A psicologia das teorias da conspiração

Por que tantas pessoas acreditam em teorias da conspiração?

É verdade que uma dose de espírito crítico quanto ao status quo é sempre bem vinda para manter-se saudável em um mundo muitas vezes doente. Mas existem alguns limites de razoabilidade que às vezes são ultrapassados no questionamento das coisas, como acontece com a teoria da Terra plana, ou a tese de que a pandemia do coronavírus não existe.

Intrigada por esses tempos em que as mais absurdas ideias clamam pelo direito de serem defendidas como opinião válida, e provocada por uma amiga a responder o que leva alguém a defender ferrenhamente esse tipo de insensatez, fui buscar em artigos de psicologia social uma resposta mais completa.

Cheguei a essa lista de  mecanismos cognitivos e comportamentais conhecidos da velha psicologia, documentados por estudos ao longo das últimas décadas. Esses fenômenos são verdadeiras tendências mentais em que alguns grupos facilmente podem cair, principalmente em tempos de incerteza social e medo coletivo. Funcionam como mecanismos adaptativos, e ajudam a explicar o que está por trás desse tipo de obstinação.

1.Viés de correspondência (mais conhecido pelo termo em inglês, fundamental attribution error). É o fenômeno de termos preferência por acreditar em motivos disposicionais (intenções) para explicar eventos, enquanto subestimamos acontecimentos que são aleatórios e circunstanciais. Assim, ao invés de aceitar que o coronavírus se originou de circunstâncias naturais de transmissão entre espécies, é cognitivamente mais atraente pensar na ideia de fabricação intencional por uma central maligna, ou numa grande trama (por exemplo da mídia ou da China) para criar intencionalmente um caos que de outro modo não existiria.

2. Viés de confirmação. Temos também a tendência a acreditar em tudo aquilo que confirma nossas crenças, e a refutar o que as faz cair por terra. Dessa forma, vamos nos alimentando cognitivamente de uma bolha de informações com as quais concordamos – fenômeno potencializado pelos algoritmos das redes sociais -, deixando de lado todo o contraditório, criando a ilusão de haver apenas evidências favoráveis à nossa tese.

3. Perseverança de crença. Procuramos manter nossas crenças mesmo depois de elas terem sido refutadas. É como que um instinto de preservação da própria identidade construída.

4. Desejo de sentir-se especial. É muito atraente a ideia de possuir conhecimentos que outras pessoas não têm. O sentimento de pertencer a um seleto grupo que vê as coisas com maior clareza do que os outros causa muita satisfação ao ego.

5. Uma tribo para chamar de sua. Teorias da conspiração alimentam nos seus seguidores o instinto de tribo, o sentimento de pertencer a uma comunidade e se sentir amparado e compreendido pelos pares. 

6. Busca ativa de sentido. O cérebro humano tem uma tendência a preencher lacunas, o que nos leva muitas vezes a enxergar padrões e sentidos onde eles não necessariamente existem. Pensemos por exemplo na capacidade que alguns têm de enxergar o rosto de Jesus numa torrada queimada, ou a silhueta de uma santa no embaçado de uma janela.

7. Pensamento religioso. Por falar em santos, as teorias da conspiração têm forte semelhança com a lógica da religião. Ambas atribuem a uma entidade desconhecida o poder de direcionar os acontecimentos do mundo. Assim como os religiosos, os teóricos da conspiração são refratários a argumentos, e inclusive vêem na tentativa de argumentar mais evidência de que há uma conspiração para convencê-los.

Então todas as vezes que encontrar um fanático de teorias que fazem pouco sentido, lembre-se do tipo de motivação que pode estar por trás desse comportamento. E fica a sugestão: guarde seu verbo, pois dificilmente conseguirá convencê-lo a ser mais razoável através de uma simples conversa.

Image by Gerd Altmann from Pixabay

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