Os presentes sutis pelo caminho

Duas vezes por semana tenho levado minha filha a um novo grupo de brincadeiras, aqui chamados playgroups. Desta vez, um que não é oferecido pelo governo, mas sim por voluntários de uma igreja católica próxima à nossa casa. Esses grupos sociais organizados pela sociedade civil são bem comuns por aqui. É interessante: apesar de Londres ser uma grande metrópole, os bairros são comunidades muito vivas. Ninguém tem desculpa para se isolar, já que sempre tem alguma atividade pertinente à sua “tribo” rolando perto da sua casa.

Esse grupo se encontra num salão grande, cheio de brinquedos super legais. Tem um cantinho de leitura e uma mesa com material para atividades manuais. No meio da manhã, há uma pausa para as crianças fazerem um lanche e os pais tomarem um café ou chá, e no final, uma sessão de canto. As despesas são cobertas pelos £2 que se paga por criança na entrada de cada sessão – a julgar pelo que é oferecido, um valor simbólico. O trabalho que fazem ali é completamente caridoso.

Desde que comecei a frequentar o grupo, me chamou a atenção a presença de uma senhora idosa, entre 70 e 80 anos, que fica a maior parte do tempo dentro da cozinha, que dá vista para o salão. Lá ela prepara o lanche da criançada, passa o café, arruma o balcão do chá dos pais, e depois limpa tudo. No final, ela se junta a nós, pois tem a voz bonita e lidera a sessão de cantos infantis que encerra o grupo.

É uma senhora discreta e nunca a via conversando enquanto trabalhava, a não ser com colegas organizadores das atividades. A maioria dos pais chega no balcão, pede a bebida de sua preferência, que ela serve gentilmente, e tão logo estejam em posse da sua xícara agradecem com educação e vão se encostar em algum cantinho. Poucos vão além e falam com ela qualquer coisa além do necessário.

Desde o início nutri simpatia pela senhora, talvez porque eu também gosto de cantar, mas também porque tenho admirado cada vez mais essas pessoas que fazem as pequenas grandes diferenças bem quietinhas, sem fazer alarde nem esperar reconhecimento por isso. Então, sempre que tenho podido e sentido antes que não vou atrapalhar, comento com ela coisas aqui e ali, puxando assunto como se faz com pessoas que estamos conhecendo, avançando devagarzinho desde as amenidades até assuntos mais profundos.

Nessa, acabei percebendo algumas coisas bacanas sobre essa mulher. Ela é envolvida com a igreja, canta no coral da mesma, tem duas netas que a mantêm bastante ocupada, e adora observar fenômenos celestes (gosta de dar dicas de previsão de tempo, fenômenos astronômicos, lua, etc.). Trabalha ali voluntariamente, e sente que às vezes gostaria de conhecer melhor os pais que frequentam o lugar, pois há situações em que sente que teria uma dica ou outra para partilhar. Como por exemplo outro dia, quando duas mães quase saíram no tapa depois que seus dois meninos se esbarraram de forma meio violenta. A senhora comentou comigo, lá no balcão da cozinha, sobre como educar meninos daquela idade; dicas fundadas na sabedoria da experiência que eu, como mãe de primeira viagem, não poderia ter tido por conta própria. Então eu disse a ela que era uma pena que aquelas mães não se abrissem para conversar com ela porque se tivesse sido comigo, eu teria ficado grata por ouvir conselhos daquele quilate.

Também reparei, outro dia, que ela apareceu para o trabalho com ataduras nos dedos de uma das mãos. Até onde vi, fui a única mãe a querer saber o que havia acontecido, e ela disse, sem perder o sorriso, que tinha amanhecido naquele dia com as juntas sem funcionar. E que não se importava com isso, mas que aconteceu em má hora porque estava com muitas coisa pra fazer ali no grupo, na igreja e com as netas.

Não foi de início que percebi o por quê de eu me interessar em interagir com aquela senhora. Apenas fui-a notando por afinidade espontânea, até chegar um momento, ontem, em que percebi que meu sentimento por ela era, na verdade, de sincera gratidão. Por causa da sua presença silente, mas eloquente e generosa. Percebi isso olhando-a de longe, trabalhando como de costume, preparando as bandejinhas das crianças e os carinhos que a maioria dos adultos recebe sem manifestar nada além do agradecimento social automatizado.

E por isso, ontem me senti compelida a abordá-la para falar bem diretamente, ao seu coração, de como a atuação dela ali era importante e fazia diferença para mim. “Sabe, esse momento do café para nós pais é uma hora muito feliz. Passamos tanto tempo nos preocupando em dar carinho e cuidados aos nossos pequenos, que quando alguém faz um carinho por nós, é uma coisa muito valiosa. Então, muito obrigada pelo trabalho que você faz aqui.”

Ela ficou um pouco desconcertada, mas, claro, feliz. E eu também, por ter conseguido falar para ela o que estava no meu coração há algum tempo. Nem sempre estou tão desperta para isso, mas tenho ficado cada vez mais sensível a esse tipo de bem invisível que me ampara diariamente. E às vezes, transbordo de gratidão por tantos presentes sutis espalhados no meu caminho.

Presentes de Amor