Quando um tijolo vale mais que uma boa vibração

Um acalorado debate tem acontecido entre os residentes da localidade onde moro, uma das regiões mais habitadas por Indianos e hindus no Reino Unido.

Há cerca de um ano, uma sociedade de iogues adquiriu perto daqui um prédio onde antigamente funcionava uma igreja cristã, que então se encontrava desativada. Desde a compra eles estabeleceram as suas atividades ali, e o local começou a funcionar como um templo e centro cultural de linha Vaishnava, como é o caso de vários outros na redondeza.

Como na época da aquisição o prédio ainda estava com a arquitetura da igreja (que, diga-se de passagem, é de gosto duvidoso, com tijolos escuros e uma torre retangular estranha), os iogues naturalmente desejam convertê-lo e adaptá-lo à sua tradição, dando a ele características ornamentais de um templo hindu tradicional.

O fato de estarmos em uma área em que referências visuais hindus são numerosas, inclusive com a presença de templos semelhantes ao que eles desejam estabelecer, levaria a crer que não encontrariam problemas em demarcar fisicamente ali o seu templo. Mas por enquanto o máximo que conseguiram fazer foi colocar a bandeirinha do seu movimento em cima da torre, que ainda ostenta uma enorme cruz branca.

Na Inglaterra em geral os governos locais são muito ciosos da aparência das construções, que acabam sendo todas muito parecidas, em nome da preocupação em se manter uma certa harmonia arquitetural através das épocas. A preservação tem um lado bom – a marca cultural se mantém e a cacofonia estética é relativamente controlada – mas também acaba tornando o visual de diferentes localidades muito parecido. Acredito que muitos que rodaram por aqui já tiveram a impressão, mesmo tendo percorrido uma boa distância, de estar ainda na mesma cidade ou no mesmo bairro, tamanha a semelhança visual entre os diferentes locais. Nos grandes centros, em função da presença de muitas culturas, uma cota maior de diversidade consegue ser acomodada, mas no geral existe no país uma harmonia visual que chega a ser enfadonha.

Os setores de planejamento dos councils (órgão governamental que se assemelha a uma subprefeitura) são por conta disso muito atuantes, e cada vez que o proprietário de um imóvel deseja fazer reformas no mesmo precisa passar por um burocrático e severo processo de avaliação. Nas reformas mais significativas parte dessa avaliação envolve uma consulta aos residentes locais, que são instados a se manifestarem contra ou a favor da proposta.

O caso do templo hindu está rendendo tanta polêmica que fez com que os residentes locais reativassem uma associação de moradores há anos parada. A associação, que em tese seria um fórum para tratar de assuntos gerais, transformou-se numa espécie de movimento para impedir a qualquer custo a consolidação do templo hindu. Cartas anti-templo começaram a circular, pedindo que inundássemos o site do council com manifestações contrárias à reforma, chamando reunião presencial para tratar do assunto e expondo séries de argumentos desfavoráveis aos iogues.

No início, por estar ocupada com outras coisas, não prestei muita atenção à discussão, mas como as cartas e emails aumentaram em frequencia e agressividade fui pesquisar o teor das manifestações contrárias, que eram quase a totalidade das quase duzentas registradas no council. Afinal, o que poderia haver de tão inadequado com a instalação de mais um mandir na região? Se minha inclinação natural já seria a de apoiar os iogues só por ser uma apreciadora da espiritualidade hindu, depois de ler os motivos alegados fiquei ainda mais afeita à causa deles.

As pessoas não querem o templo aqui por dois motivos principais: ressentimento por não terem podido reformar as próprias casas em ocasiões anteriores e medo de que a falta de estacionamento cause tumulto no trânsito, especialmente em dias de evento. A esse último ponto a sociedade iogue já respondeu, em carta bastante amigável, assegurando que haviam feito o mesmo arranjo de estacionamento atualmente vigente para um centro maçônico que funciona numa rua vizinha.

Essa carta, que inclui uma oferta à comunidade de usar gratuitamente o espaço deles para eventos locais; faz um convite às pessoas para irem conhecer as atividades e manifesta um desejo de se harmonizar com os vizinhos, termina com o honesto dizer: “nosso princípio-guia é a harmonia e fraternidade universal e gostaríamos de construir uma relação de longo prazo com todos vocês, buscando uma oportunidade de melhor servi-los”.

A essas cordiais palavras, porém, seguiu-se prontamente mais um email da associação de moradores assegurando estar fazendo todo o possível para impedir a instalação do templo. Fica difícil entender esse antagonismo todo.

Tudo bem que, do ponto de vista espiritual, onde houver atividades de luz pouco importará a cor do tijolo. Os iogues parecem saber melhor disso, pois vêm mantendo suas atividades normalmente, mesmo em meio a toda a resistência.

Os vizinhos, por sua vez, parecem mais preocupados em conservar os tijolos existentes do que interessados em aproveitar a presença de uma nova brisa espiritual nas próprias cercanias.

Eu gostaria de tê-los como vizinhos.
Eu gostaria de tê-los como vizinhos.