Meu Brasil brasileiro…

Esse não é um post patriótico. Não tenho orgulho nem vergonha de ter nascido brasileira, assim como não tenho orgulho nem vergonha de morar no Reino Unido. Nação para mim é um conceito periférico; acredito que a verdadeira riqueza da experiência humana deve ser construída olhando-se para o que existe de melhor em diferentes lugares do globo – e além dele!

Feito o disclaimer, gostaria de listar aqui algumas observações colecionadas nas últimas férias, passadas no período de Natal e ano novo no litoral norte de Santa Catarina. Foram três semanas maravilhosas de descanso, convívio familiar e renovação de energias, pelas quais sou muito grata. Mas foi também uma ocasião para notar, com os olhos semi-forasteiros que todo imigrante se acostuma a ter, alguns problemas bem brasileiros que, ao meu ver, comprometem bastante a qualidade da experiência de morar no Brasil hoje em dia.

Mas quero começar falando de amenidades. Dezembro na zona tropical é muito quente, mas no estado de Santa Catarina, que já fica abaixo do Trópico de Capricórnio, não é tão quente assim. Teve noites que deu até pra usar um casaquinho – e fui chamada de friorenta todas as vezes em que fiz isso.

Dezembro por lá também é um mês em que falta muita coisa. Falta água, energia elétrica, sinal de celular e internet. Falta liberdade de ir e vir: o trânsito é impraticável, para carros e coletivos igualmente. Percorrer cinquenta quilômetros pode facilmente levar algumas horas. Alguns planos de encontrar amigos em cidades próximas tiveram de ser cancelados por causa disso.

Santa Catarina é um dos estados mais ricos do país, mas mesmo assim, os contrastes da paisagem urbana são chocantes. Via de regra, tudo que é público é mal feito e mal conservado, isso quando existente. Calçadas, por exemplo, em certas cidades são artigo raro; no seu lugar, pedregulhos e poças de lama. Já os espaços privados variam desde o casebre mais enjambrado e o terreno abandonado cheio de mato e lixo até as construções mais elegantes, algumas até espalhafatosas. Essas últimas são monitoradas pelos mais sofisticados esquemas de segurança, revelando o medo da violência em cada canto das ruas. O resultado é um clima tenso e uma paisagem desarmônica, feito um tecido todo remendado. Só são belas e bem cuidadas as partes que pertencem a alguém em particular, ou então aquelas ainda intocadas pelo homem.

Nesse espírito de cada um cuidar do que é seu e ninguém cuidar do que é de todos, a sensação que dá é de que apesar da imagem de povo solidário, há um traço menos caricato mas muito real na sociedade brasileira, o do “cada um por si”. Ele frequentemente dá ao cidadão que circula nas ruas e que usa os serviços, sejam eles públicos ou não, a sensação de vulnerabilidade, de não poder realmente contar com a solidariedade ou o profissionalismo alheios. Muitos fazem apenas o mínimo necessário para que as coisas funcionem aos trancos e barrancos. Poucos procuram desempenhar seu papel social ou profissional com um esmero extra. A expectativa geral quanto ao desempenho de tudo e de todos é muito baixa; há muita tolerância com o que não funciona.

Por causa da mentalidade do cada um por si, o brasileiro acostumou-se a achar natural flexionar algumas regras, inclusive morais, para tirar vantagem própria em algumas situações. Desde a sonegação do imposto até o falso testemunho, tudo parece se justificar pela lógica de que é necessário ser esperto para não ser passado para trás, ou para se obter o que se quer. Uma conduta nada cívica e bastante individualista e competitiva, que em nada contribui para a melhora dos problemas públicos dos quais falei mais acima. Aliás, parece ser exatamente essa conduta que emperra qualquer real progresso coletivo.

Desnecessário falar que há exceções, mas infelizmente ainda são exatamente isso: exceções. Destoam do padrão geral que se observa no país. E não sei ao certo qual é a fórmula para resolver esses problemas, embora deposite minha esperança no tempo, na auto-educação de cada cidadão e na educação das crianças.

Eu evito tecer críticas ao Brasil e aos brasileiros. Sou uma filha da terra e apesar de não residir aí no momento, é a casa de toda a minha família e da maioria dos meus amigos.

O Brasil é maravilhoso por sua exuberância natural e todos os frutos que essa riqueza lhe dá: paisagens naturais, comidas tropicais, energia do sol, e até muito da alegria das pessoas, que deriva de tanta abundância de energia imanente. Mas claro, até a riqueza natural pode estar com os dias contados se não nascer na coletividade uma preocupação para além do individual e do imediato.

É um país solar, expansivo, em que a vida pulsa para fora das casas (às vezes isso significa ter de ouvir a música ruim do vizinho até as três da manhã) e em que as pessoas sorriem, apesar de tudo. É um celeiro espiritual mundial, com um sincretismo pacífico (um tanto arranhado pela cisão das igrejas cristãs) que poderia servir de espelho para outros lugares do mundo.

Eu mesma sempre fui de modo geral muito feliz morando aí. Mas frequentemente me pego a pensar em como o Brasil poderia ser um lugar tão melhor se cada cidadão ousasse ser mais honesto, mais solidário e mais empenhado em respeitar o funcionamento coletivo da sociedade.

Eu não sou perfeita nesse sentido e certamente tenho meu quinhão de erros na bagagem, mas me preocupo cada vez mais em me vigiar e em acertar os passos dados nessa existência. Acredito que isso é quase o máximo que dá pra fazer – e já é muito, tão mais difícil do que esbravejar contra os erros alheios. Extrapolando um pouco, dá ainda para compartilhar esse tipo de impressão que divido aqui com vocês.

Não quero trazer ao leitor brasileiro nenhum tipo de pesar ou sentimento de auto-depreciação, pois além de isso não ser produtivo, não há pessoa ou sociedade no mundo que não tenha a sua parcela de coisas a melhorar. Espiritualmente, aliás, os seres humanos do mundo todo vibram mais ou menos na mesma média, na mesma densidade energética, emocional e consciencial. É só que do ponto de vista social e humano, há uma clara diferença entre países mais e menos avançados nesse ou naquele aspecto. E são essas coisas a que podemos individual e coletivamente estar atentos.

São áreas em que podemos melhorar. É nelas que me pego a pensar cada vez que saio do meu limbo de imigrante latina num país anglo-saxão e volto para o pedaço de terra que um dia já pude chamar, com um olhar um pouco mais indulgente, de casa.

Itapema