Uma grata surpresa nos Alpes Suíços

Devo ter mesmo bastante sorte nessa encarnação. Por conta do aniversário de um ano de minha filha, os avós maternos resolveram nos presentear a todos com uma viagem de comemoração, e o destino escolhido (principalmente pelo avô, que adora o lugar) foi a Suíça, na região dos Alpes. Um lugar para o qual eu não teria ativamente planejado uma viagem, já que sinto conexões emocionais prioritárias com outros pontos do globo, mas para o qual fui, claro, de muito boa vontade.

Foi uma viagem na qual me senti mais “levada” do que “indo”. Por não ter tido tempo de pesquisar muito, não sabia direito o que esperar. E o sentimento que ficou de ter conhecido os Alpes foi de muita satisfação. Primeiro porque adoro montanhas e florestas, que formam a base da paisagem do lugar. Além delas, estavam lá as cachoeiras, os lagos, os riachos, as flores, os pastos e as vacas, os queijos, os chocolates, os vinhedos, os campos de girassóis e outras plantações, as cidades bucólicas e verticais com suas estradas e ferrovias cortando as montanhas em desenhos dramáticos. Tudo muito bonito, estilo cena de sonho bom.

Mas a mais grata surpresa que tive foi descobrir, depois de a viagem ter sido definida, que a cidade onde ficaríamos hospedados está a apenas 20 minutos de um centro espiritualista fundado por discípulos do mestre Omraam Mikhaël Aivanhov, o centro Videlinata. É um local relativamente escondido, cravado no alto das montanhas da região de Corsier-sur-Vevey, próxima ao Lago Léman, na fronteira da Suíca com a França.

O Aïvanhov costumava dar aulas lá, e muitas das transcrições de suas palestras – hoje capítulos de seus livros, que tenho lido intensivamente – indicam esse centro como o local de realização das mesmas.

Assim que soube da localização, tratei de dar o meu único pitaco no roteiro da viagem: incluir uma visita ao centro Videlinata! Escrevi para o local antecipadamente e pedi para marcar uma visita. Nos contatos via e-mail tive a impressão de não ser um pedido tão comum, o de visitas avulsas fora das épocas de congressos e retiros. Mas no dia, que calhou de ser uma linda manhã de sábado ensolarado, fomos incrivelmente bem recebidos pelo presidente do local e uma secretária antiga, que conheceram e foram alunos presenciais do mestre Aïvanhov. Simpáticos e generosos, levaram-nos para um tour particular dos espaços, e nos brindaram com algumas histórias preciosas.

Fiquei feliz de ver como o centro preserva as suas atividades e a qualidade da sua estrutura, mesmo após tantos anos da passagem para outro plano do mestre que inspira o trabalho. A mais maravilhosa característica do local, além da atmosfera de tranquilidade, é a sua íntima conexão com a natureza. A vista para a floresta e as montanhas favorece o clima de paz e meditação que permeiam os ensinamentos do Aïvanhov. O centro é bonito e colorido, assim como são as ideias veiculadas por esta grande consciência, chamada, em sua última passagem pela Terra, de Aïvanhov. Seus ensinamentos espirituais são incrivelmente poderosos, dotados da mais perfeita mistura de simplicidade de exposição com profundidade de conteúdo.

Então, ter conhecido um local tão especial foi para mim o grande barato dessa ida à Suíça. Adorei tudo, mas a experiência de desbravar o caminho íngreme de acesso ao discreto centro, respirar o ar puro da montanha, conhecer pessoas que tiveram o privilégio de conviver com o mestre Aïvanhov, e ampliar meu estoque de livros para pôr na fila das coisas que quero aprender, marcou de forma inesquecível as memórias que guardarei desse lindo país.

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Provocações espiritualistas à filosofia

Revisando alguns posts que tenho em rascunho no blog, encontrei esse pequeno texto do Osho, que tinha separado há mais de um ano, depois de lê-lo em algum lugar na internet e sentir profunda ressonância com a questão que coloca. O texto é uma pequena-grande provocação a respeito da diferença entre a filosofia (e por extensão a sua filha, a ciência) e a espiritualidade (a que ele, mesmo sendo um crítico dos sistemas religiosos fechados, chama de religião, no sentido de religação com a realidade divina).

Escrevi num post anterior sobre a forma com que esse tema se faz presente na minha trajetória. Hoje, na iminência de concluir mais uma etapa da minha formação filosófica em psicoterapia, decidi publicá-lo, para marcar a pertinência e a atualidade da reflexão, que continuo levando comigo na tentativa de equilibrar possibilidades e talentos, fé e discernimento, verdade e responsabilidade.

Então, vamos a ele:

O Ah! das coisas – Osho

“Uma pessoa deve entender o Ah! das coisas e então tudo é compreendido.

