A ascese possível

Quando pensamos em ascetismo espiritual, logo vem à mente a figura de um iogue ou monge que personifica em sua aparência, vestimentas e entorno práticas austeras de desapego da matéria. Essa representação automática que temos de alguém seriamente dedicado à espiritualidade acaba funcionando como uma barreira, atrapalhando a compreensão do que significa o auto-aperfeiçoamento espiritual e de como uma espiritualidade profunda pode permear o nosso cotidiano comum.

Que o caminho da espiritualidade é um caminho de ascese não há dúvida. Mas a disciplina e o despojamento evidentes na figura dos ascetas são apenas uma das faces possíveis da entrega espiritual, apropriada para alguns, mas nem de longe mandatória para todos.

Os caminhos espirituais são muitos. Arriscaria dizer, únicos para cada um de nós, conforme nossa trajetória e necessidade de aprendizado. A primeira lição espiritual verdadeira é aquela de olhar para dentro de si e perceber esse caminho peculiar.

Em relação à senda interior, tudo aquilo que acontece fora de nós é de segunda importância. As pessoas atualmente encarnadas no Ocidente urbano, por exemplo, poderiam pensar viver em um entorno desfavorável para a manutenção de uma boa sintonia espiritual. O distanciamento da mãe natureza e a imersão no ruído humano, que valoriza as aparências, nutre pensamentos mesquinhos e emoções conturbadas, trazem desafios específicos para a manutenção do equilíbrio pessoal. Mas são justamente os desafios que nos possibilitam exercitar a espiritualidade no dia-a-dia.

Precisamos, nesse contexto, de altas doses de discernimento para reconhecer o que é valor transitório e o que é valor perene. De muito amor para nos relacionarmos com todos os diferentes seres de forma fraterna. De bastante concentração para conseguir parar, dentro de nós, a roda de ilusões, e nos reconectarmos à fonte que anima nossos melhores propósitos.

As cidades podem ser excelentes salas de aula para aperfeiçoar a nossa forma de estar com os outros neste mundo; para testar nossa perseverança frente às dificuldades e para reforçar nossa capacidade de nos mantermos ligados ao Alto, ainda que enredados nos véus da matéria. A vida comum, com todas as imperfeições das quais somos atores e espectadores, nos estimula a desenvolver o “monastério de dentro”.

Neste santuário íntimo, todos os esforços que empregamos para sermos melhores conosco, com os outros e com o Universo, nos níveis físico, emocional e mental, são pequenas formas de ascetismo. A determinação firme de superar nossas próprias fraquezas, vícios, medos e auto-enganos são aquilo que podemos chamar de uma ascese possível.

Cabe a cada um julgar a extensão das asceses possíveis que consegue incorporar em sua vida. O importante é se dispor a dar passos graduais e cultivar a força necessária para formar novos hábitos, ou se desfazer de velhos. E viver com gratidão pela chance de buscar um melhoramento espiritual consciente, sadio e sustentável.

Felizmente, quanto mais nos esforçamos e mais sinceramente o fazemos, tanto mais ajuda recebemos. A ajuda, que às vezes só é compreendida em retrospecto, vem em forma de tudo que nos alinha com o melhor que podemos ser num determinado momento: contextos que favorecem, adversidades que ensinam, pessoas importantes, energias que apaziguam, ideias que nos fortalecem e sincronicidades que nos impulsionam um pouco mais adiante.

Arte: Jimmy Lawlor
Arte: Jimmy Lawlor

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