Histórias para contar

Todo mundo tem as suas histórias pra contar. Esses dias estava lembrando de alguns “causos” que já me aconteceram aqui em London, a maioria deles na primeira rodada em que vivi aqui, entre os anos de 2006 e 2009. Hoje em dia ando colecionando menos eventos, dada a minha pacata vida de mãe que fica em casa. Aliás, pacata dependendo do ponto de vista, né? Mas enfim, as histórias mais aventurosas datam dessa outra época mesmo.

Uma delas aconteceu quando fui procurar trabalho, durante uma pausa que fiz num período de estudo. Eu fazia um mestrado em psicologia e queria ganhar experiência em trabalhos relacionados à pesquisa, que se harmonizassem com o que eu vinha estudando. Durante essa busca descobri que aqui tem emprego de tudo quanto é tipo, coisas que eu nem imaginava. E quase embarquei numa furada cogitando entrar em uma área que não era familiar para mim.

Apareceu um anúncio intrigante dizendo ser de “business intelligence”. Descrevia um perfil que combinava com o que eu buscava na época: pedia habilidade para pesquisa, análise de dados, coisas do tipo. Pesquisei o website da empresa, vi o nome do fundador e fui pra internet levantar a ficha do cara. Descobri que ele tinha se formado no mesmo lugar onde eu estava estudando, e que tinha publicado um livro que – ta-da! – estava disponível para empréstimo na biblioteca à qual eu tinha acesso.

Destrinchei o livro todo e fui pra entrevista conhecendo as ideias do cara de trás pra frente. Fiz uns testes por escrito lá no escritório deles (tinha umas perguntas estranhas, por exemplo como eu faria para levantar informações relevantes sobre o mercado de lentes de contato na Rússia) e depois fui entrevistada por uma sócia dele, falando tudo o que eu achava que eles queriam ouvir. Por fim, perguntaram qual era minha pretensão salarial, e pra aumentar minhas chances chutei meio baixo, para que o problema não fosse esse.

Apesar de não ter decidido se simpatizava ou não com aquela empresa, eu estava ansiosa pra trabalhar! Mas fui embora sem saber se tinha sido escolhida. Me disseram que ainda veriam outras pessoas e que qualquer coisa fariam contato comigo. Achei o papo meio furado e não fiquei mais pensando a respeito. Não achava que tinha muita chance; imaginava que iriam querer alguém com um perfil mais corporativo.

No dia seguinte fui participar de uma outra seleção, dessa vez para o cargo de auxiliar de pesquisa em uma Ong de saúde mental. Tinha bem mais a ver com o meu background, mas pagava um pouco menos e era uma função mais administrativa. Já na empresa de “business intelligence”, além de ganhar um salário maior, parecia que eu iria aprender mais daquilo que eu buscava.

No mesmo dia em que recebi a oferta da Ong recebi também uma ligação da mulher que me entrevistara na empresa: ela também queria me contratar. Fiquei na maior dúvida! Pedi umas horas para pensar, troquei uma ideia com meu marido e, ainda incerta mas seguindo a intuição, decidi pela Ong.

Liguei para a moça para avisá-la que infelizmente eu havia decidido por uma outra vaga. Ela ficou super decepcionada e me perguntou se eu mudaria de ideia caso ela me pagasse mais do que havia sido inicialmente oferecido. Como eu já estava decidida, me vi tendo de dispensar as contra-ofertas dela de uma forma até meio apressada, porque estava insistindo além da conta.

Depois que passou tudo eu fui ler alguns artigos a respeito do tipo de business dessa empresa estranha. Eles atuavam, na verdade, numa área eticamente cinza, chamada inteligência competitiva. Com as leituras posteriores, e lembrando de algumas coisas que me perguntaram na entrevista (como por exemplo “como eu me sentiria se precisasse ligar para uma empresa fingindo ser uma outra pessoa, pra conseguir umas informações”, ou “como eu reagiria se fosse descoberta numa incursão desse tipo”), eu me toquei que estaria entrando num ramo muito próximo da espionagem industrial, que é uma prática ilegal. Toda a postura da entrevistadora dava a crer que ela queria testar o quão confortável eu ficaria em cenários que requeriam atitudes não exatamente sinceras. Me assusta pensar que fiz o jogo tão direitinho que ela ficou interessadíssima em me contratar!

A memória desse episódio foi reavivada recentemente quando li uma “senhora bronca” do mestre espiritualista Aïvanhov acerca da prática da espionagem por governos e corporações. Acho que cheguei perto de pagar um mico ético e espiritual grande mas felizmente, naquela ocasião, apareceu uma luzinha pra me guiar por um caminho mais correto.

Então, pra concluir, por muito pouco não posso dizer que um dia já fui uma espiã. O máximo que acabei chegando perto disso foi ter trabalhado fisicamente ao lado do prédio do MI5, o empregador do James Bond :-). Era ali que ficava o escritório da Ong. Sempre que eu olhava pela janela e via os espiões do governo circulando na área, pensava comigo: “quase fui uma de vocês”. Só que pior, claro, porque a finalidade não seria a segurança nacional, mas sim enriquecer de forma ilícita o bolso de alguém.

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Imagem: “Storyteller” (Anker Grossvater, 1884)