Um caso de amor com as coisas da Índia

Era para ser um simples post sobre as minhas recentes incursões em terapia Ayurveda. Mas percebo agora que o poderoso efeito que esse tratamento tem tido sobre mim é apenas um elo de uma cadeia que, nessa vida, se iniciou há alguns anos, mais acentuadamente nos últimos três.

Já escrevi por várias vezes sobre o quanto aprecio morar em um bairro hindu de Londres. Poderia dizer em essência que aqui me sinto cotidianamente estimulada pelos símbolos, cheiros, práticas, estética e outras manifestações culturais inscritas nessa tradição. Elas me remetem quase à revelia de minha vontade ao intangível perfume espiritual da Índia, dispensando-me de experimentar os aspectos mais crus que uma viagem física à Índia milenar, material, moderna e humana traria.

Não que a essência espiritual resida de fato em alguma localização geográfica. A espiritualidade mora e vive nos corações que a carregam pelo mundo afora, e aqui no bairro calha de haver muitos: alguns com o empurrão do condicionamento cultural, outros independentemente dele.

Não foi intencional a escolha dessa região para morar. Uma sincronicidade acabou mudando o plano original de nos assentarmos num bairro do sul da cidade, que conhecíamos melhor. E de 2013 pra cá muitos foram os insights e aprendizados sobre essa cultura pela qual hoje me declaro apaixonada.

O interesse começou antes, com sensações e descobertas pontuais. Lembro-me de uma ocasião em particular, numa época em que as coisas da Índia não faziam ainda parte do meu universo mais ativo de interesses. Vi, no lampejo do olhar de uma pessoa, alguma coisa que claramente transcendia em muito a dimensão mais grossa da materialidade. Impressionada, um pensamento me invadiu: “esse é o olhar de um iogue”.

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Dissipado tal pensamento, voltei à mente analítica normal e perguntei a mim mesma: mas você que não sabe nada de Hinduísmo, o que acha que sabe a respeito de iogues? Não puxei muito o fio da meada na época, mas a transcendentalidade do tal olhar ficou profundamente gravada na minha alma, como uma pergunta que, apesar de oculta, continua a ansiar por resposta.

Segui estudando ocasionalmente elementos da espiritualidade hindu, que apareciam em meio a outros temas com os quais me identificava mais. Mas tudo ainda parecia muito hermético e difícil de entender. A complexidade do assunto parecia maior do que a minha capacidade de compreendê-lo.

O problema era que vinha tentando entender com a mente. O que quebrou a barreira e me conquistou definitivamente para o universo do Hinduísmo foi a experiência de me sentir acolhida, amparada, guiada e amada por pessoas e seres ressoantes a essa vibração.

Das cuidadoras da escolinha que minha filha começou a frequentar em pleno festival do Navratri (em homenagem à Mãe Divina), quase todas Indianas e muito queridas, passando pelos comerciantes e prestadores de serviço do bairro, sempre muito solícitos, pelo dono super gente boa do apartamento que alugamos e vizinhos simpáticos, até mestres espirituais que admiro, os ventos espirituais da Índia me envolveram de forma irresistível e irreversível.

Meu interesse e envolvimento tem aumentado ainda mais recentemente, desde que comecei a experimentar sessões semanais de massagem terapêutica Ayurvédica. Vinha, em Dezembro passado, sentindo uma fadiga extraordinária, à época sem explicação física plausível, o que me levou a considerar esse tratamento como uma alternativa para melhorar o meu estado.

Cheguei sem saber o que esperar, totalmente desprovida de informação. Sabia apenas que se tratava de medicina tradicional Indiana. Na conversa para o diagnóstico e prescrição já gostei do que escutei; o Ayurveda é um sistema milenar que baseia sua prática na ideia dos elementos da natureza e do seu equilíbrio na composição energética do corpo. A massagem é feita com o estímulo de pontos energéticos vitais usando óleos herbais adequados ao desequilíbrio em questão. Terminada a consulta com a médica, segui os passos da senhora que seria a minha massagista em direção à sua sala de massagens.

A experiência é difícil de descrever. Talvez por eu ser uma pessoa bastante mental, a massagem daquela senhora, que começa com uma espécie de aquecimento no ponto do chakra frontal, parecia ir quebrando e derretendo várias camadas endurecidas e esquecidas no meu corpo e memória.

A sala, toda em madeira avermelhada escura, tem uma pequena vela e algumas luzes douradas no teto, que dão a iluminação mínima necessária para ela trabalhar. A música, sempre hindu, é deixada em volume moderadamente alto, o que parece fortalecer o seu poder curativo. Já no meu primeiro dia lá dentro tocou uma coletânea de mantras poderosos entoados por um coro de crianças. O cheiro é fortíssimo, uma mistura de incenso com temperos – nem todos apreciam; eu adoro. O óleo é muito quente, quase chega a queimar. O processo é finalizado com uma massagem com um saquinho de ervas embebidas em óleo, lembrando uma pajelança. Nas últimas duas sessões, percebi que minha querida massagista começou fazer uma espécie de oração também. Em outro idioma – provavelmente Gujarat ou Sânscrito – e muito discretamente. Fiquei sem jeito de perguntar, mas sim, ela está incluindo agora uma espécie de vocalização curativa. Meu caso deve ser brabo… risos.

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Já me sinto quase totalmente recuperada do cansaço – o que também atribuo a ter iniciado uma suplementação alimentar com ferro e vitaminas. Mas o maior ganho mesmo tem sido a chance de deixar que o calor do óleo derreta os vestígios de bloqueios do corpo, emoções e mente. De me deixar transportar, pela pungência daquele cheiro, para percepções novas e memórias que eu desconhecia, e que estão mexendo muito com meu coração. De viajar nas vibrações daquelas músicas e de agradecer, infinita e profundamente, por estar tendo acesso a tantas coisas boas assim.

Se bem me conheço, esse caso de amor com as coisas da Índia não me transformará em uma pessoa fantasiosa nem fanática com nada. Há outras atmosferas espirituais pelas quais nutro um amor mais sedimentado – como a Celta, por exemplo – então é mais uma que vem para somar, não predominar. No mais, saio da massagem e já vou voltando à realidade comum, vivendo a vida normal, como todo mundo e sem tentar convencer ninguém de nada. Mas dentro do meu coração eu sinto aquelas pequenas vertigens que antecedem as revoluções íntimas. Ele passou a dançar em êxtase com as energias dessa atmosfera, assim como dançam os corações retratados no lindo filme abaixo (a partir do minuto 12:30):

Não sei dizer no que esse caso de amor vai dar, só sei que ele me deixa profundamente feliz. E por isso vou apreciando-o como posso, com a alegria inocente da criança, que pouco sabe e nada espera, mas tudo sente.