O fim da noite escura da alma

Éramos tristes e endurecidos, mas não percebíamos nossa dor. Asfixiava-nos a falta de arejamento nas ideias, enquanto nosso coração se enrijecia com o esquecimento de nossa origem espiritual. Vivíamos na terra acreditando conhecer a realidade das coisas, sem perceber que o essencial nos escapava: a força vital e intangível do espírito.

Regozijávamo-nos em nosso poder de fogo intelectual. Esmiuçávamos e resolvíamos qualquer problema mundano que nos fosse colocado, e fazíamos questão de exibir tal potência como um troféu. Sentíamo-nos grandes em nós mesmos, e havia neste sentimento alguma violência. Às vezes de forma sutil, às vezes de forma escancarada, a truculência do ego nos fazia acreditar sermos melhores, mais aptos, mais merecedores de reconhecimento e louvor humano. Surfávamos a crista da onda dos papeis humanos que nos cabiam. Sentíamo-nos donos de nosso próprio destino.

Até o dia em que assistimos, feito espectadores impotentes, à ruína do castelo de ilusões sobre o qual assentávamos nossa base existencial. Alguns de nós sucumbiram à dor da morte de alguém amado. Outros de nós foram desacreditados e achacados por aqueles mesmos que antes nos adulavam. Alguns ainda viram relacionamentos vitais morrerem à míngua por pura falta de amor. E outros amargaram pungentemente o remorso de ter feito alguém sofrer.

Durante tal noite escura da alma, com os poros do ego semi-abertos pela ação dolorosa da ignorância, bastou que nos sentássemos sob um céu de crepúsculo profundamente dourado para que acontecesse a derradeira transformação. O Fogo Divino comunicou-se conosco, dizendo-nos de nossa misteriosa condição: pequenos e frágeis enquanto sozinhos, grandiosos enquanto filhos de Deus.

Devolvíamos neste momento mágico, silencioso e solene, tudo o que antes pensávamos ser ao nosso Pai Celestial. E assim relembramos nossa verdadeira origem e nossa verdadeira herança: éramos espíritos imortais irmanados na Luz.

Depositava-se ali, em nossas mãos, gentil e decisivamente, a chave para vencer toda dor do passado e voltar a ter esperança no futuro. A chave era a espiritualidade amorosa e consciente.

Profundamente gratos e de alma inflexionada, sabíamos que esta chave em si mesma era um tesouro de particular qualidade. O Amor e a Consciência são um repositório inesgotável de Força e Luz, que tanto mais cresce quanto mais amplamente for compartilhado.

Pôr do sol em Florianópolis, 27-8-2015 Foto de Úrsula Carreirão
Pôr do sol em Florianópolis, 27-8-2015
Foto de Úrsula Carreirão

A maternidade até aqui

(Um pequeno relato da minha experiência de ser mãe até o presente momento)

Minha filha conta hoje dois anos de idade e desde que o seu projeto de ser entrou em minha vida muita coisa mudou para melhor. Faço questão de frisar isso porque até engravidar eu tinha dúvidas sobre qual seria o saldo da experiência de ser mãe. Sou daquela geração de mulheres que cresceu esperando ter uma profissão, um bom grau de independência e funções socialmente úteis, para além do tradicional papel de “apenas” se dedicar à felicidade individual e familiar-nuclear.

Explico as aspas, que ilustram talvez a essência desse texto: existe coisa que requer mais vigilância do que conseguir se manter feliz e equilibrado consigo mesmo e nas relações íntimas e cotidianas? Não é justamente nelas que as mesquinharias do ego costumam encontrar espaço para se multiplicar? E por este exato motivo, não seriam elas um terreno privilegiado para se poder trabalhar a própria evolução espiritual e, por derivação, coletiva?

Como acredito que sim, fico feliz por ter superado alguns medos infundados e aceitado de coração desempenhar esse papel. Passado algum tempo percebi que ser mãe não me fez perder nada; pelo contrário, me fez ganhar muitas coisas boas e neutralizar outras ruins, como por exemplo a própria ansiedade demasiada por me dedicar a causas externas.

Tendo acontecido na esteira de uma nova percepção de valores, a experiência de ser mãe me caiu como uma luva. Tenho sentido-a como um passo certeiro à frente no aprimoramento de muitas lições que considero importantes: o equilíbrio das coisas, a paciência incondicional (que brota naturalmente perante a fragilidade de um bebê), a revitalização pessoal e flexibilização do próprio ser (que derivam do contato com o mundo lúdico da criança), a percepção profunda do outro, a empatia, a responsabilidade real e intransferível por um outro ser, a sabedoria de se fazer presente ou ausente na medida correta para o desenvolvimento do outro.

A maternidade convergiu perfeitamente com um projeto pessoal – que é, diga-se de passagem, empreitada para várias vidas – de ser cada vez mais, e mais verdadeiramente, alguém que saiba sustentar essas qualidades no trato com todos os seres humanos, quiçá com todos os seres sencientes. Se estes valores farão de mim também uma melhor profissional quando eventualmente voltar a trabalhar, não tenho dúvidas, mas isso passou a ser um detalhe: o rótulo profissional deixou de ser importante como antes era. O trabalho sobre mim mesma e a repercussão dele nas relações visíveis e invisíveis com outras pessoas passou a ser a minha real prioridade. E haja trabalho!

Não quero com isso levantar nenhum tipo de bandeira em prol de se ter filhos. É uma questão muito pessoal, e felizmente vivemos em uma época em que existe plena liberdade para que mulheres e homens escolham o que fazer nesta seara. Há muitos projetos de vida plenos e frutíferos que não precisam envolver a gestação de uma criança física.

O que achei que valia a pena registrar, porém, é que há um sem número de benesses, para além das óbvias, que derivam da experiência de gestar e educar uma criança. E que, em muitos sentidos, têm uma sorte e uma oportunidade tremendas aqueles que decidem abraçar essa aventura.

stairway