Nossas barreiras emocionais

As emoções são um aspecto central da experiência de ser humano. Algumas emoções se tornam difíceis para nós porque, quando crianças, não aprendemos a conviver com elas de forma pacífica e produtiva.

Assim, crescemos rechaçando algumas emoções nossas e dos outros como sendo “negativas”, pelo nosso desconforto pessoal em lidar com elas. Alguns exemplos de emoções que tipicamente varremos para debaixo do tapete em nós e condenamos nos outros: raiva, tristeza, medo.

Lia ontem sobre esse assunto, depois de esbarrar em alguns limites pessoais com esse tipo de emoção. Gosto muito do trabalho dos psicólogos norte-americanos do Instituto Gottman, que é focado em relacionamentos e família. Para a minha surpresa, numa avaliação que eles disponibilizam sobre a capacidade individual de aceitar emoções, descobri que me sinto desconfortável com a maioria delas! Meu score revela uma personalidade bastante “emotion-dismissive”, ou seja, a de alguém que costuma rechaçar certos grupos de emoções.

Lembrando de várias situações pelas quais já passei, essa inépcia emocional faz bastante sentido. É como se o saber acerca das emoções, que acumulei com estudo e trabalho, não acompanhasse a experiência pessoal, porque não adianta saber na teoria, é necessário viver certas coisas para poder de fato compreender. De certa forma, acho que sempre me ocupei de trabalhar o outro, assumindo que minha casa estava relativamente arrumada. Mas nos últimos tempos estou descobrindo que esse tema, o das emoções, é um dos mais difíceis de se dominar na prática do dia a dia!

Estou aprendendo que dispensar certas emoções como desnecessárias ou indesejáveis não as faz ir embora. Elas são naturalmente e intrinsecamente humanas, e assim precisam ser compreendidas, tanto em mim como no outro. Só conseguimos “lidar” com essas emoções quando, em primeiro lugar, as reconhecemos e aceitamos como parte normal e válida da existência. Na teoria eu já sei disso há tempos, mas nunca tinha parado para analisar como na prática eu falho nesse ponto; como costumo julgar e rechaçar certos tipos de emoção, em mim e nos outros.

Para desenvolver a inteligência emocional, precisamos nos permitir sentir e compreendender a função de todas as emoções, as agradáveis e desagradáveis. Evolutivamente, cada uma delas contribuiu para o desenvolvimento da espécie. E assim como a dor, a sua presença é um importante sinal de coisas que precisam e podem ser ajustadas em nossa vida.

Aceitar todas as emoções é o primeiro passo para transformar estados emocionais doloridos. Só depois disso é que podemos ficar mais à vontade na própria pele e chegar aos relacionamentos de forma menos defensiva, mais tranqüila e genuína.

E sei que não estou sozinha nessa dificuldade. As coisas vêm melhorando com o passar das gerações, mas maturidade emocional ainda é algo raro de se encontrar na sociedade. São muitas as pessoas que têm dificuldades para se relacionar com outras, tanto na vida pública como na vida privada.

Por trás disso está o fato de que para muitos de nós, talvez a maioria, é dificílimo aceitar e validar algumas emoções, próprias ou de outros. Tendemos a julgá-las como inadequadas, indesejáveis, e tentamos fazê-las desaparecer, em vão. Julgamos os outros de forma arrogante e pouco empática, quando na verdade estamos apenas negando que também temos as mesmas emoções desagradáveis dentro de nós.

Reproduzimos teorias acerca de emoções que nos foram transmitidas de formas conscientes e inconscientes ao longo da vida. Essas teorias pessoais acerca das emoções têm até um nome: meta-emoções. Como diferentes pessoas têm diferentes quadros meta-emocionais – isto é, diferentes julgamentos acerca de emoções específicas – o encontro verdadeiro, com as vulnerabilidades de cada um colocadas sobre a mesa, se torna muitas vezes um terreno delicado de se navegar.

É preciso muita perícia para dialogar com outro ser humano de forma veraz, empática e desprovida de julgamentos. Então precisamos treinar, e treinar muito, o despojamento de nossos julgamentos meta-emocionais. Eles são uma importante barreira que nos impede de ouvir verdadeiramente o outro e cultivar a paz em nossos relacionamentos.