigem um profundo pensar – são um contrapeso importante para que minha balança não fique desequilibrada.

Cheguei à conclusão – provisória talvez? – de que doses contínuas e não contrabalançadas de filosofia e metafísica provocam efeitos estranhos e não muito desejáveis em mim. Talvez seja imperícia minha, de não saber navegar no profundo sem me afogar lá embaixo. Mas sinto que há um bom aprendizado em abrir mais espaço, na vida, para o superficial e para o não saber. Existe uma paz em não precisar perguntar.

Não quero e nem consigo me livrar dos questionamentos profundos, mas certamente estou aprendendo a colocar um freio neles. Porque, como li num belo livro de psicoterapia existencial, “a verdade nem sempre está no fundo de um poço”. Às vezes as coisas são mais simples e superficiais do que parecem, e nem por isso, menos belas, verdadeiras, importantes ou necessárias.

well

Uma ideia sobre “A verdade nem sempre está no fundo de um poço”

  1. Talvez por também ter esse “jeito meio observador, meio perguntador a respeito da vida e das pessoas” me identifiquei muito com o que teu texto expressa, uma profundidade enorme e, ao mesmo tempo, uma mensagem acalentadora que descomplica e tranquiliza. Adorei ler!

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