Pássaro do Himalaia

Estava hoje pela manhã em uma pequena sala de espera aguardando o horário de pegar minha filha, que participava de uma sessão atividades sem a presença dos pais. A sala era minúscula, cerca de três metros quadrados. Sufocante até. Também não possuía graça nenhuma; nela estavam dispostas apenas três cadeiras e uma mesinha.

Havia um outro pai esperando na sala. Tratei de me sentar logo ao lado de uma janela generosa, com vista para os jardins privativos típicos das casas enfileiradas dos subúrbios ingleses. Essas casas vistas da rua são super discretas, mas do alto das janelas vizinhas percebe-se que guardam um tesouro de árvores e flores belíssimas, muito bem cuidadas pelos seus insuspeitos moradores.

Tinha levado dois livros para folhear enquanto esperava, mas sentindo-me privilegiada e já um pouco inebriada com aquela vista, mudei de ideia e coloquei os fones para ouvir uma coletânea maravilhosa de músicas contemplativas chamada “Himalayan Soul“. São músicas singelas que, como se pode deduzir pelo título, remetem à sensação de plenitude espiritual mesmo quando se está em solidão física.

De olhos abertos, comecei a me sentir bem relaxada, e minha atenção começava a fugir do ambiente e tempo físicos em que me encontrava. Num certo momento percebi, ao longe, num dos últimos jardins que a vista alcançava, um pássaro grande pousando em um galho no topo de uma árvore desfolhada. A silhueta do pássaro era pequena devido à distância, mas bem nítida porque contrastava com o céu esbranquiçado da manhã chuvosa. Pensei comigo: “ah, ele também está aproveitando a vista! Mas que curioso escolher pousar ali, num galho descoberto, sob chuva e vento frio. Talvez a sua alma não esteja nem percebendo o tempo hostil. Vou observá-lo e ver até onde aguenta.”

O pássaro ficou ali durante todo o meu tempo de espera, cerca de uma hora. Estava frio, começou a chover forte, mas ele se manteve imóvel, impassível. Meu olhar foi-se perdendo cada vez mais na visão dele. Tinha algo de majestoso na sua postura imperturbável.

Começaram a aparecer frases, diálogos inesperados e inspiradores na minha mente. A frase que mais gostei de ‘ouvir’ disse o seguinte: “meditar é transpor a alma para além de tudo que é circunstancial”.

Junto às gotas de chuva começaram a cair pequenas gotas brilhantes, de cor azul celeste. A luz esbranquiçada do céu chuvoso começou a ficar mais intensa, até que a paisagem começou a se dissolver em um brilho branco-prateado. Tudo isso ao som daquela música meditativa, maravilhosa. Não consigo descrever o local luminoso para onde estava sendo transportada, mas parte de mim estava indo para bem longe dali.

Acabei voltando de repente, chamada por um roncar de sono profundo. Enquanto eu viajava nas asas da música e da luz, o pai que esperava comigo tinha adormecido ali mesmo, na cadeirinha desconfortável. Talvez a mesma energia de paz profunda que patrocinou a minha viagem tinha embalado o sono físico dele.

Não me importei de voltar, pois já estava mesmo quase na hora de arrumar as coisas para ir pegar a minha pequena. Saí da sala me sentindo plena, enquanto o pai colega ainda dormia. Desejei que tanto ele como eu e cada vez mais pessoas nesse mundo possam aproveitar essas caronas espirituais que nos são oferecidas a partir de estímulos tão simples.

Se as aceitamos, podemos ser transportados para regiões de inspiração e beleza memoráveis. E retornaremos delas carregados de vitalidade e tranquilidade para conduzir, na vigília comum, os assuntos de nossa igualmente preciosa vida cotidiana.

passaro_sob_chuva

Uma flor mágica

Numa semana complicada em que todos em casa pegaram uma gripe forte, cada um à sua vez, pude, para compensar, reparar em um presente que havia sido deixado debaixo de minha janela há algum tempo, esperando para ser apreciado. O Amor divino é assim, não tem pressa. Deixa-nos presentes e mais presentes todos os dias, enquanto reincidimos em nossa dificuldade de percebê-los e agradecer por eles.

Quando no ano de 2013, com a gravidez já a termo, retornei de um passeio por entre rosas gigantes em um famoso parque de Londres, resolvi quebrar o protocolo e abordar os dois jardineiros que fazem a manutenção dos jardins do prédio onde moro. Dois homens discretíssimos que não trocam com os moradores sequer um olhar, sustentando o comportamento tipicamente anônimo dos prestadores de serviços da capital inglesa.

O motivo era um desejo-queixa, disfarçado de sugestão (aprendi com os ingleses a não ser muito direta nas interpelações): não entendia por que nossos jardins tinham tantas plantas verdes e tão poucas mudas de flor. Queria saber se havia algum impeditivo para que plantássemos mais flores, e me dispus a comprar as mudas, se essa fosse a questão. Disse que tinha um interesse pessoal nisso, visto que moro no térreo e adoraria poder apreciar algumas flores da minha janela no dia-a-dia.

Confusos com o diálogo inesperado, os jardineiros disseram que por eles plantariam as flores sem problemas, mas que não poderiam fazê-lo a menos que lhes fosse pedido pela empresa que lhes paga o salário. Então quis saber com quem deveria falar a respeito. Eles, já coçando a cabeça com a minha insistência, aconselharam a procurar o conselho administrativo do prédio, que depois vim a saber, é um grupo de proprietários que em tese se reúne para tratar de decisões de despesa coletiva, mas que na prática é uma figura abstrata e difícil de rastrear para um contato literal. Desisti.

Dois anos depois dessa história, numa semana em que sobraram motivos para me sentir cansada, um raio de alegria me envolveu quando percebi não uma, nem duas, mas três flores novas, que naquele ano não moravam no nosso jardim, e que não sei precisar agora desde quando passaram a morar.

E uma delas é uma das minhas favoritas: uma muda de bluebell, flor azul-violeta típica das florestas antigas da Grã-Bretanha, que foi plantada ao lado de uma pequena árvore que fica bem na frente da janela da minha sala.

Até me ocorreu que ela deve estar se sentindo meio solitária ali, já que é a única da sua espécie em todo o jardim. As bluebell são florzinhas discretas e gregárias, que atingem o ápice da sua magia quando compõem juntas tapetes coloridos aos pés das grandes árvores. Por isso, não descarto acrescentar ao agradecimento aos jardineiros um segundo pedido, o de que transformem o chão da minha janela num tapete de bluebells… risos.

Sei que isso já é querer demais, e me dou por feliz de tê-la como companheira assim, sozinha mesmo. A simples visão da pequena bluebell já me conecta com a energia mágica das florestas e com o bonito simbolismo dessa flor, que representa a humildade, a gratidão e o amor eterno.

Obrigada, querida flor.

As bluebell flowers simbolizam humildade, gratidão e amor eterno.
As bluebell flowers simbolizam humildade, gratidão e amor eterno.