Jardins que curam

Gosto de caminhar pelas ruas calmas do bairro onde moro, no subúrbio de Londres, apreciando os jardins coloridos e os detalhes das silenciosas casas enxaimel da vizinhança. Os parques e jardins aqui são na sua maioria muito bem cuidados, repletos de árvores, plantas e flores que sinalizam claramente a passagem das estações climáticas. Ao observar um parque ou jardim, pode-se deduzir com boa precisão em que época do ano se está.

A partir do mês de agosto esse passatempo se torna especialmente prazeroso para mim, visto que se inicia o tempo do outono, ou, ao menos, o prenúncio dele. É a estação que considero mais linda, com a temperatura mais agradável, as cores mais bonitas e a energia mais condizente com o tom geral da minha alma. É que nessa encarnação tenho aprendido bastante sobre desapego e renovação, então, de certa forma, me considero uma “alma em outono”. Todas as estações têm o seu valor e a sua beleza, mas tem algo no outono que me faz sentir especialmente desperta.

Talvez por isso ontem, voltando no fim da tarde de um desses passeios, depois de sentir o vento outonal fresco e vê-lo varrer as primeiras folhas secas do ano, pensei em escrever sobre o incrível tanto de coisas que se apaziguam na mente e no coração, durante e após uma caminhada contemplativa junto à natureza. Mas é difícil explicar em palavras tudo o que é liberado, curado e inspirado nesses momentos, pois há muito de subjetivo e não dado à racionalização. Basta então observar o estado interno em que nos encontramos antes e depois de uma experiência assim, tão simples e tão ao alcance de qualquer um. Renovação, preenchimento, organização, harmonia, paz e vigor são alguns dos benefícios sensíveis que o contato com a natureza invariavelmente traz.

Esses benefícios são velhos conhecidos das sabedorias tradicionais, e modernamente têm sido pesquisados também pela medicina e psicologia convencionais. Lembro de recentemente ter visto, por exemplo, tese de doutorado sobre o tema, e propostas de realização de psicoterapia em ambientes mais verdes e naturais. Já sabemos, mas não custa lembrar: a natureza oferece em abundância não só as substâncias físicas que curam nossos males (e que são a base inclusive para os remédios laboratoriais que compramos nas farmácias), como também as energias sutis que nos harmonizam nos níveis emocional, mental e espiritual.

Para receber essas energias curativas é preciso silenciar-se, abrir-se, observar a natureza e escutar o que ela tem a dizer. A contemplação meditativa da natureza é um fantástico remédio, facilmente acessível, sem perigo de superdosagem e sem contra indicações. Esta generosa amiga-mãe-irmã está sempre disponível para ajudar a nós humanos, atuando em favor de nossa evolução pessoal e coletiva.

Jardim de outono
Jardim de outono