Universos paralelos

No último domingo à noite estávamos eu e meu marido curtindo nossas horas livres assistindo a um programa de viagens de que gostamos bastante. O episódio era sobre Londres, a cidade onde moramos – é sempre interessante ver perspectivas diferentes sobre lugares que você já imaginava conhecer. Lá pelas tantas, provavelmente devido ao volume de acessos naquele horário, o streaming do vídeo travou e não teve mais jeito de voltar a assistir nem àquele nem a outros episódios do programa, e nem mesmo a outros programas de canais similares a que também às vezes assistimos.

Resolvemos então colocar um episódio da série inglesa Dr. Who, a que estamos assistindo em sequência desde a temporada de 2005. Pela ordem, agora estava na vez de um episódio chamado “Rise of the Cybermen”, de 2006. Quem conhece a série sabe que dada a criatividade do autor é impossível antecipar o tipo de aventura que aparecerá em cada episódio. Todos os tipos de criatura podem surgir; tudo pode acontecer.

Na estória da série, Dr. Who é o último sobrevivente de uma civilização extraterrestre extinta. É dono de uma nave com tecnologia avançada (em formato de cabine telefônica policial, para que possa pousar discretamente na Terra) que o permite viajar através das galáxias, e assim conhecer e interagir com criaturas das mais diversas espécies.

O episódio a que assistíamos começou com a estória de um senhor, um inventor na área de cibernética, aparentemente habitante do planeta Terra, que por estar terminalmente doente investiu no desenvolvimento de uma tecnologia de preservação perene do cérebro humano num corpo de metal. Nesse ponto, bem no comecinho do episódio, meu marido comentou sobre a área de cibernética, disse que os desenvolvimentos reais nessa área não chegam nem perto da imaginação que se vê em ficção. Emendou um comentário sobre viagem no tempo (um outro tema recorrente no Dr. Who), dizendo achar improvável que um dia se descobrisse tecnologia para fazer isso no plano físico.

Engajada no papo e já me distraindo do episódio que rolava na TV, aproveitei pra comentar com ele sobre algo que tinha lido durante aquela semana a respeito de universos paralelos. Era um artigo intrigante sobre uma teoria que vem circulando entre pesquisadores de física quântica especulando haver universos paralelos coexistindo, com realidades similares a esta que vivemos, mas com histórias que se desenvolveram por caminhos ligeiramente ou profundamente diferentes, dependendo das escolhas que tivermos feito naquele universo. Algo assim como outras Samanthas, existindo ao mesmo tempo que eu, mas tendo outros contextos de vida, porque nas escolhas passadas tomaram decisões diferentes daquelas que essa Samantha que escreve aqui tomou nessa existência. E, mais alucinante ainda, o artigo sugere a possibilidade de um dia virmos a conhecer o que se passa nesses universos paralelos!

Dá ou não um nó na cabeça? Mas assim como o Jô Soares, eu não descarto nada: “Se essa caneca me disser ‘Bom dia, Jô’, eu respondo: ‘Bom dia, caneca’ “, disse ele uma vez.

Bem, voltando à cena na minha sala de estar. Segundos depois de eu comentar sobre o artigo e voltar a prestar atenção no episódio, me deparei com uma cena do Dr. Who e seus amigos pousando a nave em Londres, como já tinham feito em alguns outros episódios. Dessa vez, porém, ao desembarcar da nave começam a achar a paisagem um pouco estranha, apesar de aparentemente igual à Londres moderna na qual já tinham estado tantas vezes. E então, por conta de uma notícia de jornal em que um personagem conhecido da turma aparecia com outro contexto de vida, eles concluíram rapidamente: “Estamos em um universo paralelo!”.

‘Nossa, que coincidência’- pensei e disse. Era a primeira vez que esse tema aparecia desde que começamos a ver a série, há coisa de um ano. Nos quase 20 capítulos que já tínhamos visto, o Dr. já tinha viajado no tempo e por entre galáxias, mas nunca tinha entrado em um universo paralelo.

Mas a coincidência estranha não parou por aí. As personagens foram em seguida olhar a data do jornal, para tentar entender o que estava acontecendo. O jornal marcava o dia 1º de Fevereiro de um ano que agora não me recordo. 1º de Fevereiro. Exatamente o mesmo dia e mês daquele domingo em que assistíamos, na nossa sala em Londres, a um episódio do Dr. Who em uma Londres de um universo paralelo.

E assim fui dormir ontem, aqui nesse meu universo mesmo, com aquela pulga que fica atrás da orelha toda vez que acontecem esses furos na Matrix.

Cygnus A Gallaxy