A ilusão de se sentir estrangeiro

Tem dias em que um mesmo assunto parece te perseguir, à revelia da sua vontade. Artigos, dizeres, reportagens e cenas aparecem de forma conspiratória na sua frente, como que fazendo um convite irrecusável a parar e pensar a respeito daquele assunto em particular.

Ontem foi a vez do ‘sentimento de ser estrangeiro’, que é comum na situação de ser imigrante, ou quando se enfrenta os limites do próprio tempo, quebrando tabus e o status quo.

Assim, me deparei com um depoimento desassossegado de uma imigrante de longa data; uma sugestão de exposição fotográfica sobre ‘outsiders’ sociais; elogios à bravura solitária de artistas vanguardistas; e o desabafo fictíceo, numa série, de uma personagem mestiça lamentando não conseguir pertencer (nem à Índia nem à Inglaterra).

Mexida com o assunto, não deu pra ir deitar sem antes dar vazão a esse post, jogando as notas do seu rascunho num papel, já bem tarde da noite. E à medida que escrevia, notava que a reflexão clareava pontos sobre os quais eu ainda não tinha pensado, ao menos não dessa forma.

O tema é velho conhecido meu. Além de ser eu mesma imigrante, fiz um mestrado a respeito disso alguns anos atrás, quando dissequei certos elementos identitários (identidade do ponto de vista da psicologia) que compõem o lugar cultural de ser imigrante brasileiro em Londres. Aliás, estou até hoje devendo a publicação desse estudo, por razões diversas. A principal delas agora talvez seja a percepção, sob uma luz mais ampla, de que a questão da identidade cultural é apenas uma roupagem para algo mais profundo, de outra ordem.

Essa sensação familiar de desencaixe que vivenciamos na imigração não é exclusiva de imigrantes internacionais. Um simples ser blumenauense em Floripa, nordestino no Rio, carioca em São Paulo ou gaúcho no Norte já dá pano pra manga em movimentar os mesmos tipos de estranhamento e adaptação cultural. Dentro de uma mesma nação as diferenças tendem a ser menos drásticas porém, enquanto que em um país muito diferente do seu você se depara com coisas bem mais alheias aos seus hábitos.

Ampliando um pouco a questão, não é difícil constatar também que o sentimento de estrangeiro é comum a muitas pessoas, imigrantes ou não, relativamente a diferentes aspectos da vida. Será então que existe esse sujeito que imaginamos 100% adaptado à sua realidade particular, ao qual nos opomos considerando-nos mais estrangeiros e desadaptados do que ele? Não seria o sentimento de ‘não pertencer’ comum à grande maioria das pessoas, cada uma dentro de um contexto próprio – o da família, da religião, da sociedade, do país, das escolhas individuais?

Em outras palavras, não nos sentimos todos estrangeiros ou marginais em alguma medida, em algum sentido?

Acredito que sim. E acredito que isso acontece porque todos nós, seres humanos, sobrevalorizamos as coisas periféricas, incluindo aí as nossas identidades culturais. Por causa de nosso modo apressado e desatento de viver, tornamo-nos prisioneiros dos detalhes fenomênicos da vida, aos quais nos apegamos para dizermo-nos ‘diferentes’. Esses detalhes acabam ganhando status de realidade em detrimento do Ser real, que vai além de tudo que se manifesta externamente.

Parece então que todas essas dissonâncias culturais, de valores, de aparência física e de identidades são na verdade problemas secundários, alimentos relevantes apenas para os nossos egos. Pequenos apegos que dão-lhes assunto para conversar, incapazes que são de ficar quietos. Questões que perdem qualquer importância assim que passamos a contemplar a essência de nossa identidade espiritual real.

Essa identidade é a da Luz divina, fonte original de todas as formas de vida e de não-vida. Mantivéssemo-nos mais atentos a essa identidade real, abalaríamo-nos menos, muito menos, com as ondulações que a periferia ilusória nos apresenta a todo instante. Estaríamos aqui, na China ou em Marte, serenos e centrados na única coisa que existe: a Luz que irmana todas as coisas manifestas na criação.

Esse exercício radical porém é difícil, e pode ser negativamente desestabilizador. Há um texto, de que gosto muito, que fala sobre como transitar de forma equilibrada pelo mundo carregando dentro de si a ‘caverna sagrada’, de onde podemos perceber todas as coisas na sua correta escala de valores. É preciso viver em paz na manifestação periférica, porém compreendendo-a a partir do centro real, sem nunca permitir o movimento na direção contrária.

Enquanto não conseguimos habitar de forma permanente esse centro imperturbável de nossa consciência, podemos ao menos guardar em nossos corações a lembrança dessa Verdade e apoiarmo-nos nela nos momentos em que, engolfados pela ilusão, sentirmos-nos isolados, desadaptados ou incompreendidos.

É preciso, enfim, sempre lembrar que estamos todos unidos por uma mesma essência espiritual, que é origem e destino de todas as coisas, feito uma verdadeira pátria primordial, onde não há estrangeiros.

Shiva_meditation

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