Dizem que a filosofia começa com o maravilhar-se. Talvez. Mas a filosofia sempre tenta destruir a maravilha – ela quer matar sua mãe.

Todo o esforço da filosofia é desmistificar a existência.

Quanto mais você acha que sabe, menos você tem respeito, maravilha, reverência, amor. A existência então parece estar no passado, sem relevo; não há mais nenhum mistério nela.

E é claro que, quando não houver nenhum mistério no exterior, não há nenhuma poesia no interior. Eles andam juntos, são paralelos: mistério no exterior, poesia no interior.

A poesia só pode surgir se a vida permanecer merecendo ser explorada. No momento que você sabe, a poesia morre; o ato de conhecer é a morte de tudo aquilo que é bonito em você.

E, com a morte da poesia, você vive uma vida que não vale a pena ser vivida – não pode ter significação, não pode ter nenhuma celebração.

Não pode florescer, não pode dançar; você só pode se arrastar.

Então, talvez aqueles que dizem que a filosofia começa com o maravilhar-se estejam certos, mas eu gostaria de acrescentar mais uma coisa: ela tenta matar sua mãe.

A religião nasce com o maravilhar-se, vive com o maravilhar-se.

A religião inicia com o maravilhar-se e termina com mais maravilhar-se.
Essa é a diferença entre a filosofia e a religião – ambas podem ter o seu começo com o maravilhar-se, mas depois elas pegam caminhos separados.

A religião começa procurando compreender os mistérios e descobre que esses mistérios vão se aprofundando.

Quanto mais você sabe, menos sabe, e o resultado do saber é a ignorância.

Você fica totalmente ignorante, não sabe absolutamente nada.
Um estado de inocência é alcançado.

Nesse estado de inocência, a poesia atinge sua perfeição. Essa poesia é a religião.”

Osho em A Revolução: Conversas Sobre Kabir

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Não há nada do que se envergonhar

Há muito tempo não ligo para futebol e esportes em geral. As copas, no entanto, sempre costumei acompanhar, por causa do “allure” internacional do evento. Nessa, por excelência, estava bem indiferente: por uma desconexão já natural com esse universo, mas também por fazer questão de me isolar um pouco de todo o contexto político carregado que acompanha o evento. Mesmo assim, a dimensão do massacre sofrido pelo Brasil apertou o meu coração, especialmente quando vi imagens de crianças chorando.

Fiquei imaginando como seria difícil ver minha filha, que ainda tem um aninho apenas, passando por uma frustração assim, e chorando copiosamente. Mas aí lembrei que o melhor que posso transmitir a ela, nos momentos em que ela vier a precisar lidar com as vicissitudes da vida (desse tipo e de tipos mais sérios), é o meu próprio estado interno. E me tranquilizei com esse pensamento, pois naquela ocasião eu estava em paz, assistindo à comoção coletiva sem grandes sobressaltos, com exceção, como disse, de ver as crianças (mas só as crianças!) chorando. Porque para elas ainda é difícil entender e colocar as coisas em perspectiva, ainda mais quando os adultos ao redor tateiam, tão perdidos quanto elas, no mesmo emaranhado emocional.

A respeito das lágrimas infantis, a Folha divulgou um artigo interessante elencando lições positivas que as crianças podem tirar da tristeza. O artigo é igualmente válido para os adultos que choraram, ou que deixaram o seu clima psíquico nublar em função do acontecido.

Com a “derrota histórica” vieram a lição e o alerta, para eu mesma, de que é importante transmitir às crianças a real dimensão das coisas. O futebol é uma diversão válida, mas é só futebol. Precisamos lembrar disso nas vitórias e nas derrotas, pois se ontem nos sentimos “humilhados”, talvez em alguma ocasião anterior fomos nós que “humilhamos”, conscientemente ou inadvertidamente alguém.

Os extremos emocionais são tão inebriantes quanto álcool – provocando inclusive ressaca -, e a valorização excessiva das coisas terrenas ilusórias sempre nos deixam menos lúcidos, roubam nossa energia e contribuem para a já dominante insanidade coletiva do planeta. Nada contra o uso do esporte ou qualquer outra distração como algo de caráter lúdico, mas como droga, que leva à euforia e à depressão, ao ódio e à paixão, sobram ressalvas.

Não há nada do que se envergonhar diante da derrota futebolística, portanto. Ou melhor, se há, é apenas do fato de darmos tanta importância a acontecimentos periféricos, e de nos deixarmos emaranhar por emoções extremas, que nos roubam a lucidez e serenidade: nas vitórias, nas derrotas, no futebol, na política e nas pequenas batalhas, as externas e as íntimas, no nosso dia-a-dia.

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Imagem: Folha de São Paulo