10 benefícios de se fazer arte

Outro dia me peguei experimentando novamente a gostosa sensação de estar absorvida num pequeno trabalho de arte, quando reconstituía um pedaço de uma página rasgada de um livro de estorinha da minha filha. E prometi para mim mesma, mais uma vez – essas promessas que custamos a pôr em prática – que procuraria garantir mais espaço para essas brincadeiras descompromissadas no meu dia a dia, tão bem que já me fizeram e que, com esse simples desenho, lembrei que ainda me fazem.

Aí me deparei hoje na internet com um artigo em Inglês bem bacana, listando 10 motivos pelos quais desenhar (generalizável para artes em geral) tem efeitos terapêuticos e libertadores. Resolvi traduzi-lo e publicar aqui no blog, pois pode inspirar mais gente por aí.

Saquemos pois os instrumentos de qualquer arte que faça bem à nossa alma e sejamos mais felizes!

Boa leitura.

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10 Maneiras com que Desenhar Pode Aliviar o Estresse e Inspirar Maravilhamento
Orginal em Inglês por Danny Gregory

Procurando por formas de ser mais calmo, feliz e mais centrado? A resposta pode estar nas páginas de um caderno de rascunho.

Como alguém que conhece os efeitos positivos que desenhar pode trazer para a vida de qualquer um, eu gostaria de dividir algumas razões pelas quais desenhar é uma ótima atividade para promover relaxamento e ajudar você a levar uma vida mais feliz.

1. Você se reconectará com o seu espírito travesso.

Muitas pessoas desenhavam e pintavam quando crianças, sem se preocupar com talento ou a qualidade final do produto. Reconectar-se com aquele espírito criativo divertido é relaxante e libertador. Mesmo que você não tenha mais desenhado desde que tinha seis anos, alguns minutos por dia desenhando coisas simples ao seu redor pode liberar uma energia de diversão capaz de preencher todo o seu dia.

2. Você se surpreenderá.

Desenhar não é um assunto misterioro de talento dado por Deus. Leva apenas alguns minutos de prática todos os dias para fazer novas conexões no seu cérebro e no seu corpo. Eu descobri que manter um jornal ilustrado me ajuda a desenvolver um hábito criativo que revitaliza a minha habilidade de desenhar. E na medida em que o seu caderno de rascunhos vai se preenchendo com lindos desenhos, você fica orgulhoso e ávido por continuar.

3. Você conseguirá controlar o tempo.

Fazer arte pára o tempo. Quando você desenha ou pinta o que está ao seu redor, você foca e vê [o objeto] pelo que ele é. Ao invés de viver num mundo virtual, você estará presente. Ao invés de todas as coisas zunindo na sua cabeça, você será capaz de parar, limpar a sua mente, respirar fundo e apenas ser. Você não precisa de um mantra ou guru. Ou uma app. Apenas uma caneta.

4. Você contará a sua história.

A vida é simplesmente uma longa sucessão de pequenas epifanias. Você precisa parar e aproveitá-las. Ao desenhar as coisas cotidianas que você encontra, você estará fazendo um registro do que você está vivendo e o que você está aprendendo. Um desenho e uma frase ou duas em um caderno de rascunhos transforma aqueles momentos cotidianos em algo significante. Com o tempo, você produzirá um livro de memórias – um verdadeiro registro do que é importante em sua vida.

5. Você combaterá o perfeccionismo.

Muitas pessoas são tentadas a evitar fazer coisas que elas não conseguem fazer bem. Mas criatividade se resume em tomar riscos e fazer coisas novas – coisas que podem não se sair exatamente como tínhamos planejado. Desenhar pode ajudar você a evitar as limitações do perfeccionismo e aprender a improvisar. Você aprende a ver “erros” como lições e oportunidades para improvisação. Frequentemente uma linha vacilante ou um respingo de tinta podem transformar um rascunho em uma obra de arte expressiva. Aprenda a deixar rolar, brincar e descobrir.

