Moana, um conto solar

Uma das vantagens de ser mãe de criança pequena é o contato com produções artísticas e culturais de qualidade voltadas para esse público. Produções que de outro modo talvez não priorizaríamos prestigiar, achando, desde nosso lugar de adultos, tratar-se apenas de mais um ‘desenho infantil’.

Quero escrever então uma recomendação para que todos que gostam de se sentir elevados e inspirados assistam a uma animação que vi junto com minha filha há algumas semanas. Os sentimentos positivos trazidos pela produção Moana (2017), dos estúdios Disney, continuam reverberando toda vez que paro para lembrar dessa alegre estória.

Moana conta a saga a de uma menina que cresce em uma ilha do Oceano Pacífico, designada a ocupar por direito de nascimento o posto de chefe da sua tribo. Mas Moana vive um dilema de alma: parte dela ama a vida que está destinada a ter na sua ilha natal, enquanto outra parte, a intuição do seu coração, chama-a para se aventurar em mares desconhecidos. Moana tem uma relação especial com o mar e a navegação; o horizonte misterioso exerce sobre si uma tração irresistível que de início parece estar em contradição com o papel tradicional que precisa ocupar na sua tribo.

Ao longo da estória a moça vai descobrindo, com o auxílio de sua sábia avó xamã, o significado deste seu chamado intuitivo. Entregando-se para uma aventura cheia de magia e espiritualidade, Moana descobre uma forma de reconciliar o seu profundo dilema cumprindo o seu papel de forma surpreendente, resgatando a esperança do seu povo unindo ao mesmo tempo coragem inovadora e tradições há muito esquecidas.

A trama de Moana é sensivelmente inserida em uma simbologia antiga, xamânica e solar, e certamente foi escrita por alguém que não passa ao largo desse tipo de tema. É uma producao de qualidade rara, cheia de beleza sutil e simbologia espiritual, capaz de deixar qualquer adulto encantado, mais talvez do que as próprias crianças.

E para terminar, deixo os links da música tema da menina Moana no original em Inglês e na versão em Português.

O saudável exercício de sair de si mesmo

Tenho visto cada vez mais circular na literatura popular, acadêmica e espiritualista a ideia da importância de se ter uma atividade imbuída de propósito. A experiência do propósito já é amplamente reconhecida como uma força que combate a ansiedade, os estados depressivos e o vazio existencial.

Faz sentido pensar que uma vida voltada apenas para si está fadada a cair num vazio, pois inevitavelmente chegará o momento em que a pessoa ensimesmada constatará a irrealidade do próprio ego. Se assentamos nossa base existencial no engodo de nossas frustrações e quereres fugazes, mais cedo ou mais tarde teremos de reconhecer que havia na vida muito mais do que nossas preocupações e percepções egoístas. A desconexão que construímos ao nos relacionarmos com os outros enquanto egos separados e demandantes é receita certa para o sofrimento.

De minha parte, tenho feito um exercício de observar meus próprios estados mentais e emocionais antes, durante e logo após os momentos em que trabalho como terapeuta. Oferecer terapia é um trabalho que envolve mergulhar no universo psíquico das pessoas que vêm até mim e procurar, junto com elas, as luzes, saídas e alívios adequados às dores e contextos que cada uma vive.

Por ora, não são muitos os pacientes que encampo ao mesmo tempo para um trabalho mais profundo e prolongado. Já que o contexto pede e possibilita, prefiro trabalhar com poucas situações e assim conseguir me dedicar com maior qualidade a elas. Na prática, concentro as poucas vagas que ofereço num determinado dia da semana. Como cada atendimento envolve trabalho antes, durante e depois da sessão, acabo preenchendo ao menos dois dias da semana com essa atividade. São dois dias em que claramente percebo o quão menos ensimesmada consigo ficar.

Essa história de que ao ajudar os outros estamos em primeiro lugar ajudando a nós mesmos é muito real em minha experiência. Eu sinto isso todas as vezes em que atendo, escrevo, ou me entrego a uma atividade de forma espontânea e inteira, por exemplo sendo mãe para a minha pequena de quatro anos.

Estar inteiro em uma situação que nos transcende é uma boa oportunidade que a consciência tem de reorganizar os cacos mentais e emocionais que sobram todas as vezes em que passamos períodos prolongados pensando sobre nós mesmos sem realizar nada pelos outros, encastelados em nossas próprias certezas, memórias, planos e devaneios. A ação construtiva em benefício alheio tem um grande poder de organizar e curar a alma de quem a realiza.

Nos momentos em que eu tinha essa convicção apenas como afirmação teórica, chegava a duvidar de que fosse realmente assim. Agora, constatando na prática o salutar efeito de sair de mim mesma com mais regularidade, sei por experiência que pensar menos em mim e realizar algo por outros é uma experiência que equilibra a própria alma. Alguma mágica acontece que nos faz sair da experiência melhorados, mais contentes, otimistas e apaziguados. E a esse contentamento se segue a responsabilidade de retornar a nós mesmos com a clara consciência de que a vida é muito maior do que os dramas que nosso ego tanto valorizava quando se imaginava sozinho.

Perceber que para além de um ego somos consciências cuja experiência se conecta com a do próximo, e que com o próximo podemos aprender muito sobre nós mesmos, tem sido o maior benefício de sair um pouco mais frequentemente de mim. Quanto mais saídas desse tipo realizo, mais incapaz meu ego fica de sustentar sua ilusão predileta, a de que tudo que lhe acontece ou deixa de acontecer tem suma importância na cadência do universo.

Bom seria se fôssemos capazes de manter essa saudável percepção ao longo de toda nossa vida. Se pudéssemos afirmar, de coração leve, que em nossa passagem por aqui aprendemos a realizar mais e a exigir menos.

Enquanto isso, seguimos tentando aprender a sutil mas essencial diferença entre estar centrado e estar ensimesmado.

De volta

Querido leitor(a),

É com felicidade que volto a abrir esse canal de comunicação na internet. Depois de algumas mudanças significativas no contexto de vida, principalmente voltar a morar no Brasil e recomeçar um trabalho aqui como terapeuta, precisei de uma pausa para repensar a maneira como queria estar presente nas redes sociais.

No contexto mais recente de Londres, quando minha filha já não era mais tão bebê e começou na escolinha, eu podia passar longas horas curtindo leituras saudáveis, aprendendo coisas do meu interesse, ouvindo músicas maravilhosas, caminhando, observando o pacato bairro hindu onde morávamos e meditando sobre muitas coisas. Muitos posts do samsabel.com anterior nasceram nesse contexto.

Lembrando agora daquela época, tenho a sensação de que eu vivia uma espécie de preparação sabática para uma fase mais ativa e interativa que vivo hoje. Desde a volta ao Brasil o meu tempo para essas atividades interiorizadas ficou bem menor, um efeito natural de voltar a estar mais próxima de um círculo maior de pessoas conhecidas, amigas e familiares.

Mas continua sendo da minha natureza buscar refúgio dentro de mim sempre que tenho a oportunidade – é a minha forma de recarregar as baterias. E nessas horas, continuam surgindo inspirações que me levam a querer compartilhar materiais que, pela sua natureza diversa, não se encaixam bem na minha página profissional, cujo tema é direcionado mais para a psicoterapia e os florais.

Por isso, decidi reativar esse espaço de comunicação mais livre, sem tanta preocupação em medir os escritos para que caibam dentro de um tema. O blog é algo mais leve, mais solto e mais pessoal, e arrisca ser desinteressante para os outros por esse exato motivo, mas pelo menos cumpre em mim a função de aliviar o ímpeto de expressar coisas que penso valerem a pena.

Assim, aos poucos, quando em meio ao atarefado dia a dia a inspiração resolver aparecer, vou voltar a usar esse endereço como destino para os eventuais novos conteúdos que surgirem.

Um abraço, bem vindo de volta, e obrigada por me ler.

Samantha.