6. Você se reconectará com a sua criança interior.

Desenhe com uma criança, e desenhe com giz de cera, têmpera, pasteis e pintura com os dedos. Interaja com o seu parceiro de desenho. Aceite pedidos. Conte uma história e ilustre-a enquanto o faz. Peça à sua criança que desenhe uma linha maluca e você adiciona a ela para fazer um elefante ou um trem ou um sanduíche de presunto. Rabisque. Respingue. Brinque. Por alguns minutos, libere-se e seja uma criança.

7. Você perceberá que o mundo não é perfeito.

Mas é lindo. E as coisas mais belas têm personalidade e experiência embutidas nelas. Há muito a aprender e apreciar em uma caneca lascada, uma maçã meio-comida, as linhas minúsculas no couro do seu painel. Fazer arte irá lhe mostrar o quanto você já tem. Seus reais tesouros. Um Maserati novo em folha é muito menos belo de se desenhar do que uma pickup velha enferrujada.

8. Você criará memórias.

Quando você desenha, você melhora a sua memória. Ao desacelerar e observar cuidadosamente, você cria registros mais profundos e mais vívidos de tudo que o rodeia. Faça do desenho um hábito, e sua habilidade de evocar o passado e apreciá-lo mais uma vez irá crescer exponencialmente.

9. Você se livrará do tédio.

Você nunca se entediará ou desperdiçará tempo de novo. Todo dia é cheio daqueles momentos entre atividades. A espera no consultório médico, assistir televisão acéfala. Ao invés de ler tweets no seu telefone, você fará uma peça de arte. Cada minuto do seu dia conta. Faça-o valer a pena.

10. Você compartilhará a sua arte.

Na minha escola de desenho, encorajamos estudantes a postar o seu trabalho online. De início pode parecer assustador, exibir o seu trabalho para que estranhos comentem sobre ele. Mas se você encontrar uma comunidade que apóia eencoraja, seu incentivo para desenhar cresce. E as conexões que você forma com os outros na mesma jornada de descoberta são profundas. Desenhe com os seus amigos. Desenhe os seus amigos. Compartilhe o seu caderno de rascunhos e as histórias da sua vida. O que poderia ser mais bonito?

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Reconstituição

A Paz do Cosmos

Por trás de toda tempestade existe uma calma, que transcende qualquer agitação.
É a Paz do Cosmos, onde tudo está no seu devido lugar.

Por trás de toda catástrofe existe uma segurança, onde nenhum sofrimento consegue aportar.
É a Paz do Cosmos, onde tudo está no seu devido lugar.

Por trás de toda morte existe um brilho eterno, que fala da vida que continua.
É a Paz do Cosmos, onde tudo está no seu devido lugar.

Por trás de todo drama pessoal e sentimento mal resolvido existe uma serenidade, que vem mostrar que nenhum litígio é necessário.
É a Paz do Cosmos, onde tudo está no seu devido lugar.

Por trás de todo caos e injustiça existe uma sinarquia luminosa, que governa todo tipo de acontecimento.
É a Paz do Cosmos, onde tudo está no seu devido lugar.

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Removamos de nossos corações todo anseio de luta externa. Preparemos o nosso íntimo para a única coisa necessária: a comunhão com o Um.

Nosso único real trabalho espiritual é este: remover os obstáculos internos para abrigar esta paz. A Paz do Cosmos, onde tudo está no seu devido lugar.

Cosmic meditation

A ilusão de se sentir estrangeiro

Tem dias em que um mesmo assunto parece te perseguir, à revelia da sua vontade. Artigos, dizeres, reportagens e cenas aparecem de forma conspiratória na sua frente, como que fazendo um convite irrecusável a parar e pensar a respeito daquele assunto em particular.

Ontem foi a vez do ‘sentimento de ser estrangeiro’, que é comum na situação de ser imigrante, ou quando se enfrenta os limites do próprio tempo, quebrando tabus e o status quo.

Assim, me deparei com um depoimento desassossegado de uma imigrante de longa data; uma sugestão de exposição fotográfica sobre ‘outsiders’ sociais; elogios à bravura solitária de artistas vanguardistas; e o desabafo fictíceo, numa série, de uma personagem mestiça lamentando não conseguir pertencer (nem à Índia nem à Inglaterra).

Mexida com o assunto, não deu pra ir deitar sem antes dar vazão a esse post, jogando as notas do seu rascunho num papel, já bem tarde da noite. E à medida que escrevia, notava que a reflexão clareava pontos sobre os quais eu ainda não tinha pensado, ao menos não dessa forma.

O tema é velho conhecido meu. Além de ser eu mesma imigrante, fiz um mestrado a respeito disso alguns anos atrás, quando dissequei certos elementos identitários (identidade do ponto de vista da psicologia) que compõem o lugar cultural de ser imigrante brasileiro em Londres. Aliás, estou até hoje devendo a publicação desse estudo, por razões diversas. A principal delas agora talvez seja a percepção, sob uma luz mais ampla, de que a questão da identidade cultural é apenas uma roupagem para algo mais profundo, de outra ordem.

Essa sensação familiar de desencaixe que vivenciamos na imigração não é exclusiva de imigrantes internacionais. Um simples ser blumenauense em Floripa, nordestino no Rio, carioca em São Paulo ou gaúcho no Norte já dá pano pra manga em movimentar os mesmos tipos de estranhamento e adaptação cultural. Dentro de uma mesma nação as diferenças tendem a ser menos drásticas porém, enquanto que em um país muito diferente do seu você se depara com coisas bem mais alheias aos seus hábitos.

Ampliando um pouco a questão, não é difícil constatar também que o sentimento de estrangeiro é comum a muitas pessoas, imigrantes ou não, relativamente a diferentes aspectos da vida. Será então que existe esse sujeito que imaginamos 100% adaptado à sua realidade particular, ao qual nos opomos considerando-nos mais estrangeiros e desadaptados do que ele? Não seria o sentimento de ‘não pertencer’ comum à grande maioria das pessoas, cada uma dentro de um contexto próprio – o da família, da religião, da sociedade, do país, das escolhas individuais?

Em outras palavras, não nos sentimos todos estrangeiros ou marginais em alguma medida, em algum sentido?

Acredito que sim. E acredito que isso acontece porque todos nós, seres humanos, sobrevalorizamos as coisas periféricas, incluindo aí as nossas identidades culturais. Por causa de nosso modo apressado e desatento de viver, tornamo-nos prisioneiros dos detalhes fenomênicos da vida, aos quais nos apegamos para dizermo-nos ‘diferentes’. Esses detalhes acabam ganhando status de realidade em detrimento do Ser real, que vai além de tudo que se manifesta externamente.

Parece então que todas essas dissonâncias culturais, de valores, de aparência física e de identidades são na verdade problemas secundários, alimentos relevantes apenas para os nossos egos. Pequenos apegos que dão-lhes assunto para conversar, incapazes que são de ficar quietos. Questões que perdem qualquer importância assim que passamos a contemplar a essência de nossa identidade espiritual real.

Essa identidade é a da Luz divina, fonte original de todas as formas de vida e de não-vida. Mantivéssemo-nos mais atentos a essa identidade real, abalaríamo-nos menos, muito menos, com as ondulações que a periferia ilusória nos apresenta a todo instante. Estaríamos aqui, na China ou em Marte, serenos e centrados na única coisa que existe: a Luz que irmana todas as coisas manifestas na criação.

Esse exercício radical porém é difícil, e pode ser negativamente desestabilizador. Há um texto, de que gosto muito, que fala sobre como transitar de forma equilibrada pelo mundo carregando dentro de si a ‘caverna sagrada’, de onde podemos perceber todas as coisas na sua correta escala de valores. É preciso viver em paz na manifestação periférica, porém compreendendo-a a partir do centro real, sem nunca permitir o movimento na direção contrária.

Enquanto não conseguimos habitar de forma permanente esse centro imperturbável de nossa consciência, podemos ao menos guardar em nossos corações a lembrança dessa Verdade e apoiarmo-nos nela nos momentos em que, engolfados pela ilusão, sentirmos-nos isolados, desadaptados ou incompreendidos.

É preciso, enfim, sempre lembrar que estamos todos unidos por uma mesma essência espiritual, que é origem e destino de todas as coisas, feito uma verdadeira pátria primordial, onde não há estrangeiros.

Shiva_meditation